Querida,
*Apenas para evitar qualquer confusão ou algo do tipo, lembro que é uma ficção, povão. Tanto texto quanto fotos. Nada mais, cierto?

Sabe quando a gente perde a direção
Quando os amores já não são mais tão amáveis
E o que passou, desceu rasgando sem piedade
E você pensa, você jura
Nunca mais fazer o mesmo, nunca mais acreditar
E cada novo amor parece espelho do passado
Refletindo cada erro, repetindo cada cena
Sem pausar
E você quer seguir em frente
Reescrever a tua história
Outra vez, ainda mais
Mas te parece que os reflexos to passado
Viram fantasmas sempre prontos
Predispostos a tirar a sua paz
E cada um tem um palpite, uma receita milagrosa
Que te tire desse quarto escuro,
E te liberte dessa dor
Mas, de tudo que já ouvi
Nada mais duro e verdadeiro
Do que o que alguém
Essa semana me falou:
‘Ergue a cabeça, olha pra frente
Que o passado...
Esse... já passou.’
Tanta coisa aconteceu enquanto eu dormia
Mas agora abro a janela
E posso ver com clareza
Que já é dia.
Thaís Carvalho

A cada nosso encontro um pouco mais se expande,
Mais pra diante lança a sua última barreira,
O que sinto por ti, que é já bastante grande,
Tendo dimensões como coisa passageira.
Qualquer breve gesto que a circunstância mande,
Qualquer sorriso, qualquer simples brincadeira,
É já razão para que ele mais longe ande,
Mais abrangendo do que a forma derradeira.
Se uma hora acho não poder te amar além
Do que já amo, nem mais, nem com mais fervor,
Que o seu limite, essa minha emoção já tem,
Algo acontece, algo aparece em teu favor,
E o meu amor, em expansões constantes,
Mostra que me engano, sendo sempre mais que antes.
*José Danilo Rangel

Hoje a Biblioteca abriu suas janelas. O dia amanheceu bem disposto de um vento frio e cálido. Por isso resolveram os coordenadores renunciar ao ar condicionado, e deixar que a brisa do dia novo climatizasse o espaço dos livros e de seus leitores.
As janelas abertas trouxeram do verde das praças os pássaros. Varavam o ar e entravam sutis. Mas depois de certo tempo já estavam fazendo ninho entre Shakespeare e Vinícius de Moraes, e alguns leitores já não mais conseguiam desperceber o eco que o canto dos vários espécimes entoava. Coroando o saguão, o som tinha a amplitude dos sinos de igrejas, mas não faziam doer os ouvidos e nem o juízo. Era um canto alegre e amanhecedor.
E em pouco tempo, os interesses de todos já não eram mais os livros e suas histórias, mas sim os pássaros e seus cantos. Enquanto isso, eu que já havia percebido e me encantado a tempo com aquela invasão mágica, percebi um movimento gracioso de calcanhares entre as primeiras prateleiras em que eu me encontrava.
Atento, encontrei, além de mais pássaros e ninhos, duas pessoas se segurando pelas mãos. Buscavam algo que na hora eu não compreenderia. Na frente ia uma menina, a qual parecia pertencer toda a decisão da busca. E quase pisando nos calcanhares da frente, um menino que parecia tão surpreendido com a caminhada, como os outros com os passarinhos.
O passo apressava-se, e cada prateleira deixada para trás era um adeus que davam ao mundo. E me escondendo no canto dos pássaros, que ecoava cada vez mais forte e tenso como passos a procura de sossego, eu os vi parar.
E pararam na última estante onde só poderiam ser visto por livros e por mim, que os via atrás dos livros de Ornitologia. Pararam e, logo, se encostaram num desejo invejável de paixão impossível. Os lábios se tocaram. E foi aí que eu vi literatura nos lábios alheios. Aquele beijo, entre tantos livros, me encheu de uma poesia única e imensa. Senti Federico Garcia Lorca dentro de mim. Antônio Maria pulsar nas minhas veias apaixonadas. As palavras do Gabriel Garcia Marquez nunca fizeram tanto sentido. Vinícius estava nas minhas mãos. E as letras do Chico Buarque passavam por meus olhos contando com palavras aquela história que eu via na minha frente.
Sim, amigos, eu vi literatura nos lábios alheios. Estarrecido, o beijo foi andando de volta. E eu continuei no cenário daquela ilusão que nunca me pareceu tão verdadeira. Aquele momento tomou-me durante todo o dia. E muita vezes me perguntei se os pássaros conspiraram para que aquele mar de palavras em forma de amor se materializasse a minha frente. Ou se teriam os amantes armado a visita dos pássaros, espalhando alpiste nas estantes, para despistar a atenção da burocracia arcaica que proíbe o beijo entre os livros, e eu apenas como um intruso de aventura alheia, tivesse encontrado literatura onde não haveria de ter. Não sei dizer mais. Não sei pensar muita coisa agora. Não sei quem são. E nem me lembraria a face se os visse de novo.
Só sei que aquele romance visto hoje de manhã não me abandonou a retina. E ao chegar em casa, corri à minha estante e tentei reviver tudo nos livros que tanto guardo. Tentativa infundada. As palavras, sim, eu compreendia melhor. Mas aquela efusão, aquela sensação parece ter virado ninho, e ido embora pela praça com o fechar das janelas.
Por André Cezar
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