quarta-feira, 10 de março de 2010

Doce Abismo



Amo-te sem motivo
De incomum forma
E assim sem norma
Tenho o sentir ativo
De forma prestante

Amo-te como amigo (se quiseres)
E se fizeres questão
Amo-te com paixão
Nutrindo cá comigo
Dos amantes, a chama constante

Se um dia essa brasa
Ficar de todo fria
E amizade for rasa
Distante, vazia
Meu amor mais profundo será
Escoará para o abismo
Que sem aviso
Entre nós se formar

segunda-feira, 8 de março de 2010

Arsenal de Afrodite*




Dentre tudo que ao coeur viril entorpe:
Idiossincrasia. O corpo e o que o encobre.
Tez, olhos, boca, voz
Cílios, brilhos, lábios, gloss
Pernas, pés, braços, mamas
Unhas, dedos, gestos, aromas
Bunda, cóccix, leveza
Ventre, língua, beleza
Queixo, dentes, pêlos
Toques, beijos, cabelos
Calças, saias, vestidos,
Ombros, ancas, umbigo
Shorts, Curtos e Mini, enfim,
Joelhos, pescoço, carmim
Virtudes diversas e ações
Amabilidades, dissimulações
Manhas, dengos, carícias,
Brigas, Dr’s, delícias
(e antes que eu me esqueça)
Dores de cabeça,
Astúcia, Inteligência,
Censo, Indulgência,
Do desejo o leme,
Da vida o leque atento,
Um pouco de TPM,
Um colo de alento.
Maternidade;
Diversas idades
Saudades.
Armas, muitas das quais
São brancas, de paz.
E no centro do arsenal
A Arma principal,
Forjada com doce ardor,
Das mãos do Criador
A arma que desarma.
O amor.

*Denner Guimarães Lopes

Turismo Amoroso


O amor é um fogo que arde sem se ver. Usamos essa máxima de Camões para justificar a análise de um segmento econômico ainda não estudado: O turismo amoroso. Diversos outros já têm suas denominações catalogadas, com números fixos, previsões de taxas de crescimento, essas coisas bem objetivas que são exibidas nos jornais e aprendemos a gostar.

Reivindicamos que o turismo amoroso seja reconhecido e ocupe o destaque que lhe é devido, afinal, nenhum outro segmento é capaz de fazer com que o turista antecipe férias, atrase a hipoteca da casa, o financiamento do carro, brigue com a família, com o chefe e muito mais, para viajar longos caminhos única e exclusivamente por alguns dias de felicidade.

O turista amoroso não mede distâncias, nem meio de transporte, tampouco se importa com o café-da-manhã servido no hotel barato, para ele não existe alta ou baixa temporada, e todo dia será de praia cheia e cerveja gelada.

Nada de turismo cultural, afinal, o turista amoroso tem seu próprio monumento, sua esfinge egípcia, seu museu com caráter futurista, ele tem seu próprio ritual, seja em Macapá ou em New York.
Ele é a personificação da ganância por proximidade, sem planejamento algum se dispede das deusas webcams sem resolução, dos MSN’s e das tarifas absurdas do interurbano, e vai à busca do “ao vivo e a cores”. Camões nem sonhava com internet ou trem-bala, mas sapecou de lá essa verdade: “o amor é um fogo que arde sem se ver” e arde até mesmo a longas distâncias.

sábado, 6 de março de 2010

Permissão


Permita que eu me sente
Ao teu lado
E te ouça,
Mesmo calado
E te diga
Coisas minhas
E te beije
Nas entrelinhas
Agora!

Depois, eu me levanto
E vou embora.




Thaís Carvalho

sexta-feira, 5 de março de 2010

Junto ao teu*

Meu peito ficou um tantinho apertado
Não só pelo tempo aflito que aí está
Não só pelos dias que correm calados
Não só pelas tantas vidas a findar.
Por mais que exagero meu assim pareça
E eu tenha de concordar essas coisas dão dó
(e se explicam por si)
Por mais que o meu peito padeça
O motivo maior é a falta de ti.
És tu que nesse tempo tão fulgaz
Tão fútil, sem nenhuma novidade
Tens feito poesia tão veraz
Com belas flores, cheias de saudade
Não ouses duvidar por um momento da afeição
Que eu trago, e que me traga sem reservas
Pois dou-te sem demora o meu pulsante coração
Que embora ainda meu,
Tranqüilo fica
Quando o levas junto ao teu.


*Música de Denner Lopes - Cada dia mais membro desta confraria

quarta-feira, 3 de março de 2010

Mulheres complicadas e encantadoras


Das mil qualidades que ele procurava, ela possuía novecentos e noventa e nove, o único defeito era um pequeno desvio no olhar que o incomodava profundamente, nada de mais para quem até então colecionara um arsenal de decepções.

Ele a quis por muito tempo, a esperou por um tempo maior ainda, mas a regra é clara: mulheres encantadoras são complicadas. Há teorias que tentam explicar esse fenômeno, e a melhor delas afirma que ao reunir um rebanho de qualidades como: inteligência, honestidade, beleza e humildade de algum modo provoca nas leis da metafísica uma reação natural (complicated como diria Avril Lavigne) que não permite a perfeição.

Sob essa reação, a indecisão foi o principal efeito colateral. Ela já não conseguia decidir-se entre o vestido vermelho ou o preto, entre o teatro ou o circo, entre a mesmice e o novo, e era necessário. E assim foram empurrando com a barriga, entre um afago e um chá de sumiço, entre sonhos e projetos paralelos, entre o hoje e o futuro promissor.

O final da história não é conhecido (inocência nossa pensar que seria fácil), mas esse recorte da realidade nos permite dizer que a ávida vida é mesmo uma grande ironia, quando se tem tudo é possível que não se tenha nada.

Romântico a la Macondo*

No meu primeiro texto publicado nesta confraria fui apresentado por meu amigo Helder como romântico e confesso que isso teve certo impacto sobre meus pensamentos. Primeiro gostei, soou como elogio, até mesmo me envaideci, mas depois senti que não era digno de tal atribuição fiquei tentado a pedir uma correção, afinal, nunca me defini desta maneira, contudo, foi aí que indaguei: O que define o romântico?

Nessa confusão mental/emocional/intelectual tentei esboçar alguns significados e, assim, eu rejeitei e aceitei a atribuição dada alternadamente a cada hipótese que eu formulava sobre o que é ser um romântico. Mas enfim fui caindo em mim, recobrando de certa forma a razão conceitual das coisas e encontrando algum norte.

A contragosto meu a primeira imagem que me vem à cabeça quando ouço a palavra “romântico” é um buquê de rosas ou um par de alianças ou ainda aquele presentão surpresa e, apesar de conceber tal associação como uma grande bobagem muito distante do romantismo real, esta vinculação é quase sempre irresistível. É como um pensamento reflexo, uma reação automática, como o cachorro que saliva só de ver a comida. Pode até ser que tal reflexo se explique pelos anos de novela que acumulei (e tenho certeza que nesse Brasil não somente eu carrego essa culpa), mas o fato é que essas cenas da ficção se reproduzem também na vida real, e pior, nós muitas vezes nos contentamos com elas.

Certa vez vi uma colega de trabalho ganhando de seu “romântico” marido um lindo buquê de rosas vermelhas, que não foi entregue por ele em casa, mas pela floricultura no trabalho, enfim, todas as mulheres do escritório viram naquele gesto uma linda declaração de amor, permeada de romantismo, elas inclusive, tenho quase certeza disso, sentiram uma pontinha de inveja. Vi a mesma cena que todos, mas talvez não com os mesmos olhos, me desculpem elas, pois não observei nada demais, para falar a verdade até reprovei, claro que comigo mesmo. Fiquei me perguntando “Eles se conheceram no trabalho?” “Será que o marido dela viajou e não pôde entregar com suas próprias mãos” ou “Deve estar em uma cama de hospital acometido por doença grave?”, eu na verdade sabia a resposta para todas essas perguntas, que era não. Mas é que para mim, compreendam amigos leitores minha ranzinzisse, nada justificava o local escolhido para o jubilo, afinal essa simples opção territorial subvertia a lógica do amor, não que eu não goste de trabalho, mas o escritório não era o melhor lugar para o amor de dois pombinhos apaixonados. Tal evento me fez refletir sobre a verdade daquela e de outras atitudes e me perguntei: Será o romantismo um jogo de aparências em que, nesse caso, o objetivo era as amigas verem e invejarem uma condição que podia nem ser real?

Definitivamente não acredito nesse romântico, vejo em atos como este um esforço de materializar o afeto numa tentativa de parecer o que não é ou de aparentar muito mais do que existe realmente, num processo de convencimento do outro e às vezes de si mesmo. Identifico nisso um mecanismo compensatório em que na falta de afeto se utiliza os símbolos deste, como se eles fossem capazes de substituir, não podem. Esta tentativa de dissimular a si e ao outro revela uma série de vazios, como bolhas, dando a sensação de que o amor é bonito cheio de fitas cintilantes e belos embrulhos, todavia oco de significados. Isso tudo parece um espelho de nossa sociedade atual, não a toa nunca se viu tanta depressão, ansiedade e pânico, considerada por psicólogos e psicanalistas as doenças do vazio.

De modo geral, não me contento com clichês, eu os acho atalhos bem pífios de reflexões verdadeiramente sérias, e por isso nessa pequena odisséia para definir o romântico acabei rejeitando a idéia de romantismo como ligado ao amor de vitrine ou das lindas histórias novelescas e hollywoodianas e, trocando em miúdos até para ficar menos alegórico, descartei a idéia do amor incondicional e idealizado com a pretensão de excluir tudo que é estereotipado sobre os sentimentos que unem duas pessoas. Resultado, descobri que há um universo de possibilidades, muito rico para utilizarmos sempre as mesmas expressões e idéias sobre o que é o amor.

O amor não é colorido e bonito, não acredito nem em sininhos tocando nem em borboletas no estômago. O amor é simples, e não tem forma nem cor, e romântico por sua vez não é aquilo que se caracteriza por irracional e desvairado, é o dia-a-dia é o que nem sabe se porque e como, é o que se sente quando há saudade, quando se pensa que perdeu, é quando se ganha, é o cuidado, é o olhar, é o pensar, é o pedir em namoro, é o reatar e em alguns casos é até mesmo o terminar, é quando se olha pra trás e pensa valeu a pena ou para o presente e pensa vale a pena. Romântico pode até mesmo ser, como disse a Daniela, ver o sangrento UFC, porque não tem a ver com a luta ou o evento em si, mas com a relação em que tudo é detalhe e símbolo do que realmente constitui o amor.

Vejo o romantismo muito mais no cotidiano, no simples e no rotineiro do que no extraordinário, e engraçado que dessa forma começo a achar que o simples é que é extraordinário, como na Macondo de Gabriel Garcia Marquez em que essas coisas se misturam de tal modo a fundir-se numa só e aí já não se sabe direito o que é o que.

O autor dessa croniqueta é João Vianna. Ele acaba de descobrir e catalogar com seu próprio exemplo um grande achado antropológico para o romântismo: o espécime denominado "romântico a la Macondo".

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tratado Geral do Ciumete – Parte III: Ciúme é a miopia do amor

Eis que me vejo numa daquelas conversações entre macho e fêmea, onde ambos querem pular a burocracia amorosa, mas, por convenção humanista, considera-se de bom grado tentar encaixar uma habilidosa conversa fiada. Eu, doido pra sentir aquele cheirinho de perfume doce aliado – muito bem aliado, por sinal – àquele beijo temperado com mordidas levianas, me encontrei obrigado a dissertar sobre o que era “ciúme” na visão helderiana da coisa.

A bem da verdade foi ela que se lançou primeiro no erro de abordar o que até mesmo Aurélio Buarque teve que se virar nos 30 pra conceituar. “Acho que ter ciúmes é normal, todos têm que ter”, afirma a perversa. “É... por um lado concordo, mas não considero fundamental”, repliquei como um ateu carregado das opiniões formadas. Mas aquilo ficou girando na minha cabeça. Como pode alguém defender o cactos do ciúme? E por que diabos essa maldição da ciumeira crônica não perdoa nenhuma classe social, emprego, gênero, raça, entre outras sub-divisões pós-capitalistas?

Foi então que arquitetei a seguinte questão: para se ter aquele egoísmo exagerado sobre a parceira, não é quesito obrigatório a provisão de beleza. Em miúdos, os feios, além de amarem, arrumam tempo na agenda para se enciumarem. Vocês enxergam, com o perdão do trocadilho, a beleza disso?

Quando moleque, no bar do saudoso Helder I, vulgo meu pai, lembro de um episódio peculiar que ilustra bem essa verdade. Entre os fregueses mais fiéis, havia um mineiro daqueles detentor de uma prosa boa, mas de um fígado que provavelmente deplorável, em razão das doses cavalares de cachaça que ele entornava. Mas o sujeito era muy de buenas. Como este escritor não devia ter mais do que 10 anos, não podia se aprofundar nas “conversas de adulto” entre ele e meu velho, sendo que tinha que apurar tudo baseado no rumo dado por eles pra confabulação.

Certo dia, a senhora desse senhor resolveu dar o ar da graça no estabelecimento e interromper uma das tradicionais horas de lazer etílico do mineiro. Que me desculpem os puritanos leitores deste blog, mas o adjetivo que melhor definia aquela donzela era “escangalhada”. Chegou berrando no boteco que o cidadão devia tomar vergonha na cara, entre outras questões moralistas. O cristão levantou da cadeira e partiu pra cima da dona. Pegou-a pelo braço e resmungou: “Vamos pra casa, Rita! Aqui só tem homem e estão lançando olhares de gavião pra cima de você.” Até hoje me pego imaginando se ele hablou sério. Se alguém fitou a mujer do cabra, foi com a dúvida de quanto ela cobraria pelo serviço de assustar um quarto de 5m². O fato é que a cena de ciúmes me fez notar que os mal-diagramados também são objetos de posse.

Se o amor é cego, o ciúme é a miopia, a catarata que nos faz pensar que nuestra amada, independente de ser uma Scarlett Johansson ou uma Ruth Ronsi, sempre será a última bolacha água e sal do pacote. Diga lá se isso não é romântico? Então, dou o braço a torcer: ciúmes, você é um mal necessário para todos.

Desaprendizado

Começando a conversa: esse talvez seja o primeiro texto declaradamente pessoal que publico em um espaço que não seja o meu bloguinho, meu cantinho escondido onde falo abertamente de mim. Claro que, dentro do meu entendimento de literatura e partindo do pressuposto de que sou uma literata, muitos dos textos que escrevo, embora ficcionais, têm relação comigo ou com vivências que experimentei. Mas, nesse post sincerista, não vou me travestir de literata. Sou eu, palavra por palavra. Fácil não é. Uso a literatura justamente para falar de mim sem me expor. Mas como o espaço é dedicado aos românticos incorrigíveis, me sinto à vontade, é quase como conversar com a melhor amiga.

Sendo um texto sincerista, o estilo também é o sincerismo. Escrevo como falo, como sinto, sem preocupações maiores com o vernáculo. Principalmente por saber que, quando há sentimento, quem também sente entende, e isso independe da forma como é dita. Basta sentir.

*

Estou há quase quinze dias sem ver meu namorado, fato que não ocorre há mais de um ano. Difícil, sabem? Ser dividida em duas cidades sempre faz do período de férias um drama.

Passar tanto tempo longe da cara persona acabou me proporcionando diversas epifanias, coisas que tinha ignorado até então e surgiram em momentos de olhar pra dentro. Descobri que, ao contrário do pressuposto comum de que com o amor se aprende, eu desaprendi uma série de coisas.

Descobri que tenho medo de andar sozinha à noite. Eu, que sempre curti a noite (entendam, eu disse a noite e não a “nigth”), que sempre caminhei sozinha à noite pra pensar, que andava mais de dez quarteirões com a melhor amiga depois das dez da noite só pra botar a conversa em dia, tenho medo de andar sozinha à noite. Percebi isso ontem, enquanto voltava pra casa saindo da casa de um amigo. Porque há mais de um ano, quando eu volto pra casa, meu namorado tá no banco do passageiro do carro. E parece que só a presença dele garante minha segurança e bem-estar. Não, não me sinto uma mulherzinha indefesa e não vejo nele o guerreiro medieval que vai afastar os monstros na noite escura. É só aquela reação mecânica de pensar que, se algo acontecer, não vai ter ninguém do meu lado pra ajudar. Também não significa que antes eu me sentia Highlander. É difícil explicar. Mas, resumindo: antes dele, eu andava à noite sem medo.

Descobri também que não sei mais dormir em cama de solteiro. Sozinha, então, é terrível. Descobri numa noite fria, e não só por me faltar o cobertor de orelha, aquela coisa de dormir abraçadinho e tal. Ilustrando: sempre durmo com o ar-condicionado ligado. E há sempre aquele momento, no meio da madrugada, que o frio do ar aperta. Quando isso acontece e quando estou com ele do meu lado, me basta dizer “amor, tou com frio”. Em um minuto – às vezes até menos – o ar já está desligado, ele já ajeitou os cobertores e já me abraçou daquele jeito dele que me deixa mais aquecida. Parece romance, né? É bem piegas, né? Talvez até seja. Mas quando você acorda no meio da noite morrendo de frio e leva cinco minutos pra perceber que a cara persona não está lá pra desligar o ar-condicionado, fechar a janela, virar o ventilador pro outro lado, ajeitar os cobertores ou dar aquele abraço, qualquer coisa que demonstre que seu incômodo incomoda também aquele a quem ama, quando você acorda no meio da noite e percebe que não tem ninguém ali do lado que cuide de você, dá um aperto, ó. Uma vontadezinha fajuta de chorar, chorar de saudade porque você se pega pensando se a outra pessoa também está em casa rolando na cama sem conseguir dormir, porque de repente aquela cama ficou enorme demais.

Descobri que todos aqueles rituais matinais vistos nos filmes estão apenas lá, nos filmes, mas que ainda existe uma maneira de amanhecer ao lado da pessoa amada sem perder a ternura. Abraços, desejos de bom-dia, mais abraços, ele se levanta pra se preparar pra sair (eu me dou ao luxo de ficar na cama até as onze). Toma um banho, come alguma coisa – se o horário permite – e sempre antes de sair me dá um beijo, um abraço e me deseja de novo um bom-dia. Às vezes diz que vai tentar resolver o que tem pra resolver e voltar, e se volta, me traz coxinha de frango e Baré, café da manhã dos campeões. E assim eu desaprendi não só a dormir sozinha mas, obviamente, a acordar sozinha, e meu humor oscila durante o dia se não tenho nosso rituais matinais. É como se a ausência do desejo dele de bom-dia acabasse influenciando no meu dia de fato, deixando ele bem meia-boca.

Descobri que assistir a competições de artes marciais sem ele também não tem graça nenhuma. E olha que eu adoro artes marciais. Sempre assisti ao UFC, campeonato de MMA (mixed-martial-arts, o antigo vale-tudo), mas com ele tudo fica tão mais engraçado e divertido, sabe como? Porque não é só assistir ao evento. É deixar de sair num sábado à noite, comprar umas cervejinhas e acompanhar com fervor religioso os competidores se matando numa gaiola – e o amor tem dessas coisas, de transformar em poesia um esporte violento. Tentei assistir ao UFC sem ele durante as férias, mas dormi durante o primeiro round da primeira luta. E isso nunca tinha acontecido antes dele. Com ele, então, impossível. Porque ao menor cochilo eu acordava assustada ao som de “pega, puta! Dá na cara dele! Joelhada, joelhada! Muito foda, muito foda!”. Claro que é incrível descobrir, no meio de tanta gente, alguém com tanta afinidade para as coisas menos prováveis, como o MMA. E quando se encontra, parece que não dá mais pra dissociar. Daí a gente desaprende a acompanhar se a pessoa não está por perto, pra fazer com que o gosto pela coisa faça sentido.

É claro que todo esse processo de desaprendizado leva a pessoa a aprender coisas novas. Aprendi e aceito a condição de lembrar dele ao ouvir heavymetal, e por lembrar dele, de sentir saudade de ouvir heavymetal. Aprendi a perder uma tarde inteira assistindo ao desenho animado preferido dele (Flapjack, recomendo, passa no Cartoon) só pra ter a impressão de que estamos juntos em casa e eu o observo rachar de rir enquanto assiste. Aprendi que saudade dá pra se matar assim, aos poucos e com pequenas coisas, enquanto não chega o momento de estar junto de novo. Aprendi que o meu lugar preferido do mundo é o peito onde ele me abriga, ainda que à distância, ainda que quebrada em duas cidades, e acredito no poeta que diz que deve haver um porto¹.

Assim como pude descobrir, à la Orkut, o que aprendi com os relacionamentos anteriores (impossível deixá-los de lado, sou feita de memória): o amor é cigano. Caminha, caminha, caminha, tece trilhas e mais trilhas até o local perfeito pra se parar e descansar. The long and widing road that leads to your door². O longo e sinuoso caminho que me levou até a porta dele.

1 – Caio Fernando Abreu
2 – Lennon & McCartney

Texto de Daniela Andrade. Trata-se de réu reincidente, ou seja, mais uma romântica inveterada.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Explicação







É a lua

Que faz com que ele tenha

Esse brilho nos olhos

Que faz com que o sorriso dele

Pareça mais bonito

Depois, o sol nasce e o encanto se desfaz...


Para renascer outra noite

Mais!


Thaís Carvalho

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O trauma primário: raízes do comportamento masculino*

Lembro-me de quando era apenas um rapazote em que minhas preocupações maiores eram fazer o dever de casa e cultivar amores platônicos, enfim, o cotidiano escolar de um pré-adolescente. Esses amores eram quase sempre compartilhados, diferente de quando se cresce, pois já não se quer dividir. Interessante notar que os enamoramentos nessa fase da vida são eventos coletivos, um menino estava quase sempre desejando uma menina que, coincidência ou não, era a mesma menina que os seus amigos também desejavam. O destino não estava aqui pregando suas peças, pois era como se o grupo do Bolinha elegesse a musa do mês, é possível que em algum lugar deste mundo meninos tenham organizado este sistema até mesmo através cédulas e urnas afim de uma eleição justa.

Até agora falei dos aspirantes a varões, mas pelo o que me lembro as coisas não eram muito diferentes para as meninas, pois elas tinham um processo de amor muito próximo de nós, isso no que diz respeito a coletividade em que se dava esses enamoramentos. E essa talvez seja a única semelhança o restante era tudo diferente, primeiro, muitas meninas consumavam seu amor, enquanto nós meninos nos deleitávamos apenas em pensamentos, contudo tem outra diferença que acredito vir antes dessa: nós amávamos as meninas, mas elas não nos amavam. Vou explicar melhor, a nossa deusa, o alvo de todo nosso desejo, estava ao nosso lado, ou seja, as nossas musas estavam ali na nossa sala de aula, nossos amores eram aquelas garotas com as quais convivíamos todos os dias, com quem fazíamos trabalhos. Talvez a cumplicidade nos encantavam, acho que o fato dividir os mesmos espaços e os mesmos dias colocava fantasias amorosas na cabeça de nós pobres meninos, mas para elas não (e um NÃO bem convicto). Elas preferiam olhar para os meninos mais velhos (não eram velhos, todavia mais velhos o suficiente para serem muito diferente de nós “pirralhos” imaturos). Para resumir a história nós queríamos o próximo e elas queriam o distante.

Talvez isso tenha dado a mim e a muitos outros garotos a certeza de que essas musas estavam sempre com os caras errados. Impressionava o porque de fulana, tão linda, perfeita e única estar com aquele cara que não merecia ela, na verdade nem sabíamos porque não mereciam, mas o fato é que eles não eram bons o suficientes para elas. Era o contraste da inocência quase angelical das garotas meigas e desprotegidas com a bruteza masculina dos caras errados. Eles eram os forasteiros que vinham roubar nosso ouro e, citando Helder, nos indagávamos "Como podem estes abesto-idiotas cativar o bem querer dos justos?" No caso aqui das justas, mas não tão justas, até porque dada a situação valorizava-se outras virtudes: lindas e amáveis. Se tivéssemos, na época, a idéia de fazer uma revolução de suma importância nas nossas vidas, todos bradariam gritos de “Cafajestes deixem nossas meninas”. Engraçado que achávamos que elas fossem vítimas e não vilãs, talvez a ingenuidade estivesse do nosso lado e não do delas.

Sabe concordo com as mulheres, éramos um pouco imaturos mesmo, mas inocentes e acima de tudo românticos.


*Crônica de João Vianna, amigo psicólogo e romântico. O cabra bateu colocado neste texto. Parabéns.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ilha Deserta


Passadas as temporadas e estações de São Paulo Fashion Week e companhia, nunca é tarde para homenagear, eleger e elogiar todas as mulheres que gastaram um pouquinho de suas formidáveis belezas dando passadas compridas em passarelas ou apenas assistindo a desfiles. Das acéfalas, dos rostinhos angelicais, esguias, bulímicas, socialmente responsáveis ou anoréxicas, somos todos gratos por essas que são componentes do universo feminino (maravilhoso, diga-se de passagem).

Dessas moçoilas dinheirudas (algumas infelizmente às custas de uma exploração diferenciada, muito glamour, promessas e até sacrifícios da própria saúde), também daquelas militantes de causas sociais honoráveis como a reconstrução do Haiti e a luta contra o câncer de mama ou mesmo de peritônio, nunca se viu menção das mesmas dentre as cogitadas para serem levadas, ainda que somente em nossos sonhos inconscientes e viris, para uma ilha deserta paradisíaca. Minha gente é de parar o coração quando na condição de macho, o sujeito é indagado sobre quem levaria para uma ilha solitária e linda, tal qual aquela da lagoa azul ou como a ilha humilde onde o náufrago Tom Hanks se safou da morte. Em sonho e da boca de alguns companheiros já ouvi palpites e sugestões como: “Por que não a Juliana Paes?” “Ah a Sheila Melo podia ir pra uma ilha ao invés de uma fazenda, tsc tsc tsc!” “Essa Mulher Melancia só ia dar certo numa ilha deserta”.

É bastante comum o varão engolir uma dose de saliva e respirar fundo antes de cogitar uma suposta eleita que pudesse hipoteticamente lhe fazer companhia num desses lugares divinos, _ uma pergunta difícil da qual todo homem um dia deveria se deparar _ um tanto para não ser injusto com as demais beldades que supostamente ficariam de fora da famigerada ilha e outro tanto pela variedade étnica e artística de belezas com as quais o brasileiro foi presenteado.

Não meu amigo/a, não quero em nenhuma letra do presente texto desfavorecer e nem tirar o mérito de nossas representantes das passarelas e nem das belezas que já passaram pelas oficinas da nossa pequena cidade, mas veja bem e convenhamos que, nunca na história desse país se ouviu configurar entre as candidatas, mulheres de tal porte e o sujeito quando as faz é julgado como no mínimo de gosto duvidoso. O motivo? Eu gostaria de saber.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Rua


Muito se esclarece sobre determinada pessoa por suas ações, a roupa que veste, o vocabulário que usa, as escolhas que faz, as companhias que tem. Nesse sentido, algo fala muito sobre as intenções do amante: a escolha do lugar do encontro. Convenhamos, não é nada fácil escolher entre o restaurante da moda e o bar preferido, porém, nessas horas nunca se quer agradar a si mesmo.

Portanto devemos aqui, agora mesmo, criar nosso manifesto: De volta aos encontros de rua! Aqueles mesmo, depois da escola, na ruazinha escura, na calçada isolada, no poste sem luz.

Não façamos dos nossos encontros um desfile milionário da Sapucaí, que, aliás, dizem que o melhor é assistir pela Globo no sofá da sua casa, bem digital.
Façamos encontros de frevo, carnaval de Salvador, oxente não fantasie meu rei, carnaval e encontro bom são de rua.

O velhinho passa e deseja boa noite, o policial dá bronca e pede atenção, o colega passa tirando onda, a vizinha fofoqueira também passa na hora “H”, ou seja, monotonia não tem, nada de conversas discursais, nada de pompa, nada de frescura.

As soluções costumam ser bem simples, nós é que complicamos, portanto aos encontros de rua, vida longa! Vai um trecho* de um casal que deu certo e não me deixa mentir: “(...) O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard, se encontraram então no PARQUE da cidade (...)”.
* Eduardo e Mônica - Legião Urbana

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sobre alguém

(Mais um poema tirado do fundo do meu baú digital...)

Como escrever
Palavras de vento
Que quando escritas
Mudam o sentimento
Redobram a angústia
Renovam o amor
Como saber
Ser
Ou não ser
Escritor

Se letra
A letra
Palavra
Transforma
O que era livre
Em norma
É tão esquisito
Estranho
Aflito
Escrever

Sobre alguém
Que nem sabe
Te ler.



Thaís Carvalho

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Amar pode, sim, dar certo!

“Não acabarão nunca com o amor, nem as rusgas, nem a distância. Está provado, pensado, verificado. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento: Amo firme, fiel e verdadeiramente”.
Vladimir Maiakóvski

Sempre fui uma romântica incorrigível. E como toda romântica que se preza, acreditei durante toda minha vida que em algum momento de minha existência encontraria um amor. Mas não um amor qualquer, um amor verdadeiro, pra vida toda. Sim, eu sonhava com um príncipe que chegaria montado em um cavalo, não necessariamente branco, mas que daria um final feliz à minha história.

O meu príncipe não veio montado em um cavalo, ele era mais desprovido financeiramente que a maioria dos príncipes, por esse motivo, utilizava uma bicicleta para me visitar. E até hoje, não vivemos um conto de fadas, não moramos em nenhum castelo, mas o amor, ah o amor... esse é real. É ele que nos faz superar as dificuldades e os obstáculos que teimam em aparecer no meio do caminho. Por que se fosse uma paixão, ou apenas uma simples atração, não resistiria a tantas tempestades que já assolaram nosso relacionamento.

É nesse amor que eu acredito. O amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo suporta, tudo espera”. Sofro quando está ausente, creio que sou amada, suporto seus defeitos, espero por dias melhores. Dias que só poderão ser realmente melhores se forem vividos ao lado dele, que me ensinou que o amor pode dar certo, principalmente quando não se espera que o outro seja perfeito e se entende que os defeitos fazem parte do cardápio do amor. Os anos de convivência me fizeram perceber que exigir a perfeição é impossível, mas conviver e saber lidar com as pedras que surgem e que sempre surgirão pelo caminho é a lógica para se conservar um grande amor.

A história ainda não chegou ao fim. Há um longo caminho a ser percorrido ainda. Mas os dias têm sido bem mais felizes, sim, desde o dia em que econtrei o amor que eu tanto ansiei.

A romântica autora deste texto é a Álefe Souza. Espero que o primeiro de muitos para esta Confraria.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Mistério de Colombina


Não era acostumada com aquilo. Todos aqueles confeites, serpentinas e máscaras. A música, então, não era exatamente a que costumava ouvir nas festas ou quando sai com os amigos. Não sabia as letras. Bom, pelo menos não nos primeiros minutos, depois de um tempo já tinha decorado e estava cantando e pulando. Mas ela não era daquilo, do Carnaval. Era uma daquelas pessoas que fugia nessa época do ano. O mais próximo que havia chegado era dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro (não gostava das de São Paulo) que via pela televisão, analisando as roupas e esperando a apuração de voto com tanta ansiedade como os bicheiros. Ou seja, não era uma pessoa do Carnaval. Talvez por isso que seus amigos ficaram tão surpresos quando em um final de tarde ela disse que iria pular naquele ano, e começou a ensaiar as marchinhas e ouvir as últimas da Ivete Sangalo (ela até tinha aprendido aquela da Chapeuzinho). Mas todos pensaram que era brincadeira. Ela não teria coragem no final das contas, ia largar tudo por um filme no TCM ou um livro novo. Ate o último minuto eles duvidaram. Foi só quando a viram em um dos blocos vestida de Colombina que perceberam que ela havia falado a verdade. Nem podiam acreditar. Ou melhor, não entendiam os motivos daquela drástica decisão. Ela não era do Carnaval. Ela não gostava daquilo. Mas estava lá, pulando e cantando. Aquilo era um mistério. Era. Ate eles verem quem estava ao seu lado fantasiado de Pierrot.

ou é amor ou é carnaval.

Me acostumei a não tê-los. Sempre foi uma opção: ou amor, ou carnaval. E a eterna escolha pelo amor me faz sentir agora como é não usar máscaras nunca, mas também sinto falta por não ter vivido a experiência. Nada de carnaval, axé, Salgueiro e nem Gaviões. O Carnaval morreu, há alguns anos. Foi o amor que matou. Então aprendi a viver assim, sem carnavais.

No máximo amava uma fantasia assistida pelo canal de TV famoso, onde desfilava gente famosa. Assistir sozinha ainda. Meu amor não gostava de carnaval. Nada de micareta, nem chiclete, nem banana. Nem Mangueira. Nem banana e nem mangueira no carnaval. Acho que sempre estive longe de amores, mesmo no carnaval. Hoje é que parei pra pensar: Eu nunca usei máscaras!

E acho que já me acostumei a ver roupas customizadas, mas não guardar alguma no armário, nem moldá-las como minhas amigas faziam, alças e regatas e tops, preparando-se para seus amores de carnaval. Nem máscara, nem top, nem amores.

Onde passei meus carnavais? Acho que até me acostumei. Quando me perguntam sobre o carnaval que passou, eu finjo que não sei, não vivi, não gosto. Carnaval acabou, o motivo de seu impedimento também.

Eu continuo gostando de axé, marchinhas, mas por favor, não me perguntem sobre meus amores de carnavais. Respeitem a relação distante entre amores e carnavais.Perdi a fase, e perder algo é provavelmente o primeiro passo pra se debanar no luto! Perdi. Passou. E para quem também optou pela não relação amor/carnaval, mas hoje não precisa mais dar satisfação, é necessário escapar da pergunta, do tema, enfim: FUJA! E saiba: Mesmo quando a relação não foi tão relação, respeitar o luto é obrigação. Vista-se de preto e, caso perguntem, diga que está numa fase rock.

Esqueceu o axé, e os amores que até hoje te impedem de querer o carnaval.
Não vivi amor de carnaval! Eu vivi amor trash, grunge, hard and rock, amor heavy!
Só vivi Amor de Metal.

*Esse texto é da romântica Priscila Costa. Lancei um desafio para a garota de criar um texto usando duas frases minhas. Elas estão aí no meio da crônica. A sujeita não se fez de rogada e escreveu esse texto fueda demás. O que acharam?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Amor sem carnaval*

Eu te deixei pra trás e o carnaval ainda nem havia chegado, lembra?

Uma semana antes olhava nos teus olhos. Na quarta-feira de cinzas, esmaeci.

Desapareci numa nódoa, como uma foto antiga borrada após a primeira gota de lágrima derramada ao acaso, sem dor.

Antes, poucos dias antes, no domingo anterior, ouvi promessas de amor eterno. A palavra sempre destroi minhas esperanças de eternidade.

E agora que te tenho de novo em meus braços, olho o calendário: lembro dos pandeiros, das cuícas, dos tamborins, dos corpos molhados e penso em como são frágeis os amores sem carnaval.


*Texto da jornalista Golby Pullig, dona do blog www.golbypullig.com e do twitter @pullig. Parabéns, mujer. Mais uma romântica para essa confraria...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Se o amor tem que nascer, que seja no carnaval.

Como era demorado aquele ônibus 206 - Cohab do Bosque, que encurtava de 40 para 10 minutos o tempo de chegada e isentava meu quengo de algumas sebosas gotas de suor, em razão do calor amazônida, com jeitão sertanista. Preferia gastar 37 reais mensais a ter a imagem higiênica maculada no sacro ambiente trabalhista. Não que os meus 15 anos de idade da época não me dessem um alvará de atoleimação estética perante meus alunos e chefe. Porém, eu era assim.

Eram todos mais velhos que este aspirante a instrutor de Windons, Word, Excel e outros mistérios cibernéticos que hoje qualquer pirralho com problemas urinários noturnos domina sem cerimônias. Um moleque com ar marrento, como era este que vos escreve, tem suas preocupações, entre elas o próprio layout físico.

Mas como estava hablando, o coletivo era um vestibular de paciência para um Dalai Lama, tamanho descaso com a pontualidade. E não é que comecei a me afeiçoar com esse desleixo? A razão era ela, a morena de cabelos pintados. Aquela galeteria obscena de tão imunda e entregue às baratas, localizada em frente ao ponto de ônibus, virou destino certeiro para minhas retinas. Desde que a vi pela primeira vez, foi amor na hora. Ela varria a varanda do estabelecimento, ao mesmo tempo em que pegava um carão daquele gordo ensebado e imbecil, dono do lugar. Eu travava a leitura fueda de “Cem Anos de Solidão”, do mestre Garcia Marques, enquanto pensava que aquela bendita podia dar cabo ao meu retiro amoroso em segundos.

Via ali a própria encarnação da cinderela com um semblante misterioso de uma quase roqueira, mas sem exageros que agridem as vistas mais preconceituosas. Tinha o olhar matuto que me provocava um teco de remorso quando era flagrado a encarando. Todo dia, logo depois da sesta, ia para o lugar com a intenção de puxar um papo/cantada non-sense “Você vem sempre aqui?”, ou um clichezaço “Não nos conhecemos de algum lugar?”. Mas cadê a coragem, amigão?!

Timidez é algo bonitin no seriado adolescente-mequetrefe, mas na dramaturgia da realidade é uma estorva dos diabos! E eu era muito frouxo. Entrentanto, encarava. E de tanto peitar de longe a donzela de ferro – pelo menos é o que a camisa dela dizia em english, com um monstro ao fundo – ela reparou em mim. Ela sorriu. E dali em diante, partimos para a fase da cumplicidade sem palavras, onde ambos sabiam da existência do outro sem ter trocado um fonema se quer.

Foi então que, sem um aviso prévio, ela já não estava mais ali. Tinha no seu lugar, uma senhora de idade que não me atraia mais como sua antecessora, creio por conta do excesso de rugas. “Fudeu!”, conclui ao dar conta que, em razão da moleza juvenil, não sabia nem o nome da mujer. Por alguns dias fiquei entojado.

Passado alguns meses após minha minúscula e contraditória epopéia tragicômica, chega a temporada de festa da carne para aliviar minhas lamentações. Era hora de lavar a égua dessa vida mais ou menos. Diz a medicina alternativa que um antídoto arregaçado para dor de amores fracassados é uma dose cavalar de máscaras, confeites, serpentinas, mujeres, bebidas de procedência duvidosa, lolós entre outras sacanagens no canibalismo consensual que expira tão logo chega a quarta-feira de cinzas.

Eis que no meio do vuco-vuco, enquanto realizava minha viagem carnavalesca num dos infinitos trenzinhos, vejo minha musa platônica em um desses veículos humanos vindo em direção oposta. Ela me viu e, tal como eu, apresentou surpresa, alegria, entusiasmo e desejo na mesma face. Foi tudo fulminante. Quando mal dei por mim, já tinha passado e alguém me empurrava para frente, pois trem de carnaval, como é sabido pelos ordinários, não pode parar. Perdi-a pela segunda vez na mesma encarnação.

Não, não a deixaria escapar outra vez. Fui a sua caça, em meio ao amontoado de foliões, arlequins, colombinas e pierrots. Novamente, seu trem cruzou a mesma linha do meu e, invertendo a lei da natureza, fui agarrado por ela que me tascou um beijo daqueles que mataria de inveja até mesmo o marinheiro e sua concubina na Times Square. Ela tinha um piercing na língua. Foi fueda. Foi sublime. Adereço recomendado por este roçador, povão.

Gritamos para sermos ouvidos em meio ao barulho provocado pela música “Pa rarã rarã na na na... Vai pra p... que pariu!”: “Qual é o teu nome?”; “Fernanda, e o teu?”; “Júnior”. Sem mais palavras, saímos de lá direto para um hotel barato onde vários amores pagos, sinceros e não sinceros já estiveram outrora. Foi o abofelamento dos deuses, com gozos mitológicos. Se o amor tem que nascer, que seja no carnaval. De tão zonzo, apaguei e só no outro dia. O único vestígio que a Fê generosamente deixou para trás foi o aroma de seu Floratta In Rose. E desta forma não vi mais, por muito tempo, o maior amor de carnaval que já tive.

Mas quis o roteirista comediante, escritor da minha sina, elaborar um gran-finale para essa história mal-acabada. O reencontro ocorreu na festa de noivado de um amigo daqueles com status de irmão que andava meio sumido por essas paragens, culpa de um emprego full-time. É engraçado como pessoas tão próximas conseguem desaparecer, mas o afeto e amizade se mantêm intactos. Assim era com esse chegado.

Foram longos três anos sem aquele olhar atrevido. Entretanto, devo admitir que Fernanda era a noiva mais linda que vi na vida...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Casal mais velho do mundo responderá perguntas pelo Twitter

Por Tatiana de Mello Dias
do site: Estadão.com.br

Foto: Reprodução

Herbert Fischer tem 104 anos. Zulmira, 102. Os dois são casados desde 1924. Eles são as pessoas vivas com o casamento mais longo do mundo.

Qual é o segredo da longevidade? Para tentar chegar a essa resposta, os dois receberão perguntas pelo Twitter de hoje até o dia 12.

Herbert e Zulmira gostam de conversar com os vizinhos e ver os trens passarem. Um dos segredos do casamento eles já revelaram: cada um tem o seu próprio quarto.

Se você quiser saber mais sobre o casamento que já dura 85 anos, pergunte a Herbert e Zulmira pelo perfil do casal no Twitter, @longestmarried. Eles selecionarão as 14 melhores questões, que serão respondidas no dia 14 de fevereiro (o Valentine’s Day nos EUA).

(Dica do Mashable)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Poemetos

poemetos meus


o coração
porta aberta
à tua espera
é carta
de amor
que não chega


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Pousou um pássaro
No meu pensamento
E quando foi embora
As borboletas
No meu estômago
Bateram as asas


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As lágrimas
Não eram muitas
Nem poucas
Somente essenciais
Para um dia sem você.

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Caiu uma gota
de suor
no nosso amor
será que já
estamos cansados

um do outro?


Thaís Carvalho

sábado, 6 de fevereiro de 2010

vazio

Escondeu-se por trás das paredes de um cômodo pequeno,
dividido por luzes e sombras; recolhendo-se entre os
lampejos dos faróis que recortavam os móveis, as janelas,
os lençóis, as fotografias. se perdeu vagueando as mãos nas
texturas das cortinas, procurando nas frestas dos vitrais do
quarto, aquele cujas formas pouco se perderam na mistura de
inferno e volúpia. a imagem do vazio estampado em pé, à espreita
do momento em que o incontrolável criasse formas e alimentasse
um corpo que cai enfadanho, todas as noites, ansiando por calor....



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Gestor dos Relacionamentos


Tudo começa com um bom planejamento, uma análise de risco consistente, definições claras dos processos e macro processos do amor. Parece difícil entender expressões incomuns como essas, mas esse é o vocabulário do gestor de relacionamentos. Um sujeitinho metódico que enfrenta os desafios da pós-modernidade amorosa como se administrasse uma metrópole urbana.

Ainda não sabemos, ou não nos forneceram estatísticas suficientes, do grau de acerto dessa criatura anti-romântica do século XXI, mas a sua análise não pode deixar de ser feita, para registro e para a comédia de nossos filhos, amém.

Vou me ater à visão do Macho (obviamente pela facilidade de estudo), mas sem deixar de mencionar que a possibilidade de que boa parte dos fatos citados caia como luva nas belas mãos de nossas executivas cada vez mais líderes de si mesmas.

Bom, tudo começa na paquera, ou no “lance”, com o velho olhar 43 que nunca sai de moda e que neste caso não se trata de nenhuma taxa anual de juros de mora. Demora sim é a abordagem, milhões de cálculos se passam na cabeça do HOMEMU (Homo Metódiens com Mulheres), que vai desde a taxa de risco de a moçoila ser um travesti (devido ao aperfeiçoamento da ciência) até a avaliação do grau de beleza estabelecido pelo mercado e pelas agências avaliadoras de risco de mico.

A conversa estabelecida mais parece uma entrevista de emprego: análise de currículo, pretensões futuras, adequação de perfil à função, são alguns dos eixos norteadores da conversa fiada do cabra aplicador de métodos.

Caso cole o “se colar colou”, e a empreitada der certa, o segundo encontro com certeza contará com uma pauta bem elaborada, talvez com a produção de alguns slides da trajetória de sua vida, algo institucional, pra surpreender à pobre moça estagiária na “repartição”.

Pois é, burocracia, se bem usada, serve para controle e respeito às regras. Mas no caso do nosso herói, se trata apenas de mais um papel ridículo que só uma conquista é capaz de produzir.

Na arte da vida...


Todo mundo um dia pisa na bola, mas a grande mancada na vida é quando você pisa na bola da pessoa errada, ou melhor, na da pessoa certa. Nessa arte de conhecer pessoas, a vida bem que poderia dar uma ajudinha, como uma espécie de close caption, aquelas legendinhas ocultas que através do reconhecimento da voz iriam nos "traduzir" as intenções de determinado sujeito. Por exemplo, a vítima desse cafajeste que se manifestou na carta abaixo (penúltima postagem do blog) poderia até se envolver, mas não seria por falta de aviso, estaria bem estampado e letras garrafais: CUIDADO, PERIGO! MANTENHA DISTÂNCIA!

A grande questão é que, a vida até que dá esses sinais, não com tanta tecnologia mas dá, e ainda assim nós, condenados a pelo menos uma vez na vida estarmos na condição de "Últimos Românticos", caimos no conto da carochinha, ora como vilões, ora como vítimas.

E nessa arte de viver, no grande palco da vida, somos protagonistas de nossa própria história, e às vezes gostamos de atuar em novelas mexicanas, outras vezes de atuar como "Helenas", e por vezes de protagonizar como manda o Tarantino. Nestas coleções de encontros e desencontros, amores e desamores, expectativas e decepções, descobre-se que as relações nunca acabam, elas se transmutam, se transformam... seja em sonhos, seja em realidade, ou em qualquer outra coisa... e é importante considerar que essa transformação é um continuum de força e desejo, de metáforas verdadeiras. E quando as cortinas fecharem e as luzes se apagarem, no final restará somente o protagonista solitário, eternamente o companheiro mais fiel de si mesmo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carta do cafajeste: A retratação do irretratável

“O mundo é bão Sebastião”, cantarola o barbixa com aspecto rubro do Nando Reis. E tem razão nessa máxima. O mundo é tão “bão” que permite a quebra na balança do merecimento amoroso. Já faz alguns invernos amazônicos de alagação que uma sem-vergonhice me apoquenta o juízo: a capacidade que os abesto-idiotas têm de cativar o bem querer dos justos. Nessa classe dos recebedores do mensalão do amor, pode anotar aí o nome deste figurante de romântico que vos dirige.

Pois então, sou um daqueles que recebe ilegalmente e sem merecimento o sorriso sincero do gostar. Já meti em minhas meias e roupas de baixo a vergonha de amores e cariños que a mim ofertaram. Não, não que eu não valorize. Pelo contrário, tento demonstrar o quanto são momentos fuedas aqueles em que ela me demudava num moleque embasbacado com aqueles zóios de ternura.

Ficou eternizado na minha memória o instante exato em que dei conta que o meu caminhão dos relacionamentos era mirrado por demais para as cargas areias de dedicação, respeito, afeição – entre outras palavras que não costumo usar aqui – que me foram doados com intenções mais vãs e benignas. O momento foi quando ela surrupiou minha camisa do chão com a autoridade de quem sabe o que quer. Vestiu-a e se transformou na pessoa mais dona de mim. Foi mágico, pena que por minutos. Ela havia me presenteado com aquela nudez digna de um traço de Milo Manara, e em troca pediu apenas uma camisa para cobrir sua perfeição, só enquanto pegava um copo com água para minha crônica dor de cabeça.

Não sou o maior filho de mulheres da vida que já passou por aqui. Também já atuei no papel de vítima desses amores não correspondidos à altura. Mas nem de longe uso o meu remorso inútil como pedido de recurso de redução de pena. Porém, só quero aqui dizer ao mi pueblo: Cariño, você é especial para mim.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Viva La vida*


“Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando”, como diria ColdPlay; há quem prefira a trilha sonora de Vivaldi em Primavera de As Quatros Estações. Verdade que quando se está apaixonado, qualquer coisa faz lembrar a pessoa amada. Verdade também que a paixão augusta se tornou rara em nossos dias. Nada mais de suspiros, de olhar a lua juntos, de flores, ou de declarações afáveis. Afinal de contas, onde estarão os “sinos” internos dessa nossa geração? A atualidade tornou as coisas práticas demais. O flerte se resumiu a segundos (e quando há).E Assim as coisas correm sem as complicações dos arrufos de corações “absinticos”.
Vale dizer, a paixão arrebatadora e descomposturante é rara sim, mas não está em extinção. Um dia ela nos chega e nos faz ver um mundo novo de delicias multicolores; o futuro não nos interessa, o presente é imprescindível (principalmente nos momentos a dois) e o passado se torna algo longínquo, sem sentido... O problema é quando tudo isso acaba e nos vimos em um quarto escuro, debaixo do edredom escutando Bruno e Marrone. Ah! Lembro-me agora dos saborosos versos de Vinícius, “de repente fez-se de triste o que se fez amante, e de sozinho o que se fez contente”. Aí temos de aprender como sair de uma situação que lembramos vagamente como entramos.
Mas a idéia é simples. Quando aparece o The End, isso indica a hora de se acender as luzes, levantar a bunda da cadeira e ir pra casa. Mas agente não faz isso, não é? Não. E o que se faz diverge de individuo para individuo, incluindo depredação de bens, catatonismo, melancolia, voluptuosidade, alcoolismo, loucura... (a lista segue). Tudo confirmando a lei ação x reação.
A dor de cotovelo, acredite, é um aprendizado como a maioria das outras dores. Ao nascermos sentimos a dor aguda e imprescindível do ar adentrando os nossos pulmões. Por isso, não fuja, aprenda. Avalie-se e amadureça. Caso se sinta só, compre um conhaque. Depois disso você estará mais forte (ou mais bêbado); apto a valorizar mais o The End, tanto quanto o começo.
Depois de uma dor de cotovelo qualquer um passa a valorizar mais o chope com os amigos. Viva La Vida!
.
* Texto inaugural do romântico Denner G. Lopes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Da arte de DR’s


Temos profunda admiração pela advocacia e seus benefícios para a vida em sociedade, mas pensando bem, sem tirar o mérito da classe, não é tão difícil assim convencer um juiz utilizando regras claras (uma constituição ou um código regente), difícil mesmo é a vida de quem “bate DR”.

Na Discussão de Relação não há regras, aliás, a regra que diz que após duas premissas temos um argumento, é totalmente descartada nesse momento.
- “Mas você não se importa comigo.”
- “Me importo sim. Lembra quando sai daquela reunião pra te levar ao médico?”
- “Tá jogando na minha cara? Era grave!”
- “Não estou jogando não, mas é que...”

Pronto! Um bom sinônimo para DR seria Dízima Periódica, tamanha é a infinidade do debate. Há inclusive relatos de pessoas que passaram meses puxando o fio do novelo da paciência. E assim como a dízima, o desfecho de uma DR nunca é exato, alguns saem dessa batalha mais leves e confiantes, cantarolando para a vida e dizendo: “nada como um bom diálogo para esclarecer as coisas”. Já outros, ao encerrar a encrenca, querem passar semanas incomunicáveis justificando o seu desgaste verbal.

Boa ou ruim, a DR é um fato da vida amorosa que necessita de bons argumentos. Nos parece tão necessária para uma relação duradoura, quanto à lembrança de um ano de namoro, ou seja, de DR em DR sincroniza-se os interesses, apara-se as arestas de uma relação que tem a intenção de durar para sempre (utopia?) ou termina-se o que não deveria ter começado.

O tribunal da DR é o amor (ou ausência de). O comprometimento de cada um, o respeito mútuo deve guiar um bom debate, afinal, ninguém discute horas com outra pessoa sem gostar dela, nesse caso simplesmente ignora-se. Quem não suporta, é bom acostumar-se ou talvez procurar uma faculdade de direito.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Uma vez mais*

Nutridos no mistério, levados pelo instinto, encontram o desejo mais aguçado, desinibido.
Nas verves rápidas desse instante, solto... leve. Os músculos ecoam pedidos incessantes, é o grito da fome, da sede.
Nessa sina de ser um estranho ímpar, o toque é a mais voraz necessidade, é preciso estar lado a lado, colados, pares.
Sentem a brisa ao vento, cavalgam nas emoções, em palavras soltas, rabiscadas no lençol de seda vermelha. Mas fome, mais sede.
Nesse instinto caçador, são minhocas enroscadas nas raízes do desejo.
Dessa poesia ao verso, a sublevação, à subversão, a conspiração.
Dessa lira à cólera insaciável, se confundem cantos numa ternura gritante.
Nessas paredes sem rasuras ou fissuras, por entre os espinhos, com apenas uma certeza: a de sentir a felicidade em existirem, uma vez mais.

*Este é o primeiro texto (de muitos, espero) da amiga e excelente jornalista, Andréa Zílio, para a Confraria. Mais uma romântica que escreve como poucos...

domingo, 24 de janeiro de 2010

PECULIAR

Outro dia, despretensiosamente, li um pequeno pedacinho de um texto, “mais pequeno”, que um pequeno dicionário amoroso, nessa contemporaneidade de novas mídias que eu nem conheço bem, acho que tratava-se de uma “tweetada” romântica contendo palavras de desejo. Desejo de que todos tivessem algo para amar, e que esse algo (ou alguém_ grifo nosso) para amar fosse possível ser amado profundamente.

Falava de um tipo de sentimento que parte do âmago dos seres amorosos e não de qualquer coisa superficial, como os frutos das influências oriundas de alguma propaganda bem bolada por um publicitário. Daí eu não saberia dizer o porquê pensei naquelas situações em que se tem algo ou alguém para amar do jeito que se ama o pão de queijo da padaria do seu Manoel, casos em que as propagandas sobre o pão de queijo da padaria do outro lado da cidade não partem de mestres da publicidade e nem de comerciais fantásticos, só partem do que se sente particularmente ao comê-los assim como são particulares os sentimentos únicos de quem ama alguém (ou alguém coisa).

Talvez seja por isso que alguns pensadores dizem que todo encontro é único em si mesmo, como diz o famoso ditado, “cada um com seu cada qual”, e que esses encontros únicos, mediante uma vida de longos caminhos e percalços, sejam desastrosos, eventuais, furtivos, engraçados ou ao acaso, mas que sejam sempre maravilhosos e especiais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Carta com pedido deste cafajeste: não se dispa para mim


Uso este blog para te impetrar: meu amor, não me espere nua. Quero que você me receba vestida. Nem se precipite em tirar a calcinha. Se faça de preguiçosa. Ou melhor ainda, dê-se por desentendida. Isso mesmo, finja que não é nem contigo. Gosto desse jeito desleixado de encarar as minhas taradices. Deixa qu’eu tiro para vós mercê, mujer. Não, não é incomodo algum. O prazer não é todo meu, porque faço questão de dividir com usted.

Quando te dispo com os olhos é graças à vontade de te despir com as mãos e dentes. Sua nudez é o resultado, mesmo assim ainda quero descobrir o valor de “x” dessa equação. Vamos lá, não seja má de me tirar essa alegria. Se possível, use aquele sutiã DeMillus com presilhas. Demorei longas noites e inúmeras tentativas até aprender, mas hoje sou perito na arte de abri-los. Consigo com apenas uma mão, deixando a outra liberta para o trabalho mais aprazível. Se tenho essa habilidade, é lógico que quero te mostrar. Não pergunte onde aprendi, somente aproveite. Quero me exibir para você.

Mas não sou o senhor deste território. Existem técnicas das quais ainda sou aprendiz. E como GOSTO de aprender! O som do teu risinho quando me embaraço para desabotoar aqueles benditos novos modelos de calças jeans é orgástico. Zomba, malvada! Mas pense que se trata de um aprendizado deveras fueda de bom...

Se o tipo de roupa é de total conhecimento deste amante, confesso que finjo, vez ou outra, ignorar como é que se tira. Assim, você vem com aquele ar professoral me ensinar como é se faz. Você fica por cima. E eu também.

Comigo já deixaram pulseiras, colares, escapulários, brincos, calcinhas e, até mesmo, calças jeans, admito. No começo, pensava ser culpa de falta de fósforo no organismo das desmemoriadas. Foi então que, antes de recomendar uma alimentação a base peixes, descobri que nada é por acaso. Aquilo que se tira com a dedicação e o desejo que tenho, passa a ser um presente a minha safadeza.