terça-feira, 9 de novembro de 2010
Quem ama recomenda
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A sorte
É como se me mostrasse o oásis
E me pedisse prova de merecimento
Julgou-me por critérios desconhecidos
O resultado foi o que se esperava
De quem apenas sentia que podia
Mas não provava o que sentia
A demora e a dor são necessários
Mas a recompensa haverá de curar
Todos os mal entendidos
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Se cuida

Nada planejado. A pergunta. O sorriso tímido. A junção de 5 sílabas. Fora o bastante.
O carro não tinha espaço o suficiente e o barulho lá vindo de fora era pertubardor. Ele preferia o silêncio. A quietude e mansidão de algum lugar para aproveitar a única oportunidade boa que a vida lhe dera em décadas. Suas mãos nervosas não sabiam repousar depois de trocar a marcha e logo aprendeu a usar somente uma mão para guiar o carro... A mão direita segurava firmemente a dela. Unificando o tempo que ainda tinham juntos... Aumentando a veemência daquela noite que nenhum dos dois jamais esqueceria. Passearam pela cidade, até encontrar um lugar em que pudessem repousar a frustração um do outro. O silêncio entre eles nunca existira, nem mesmo em um olhar. Havia muito a ser dito, e sentido, em apenas algumas horas e se privar de tamanha benção seria errôneo demais. Não queriam pensar no depois, no amanhã. No peso que carregavam nas costas. Estavam sendo jovens, imprudentes, imaturos guiados pelo sentimento, vontade – bem longe de qualquer razão - e conseguiam sorrir e regozijarem com isto.
Suas mentes foram pra bem longe. Podia-se dizer que o alter-ego de um guiava o do outro. A troca súbita de ‘conhecimento’. Alcançavam a paz interior.
~
P -
Os toques delicados beirando pinceladas. As coxas estendidas sob o lençol branco. Os gemidos que faziam com que a mente não quisesse estar em outro lugar a não ser ali. Guardando aquelas expressões no lugar mais seguro que tinha em seu âmago.
E -
O corpo sobre o seu. Esforçando-se para provocar algo mais intenso a cada segundo, a cada investida. As mãos tocando seu rosto, os lábios sugando o seu suor. Os olhos penetrando a sua alma. Como nunca ninguém fizera antes. Como ninguém nunca se importara em fazer...
Não tinham a mínima idéia de quanto tempo ficaram imersos em carícias e sorrisos bobos. Duas bestas sentimentais. Vivendo pela primeira vez, juntos, algo inusitado. Inesperado demais. Tão completamente novo que fazia-se tornar seguro. Mesmo que o mundo os chamasse de volta com pequenos alertas – imperceptíveis.
Foi ele que voltou a si. Lembrando do quanto era antiquado, do que esperavam que ele fizesse depois. -De como devia agir. As palavras que devia usar. A rotina que deveria seguir. Apenas aquele momento, pra ser completamente o que queria. Com ela.
Fotografou o rosto redondo e macio pela última vez. Contemplou aquele par de petecas marrons e voltou à realidade. Sem se permitir sofrer.
As mãos continuaram juntas até o destino. Ela sentia o cansaço tomar conta do seu corpo. Mas sabia que tudo aquilo seria multiplicado, na manhã seguinte, em sua cabeça. Beijava-lhe as mãos. Queria manter o cheiro dele em sua pele. Eternizar tudo em lembranças. Guardou em seus ouvidos cada música que parecia expressar completamente o que acabara de acontecer. Mais tarde iria chorar por não ter dito o que devia.
O Adeus foi breve. Quase a despedida de dois saudosos amigos.
‘’Se cuida’’ - Disseram um ao outro. O último beijo. A última união dos lábios chorosos de vontade.
O início do fim. O que poderia ter sido e não seria. Jamais. O tempo passado antes de chegar. As vidas seguidas como se nada tivesse acontecido… Um devaneio passageiro.
A vida normal os esperava lá fora.
‘’Too young to hold on and too old to just break free and run…’’
Texto é da Fany Dimytria do blog Cold Water. Eu (Helder) não via a Confraria sem um texto dela, no caso feito especialmente para nosso blog. Espero que ela não demore para enviar o próximo.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Insulto I

Auto-exílio nada mais é do que ter seu coração na solidão"
Conexão Amazônica - Legião Urbana
É discurso fora de moda, vai à contramão da humanidade, do progresso, da liberdade sexual, da vida artística de malhação e novelas das oito. Mas o fato é: o mundo inteiro está infeliz com tanta liberdade.
E boa parte da culpa deve-se as opiniões turvas, e cheias de ênfase, dos auto nomeados intelectuais modernos, que não passam de primatas que usam a linguagem de forma oportunista.
Leia duas ou três vezes a opinião de um antropólogo de araque, aqueles de determinam o lote e o prazo de validade do amor, e perceberá que seus argumentos não suspendem uma pena ao vento. Os cientistas e seus vícios de classificar tudo e todos, reduzem um complexo jogo de sentimentos a algumas ligações de sinapses nas regiões do cérebro afetado no ventre.
O fato é que em situações vexatórias, onde não são analisadas as telas de raios-X do cérebro, até o mais racional dos seres recorre à poesia, ao abstrato, e tudo aquilo que não podemos reduzir a uma função matemática.
A música, a pintura, a literatura e até as imagens do Google, expressam melhor um sentimento do que a opinião de um especialista (os de araque). Uma piada de bar talvez cause tanta reflexão, quanto uma análise da conjuntura sócio-afetiva de um sujeito abandonado.
O discurso fora de moda não descarta o valor do livre pensamento, e da ciência, mas afirma que os valores têm importância maior do que um livro de Engels, que colocar-se no lugar de outrem vale mais que uma leitura de horóscopo, e que respeito não se aprende na faculdade.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Convivência*
*Texto de Jeronymo Artur. Há tempos ele já escreve. E muito bem.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Dimytria II
Filosofia barata das ambiguidades amorosas
Se você, leitor, assim como eu, vê algum sentido nisso aceitando tal argumento como uma verdade ou pelo menos como uma quase verdade vai se deparar com o seguinte fato: se nós recusamos a ambiguidade em nossas vidas e sendo o amor uma de suas expressões, significa que há uma tendência nossa de fugir dele e recusá-lo também. É importante explicar que o fugir do amor não é necessariamente recusá-lo em seu modo radical, recusar aqui significa uma gama muita variada de modalidades possíveis, por exemplo, podemos dizer que fugir do amor é complicá-lo, colocar condições tolas, adiar sua concretização, enfim quero utilizar o termo ‘recusar’ como todas as estratégias diversas para tentar suprimir e/ou disfarçar essa tal ‘ambiguidade’.
E é exatamente nesse ponto que reside o ponto mais interessante sobre nossa reflexão, pois quanto mais recusamos a ambiguidade, mais ela existe em nós, e por conseqüência quanto mais recusamos o amor mais ele existe em nós. Nesse sentido, o que proponho aqui é que quanto mais inventamos sua recusa sob diversos pretextos mais ele nos afeta e nos atravessa e, portanto, é mais presente; por outro lado, quanto mais se procura pelo amor mais o banalizamos e o esvaziamos - é um movimento dialético no sentido grego, sem síntese. É um mecanismo que funciona inversamente proporcional, ou seja, quanto mais se extingui algo mais se cria, quanto mais se suprimi mais se multiplica; podemos dizer, por essa razão que a invenção sempre contrainveta alguma coisa. Isso, por exemplo, corrobora a máxima popular de quanto menos se espera o amor mais próximo ele está de acontecer, justamente porque você não está a inventá-lo artificialmente ou forçosamente, e o inverso é verdadeiro, quanto mais se procura menos se encontra.
Para concluir, as ambiguidades são fatos, e temos talvez três opções diante delas: uma, recusar por inteiro, outra aceitar completamente, e uma terceira, que me parece a mais inteligente, equilibrar, aceitar em partes a ambiguidade e recusar em partes também, encontrando uma espécie de meio termo, que por natureza não é perfeito, mas satisfaz, traz conforto. Nesse sentido digo, sejamos medianos, pois este pode ser um modo de se equilibrar na inevitável incompletude das coisas e uma maneira de lidar com a ambigüidade sempre presente em tudo e todos.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Carta à tímida
Querida,
*Apenas para evitar qualquer confusão ou algo do tipo, lembro que é uma ficção, povão. Tanto texto quanto fotos. Nada mais, cierto?
Sujei-o de batom
Naquela sala de espera, no ante-momento que decidiria os próximos caminhos da minha vida que é alheia e pessoal, sujei de batom aquele livro que me destes para ler enquanto o esperava. Como isso veio a acontecer? Pergunta grotesca, desconcertante. Peguei o livro e me entreguei à dança de segurá-lo com uma mão e folhear com a outra que, entre página e outra, também apoiava o queixo e tocava os lábios. Para confessar, na minha inquietude, a cada folha virada, a cada verso olhado e não lido, entre aqueles minutos eternos que você finalizava o seu trabalho, eu também roia os cantos dos dedos (as unhas, jamais) e foi assim que deixei a minha digital rosa na ponta superior daquele papel branco, sobre aqueles contos de teatro marginal.
Em desespero, fiquei. Como poderia aquela marca aparecer ali? Simples e inocente? Era a prova do meu desjeito. Minha reprovação. Minha censura. Tentei apagar com saliva (como a gente faz no colégio, quando borra o lápis e não tem borracha). Piorou. Sujou ainda mais. Era inútil qualquer tentativa de recompor a página branca, lisa, limpa. Marca de batom é marca para a vida toda. Esperei, conforme esperei minha condenação. Até que, na hora do juízo final, passou o livro ao meu pertencimento, com toda a minha culpa: “O livro é seu. Leve-o para você”. Deu-me de presente como a minha inocência vadia. Agora, eu posso sujá-lo verdadeiramente. É meu, mesmo impuro.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Dimytria I
Pegou seu celular e começou a ler as mensagens. Parou em uma:
"Te Amo A Lot Of"
Será que era isso mesmo? Porque nada se encaixava no modo como Pedro se comportava agora. Já não era mais aquele cara que roubou o primeiro beijo e que a tomava pelos braços.
A única certeza que tinha era que o amava ainda mais... mesmo depois de dois anos e de tantas mudanças ocorridas. Desconfiava da sinceridade de todos os " TE AMO" ditos por ele
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Posologia do porre a dois.
domingo, 10 de outubro de 2010
De onde vem esse vazio?
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Amanhecer

Sabe quando a gente perde a direção
Quando os amores já não são mais tão amáveis
E o que passou, desceu rasgando sem piedade
E você pensa, você jura
Nunca mais fazer o mesmo, nunca mais acreditar
E cada novo amor parece espelho do passado
Refletindo cada erro, repetindo cada cena
Sem pausar
E você quer seguir em frente
Reescrever a tua história
Outra vez, ainda mais
Mas te parece que os reflexos to passado
Viram fantasmas sempre prontos
Predispostos a tirar a sua paz
E cada um tem um palpite, uma receita milagrosa
Que te tire desse quarto escuro,
E te liberte dessa dor
Mas, de tudo que já ouvi
Nada mais duro e verdadeiro
Do que o que alguém
Essa semana me falou:
‘Ergue a cabeça, olha pra frente
Que o passado...
Esse... já passou.’
Tanta coisa aconteceu enquanto eu dormia
Mas agora abro a janela
E posso ver com clareza
Que já é dia.
Thaís Carvalho
Hai kai da humildade da fêmea
Acorda, deixe de foba
Pois não te quiero cheia de querer ser
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Dicionário da Mulher – Verbete: A dança
"Ninguém dança sóbrio."
Provérbio latino
De acordo com os ensinamentos de uma amiga, dessas que se tem mais do que amizade, a dança é, nada mais nada menos, do que 70% na hora de tentar o primeiro contato imediato com a intenção de chegar ao terceiro grau. Completando os dados do instituto de pesquisa Data/Romance, ela não me disse, mas arrisco afirmar que os demais 30% ficam a cargo do layout do sujeito, do papo dez e da confiança do abnegado.
É claro que a margem de erro se estica mais que borracha de estilingue, depende da ocasião. Sem verdades absolutas no cabo de guerra do amor. Mas não é por acaso que a minha querida diaba utiliza de métodos similares ao dos pesquisadores para provar que a dança é o atalho mais delicioso para alcançar o ouvido da madame.
Ah nós homens, somos tolos, cheios de embaraço em abrir mão da dureza segura de nossos quadris. Anos de educação negativa nos indicam que isso que coisa para os mais afrescalhados. Mentira. A mulher deseja de seu parceiro não só o acompanhamento, mas a condução dos passos. E para tanto, só sendo um “sem-vergonhi”. Elas gostam de “sem-vergonhis”.
Aos leitores-cinéfilos, não cabe a desculpa de falta de exemplos que provam a eficácia da dança. Vide o personagem do sempre genial Al Pacino, no fantástico “Perfume de Mulher”. Cego excêntrico, mas enxergava há quilômetros o valor do “dois pra lá, dois pra cá” bem executado. Vão de tango, a dança que mistura drama, romance e suspense de uma lapada. Nota-se que a moça, bem mais jovem diga-se, fica sem fôlego perante tamanha segurança. Risos e suspiros tímidos da pequena são os aplausos para o nosso herói.
Com algum tempo de jornada, confirmo que a dança de salão é um dos melhores pretextos para se falar as mentiras sinceras e verdades fantasiosas. É bom que só para flertar.
Não venho aqui enganá-los. Reconheço que ainda não fico nem perto de merecer o título de “Grão-mestre-pé-de-valsa”. Mas sou enjoado. Na minha teima, começo a apresentar sinais de evolução. Homo erectus dá espaço para o homem de swingtherndal. Entre uns passos em falso e pisões nos calçados femininos, vou assimilando a arte do entrançamento musical de corpos.
É sempre um prazer para o homem empunhar com a esquerda a mão delicada, na direita o quadril convidativo e no nariz o perfume de um cangote. O sacrifício de unhas pintadas com esmalte à serviço da dança é a materialização da compaixão superior de uma mulher, digno das deusas.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Mapa Astral

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Que os astros me perdoem, mas quem eles pensam que são para afirmar: “Sagitário não combina com peixes, câncer não combina com quase nada, e não adianta insistir”? Balela! Que coragem afirmar que as combinações amorosas se limitam a ascendência de um mapa astral! Prefiro acreditar na procedência.
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Câncer é emotivo? Errado. Seres humanos são emotivos, uns escancaram, outros engolem o choro. Relacionamentos com Áries é tenso, profundo, rico e desafiante? Pois bem, que relação não é? Será que existe o signo coringa, e ninguém soube ainda?
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De qualquer modo, é bom que exista o horóscopo de revista, o espaço preenchido no jornal local, e que continuem com os conselhos vazios do tipo: “O tempo da decisão chegou”, pode ser que você não tenha nada a decidir, mas é sempre uma leitura divertida.
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Mas por favor, caros leitores, não acreditem em horóscopo! Imagine o fim de um relacionamento, dois amantes chorosos, tristes pelos cantos, reclamando: “por que não nasci noutro mês? Teria dado certo...”. Os ascendentes que se preparem, vai sobrar pra eles.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Dicionário da Mulher - Verbete: A virada de casaca
Em nosso raciocínio errado, pensamos que a razão pro cabra mudar de mulher, mas não mudar de time é: Se você é traído pela 1ª opção e continua, és corno, da categoria dos mansos. Um corno domesticado. Já na 2ª opção, você é fiel... Um chute pra fora do estádio, diria.
Lembrei dos versos de Leonardo, cantador de dores cornais como poucos, que afirma categoricamente: “eu deixaria tudo se você voltasse, meus sonhos, meu passado, minha religião”. Atente para o detalhe que não é mencionada a escolha de representante do esporte paixão nacional. Ele não deixaria.
Já uma mulher é mais decidida quando se trata dos assuntos da vida. Ela abre mão de tudo por um amor. A amante, aquela que te recebe com beijinhos após uma jornada na repartição digna de Hércules, não se prende ao um grupo onde onze machos suados correm atrás da pelota. Ela se prende a você.
De tão bem resolvida sobre o que realmente a fará feliz, vira a casaca. Vejam só, a virada de casaca é a prova de amor que nem o sertanejo goiano ousara. Esquece os gritos da torcida, não faz questão de lembrar daquele gol sagrado que findou o jejum de décadas sem título. É a memória seletiva em ação em prol do romance.
Confesso, não sou capaz de tamanha nobreza. Deixo tal gesto fidalgo, digno de Sancho Pança, para as fêmeas mais leais ao coração. Não é pra este são-paulino teimoso. Dedico este texto para todas as minhas amigas que foram valentes a ponto de trocar de time. E também não posso esquecer das flamenguistas, corintianas, palmeirense, vascaínas, entre outras que, por simpatia com este sofredor, passaram a considerar um pouco mais as três cores vermelho, branco e preto, nesta ordem.
Se o abestado reparar e valorizar tamanho sacrifício, quero valer como a fêmea vai jogar um futebol bonito nas quatro linhas do quarto. Abra o olho ou pegarás uma bola nas costas, chegado. Elas não precisam de três pontos. Elas precisam é de cariño. E desse jeito, elas levam fácil esse campeonato de pontos corridos das relações.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Independência feminina
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Dicionário da Mulher – Verbete: Banho de chuva
É clara a relação entre a água fria, misturada com ventos que resulta em comichão no peito. Num toró, se usted é bom reparador de detalhes notará, a natureza se encarrega de acentuar, na base da água, a silhueta da mujer. “Eu me rendo”, é o máximo que o pobre diabo pode reconhecer dada a situação.
As gotas de água, que num daqueles fatos que provam a existência divina e não por acaso caem do céu, servem como cola para os tecidos que realçam os benditos formatos das vergonhas da fêmea. Ô lá de cima, gracias pela vista.
Aqueles que nunca beijaram sentido o sabor da mistura água das nuvens e saliva da amada são desconhecedores do gosto que supera o melhor dos drinques já criado.
O coito sob grande volume líquido entra sem dificuldade como capítulo de destaque no livro “Grandes momentos de nós dois” de qualquer casal. Recomendo que beije na nuca, nessa hora. Apenas recomendo. Se molhe. Larga mão do embaraço.
É na chuva que a paixão nasce. Brota, como um arremedo de uma planta. Vinga.
sábado, 25 de setembro de 2010
Soneto XXIII Sempre mais que antes
A cada nosso encontro um pouco mais se expande,
Mais pra diante lança a sua última barreira,
O que sinto por ti, que é já bastante grande,
Tendo dimensões como coisa passageira.
Qualquer breve gesto que a circunstância mande,
Qualquer sorriso, qualquer simples brincadeira,
É já razão para que ele mais longe ande,
Mais abrangendo do que a forma derradeira.
Se uma hora acho não poder te amar além
Do que já amo, nem mais, nem com mais fervor,
Que o seu limite, essa minha emoção já tem,
Algo acontece, algo aparece em teu favor,
E o meu amor, em expansões constantes,
Mostra que me engano, sendo sempre mais que antes.
*José Danilo Rangel
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Detalhes tão pequenos de nós dois - os cheiros
Há que se amargar a lembrança por tudo que te traz de volta. Ando perdendo minhas horas por aí e nada de você desalojar. Sinto seu cheiro. Seus cheiros. Em todos os lugares.
Seu perfume eu sinto toda vez que entro na loja de perfumes, e peço pra moça borrifar um pouquinho do seu cheiro no meu pulso. Daí eu saio da loja abraçado ao pulso, me olham como doente, e eu sigo de olhos fechados lembrando de cada segundo que tive esse cheiro só pra mim. Eu, ciumento até da luz que a faz mais branca, tendo de me abraçar ao meu pulso porque seu pescoço andava ao alcance de um outro marmanjo que jamais te amaria como eu amei.
Todas as manhãs, quando vou à feira, sinto o cheiro do seu pastel de queijo e do seu caldo de cana domingueiros, e choro copiosa e silenciosamente junto aos bagaços moídos. Preparo uma metáfora fajuta entre os bagaços e meu coração, e falho miseravalmente porque ninguém, nem um poeta delirante de amor, seria capaz de realizar tal metáfora de maneira bem-sucedida.
No restaurante do trabalho, se algum comensal pede suco de cupuaçu, meu olho se enche de lágrimas. Você odiava cupuaçu com todas as suas forças. Você dizia que fedia. E eu me lembro perfeitamente de você dizendo isso, com tanto amargor na voz - "cupuaçu fede, tira isso daqui".
Há que se amargar a lembrança. E sentir cada cheiro seu. Até comprei o mesmo aromatizador de banheiro que você usava, acredita?
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Amores outros e outros modos de amar
Bem, o amor indígena não significa casamentos arranjados, fruto de imposição autoritária, mas são experienciados como aprendizados, para depois concretizarem uma espécie de fusão, são amores que se constroem juntos desde muito cedo, são concebidos, o casal aprende um sobre o outro ao mesmo tempo em que vão aprendendo sobre si e, nesse sentido, o ‘eu’ se confunde com o ‘outro’, fazendo do ‘outro’ o eu, subvertendo a matemática, transformando dois em um. O amor deles é fruto de amizades infantis, com sentimentos fraternais que passam com o tempo a ser temperados por “químicas”, por proximidades corporais que não se saciam mais com contatos curtos. E então se dão conta que na verdade eram amigos diferentes, apaixonados sem saberem, com um desejo latente que esperava o momento certo para se manifestar, e que quando se manifesta torna a amizade e a sintonia construída ainda mais potente.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Eu Coleciono Amores Impossíveis
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Saudosa suruba
José Lins do Rego
Passo a mão no meu queixo, até notar a trairagem do acaso: aquele fio de cabelo comprido, presente involuntário esquecido no velcro camuflado de barba por fazer. E ela vai crescer ainda mais.
Para não se sentir largado tal qual o dono, convidará para fazer companhia as olheiras, olhos encharcados, nariz vermelho e boca murcha. É como disse o poeta cantador Fagner e faço questão de repetir “o cabra pode ser valente e chora”.
Tento fugir dessa saudade. Briga perdida. Ela está comigo e não larga. É a nota fiscal de um amor sincero que foi. Ou é. Sim, sim... Ele não morre com palavras esquentadas na frigideira da cólera. É preciso o tempo para matar.
Porém, este piadista de gosto duvidoso resolveu andar a passos vagarosos, só pra ver no que dá. E não dá. Eu a magoei. O que na hora parecia questão de vida ou morte, agora nem cabe na gaveta dos “fuleiros e desimportantes sentimentos”.
Ahora, solo mi riesta terminar essa garrafa de tequila com a Saudade. Essa bêbada desagradável vai dormir comigo nesta noite. E pra completar a putaria bacanesca da minha fracassada biografia amorosa, essa minha amante convidará sua parceira de imoralidade rampeira, a Esperança.
Se a amada se foi, fico aqui, nesse inglório ménage à trois com essas duas vadias.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Filosofia zecapagodiana

Um Abrir de Janelas
Hoje a Biblioteca abriu suas janelas. O dia amanheceu bem disposto de um vento frio e cálido. Por isso resolveram os coordenadores renunciar ao ar condicionado, e deixar que a brisa do dia novo climatizasse o espaço dos livros e de seus leitores.
As janelas abertas trouxeram do verde das praças os pássaros. Varavam o ar e entravam sutis. Mas depois de certo tempo já estavam fazendo ninho entre Shakespeare e Vinícius de Moraes, e alguns leitores já não mais conseguiam desperceber o eco que o canto dos vários espécimes entoava. Coroando o saguão, o som tinha a amplitude dos sinos de igrejas, mas não faziam doer os ouvidos e nem o juízo. Era um canto alegre e amanhecedor.
E em pouco tempo, os interesses de todos já não eram mais os livros e suas histórias, mas sim os pássaros e seus cantos. Enquanto isso, eu que já havia percebido e me encantado a tempo com aquela invasão mágica, percebi um movimento gracioso de calcanhares entre as primeiras prateleiras em que eu me encontrava.
Atento, encontrei, além de mais pássaros e ninhos, duas pessoas se segurando pelas mãos. Buscavam algo que na hora eu não compreenderia. Na frente ia uma menina, a qual parecia pertencer toda a decisão da busca. E quase pisando nos calcanhares da frente, um menino que parecia tão surpreendido com a caminhada, como os outros com os passarinhos.
O passo apressava-se, e cada prateleira deixada para trás era um adeus que davam ao mundo. E me escondendo no canto dos pássaros, que ecoava cada vez mais forte e tenso como passos a procura de sossego, eu os vi parar.
E pararam na última estante onde só poderiam ser visto por livros e por mim, que os via atrás dos livros de Ornitologia. Pararam e, logo, se encostaram num desejo invejável de paixão impossível. Os lábios se tocaram. E foi aí que eu vi literatura nos lábios alheios. Aquele beijo, entre tantos livros, me encheu de uma poesia única e imensa. Senti Federico Garcia Lorca dentro de mim. Antônio Maria pulsar nas minhas veias apaixonadas. As palavras do Gabriel Garcia Marquez nunca fizeram tanto sentido. Vinícius estava nas minhas mãos. E as letras do Chico Buarque passavam por meus olhos contando com palavras aquela história que eu via na minha frente.
Sim, amigos, eu vi literatura nos lábios alheios. Estarrecido, o beijo foi andando de volta. E eu continuei no cenário daquela ilusão que nunca me pareceu tão verdadeira. Aquele momento tomou-me durante todo o dia. E muita vezes me perguntei se os pássaros conspiraram para que aquele mar de palavras em forma de amor se materializasse a minha frente. Ou se teriam os amantes armado a visita dos pássaros, espalhando alpiste nas estantes, para despistar a atenção da burocracia arcaica que proíbe o beijo entre os livros, e eu apenas como um intruso de aventura alheia, tivesse encontrado literatura onde não haveria de ter. Não sei dizer mais. Não sei pensar muita coisa agora. Não sei quem são. E nem me lembraria a face se os visse de novo.
Só sei que aquele romance visto hoje de manhã não me abandonou a retina. E ao chegar em casa, corri à minha estante e tentei reviver tudo nos livros que tanto guardo. Tentativa infundada. As palavras, sim, eu compreendia melhor. Mas aquela efusão, aquela sensação parece ter virado ninho, e ido embora pela praça com o fechar das janelas.
Por André Cezar





