quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Epifania mal-interpretada

Era tarde. Quer dizer, à tarde. Eu caminhava pelo deserto semi-árido que é Brasília no período da seca, entre o Palácio do Buriti e o Memorial JK. Tinha perdido um ônibus, eu acho. Ou sei lá, acho que ia até o Sudoeste a pé, justamente por ter perdido o ônibus, isso. Ia passar na casa dela por algum motivo que não me lembro agora, só que era um motivo doído. Tipo acertar os detalhes da separação. Tipo pegar a caixa com as minhas coisas essenciais ("os quadros deixa aí que eu coloco pra vender numa galeria depois" - ela disse, muito vaca. Comprei aqueles quadros de um artista vanguardista que ela adorava a um preço absurdo, dá pra entender a revolta?). Enfim, eu tinha rompido com a mulher da minha vida, o ser humano a quem mais amei na face da terra e por quem briguei com minha mãe e fui banido de todos os almoços de família para sempre. Deus, como eu amava aquela mulher. Mas ela, bruxa má do oeste, percebeu que em algum momento eu a sufocava e quis dar no pé. Quer dizer, dar no pé é só pra ilustrar a situação, porque quem ficou sem carro e sem apartamento fui eu. Porque eu jamais deixaria a mulher amada e desamparada na rua da amargura. Sendo que a rua da amargura dela era um outro cara no meu apartamento. Que agora era dela. Não sou um monstro, sou um romântico burro e incorrigível.

Voltando. Perco o foco às vezes, desculpem aí.

Estava debaixo daquele calor inclemente de Agosto caminhando em direção à casa que um dia foi minha ouvindo uma das musiquinhas mudernês que ela gostava. Nem sei o nome da banda. Tinha colocado no meu mp3 porque me fazia lembrar dela, e sou desses que gosta de se torturar após um fim de relacionamento. Eu não gostava daquele tipo de música até ela aparecer na minha vida. Ela era mudernê, entendam, eu era um classicista chato, extremamente preconceituoso e sem vontade de conhecer nada novo. Brigávamos horrores por conta disso, porque ela queria ir pras festas de discotecagem mudernê da cidade e eu nem queria ir e nem queria que ela fosse, porque ficar sem ela por algumas horas me deixava em completo desespero. Eu emburrecia sem ela. Sabe como? Não sabia o que fazer das pernas. Mas ela queria ir, e batia o pé, e dizia que se sentia um pássaro aprisionado na gaiola comigo. Eu também odiava essas metáforas, ela era a rainda das metáforas, mas como eu a amava eu suportava isso. E depois que ela me deixou eu virei o rei das metáforas também, mas perdi meus amigos por conta disso. No fim das contas ela acaba indo pras festinhas mudernês e eu ficava em casa macambúzio olhando pro relógio de minuto em minuto esperando seu regresso. E quase sempre colocava um brega sofrido no som porque era assim que eu me sentia, um cara brega que sofria.

Vou tentar desenvolver o tópico sem resgatar esse tipo de lembrança dolorosa. Bom, era a tarde de um dia quente e eu tinha perdido o ônibus e então eu decidi ir caminhando até a casa dela pra buscar qualquer coisa minha da qual ela queria se livrar. Era agosto. Em Brasília. Isso significa que nessa época do ano faz um calor desgracento e o tempo seco e a baixa umidade não ajudam em absolutamente nada, apenas no pôr-do-sol mais bonito que já vi na vida. Então era agosto, e como é final do período da seca, costuma chover de uma hora pra outra, chuva das fortes mesmo, repentinamente, como ela me deixou, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e. Então eu ia caminhando quando olhei pro céu e percebi que lá no horizonte ele estava mais carregado que o meu peito (eu disse que tinha virado o rei das metáforas). Ia chover em cinco minutos, no máximo. Vocês conhecem Brasília? Na região central existe apenas um descampado com cerrado seco, sem árvores, sem prédios com marquise, sem absolutamente nada que possa fazer um pobre coitado se abrigar da chuva. A maior parte do tempo eu amo Brasília, mas nessas horas ela me dava um pouco de raiva. Ia cair um temporal e eu estava completamente desabrigado, obviamente sem guarda-chuva, porque ao sair de casa pela manhã estava um sol insano. Eu me sentia a criatura mais tola e infeliz da face da terra, caminhando no sol e depois na chuva só pra ver por dois minutos a mulher que me largou. E muito embora em tempos outros eu conseguisse ver poesia e beleza nisso tudo, nessa hora só um alarme apitava na minha cabeça, como se dissesse que eu estava deixando de fazer sentido.

A chuva chegou antes do previsto (como eu disse, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e), mas não me pegou. Curiosamente, no exato ponto em que eu estava, não chovia. Como num desenho animado, só que ao contrário. Olhei para o céu, como se pedindo clemência, ou até mesmo agradecendo por não estar encharcado, e vi a metáfora de mim mesmo. Parado ali, com uma nuvem negra ao meu redor, e só havia luz sobre mim.

Talvez eu não tenha entendido direito a coisa. Saí do spot de luz que Deus tinha me dado por breves momentos, como uma epifania bizarra e completamente palpável, e caminhei ainda mais decidido à casa da mulher amada. Obviamente peguei muita água no caminho, porque o spot de luz ficou lá, paradinho, sem me perseguir (no momento achei que isso fosse acontecer, ainda como num desenho animado, sabe como? Só que ao contrário, no desenho animado chove sobre você, e esse não era o caso). Depois de quase meia hora de caminhada e encharcado até os ossos, toquei a campainha do apartamento que era meu, virou nosso e agora era dela. Ela abriu a porta e sequer se dignou a me oferecer uma toalha, só pediu pra eu esperar que ela já voltava com as caixas. Quando voltou, perguntei se ela podia me dar uma carona, porque estava chovendo, ela se desculpou e disse que não podia por estar muito ocupada. Ficou parada à porta me olhando com cara de "por que você ainda não foi embora" quando eu desperdicei toda a epifania que Deus me deu naquele momento anterior, aquela coisa toda da luz e da chuva. Pedi a ela que voltasse pra mim, pelo bem da minha saúde. Prometi a ela que a deixaria respirar, como se eu garantisse que abriria a gaiola pra ela dar uma voltinha e quem sabe fazer as fezes longe do jornalzinho (não disse isso, mas soou como se eu tivesse dito, o que pensei depois ser uma grande estupidez). Prometi que seria o melhor marido do mundo e faria dela a mulher mais feliz e amada da face da terra. Ela só me pediu pra ir embora. Mais nada. Só disse "por favor, vá embora". Joguei a caixa com meus pequenos pertences no chão e a abracei pela cintura, desesperado mas sem chorar, e disse que não sabia o que fazer da vida sem ela. Ela se afastou, foi tudo tão rápido, ela se afastou e o punho cerrado do cara que eu não conhecia e morava com ela atingiu meu nariz com tanta precisão que na hora nem senti dor. Fiquei pensando "Deus, que golpe preciso, será que ele luta?" até cair no chão. Senti o sangue quente escorrer pelo rosto e aí doeu, porra, doeu muito. Ela não se mexeu, ficou lá em pé parada com cara de vaca ainda esperando que eu fosse embora. Eu me levantei, limpei o nariz sangrento na camisa de maneira absolutamente inútil e fui embora com minha caixa com meus pequenos pertences e deixando pingos de sangue pelo corredor.

Quando saí do prédio já não chovia mais e o calor abismal tinha voltado. O sangue secou no meu rosto e coçava. E eu olhei pro céu com raiva de Deus, porque na minha cabeça aquela luz sobre mim indicava que, se eu pedisse com carinho, ela me aceitaria de volta. É, eu não era bom em entender sinais.

Apareci na casa da minha mãe a cara do abandono. Ela se encheu de pena, quis me dar banho, disse que ia matar a vaca e essas coisas que mães falam. Fui pro quarto que ainda era meu, mesmo depois de banido, me joguei na cama e chorei com tanto gosto que até desanuviou o peito. Uns dez minutos depois, minha mãe abriu a porta e disse, toda alegrinha "veja pelo lado positivo, agora você pode participar dos almoços de domingo".

Texto da amiga e romântica Daniela Andrade. Essa mujer escreve demais...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Amor me Incomoda*

Eu sou uma letra da Carla Bruni. Pelo menos, é isso que sinto cada vez que a vejo entoar as mais belas notas musicais que me apertam o peito e me fazem exclamar “Porra! Isso foi feito para mim”. Mas não era sobre isso que eu ia falar. Ou até era, mas não dessa forma. A questão é que eu sou uma música especifica, chamada L’amour, ou O Amor. Mas não pense, caro leitor, que você encontrará nesta letra as mais bela entonação de enamorados, falando de todas as maravilhas e belezas deste sentimento, pois não é disso que se trata. É exatamente o oposto. Trata-se da obscuridade deste sentimento. Não é sobre como ele acontece perfeitamente, mas de como ele não encaixa. Onde o “Para Sempre” não foi feito para durar todo esse tempo, porque se não, qual seria a graça de amar? Desculpem-me os mais conservadores, mas está não é minha forma de amar. Eu amo o momento, as pequenas coisas, os poucos feitos. Eu amo vários, de diversas formas. Sempre diferente. Sempre igual. Todo verdadeiros, porém, com prazo de validade. Porque na verdade, eu não fui feita para flores, estou mais para... hum... Frango desfiado. O meu amor não se passa em praias, castelos ou com príncipes encantados. Ele está mais num domingo chuvoso, lendo livros, com aquele gostoso silêncio cúmplice. Para mim o amor não está nas coisas que temos em comum, mas exatamente naquelas que não se encaixam. O amor “não me cai perfeitamente”, ele me desconforta e me inquieta. Deixa-me com aquele aperto chato no peito, aquela dor aguda no estômago. Machuca-me e cansa-me. O amor me cansa. De chorar sozinha no escuro. Cansa-me de eu pedir para não mais amar, e depois sentir falta do sentimento e começar a procurar de novo. O amor, para mim, não é amor sem isso. É acabavel, mas nem por isso deixa de ser mais importante, porque, veja bem leitor, eu não meço o amor pelo seu tempo de duração, mas pela a intensidade de sentimentos que ele me fez sentir. Porque o amor, ah, o amor, ele engloba tantos outros sentimentos. A felicidade, a dor, a loucura, a saudade, a tristeza, as angustias, a euforia, o medo. E veja bem, eu sou uma garota que ama. Amo os momentos, os fugazes, os tempos em tempos. É isso, o amor, para mim, não é este amor antigo, escrito em livros, mostrado em filmes, onde no final, vivem-se felizes para sempre. Meu amor é de sangue. É “o gosto estranho e suave da pele dos meus amantes.” Eu prefiro este amor, àquele antigo. Eu prefiro muito mais o amor de Carla Bruni, porque o amor, ah, o amor... Este eu não quero. Ele não me serve. Mas eu gosto é do incomodo.

Este texto é da romântica Veriana Ribeiro. Ela avisa que o texto foi inspirado na música de Carla Bruni que você pode ler a letra clicando neste link aqui.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Eu te amo, mas...


A edição nº 149 da revista Bravo! publicou na sua lista do, digamos, mais interessante do mês, a idéia da dupla inglesa Alex Holder e Ross Neil - que para mim foi "o bicho da goiaba" (adoro essa expressão!).

É o seguinte: o amor é mesmo cego? Para provar que não, os caras criaram o site "I Love You But..." [www.loveyoubut.com], que conta com 59 caricaturas de pessoas comuns associadas a frases curtas e divertidas sobre coisas pequeninas que incomodam e que nunca são ditas, ou quase.
Segundo a Bravo! o álbum virtual "flagra aquele momento das relações em que um dos parceiros percebe não amar completamente o outro por enxergar nele algo desconcertante."

Dei uma passada na página e logo descobri que essa verdade é dita, melhor, escrita de modo bastante carinhoso. Há romantismo ali, sim. Ou seja, "não é qualquer defeito que vai me fazer te deixar, meu bem", já dizia minha prima para o namorado viciado em canjica e futebol na TV aos domingos.

E já que o meu inglês medíocre me impede de deixar minha contribuição no site dos gringos, faço-a por aqui mesmo:

eu amo você, mas odeio quando cita Nietzsche e Cazuza na mesma frase.


O espaço do comentário está aberto, caso queira contribuir também, caro leitor...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Dicas de um bom papo - Mercado do Bosque


Assim como o aperfeiçoamento da comunicação está relacionado ao ato da refeição nos antigos conventos, o aperfeiçoamento amoroso na capital do Acre é relacionado ao Mercado do Bosque.

Para quem não conhece, eu explico: o Mercado do Bosque é uma espécie de ponto de encontro dos boêmios nas madrugadas de Rio Branco, onde ficam senhoras preparando iguarias regionais, como tapioca, mingau, bolos, sucos etc. para reidratar os organismos dos baladeiros de plantão.

Mas, vamos ao lado romântico dessa comilança toda. O fato é que aquele singelo lugar funciona como uma carta de intenções dos amantes, se após a festa não acontecer o convite: "vamos ao mercado?" não há interesse algum, e tudo não passou de uma troca salivar.

Mas, por outro lado, se o convite ocorrer e for aceito, acaba de nascer um romance às luzes do mercado e naquele momento, entre o café-com-leite e a tapioca recheada, trocam emails, telefones, MSN, notam amigos em comum nas mesas ao redor, e dizem ao mundo, ou pelo menos à Rio Branco: "estamos juntos".

O Mercado do Bosque é a nossa réplica Veneziana, um lugar enigmático pela própria simplicidade. Pessoas importantes, de candidato à presidente até rock star, são sempre levadas pelos guias para saborear os quitutes culinários do acreano, sem saberem que a deliciosa comida servida não passa de mera coadjuvante.

O que escolho...



Talvez eu não seja a pessoa certa para falar de amor ou coisas do gênero. Palavras me fogem ao falar sobre isso. É difícil. Sou do tipo de pessoa que não demonstra fraquezas, tristezas, raiva ou qualquer emoção parecida. Dou sempre o melhor de mim para qualquer um (Por favor, não sejam ambíguos. hahahhah). Não sou do tipo que pede alguma coisa em troca. O amor deve ser assim, não é? Bom, ao menos essa é minha maneira de ver as coisas.

Uma vez convencida que já não tinha mais coração, conheci alguém. Amei-o, ou melhor, ainda o amo. Entreguei-me e fui fundo no relacionamento. Como qualquer outro. Sou muito intensa em tudo que faço. Não entendo como um sentimento tão simples pode complicar tanto nossas vidas. Mas quem disse que eu me importo? As coisas nunca foram fáceis para mim mesmo.

No dia que amei verdadeiramente alguém que não fosse minha família, vi a diferença de amor e paixão. Paixão como o próprio nome sugere, é algo passageiro, avassalador, não nos permite pensar em nenhum minuto, faz com que nossos pés não encostem no chão, nossos olhos fiquem cegos, ouvidos surdos e nossa boca muda. Quando se ama é algo mais sutil. De forma mais suave, algo mais tímido, mais contido... a razão não se faz presente a todo momento, mas ao menos quando está, permite que pensemos no que fazemos ou no que iremos fazer.

Entre o amor e a paixão, prefiro a primeira opção. Mas quando fiz essa escolha, não foi porque achei que esse sentimento não iria me fazer chorar ou poupar lágrimas, que não iria fazer com que eu sofra ou me descabele menos. Não fiz essa escolha pensando nesses motivos e sim... pelo fato dele durar mais. Ao ponto de todas as raivas, avessos e desencontros serem superados. É eterno. Você ama e ponto final.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dicionário da mulher – Verbete: Ombros

ou A Retratação Anatômica Fetichista

“Como o Kama Sutra ensinou que os ombros e clavículas são zonas erógenas, acredito que isso ficou marcado na cultura indiana e no imaginário sexual.”
Jarid Arraes Singh

Peitos, rostos, bocas, olhos, bundas e, quiçá, pernas são tidas como “os” objetos de devoção para um fornecedor de costelas. Já para outros ordinários, a veneração pende a partes tidas, vai saber a razão, esdrúxulas como pés, sovacos, joelhos et cetera. Mas há, nesse oásis das águas na boca masculinas que é o corpo de uma mulher, artifício que não recebe ou recebeu seus créditos como devia: os ombros. Deixo claro que não venho aqui para desmerecer demais regiões da anatomia feminina. Apenas, peço, é justiça lascívia.

Que vergonha – plausível de, como punição, receber um reverberante “tapa no pé d’ouvido” – para os românticos do mundo real ou literário! Como se encaram no espelho, Regis, Isnard e Ulisses? O que dizes, Cyrano? Parla, Casanova! Let’s on, Romeu! Hablas, Don Juan? Até um conquistador maquiavélico como você, Valmont, deu por despercebido estes suaves ângulos retos que geram em nós, varões, pensamentos tortos.

Pois bem, vamos acabar de vez com este mal-entendido. Ombros, estas retas-curvas têm a capacidade de transformar santas em pecadoras, senhoras em doutoras em concupiscência, pequenas em gigantas da libertinagem. E nós, viramos os lobos-maus no cio, por culpa deles. Admita, rapaz...

Antes o pensamento da avarenta era “Não vou pagar peitinhos, ou usar um decote matador, tampouco mostrar cofrinho. De mim, só o rosto, braços e calcanhares”. Mas eis que o inventor do “tomara-que-caia” – este sem dúvida é dono de uma cobertura no Paraíso com excepcional vista para Copacabana divina – teve a eureka de sua vida e compartilhou com o mundo sua invenção. Aliviou nossa agonia. É a amostra-grátis do layout da dama.

Para elevar ainda mais o grau de santidade dos ombros, apresento agora outra qualidade: a sinceridade. Sim, eles são mais honestos que garis de aeroportos que devolvem todo mês malas contendo milhares de dólares. Assim como o gogó, os ombros de uma donzela são facilmente pontos inconfundíveis com os de um marmanjo. Ignorância do Ronaldo!

Dizem alguns apócrifos que ao castigar Eva, Deus por um trisco não levou seus ombros. Mas eis que ela implorou clemência, pois, desde lá, já sabia do poderio bélico neles contidos. A cobra, em sua estupidez, riu e debochou do pedido. O Todo-Poderoso virou para ela e sacramentou “Maldita seja dentre todos os animais! Rastejarás sobre teu ventre...”, decepando assim tal parte como todos sabemos.

Mas vejam só a generosidade do Criador. De todos os trechos do corpo, este é um dos únicos livres de rugas ou pés-de-galinha. A estátua de Vênus – deusa responsável pelos gozos da vida – é maneta, mas nem por isso Milo fulerou e a desproveu de tê-los. Ombros são eternos. Ombros são ternos. Ombros não envelhecem. Meu amor, não me dê com os ombros. Ou melhor, me dê com os ombros.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Velho Aparelho

Mais um poema antigo...

Não é o toque do telefone
Que me desespera
Ele sempre toca
Mas o que me toca
O que me preocupa
É a espera
São esses longos minutos
Que me tiram o domínio
Esses segundos absurdos
Frios como alumínio
Que não possuem piedade alguma
É essa frialdade da tortura
Cada tic-tac do ponteiro
É um tiro certeiro
É um espinho na carne
É um pulso a mais no peito
É uma farpa
É um aperto
É um calafrio
É um vazio
Que parece não ter fundo
É tudo o que sinto
Enquanto espero
Num só segundo.




Thaís Carvalho

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O amor acaba

Ofereço a vocês umas das minhas crônicas favoritas sobre o amor (há quem diga que é um conto, mas eu não vou entrar nesta questão porque realmente não entendo nada sobre o assunto: nem de crônica, nem de conto e, muito menos – talvez um pouquinho, quem sabe – de amor). A autoria é do escrito mineiro Paulo Mendes Campos..
.
.

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
(Paulo Mendes Campos)
.
.
.
E para você, leitor, quando, onde e como o amor acaba? O amor pode acabar? Já acabou alguma vez?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sobre aquele dia...

Escrito há três anos, depois de uma aula de simbolismo...
Quando me pediu que fechasse os olhos, eu fechei. Fechei-os com a confiança de que enxergarias por mim. E por isso (só por isso) permiti que a luz deixasse de entrar.
Assim, na escuridão, ouvi tua voz pedindo que eu não falasse. “Palavras estragam momentos”. Então, nada falei. Guardei os meus ouvidos para que captassem teus passos. Passo a passo. Você me cercava e eu já podia te ver pelo som do teu caminhar ao meu lado. Pelo perfume, pela respiração… Você ainda estava aqui e era a única luz que os meus olhos fechados podiam enxergar.
Quando tocou em meu ombro e ofereceu-me a poltrona… “Senta que a espera não se faz de pé”. Eu me sentei.
“Não ria, que o teu riso não é de alegria”. E eu não ri mais. Não mais aquele riso. Não mais nenhum riso. Não mais.
Agora, eras meus olhos, meus pés, minhas mãos, meus lábios e a única música para os meus ouvidos. Até meu perfume já não era meu. Era seu. Ou era o seu no meu. Seja o que for, o aroma que eu podia sentir pertencia a ti. E assim, sendo mais você que eu, consegui descansar.
Quando acordei, já era tarde. Ao meu redor, a casa em penumbra. Os raios fugidios da lua entravam timidamente pela janela. Pude sentir que meus olhos haviam voltado a ser meus, e me entristeci. Tive a sensação que os meus outros olhos, agora já não mais meus, se dissiparam com os raios do sol.
“À noite, você brilha mais”. Eram os seus olhos que me fitavam. Era você velando o meu sono, os meus sonhos, os meus medos… Então, te pedi que fechasse os olhos, que não falasse mais nada e que deixasse eu te guiar…
Tarde da noite, rimos o mesmo riso… de alegria.



Thaís Carvalho

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

São coisas do coração

"Podem até machucar meu coração, mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar"
(Renato Russo)

Em qual momento da história humana foi convencionado que as emoções e os sentimentos são ligados ao coração, o órgão responsável pela oxigenação e circulação do sangue no corpo? Aliás, como se chegou ao formato de coração daqueles cartões de amor? É que passei muito tempo imaginando um coração dentro de mim num formato romântico, imaginando ainda, ele batendo de um lado pro outro, preso através de uma cordinha, tipo aqueles ponteiros de relógios tic-tac, como em desenho animado.

E tem mais: meu irmão me dizia para não engolir chiclete porque ele poderia fazer o meu coração grudar na parede do meu corpo durante essas batidas. Então, meu coração iria parar e eu iria morrer, pois sem coração funcionando ninguém vive. É verdade, assim como ninguém vive sem pulmão, rim, fígado, pâncreas... Não é? Então poderíamos escrever um bilhetinho de amor e, em vez de desenhar um coraçãozinho, por que não um pulmãozinho? Por que não virar para o seu amor e dizer: “o meu esôfago é seu”?

É verdade que, sendo um fator físico ou psicológico (ou os dois), quando sentimos emoções fortes, sejam elas boas ou ruins, o coração acelera e dói, literalmente dói. Ou acontece só comigo? É como se alguém o pegasse e o espremesse bem forte com a mão. Ou como se ele fosse alfinetado com bastante força, mas não chegasse a furar. Eu costumo sentir isso quando borboletas voam loucamente atrás de mim, afinal, se tem uma coisa que me deixa em pânico, é uma borboleta. Parada ou voando, tanto faz, o coração dói de qualquer jeito. Mas essa é uma situação irrelevante, porque eu sinto isso mesmo é quando recebo uma notícia triste, ouço o que não quero ou coisas do tipo. Vai direto pro coração, como se alguém tivesse um bonequinho de Vodoo e bem naquele momento espetasse o coitado do meu órgão responsável pela oxigenação e circulação do sangue.

Talvez eu tenha faltado alguma aula de Biologia, mas eu gostaria de saber se é normal sentir essa dorzinha chata. Posso estar tendo um ataque cardíaco, e nem sei? Afinal, se eu fosse para o pronto-socorro e explicasse a minha situação, seria improvável que me encaminhassem ao cardiologista, no máximo a um psicólogo, talvez. Aliás, em certas situações, preocupantes e desconfortáveis, pode doer também o estômago, mas, neste caso, o que se tem chama-se: gastrite. Além disso, em algum momento de dor, nervosismo ou ansiedade, quem nunca se sentiu com a garganta atravessada? Ou, ainda, com mãos, pernas e braços trêmulos? Perceba que não é o coração o único órgão afetado pelos sentimentos e emoções.

Uma desilusão, uma tristeza, uma alegria, uma conquista ou derrota atingem todo o corpo, regula ou desregula qualquer organismo e mexe com qualquer processo de ordem vital. Mas por que só o coração é o coitadinho da turma? Dor, em qualquer lugar, é doença, é sinal de uma alimentação inadequada, falta de esportes ou coisas afins. No entanto, se for no coração, que quando resolve doer, dói, dói mesmo, a ponto de quase adormecer e deixar um buraco, é simplesmente coisa que não se explica.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Mais eterno que uma tatuagem

Já de um bom tempo pra cá que, nas rodas de conversas que participo onde o temário gira em torno dos amores passados – ah, esses malditos! –, um erro é tido quase que como unanimidade pela voz de Deus, vulgo “povo”: rabiscar no próprio corpo o nome de la mujer ou del hombre que naquele momento de pouca lucidez te acompanhou na hora do pegapacá. E é o tipo da insanidade que se alastra sem perdoar nenhum. Vai do pagodeiro metido a ser bonito com a rainha da bateria que não precisa ser metida, pois é bonita, até a sua vizinha deliciosa com aquele playbloy que é, sem dúvida, um babaca.

Mas passam-se os anos. Meses. Semanas. Melhor ainda: os dias! E nada como um dia atrás do outro, já dizia o fulano. Aquela cusparada dada com todas as forças da goela para o alto encontra a Lei da Gravidade e vem com tudo para a cara do autor da obra. O relacionamento já era. Escafedeceu-se. Foi tarde. Mas a mancha no braço, antebraço, nuca, cóccix e outras regiões menos bronzeadas, permanecerá lá. Como um alto-falante que grita que aquela pessoa já foi fundamental para você.

Mas eis que vos digo como falou alguém do qual a preguiça de agora me proíbe averiguar: toda unanimidade é burra. Esse povo que fala mal daqueles, que por ingenuidade, se deixaram levar pelo sentimento de afirmar um amor que já passou, não sabem do que dizem. Não amaram mais o outro do que a si. Um erro, admito. Mas é um daqueles erros bonitos, há de se convir.

Existe há muito mais tempo uma marca que é mais devastadora do que uma tatuagem. Sem mais embromations, revelo do que se trata: os apelidos carinhosos. Eles são perigosos, pois são sorrateiros. Ninguém vê mal neles. São até umas gracinhas, dizem algumas senhoras. Mas, ô criatura, já pensaste em criar um filhote de tigre por ser uma belezinha?

São os “Bem”, “Vida”, “Mô”, “Tchuro”, “Amorzim”, “Neném”, entre outros inumeráveis substantivos simples, pero no mucho, ingressam nessa lista de apelidos carinhosos. Olho neles, leitores. Pois são essas palavras que, sempre que mencionadas, lembrarão a (o) ex, que como disse meu amigo Ulisses é “sinônimo de sofrimento, decepção, choro, angústia, depressão, pressão, entre outros e tudo isso aliado a um grande sentimento de perda”.

São palavras que remetem a idéias. Idéias não morrem. Logo, são eternas. Não adianta dar a outro amor. Isso é intransferível. Não dê apelidos carinhosos. Se precisar, faça tatuagens. Ou não faça nada. Mas se fizer, tatue. Sem contar que um nome de ex-amor pode render um ótimo desenho por cima.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ex-Amor


Na busca de variações do romantismo chegamos à sua total ausência materializada em pessoa, a saber, a EX. Só mesmo um grande poeta, longe desse que vos escreve, consegue criar poesia e romance sobre a criatura que carrega a abreviação de Extermínio da Paz.

Já que o escrevinhador não da conta da poesia, vamos à ironia. Certo amigo costuma falar que “EX boa é EX longe” e com raras exceções, a dita cuja é sim sinônimo de sofrimento, decepção, choro, angústia, depressão, pressão, entre outros e tudo isso aliado a um grande sentimento de perda.

Se criassem uma bolsa de valores de sentimentos de perda, tinha gente falida todo dia. Pessoas que investiram uma vida toda em ações nobres como atenção, carinho, respeito e dedicação até ações corriqueiras como presentes de aniversário, natal e ano novo, são surpreendidas pela quebra dos mercados amorosos.

Nessa linguagem mercadológica tão comum nesses dias, é como se criassem uma bolha em torno do investimento que uma hora ou outra estoura. É a coisa de supervalorizar o que não tem valor.

Inexperiência do investidor? Falta de preparo? Pode ser, mas nem sempre o investimento é de risco, inicialmente pode parecer seguro e com boas referências das agências de avaliação, mas durante o processo de maturação, as coisas vão tomando um rumo anti-romantismo, que convenhamos, a humanidade ainda não conseguiu explicar, apenas falar, através de crônicas irônicas como essa.

De resto, bons conselhos como: acreditar em Deus, manter-se afastado (inclusive virtualmente), respeitar o luto do romance e ser forte ao vê-la com outro, são sempre bons de serem lembrados, porém, é bom ressaltar também que nesses casos, falar é sempre mais fácil que fazer.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Clipping da Confraria

A Confraria dos Últimos Românticos foi citada no site do projeto "Sempre Um Papo", conhecido por oferecer palestras com os maiores escritores do país, e no "Mondo Livro", que é um programa para rádio sobre tudo que gira ao redor dos livros e dos autores, no Brasil e no mundo. Veiculado na Guarani FM (96,5), em Belo Horizonte/MG, às 11h15 e 18h30. Agradeço em nome de toda a Confraria pelos elogios e divulgação.

Aproveito o momento pra fazer umas correções sobre o nome do blog, que no site troca "Românticos" por "Amantes". Mas devo confessar que essas palavras acabam se misturando... Outro ponto é que o site creditou a criação do blog apenas a mim, esquecendo que o Ulisses Lima, vulgo "Guima", é meu parceiro nessa etapa. Ele é o cara. Então, segue aí a matéria e seu link para quem quiser postar um comentário no site do Sempre Um Papo.

Link para o site: http://www.sempreumpapo.com.br/mondolivro/?p=3043
Link para o PodCast: http://www.sempreumpapo.com.br/podcast/podcast-confraria-050110.mp3

Confraria dos Últimos Amantes, no Acre e no mundo

Hoje eu quero falar de um blog à moda antiga. Trata-se da Confraria dos Últimos Amantes, criada pelo jornalista e escritor Helder Cavalcante Jr., de Rio Branco, no Acre.

É um blog onde amigos e colaboradores postam pequenos contos, poemas, crônicas e histórias sobre o amor. Os encontros e desencontros, a vida noturna da cidade, e mesmo os casos piegas são motivo para um bom texto. Mas o mais legal do blog é a interatividade. Hoje não só o Helder que posta. São vários colaboradores e colaboradoras que tem um ponto em comum: a qualidade dos textos. Entrem lá, leiam as histórias dos outros e deixe a sua. Seja um integrante da “Confraria dos Últimos Amantes”, de Rio Branco, no Acre e no mundo, através do site http://confrur.blogspot.com/

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Um lanche a dois

Estava anoitecendo quando ele a convidou para um lanche. Eram vizinhos há poucos anos, mas só ultimamente vinham trocando algumas palavras. Ela, a princípio, tentou recusar o convite. Disse que precisava acordar cedo, que tinha medo do que os outros pudessem falar ao saber que os dois haviam saído juntos. Mas, para a satisfação de ambos, ele não desistiu. Não eram mais crianças, era só um lanche, que mal haveria? E não voltariam tarde, para que ela pudesse dormir no horário de sempre. Ela aceitou enfim.

Ele pensou em algum lugar mais reservado (era mais seu estilo), mas imaginando que isso não fosse impressioná-la, mudou de idéia e perguntou o que ela achava de lancharem no shopping. Os olhos dela brilharam. Depois, mais uma vez, quis recuar, pois era muito movimentado. A fila da lanchonete seria longa e demorariam a conseguir comer. Ele, sentindo-se envaidecido de ver que provocava nela uma espécie de timidez e insegurança, quis confortá-la. Não seria um problema esperar. Poderiam conversar enquanto isso. E, além do mais, era um feriadão, não teria tanta gente assim. Ela sorriu e consentiu.

Chegando lá, como ele mesmo predissera, não tinha tanto movimento. Pediram o lanche. Ela quis uma água, ele também. Ficaram assim, numa conversa discreta. Algumas vezes ele arriscou gracejos, aos quais ela respondeu com um leve ar aborrecido seguido de um risinho frouxo. Faziam um belo par e algumas pessoas nas mesas ao lado até mesmo pararam, ao menos um instante, para observá-los tímidos, porém concentrados um no outro.

As horas voaram, como acontece realmente quando se está com alguém querido, e ele observou ela olhar discretamente para o relógio. Sabiam que aquele encontro estava chegando ao fim. Ele tentou arriscar. Colocou levemente sua mão sobre a dela e pôde senti-la tremendo. Ela levantou aos olhos de encontro aos dele, depois os baixou novamente e foi puxando de mansinho a sua mão. Foi então que ele resolveu fazer a pergunta que estava o atormentando há dias. Respirou fundo e soltou: "Eu preciso saber, existe mais alguém? Alguém que você não possa esquecer, alguém que mereça tua atenção a tal ponto de você ficar tão esquiva?"

Ela mudou de cor. De repente seus olhos marejaram e teve que confessar que sim: "Existe! É alguém que me toma a maior parte do tempo. Acordo pensando nele e é desse modo que eu durmo também. Sinto não ter dito antes. Mas preciso dizer que nem por isso deixo de pensar em você. Todos os dias."

Agora era ele que estremeceu. Tomou o último gole d'água e com os olhos implorando, perguntou: "Eu o conheço"? Ela, envergonhada disse: "É alguém que me faz me sentir a mais velha das minhas amigas, porém a mais feliz também... Meu bisneto que nasceu no mês passado."

Ele num misto de alívio e surpresa soltou uma bela gargalhada que fez todos ao redor se voltarem para olhar. Ela entristeceu: "me achas mais velha agora?"
- De forma alguma. Te acho mais bonita agora.

O mais não posso contar-lhes porque seria extrema falta de consideração da minha parte para com esse casal que me permitiu saber tais detalhes. Só digo que, se virem por aí um jovem casal idoso trocando sorrisinhos adolescentes, lembrem-se que os bisavôs também amam, também sonham, também namoram...

E gostam de lanchar de vez em quando no shopping, como todos nós, reles adultos.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FANTÁSTICO COTIDIANO


Sabe essas coisas que só acontecem uma vez na vida? Não, não é disso que vou falar, encontrei no cotidiano algo novo pra contar. Algo mágico a cada dia e gasto nas manhãs tardias marcadas sempre pela chuva e aquela vontade de estar, ficar, permanecer, e tudo que esses verbos de LIGAÇÃO nos permitem.

Alegre pelo milagre da vida, me esperava no fim de cada dia, com promessas encardidas ele teimava. Teimava em chamar minha atenção, em buscar meu olhar. Teimava em se fazer lembrar quando acordo, no banho, no jantar.

Buscava eu palavras para descrevê-lo e nisso já corriam dias. Seu abraço apertado, seu perfume, seu sorriso, já não eram coisa de contar, duravam o dia todo e cabiam em versos assim, assimétricos e de pouca rima.

Agora era eu que teimava. Teimava em lembrar, teimava em esperá-lo no fim de cada dia, em buscar seu rosto, em sentir seu cheiro, para então encontrar nisso tudo aquilo que há de mais fantástico e que não acontece uma vez só na vida, mas está presente nas coisas simples como uma manhã chuvosa, e que como você, cabe neste poema.

Grade



A relevância era infiel em suas expectativas
Pois, no fechar dos olhos, a luz ainda continuava a clarear seu rosto
Iluminando cada detalhe triste naquele momento

Aquelas grades que impediam meu corpo
Não evitavam a sobriedade dos meus sentimentos
Angustiavam meu coração, rugiam meus sentimentos
Mas no pequeno detalhe do segundo restante
Deu-me força de expelir minhas amarras pra fora
Pedindo apenas a sua mão

A segurar, nada tinha ela a ganhar
Contudo, mesmo existindo aquela grade rente a nos
Nossas mãos encontraram-se

Era como nunca tivéssemos nos conhecido
Cada detalhe era novo, assim como a sensação de encontro
Foi prosseguindo até cada rosto se encontrar
No colar dos olhos, no sentir da respiração
A única barreira era a grade, que por sua vez
Foi vencido por um pequeno encostar dos lábios
Naquele momento, mesmo separados
Ainda éramos somente um corpo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Nosso novo amigo Gostar de Alguém!

Gostar de Alguém é um sujeito doido varrido que manipula os corpos dos pobres mortais. Gostar de Alguém é cego, surdo e mudo, mas pode usar todos os sentidos juntos na busca da felicidade.

Ele conspira bondade, mas pode ser egoísta e ciumento, ele faz com que sua presa passe por situações constrangedoras, mas pode também dar alegria à criatura mais antipática.

Gostar de Alguém não usa relógio ou calendário, ele pode fazer essa mudança em tempos inimagináveis, quem já não ouviu falar em amor à primeira vista? Isso ocorre quando ele ta na dinâmica do ladrão desesperado. Gostar de Alguém não escolhe distâncias, ou meios, só depende de um coração disposto e sincero.

Aliás, Gostar de Alguém tem suas preferências, outro dia inclusive ele pediu uma reunião com membros dessa confraria pra elogiar, e fazer algumas críticas pontuais. Ficamos felizes e já estamos preparando uma reunião após as férias. Afinal, quando você não pode com o mais forte, deve unir-se a ele.

Coração


Um poema antigo meu, espero que gostem...


Coração


Se esse coração falasse
Dissesse com todas as letras
O que quer
Ou quem quer
Se ele gritasse
Batesse o pé, teimasse
Fosse pra cima, chamasse pra briga
Desse porrada
Apelasse
Se ele xingasse a mãe
Ou quem quer que fosse
Se ele mostrasse
O caminho,
o torto e o direito
Desmoralizasse
O peito
E, se depois de tudo
Ninguém desse corda
Ele parasse...


Aí quem sabe
Um dia
Eu percebesse que ele batia.



Thaís Carvalho

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

sabor de açaí*

Nunca te amei, essa é a verdade (nua e crua). Nunca amei ninguém. Apenas algumas paixões fugazes, outras nem tanto. Mas eu me lembro de você. E de nós. E daquele beijo com gosto de açaí. Odeio açaí. Lembro das brigas, das lágrimas e das verdades. Da tarde de chuva, sozinha. Da piscina. Da tarde de sábado. Dos telefonemas que pararam rápido. Você partindo. Eu partindo. Alguém estava sempre abandonando o barco. Não estava destinado a dar certo. Ou melhor, estava. Estava demais, e por isso tinha sempre alguém que não queria. Que sabotava. Ora eu, ora você. Fomos idiotas? Talvez. Eu não queria que tivesse dado certo. Ou queria demais, já nem sei. Lembro do primeiro beijo, mas não do último. Ou lembro? Eu partindo. Eu partindo de novo. Nos partimos. Ao meio. Aos pedaços. Não recolho, deixo no chão e vou embora. Eu chorando ao telefone e você perguntando “Você está melhor?”. Estou? Com você sempre estou. Nós dois olhando o rio. Tentando de novo. De novo. E de novo. O telefone tocando. Tarde de outubro. Está melhor? Com você nunca estou. Você dormindo, do meu lado. Teu rosto encostado no meu ombro. Primeiro amor? Talvez. Acho que não. A verdade é que eu nunca te amei. Mas você sempre esteve em mim, infelizmente.

*Texto de Veriana Ribeiro, mais uma romântica...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Vir a Ser


Tudo ou uma parte se inicia com olhares, com apresentações corteses, encontros ao acaso do tipo um no ônibus lotado e outro no ponto restando nada mais que acenos, alguns consideram as artimanhas do acaso, da vida ou do que quer que alguém atribua ao “lançar” para o Universo e todas as suas forças cósmicas.

Entre tantos casos e acasos (causos também) são conhecidas histórias, estórias, verdadeiras crônicas (nelsonrodriguianas ou não), olhares, pensamentos, idéias e nuances dessa maravilhosa subjetividade que o ser humano possui. Filmes, músicas, cantos, encantos e desencantos (afinal a certa altura do campeonato amoroso já é possível estar aberto a surpresas). A cada música, das mais bregas às mais românticas, de Reginaldo Rossi à Maroon 5, do Pequeno Dicionário Amoroso (época em que nem rolava silicone) à Vick Cristina Barcelona, nada mais importa para os corações falantes e apaixonados.

Nessa condição de vida amorosa, não importa se aquele cara vai lhe fazer engordar algumas arrobas e ser o pai de suas crias, lavar a louça ou fazer a feira no sábado de manhã e ainda se a mocinha vai atrapalhar muitas peladas numa noite qualquer ou no sábado à tarde. O que parece importar é viver todos os momentos de um laissez faire maravilhoso.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Quase*



De tudo que um dia existiu e acabou, ficam as lembranças! Algo que nem o tempo, nem a ação de alguém podem apagar. As boas lembranças surgirão nos momentos menos adequados, inesperadamente... Quase um “Déjá vu”! E serão provas irrefutáveis de que valeu a pena ter vivido aquele momento.

Ficarão gravados na memória como uma infinidade de pequenos filmes, como as cenas dos nossos filmes favoritos, como pra mim é a cena do beijo de Scarlett O’Hara e Rhett Butler em “E o vento levou” quando ele a abandona na fuga do cerco de Atlanta, ou ainda quando o tempo começa a fechar e as nuvens cinzas me lembram os macacos voadores em “O mágico de Oz”.

As boas lembranças terão o mesmo efeito nostálgico e serão acompanhados pelos suspiros abafados e um leve aperto no coração. Mas a vida segue, os filmes acabam e o “The end” aparece bem na nossa frente em letras garrafais como quem diz: Levanta! O filme acabou!E acabou como não queríamos que acabasse.

Mas nós deixamos o final de lado e nos apegamos às melhores cenas, de tudo que quase foi como queríamos, menos o final!Quase...


*Texto cedido pela Amiga Manauara Milli Mello


sábado, 5 de dezembro de 2009

Esclarecimentos



O leitor do blog indaga: Pra que essa frescura de poeminhas, de contemplação às mulheres? Será que elas gostam mesmo disso? Acho que elas vão rir da cara de vocês, isso sim.

Sim leitores (as), a primeira reação seria de desprezo e condenação. Mas, vamos parar um pouco pra pensar, e tentar entender um pouco o sentimento desse portador da doença venérea do abandono e do pessimismo.

De fato, a maré não tá pra peixe, as redes virtuais fizeram um verdadeiro arrastão de sentimentos e protocolos. Não se permite mais a nobre sensação do labirinto da nostalgia, ela foi substituída por falácias modernas e libertinagem.

O prazer a qualquer custo - comparável às drogas que levam da euforia à depressão crônica – tem criado nessa matrix em que vivemos, criaturas cada vez mais sem propósito e excitação de viver, fazem de cada noite, de cada mulher, uma dose rotineira de anestésico anti-carência.

O grande medidor do sentimento humano, a saber: A música, já não diz mais nada, apenas trabalha o corpo e/ou crises existenciais, e sempre numa linguagem “baixa”, de total menosprezo às maiores qualidades do humano que são o pensar e o sentir.

O leitor volta a perguntar: As mulheres tem nos enganado covardemente, seremos reféns disso?

Bom, sugiro para estas o troco devido, e para as demais um blog cada vez mais à moda antiga.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A arte do companheirismo em encontros

Lei é lei, e vice-versa – como já afirmou o famoso jogador de futebol. Leis são feitas para que esse vuco-vuco que é a sociedade se aquiete, pelo menos, um teco. Não, este não um texto sobre os juristas, que antes de qualquer cousa, venho a cá pedir licença, afinal de contas, não se tratam de linhas integralmente precisas. Venho apenas espernear por justiça, meus caros e caras. E seguindo essa linha de ideais, devo dizer que no Regimento Interno dos Lenhadores há uma regra bem clara, que aqui vos reproduzo o caput na integra:

“É dever do cabra macho nunca abandonar seu fiel amigo. Se por acaso a dondoca do chegado estiver com uma amiga, é dever do cidadão de bem fazer o bem e interar o quarteto. A falta de solidariedade nesse tipo de oportunidade é passível de excomunhão do gênero.”


Mas olhe só, de uns tempos pra cá venho notado que a lei (como uma penca dessa, nessa terra brasilis) não tem pegado. “Que absurdo!” – devia exclamar o apresentador de programa televisivo da tarde. Lembro da experiência que tive, onde um amigo vil se negou a tal gesto de nobreza. Cabrão! Disse que havia um casamento para ir e não podia cumprir com suas obrigações. Que me desculpem os puritanos, mas a única justificativa plausível seria se a cerimônia fosse do dito cujo. E olha lá!

Uma animação coletiva dessa espécie não pode ser encarada com tamanho destrato. Sei que os mais desatentos podem pensar que larguei mão do romantismo nesta crônica. Ledo engano. Venho a cá defender a obrigação que cada homem romântico tem de ofertar o benefício da dúvida para esta mulher solitária. Vai que o infeliz encontra a donzela da sua vida? Perdeu pra deixar de ser besta, por conta de um casamento alheio. Essa sim é uma dolorosa pena.

Claro que a mujer em questão pode não ser a Annie Hall. Pode não agradar a visão, pode falar bobagem ou ter caráter duvidoso. Acontece. Não é exigido que o amigo toque pra escanteio os seus critérios mulherísticos. É a coisa do dever em troca do direito, percebes? Em casos assim é tocar a bola pra frente, amigão! Mas tenha a certeza de que agiu do modo correto...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O que ficou...


E então acabou. Assim como o pôr-do-sol dá lugar a escuridão. E no dia seguinte, quis abrir meus olhos, mas não, não consegui. Passou a existir apenas um eco dentro de mim. Acabou. É, isso define tudo. Como uma palavra pode mudar tanto uma vida!

A saudade nos leva a lugares em que as horas não passam, onde não se enxerga absolutamente nada, só se sente. Lembranças caem no meu rosto, mãos e pés em forma de lágrimas. Minha boca tornou-se seca, meus olhos cegos e inúteis por não conseguirem enxergar nada além dele. Isso me obriga a sentir. Essa foi a única forma de orientação que me restou. E era a que eu menos desejava. Gostaria que essa parte estivesse dormente. Porque dói e não se pode evitar. Acho que fiquei presa pelos sentimentos, pela saudade.

O tempo pode amenizar as dores que foram causadas. Pode até cicatrizar feridas e às vezes, só oculta certas marcas, fazendo com que sangrem quando menos espero. Não sei. Não sinto diferença alguma passado esses três meses. Estou presente, mas sinto a ausência da pessoa que costumava ser. Já não faz sentido algum atender telefonemas e ver quem bate em minha porta. Não é ele. Qual é a graça então? Não há explicação para as coisas do coração. Eu sei.

A saudade é dolorosa, escura...e humana.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pêndulo


Era pra ser um dia comum. Depois de uma terrível noite insone, ele tomou um café preto, sem açúcar, amargo como a segunda-feira-pós-derrota do seu time, despediu-se do avô e embrenhou-se no trânsito desafiando o tempo e o espaço.

Chegou ao trabalho atrasado e uma pilha de demandas o esperava, milhões de vozes sussurravam agilidade e inovação. Mas, aos poucos ele viu que não se tratava de um dia qualquer. Era um dia de ventania, de umidade 99%, os cobradores não o ligaram, as demandas esvaziavam-se cada vez mais rápido, a chefe lhe sorria sem parar e perguntava-lhe números avulsos antes do jogo que estava fazendo na mega sena, a copeira lhe pediu conselhos amorosos, foi-lhe prometido o cargo de conselheiro geral com um pomposo salário.

Sim, ele estava com a boca abençoada! Tudo, simplesmente tudo que falava, acontecia. Há quem diga que esse fenômeno raríssimo acontece há cada 300 milhões de anos, e pela primeira vez aconteceu. Um profeta pós-moderno, em meio a uma repartição pública. Dias antes, um hippie havia anunciado a chegada dele, não lhe deram ouvidos, mas o sinal seria percebido por todos.

O encanto acabaria apenas quando fizesse uma profecia para sua própria vida, e não demorou muito. A mais falante da repartição indagou sobre àquela garota de quem ele tanto falava, ele disparou sem pausa: “Vamos ficar juntos!”

As impossibilidades eram enormes: a moçoila era casada, tinha um filho, vinha com o acompanhamento de uma sogra horrivelmente chata, ele gostava de samba ela de tango, ele era curintia e ela parmera.

Passa-se uma semana, e a chefe liga dos Emirados Árabes, anunciando sua desfiliação da equipe, afinal, ela havia ganhado na mega sena, a copeira também chegou para despedir-se, havia conhecido um gringo na rua e estava de partida pra zoropa.

E o nosso herói estava com sua amada, a nem tão amada assim sogra, escutando tango, catando piolho de menino alheio e dormindo na coxa verde e branca do palestra Itália. Usando Renato Russo: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”

Eu falo é de amor...


Foi num dia desses assim, sem muita imaginação, dias em que se perde o sono, dias de inquietação. Caneta e papel à mão, me pus a escrever, por ousadia ou intuição, essa prática me acompanha de longa data, mas agora eu precisava de algo mais, algo que tocasse o leitor, sempre exigente, e com toda razão.
Pensei em falar da dor, do tempo, da vida, afinal, questões existenciais nunca caem em desuso, seria um toque certeiro na alma do leitor. Contudo, fui surpreendida pela falta de palavras. Nem sempre é fácil nomear o inominável, aquilo que se fala com o olhar e com o tocar.
Permanece em mim a vontade de falar, recorri ao dicionário, procurei palavras bonitas, frases feitas, mas acabei retornando ao ponto onde parei. Grandes questões da humanidade! De onde viemos, para onde vamos? Ser ou não ser? Parecia eu a andar na contramão do meu querer, onde estava a inspiração?
Foi então que me dei conta do grande tema, aquele que nunca perde a majestade, que nunca se esgota, que sempre traz uma lição. Ainda que o declarem um tanto piegas ou fora de moda, o AMOR não tem tempo, não tem idade. Vaidades à parte, o amor não envelhece, está sempre à espreita, pronto pra nascer, pra brotar no coração do poeta.
O EROS toma formas diferentes, mas é sempre um jeito de amar, há um amor sempre latente, seja ele do passado, ou amor do presente. Quem nunca teve um amor? Pobre homem, melhor nem nascer. O leitor retruca, eu quero é felicidade plena! De preferência à pronta entrega. Ledo engano.
Quem poderia imaginar uma vida sem dor, sem saudade, sem ardor. Como diria o poeta “o amor é um contentamento descontente”, é um pouco disso tudo que cabe dentro do peito. Cheio de riscos e sem garantias, é preciso vivê-lo, com todas as suas promessas de infinidade e fugacidade.
É, pois, o AMOR o tema a interromper o sono dos escritores, a ocupar estantes nas bibliotecas, a reunir pessoas em confrarias virtuais como esta. É esse mesmo amor que nos preenche, nos inspira e nos questiona _ que queres tu da vida? Mais que vivê-la certamente, AMAR, AMAR, AMAR. Eis a palavra de ordem no coração dos últimos românticos.


Tratado Geral do Ciumete – Parte II: A psicologia reversa


"Todo aquele que desconfia, convida os outros a traí-lo".
Voltaire

Não sou muito da classe dos conselheiros, mas esse vai na faixa pros descendentes de Adão: não seja o ciumento marketeiro. Esses Dons Casmurros do dia-a-dia carecem da malandragem necessária quando estão cobertos com a cortina da ciumeira. E como último recurso para evitar que a querida mujer opte pelo jardim do vizinho, resolvem adotar a tática mais descabida de raciocínio: gritam a torto e a direito que o rival é um galinha, pegador e que se por ele escolher, ela será apenas mais um número nas estatísticas desse crápula.

Não é assim que se faz, hombre! No momento que você usa esse argumento debilóide, você nada mais fará do que cutucar com vara milimétrica o mais cruel dos diabinhos interiores dela: a curiosidade feminina. A amada vai ficar toda ouriçada a fim de descobrir o que esse Ricardo de grande estatura tem que provoca arrepios até nos mais discretos poros das nativas do reino das amazônias.

Para que você, caro companheiro, entenda numa linguagem universal para machos, é como se o seu time fosse jogar com o esquema consagrado pelo fracasso como o 4-4-2 fulero-trágico de Sebastião Lazaroni na Copa de 90. Desse jeito vem aquele Maradona na mulherada e créu, sem nem ao menos precisar um toque de classe pro Caniggia ou um boa noite cinderela na água do Branco!

Guarde bem guardado toda a sua taquicardia, falta de ar, excesso de salivação ou boca seca, sudorese, aperto no peito, dores físicas para si mesmo. Não venho aqui debochar do seu drama machadiano, mas é preciso aceitar que, nessas horas, a insegurança é o tendão de Aquiles do candidato à ex. Nada de bancar o Washington Olivetto ou Roberto Justus desse salafrário que pretende te dar aquela rasteira. Fique na sua, se ainda quieres ficar.