segunda-feira, 11 de julho de 2011

A obra prima

Tinha esfriado no final do dia. Corri pra casa e o encontrei como venho encontrando há meses: enfiado no livro. Guardei meu sorriso. Ele tinha me ligado à tarde dizendo que estava com saudade, perguntando o que estava fazendo, umas bobeirinhas assim que ele nunca tem o costume de fazer. Então eu corri pra casa e achei que a ligação e o frio iriam ajudar. Mas lá estava ele, enfiado no livro.

__ Acabou sua obra de arte?

Ele não levantou a cabeça, mas percebi que só então ele tinha se dado conta da minha presença. E respondeu entre dentes um “o que você acha?” bem mal humorado.

__ Quanto mais tempo você leva pra acabar esse livro, mais e mais ele vai acabando com a gente.

Ele suspirou. Fui pra cozinha, me sentindo a pessoa mais sozinha da face da terra. E é surreal se sentir sozinha quando se mora com alguém. Mas eu me sentia.
Vinha assim há meses. Eu entendia, ou tentava entender o máximo que eu podia. Tinha o livro, que era um objetivo pessoal que ele vinha perseguindo há anos, tinha o trabalho no banco, tinha os problemas familiares (o pai dele é uma “maravilha de pessoa”), enfim. E no meio disso tudo tinha eu. Sem família, sem grandes amigos, sem paciência pra pessoas. E tinha a gente, um relacionamento maravilhoso, a melhor conversa que já tive, o melhor sexo que já tive. E entre a gente, esse abismo.

Me perdi nos preparativos de uma sopa (pra um, os farelos de pão pela mesa me indicavam que ele havia comido) e ouvi o celular dele tocar lá do quarto. Conversa rápida, não mais que cinco minutos, e ele passou pela sala apressadamente avisando que estava de saída.

__ Vai onde? Aconteceu alguma coisa?
__ Não, só o Fábio que me ligou. Vou tomar uma cerveja.
__ Ah.
__ “Ah” o quê?
__ Nada. Só “ah”.

Tinha isso. Eu tinha tanta vergonha disso. Juro por Deus. Ele tinha todas as ocupações com o banco, o livro, a família. Ok. Quando se dava uma folga, ele escolhia qualquer pessoa do mundo pra estar. Menos eu. Deus, como isso me envergonhava.

Tomei minha sopa e me joguei na cama. “Chorei, chorei, até ficar com dó de mim”. Não vi quando chegou, só senti o cheiro pesado de álcool. Devia ser bem tarde. Ou já de manhã.

Acordei quase meio-dia e lá estava ele, imerso no processo criativo de acabar com o que eu sentia por ele. Jurei pra mim mesma nunca mais me envolver com artista bancário, de nenhuma área. Ou, se fosse o caso, me envolveria só com os músicos, porque eles pelo menos deixam claro que são cabeludos, safados e vão comer todo mundo e te fazer sofrer miseravelmente. Mas jamais me envolverei novamente com um poeta que finge ter sentimentos. Rolei na cama sem coragem e quando fui me levantar bati a perna nas costas dele sem querer. E instaurou-se o caos.

Ele me acusou de agressão. Disse que eu vinha agindo como adolescente, que não conseguia entender os processos dele, que ele tinha que cuidar da vida e que o arrastar da minha solidão pela casa não ajudava em nada. Que eu tinha que sair e arranjar umas amigas pra falar mal dele. De repente até arranjar um amante, quem sabe assim eu ficaria quieta e daria a ele o espaço que ele precisa. Disse mais uma série de coisas horríveis, que só de pensar me ruborizam a face de tanta vergonha. Eu me levantei sem chorar, sem vacilar, juntei minhas coisas numa bolsa de viagem e no momento em que pus os pés fora do prédio desabei. Chorei no meio da rua, e eu não chorava na frente de ninguém. O porteiro, seu Geraldo, ficou horrorizado. Quis chamar a ambulância, me levou pra dentro do quartinho dele, pediu pra esposa passar um café bem forte pra eu me recompor. E eu chorava copiosamente. Chorei copiosamente, na frente de estranhos, por umas duas horas.

A esposa do seu Geraldo, dona Bete, me deu um café fortíssimo e sentou do meu lado no sofá com uma cara de pena que me deu dó. Era magrinha, pequenininha, o ser humano mais frágil que já vi. Quase não ouvi sua voz quando ela me perguntou o que tinha acontecido. Hesitei, mas acabei contando como eu vi de mãos atadas meu relacionamento afundar. E de algum lugar no fundo daquela mulher frágil saiu um discurso tão duro e realista que senti vergonha. Não pelo que falei, mas por tudo que permiti que acontecesse nesses últimos meses.

Após uns dois dias a vida já tava voltando à normalidade, mas o discurso da dona Bete não saía da minha cabeça. E era justamente nisso que eu pensava quando ele me ligou. Pediu desculpas, disse que agiu feito idiota, que a casa não era a mesma sem mim, falou falou falou e eu chorei chorei chorei copiosa e silenciosamente. Disse a ele que passaria lá em alguns dias, pra quem sabe conversar, ou só pegar o que de mim restou por lá. E o fiz, naquela mesma tarde. Toquei a campainha algumas vezes, ele não atendeu, então entrei. Ele estava dormindo. No escritório, sobre a escrivaninha, o livro. Fui até a última folha e constatei que estava pronto.
Ateei fogo aos papéis. Tive o cuidado de ir até a cozinha, pegar um litro de álcool e derramar no computador, que obviamente também pegou fogo. Certamente ele teria aquele material no e-mail, mas só o fato de saber que aquilo dificultaria de alguma forma o trabalho e traria um prejuízo mínimo, me senti feliz. Me senti leve, como há muito não me sentia. Depois fui até o quarto, bati, abri um pouquinho a porta. Ele acordou com a luz no rosto.

__ Oi, amor.
__ Oi, meu bem. Sua obra de arte tá pegando fogo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Entre Datas




Eu nunca fui boa com números. Sempre demoro para decorar telefones, tenho dificuldade em conferir trocos, fazer contas ou ate mesmo decorar datas. Sério, já esqueci o aniversário de todos os membros da minha família. Não é de se espantar que eu sempre me confunda em nossa história. Afinal, qual foi o final de semana que ficamos pela primeira vez? Qual foi o dia do nosso primeiro beijo? Por quantas semanas ficamos juntos? Quando foi nossa primeira briga? Quantas brigas tivemos? As lembranças vão cada vez mais se misturando na minha cabeça, e muitas vezes eu não consigo me lembrar o que veio antes do que. Fico olhando o calendário e me perco em meio aos números.

Só lembro da nossa última vez. Da última vez que me beijou. Foi no seu quarto. Da última vez que dormi em sua casa. Estava frio, mas você não quis me abraçar. A última vez que segurou a minha mão. Já era noite e pegávamos o ônibus. A última vez que me procurou. Estava inquieto e iamos sair. A última vez que me fez raiva. Almoçavamos. E sei exatamente por quantos dias estamos separados. Isso, eu não preciso nem contar nos dedos. Essa é a unica conta que eu não me perco. Não esqueço, por mais que queira, a data do nosso fim.

A verdade é que eu guardei todas as nossas despedidas. Fico cuidando delas porque é a única coisa que me restou. Quando elas começarem a desaparecer, quer dizer que acabou. E eu não sei se já estou pronta para superar você.

sábado, 2 de julho de 2011

O primeiro beijo - o último encontro

Era a quarta série e você deve ter sido o meu primeiro melhor amigo. Tínhamos uma amizade delicada: você se sentava à minha frente, trocávamos lápis de cor e dividíamos o lanche. Você, inclusive, me deixava cuidar do seu “tamagotchi”, até eu ter o meu e a gente cuidar do “filhotinho” um do outro. Posso dizer que era amor do nosso jeito? Na quinta série, veio uma vontade inexplicável de te beijar. E foi na saída de uma aula qualquer, na garagem da escola, que nossos lábios se tocaram e, antes mesmo que abríssemos os olhos, eu – logo eu - te pedi em namoro e você aceitou.

O caminho daquele Colégio Meta I até o escritório do meu pai, de repente, ficou muito estranho. Eu fiz uma caminhada saltitante, leve e, ao mesmo tempo, cheia de medo: será que estava escrito na minha testa que eu acabara de dar o meu primeiro beijo e tinha agora um namorado? Qualquer reação podia ser suspeita... A tarde foi longa, muito longa, muito, muito, muito longa, longa o suficiente para eu chorar perdidamente e me arrepender do pedido que fizera. Me arrependi a ponto de inventar uma mentira e ligar para minha melhor amiga de então – que tinha acompanhado tudo, desde a minha decisão até o fato consumado – e pedir para que ela desse um recado a você: o namoro estava cancelado. Inventei que tinha recebido uma mensagem do além dizendo que aquilo não podia continuar, que estava tudo errado e que um dia nós iríamos entender. Afinal, era a quinta-série, e eu lá sabia o que significava estar namorando, só sabia que não estava pronta praquilo e nem tinha jeito para explicar.

Naquela aula seguinte eu poderia ter fingido uma dor de barriga, forçado algum vômito ou ter paralisado o pé e ficado em casa. Mas não: eu encarei o mundo. Na escola, todos já sabiam do nosso beijo e você passou por mim com um ar boçal que eu nunca tinha conhecido, acompanhado por todos aqueles garotos bobos e idiotas. Minha amiga ficou de dar o recado, mas não conseguia; você, afinal, não queria ouvir a ninguém, apenas curtir o seu momento. Eu fiquei na minha...

Quando a minha amiga te contou que eu não queria mais namorá-lo, você ficou puto e mandou me dizer para nunca mais olhar na sua cara. Exatamente assim. Senti um alívio estranho. Afinal, não estava mais namorando, mas, também, acabava de perder o meu primeiro melhor amigo. De qualquer forma, meu coração ficou tranqüilo, como se soubesse que te guardaria sem dor. Não estudávamos mais juntos e você passou para o turno da tarde. Desde então, nunca mais nos falamos nem nos vimos. E a vida foi passando... (assim como outros beijos e namoros iniciados e inexplicavelmente mal-acabados...)

Cerca de 12 anos depois, é num almoço rotineiro lá no O Paço, que eu te vejo. De blusa listrada, boné escondendo os cabelos lisos que caíam sobre os teus olhos (eu os achava tão lindo: os cabelos e os olhos...). E você ainda de aparelho nos dentes! Você chegou com uma garota loira, de cabelos cacheados, que talvez seja a sua namorada ou qualquer outra coisa. Mas, eu ainda poderia olhar na sua cara?! Eu sei que você me viu, mas eu virei o rosto sabe-se lá por quê. Talvez você nem me reconhecesse. Talvez você percebesse que eu já fui mais bonita ou notasse o quanto meus seios cresceram. Mas eu não poderia sair dalí sem alguma certeza, e sem te mostrar que ainda lembro.

Esperei os nossos olhos se cruzarem mais uma vez e, quando menos esperei, você piscou com um dos seus olhos castanhos e deu um sorriso discreto com o canto da boca. Não seria mentira e muito menos exagero dizer que foi um momento pleno e singelo onde tudo à volta congela e desaparece. Eu queria poder te contar do que eu não esqueci. E da leveza que o seu sorriso e aquele seu olhar (que, eu sei, viram também uma história) me proporcionaram naquele momento.

Eu fiquei com um sorriso bobo, revivendo coisas e imaginando outras... Foi então, que meu irmão fez alguma piada comentando que eu estava rindo sozinha. Sim, eu estava, afinal: lembrar do nosso primeiro beijo – que foi também o nosso último encontro - é sempre bom. Agora, poder lembrar também do nosso mais novo último encontro, será melhor ainda.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Eis que tudo se fez verbo

Já não sei o que sinto,
Mas sinto lá dentro, nas entranhas do peito,
Aperto sem jeito, me leva pra outro lugar.
Que fazes a voltar nesse caminho sem retorno?
De alegrias melancólicas, de palavra sem lugar.

Ai que dor me dá,
Sentir sem o verbo amar,
Sarar sem remédio ter
E viver sem recordação guardar.

sábado, 18 de junho de 2011

Amor*

Neruda diz que dois amantes felizes não tem fim nem morte. Gandhi diz que ele tolera e Camões que ele é um fogo que arde sem se ver. Nietzsche diz que aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.Fernando Pessoa diz que o amor romântico é como um traje. Maiakóvski desconfia que onde tudo é aceito há falta de amor.Abel Bonnard diz que o amor pode morrer na verdade.Tolstoi diz que o amor começa quando uma pessoa se sente só e para Baudeleire ele lhe irrita por ser um crime de cúmplices.Russell diz que temer o amor é temer a vida. François La Rochefoucauld diz que o amor nós faz cometer os erros mais ridículos.Veríssimo que o oposto do amor é a indiferença.Tchekhov diz que o amor mostra ao homem como ele deveria ser sempre.

Einstein diz que só o amor socorre por dentro e Lord Byron que ele é uma coisa a parte. Balzac diz que ele é a poesia dos sentidos e Jabor completa dizendo que é sexo e prosa também. Carl Jung diz que onde ele impera não há desejo de poder e Gandhi rebate dizendo que o amor é a força mais sutil do mundo. Goethe diz que o amor é uma das grandes asas do espírito, uma grande façanha. Walter Scott diz que o amor é um viajante,Pascal diz que ele é cego e Pessoa que é um sonho.

Nietzsche diz que ele revela a qualidade dos sublimes e Schopenhauer que ele compensa a morte. Já Camilo Castelo Branco diz que é condição de felicidade. Samuel Johnson acha que ele é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios e só tal loucura permitira Stendhal dizer que o amor é uma bela flor à beira do precipício...

eu o acho infinito...

*Texto da Gabriela Oliveira do blog Minha Antena Parabólica

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Quem tem medo do dia dos namorados?

É sempre a mesma história. Você, caro leitor e membro dessa Confraria, já deve ter ouvido impropérios semelhantes por aí. Chega o dia dos namorados e somos bombardeados de solteiros pregando o quanto é maravilhoso ser solteiro e que casal dá ânsia de vômito. De outro giro, também somos bombardeados de pessoas que amam e são EXTREMAMENTE felizes porque amam, mas de uma felicidade que chega a incomodar. E obviamente essas pessoas acham que os solteiros felizes são na verdade frustrados e recalcados que nunca descobriram o amor.

Eu, do alto da minha felicidade normal de ter alguém pra compartilhar o mel e o suor da vida, prefiro ser nem tanto ao céu nem tanto à terra. Porque, olha só, já fui adolescente. Já amei de maneira doentia e incômoda. Tenho a absoluta certeza que devo ter incomodado alguém com a minha felicidade transbordante e delirante de ter um namorado pra quem dar um presente no famigerado dia 12 de junho.

Também já fui a solteira feliz que pregava aos quatro ventos que era uma maravilha fazer sexo com qualquer ser vivente que eu tivesse desejo, que era uma maravilha não estar obrigada a gastar dinheiro em uma dia criado pelo comércio pra se aproveitar dos apaixonados ridículos e tudo isso aí.

O fato é que o tempo e todas as cicatrizes que acumulei nos últimos 27 anos me ensinaram uma porrada de coisa, que tento aplicar não só no meu relacionamento com a persona grata, mas em todos os relacionamentos que eu tenho. Sabe como? Família, emprego, amigos e tal. O lance mesmo é achar o ponto de equilíbrio e levar a vida como se estivesse vivendo de amor e brisa.

Porque amar é legal, é legal pacaralho. Quando é normal. Quando ninguém se consome, quando o excesso não vira o todo. Quando a gente consegue amar a persona grata mas também ter um trabalho, e ter amigos pra beber nos fins de semana. E quando você menina-moça não fica perturbando a paciência alheia postando fotos e musiquinhas e coisas rosadas sobre você e seu "mozão". Se eu te contar que perfis únicos nas redes sociais pra você e seu "mozão" não são legais, cê vai acreditar? Vai não? Houston, we have a problem. Se você trabalha na mesa ao lado e liga pro seu namorado de dez em dez minutos pra saber o que ele anda fazendo, e usa voz infantil em público, WE HAVE A HUGE PROBLEM. Não quero saber o que seu namorado almoçou. Tampouco preciso saber se estava gostoso.

Por outro lado, não amar pode ser legal, mas assume: tem hora que faz uma falta. E nem vem dizer que é o ápice da liberdade poder transar com todo mundo. Primeiro porque eu tenho certeza que você, solteiro profissional, não transa todos os dias com pessoas diferentes. Tem casal que transa todo dia. E uma transa diferente todo dia. Esse papo de sexo de casal que é chato e tal é meio caído. Que todo casal morre na rotina também é meio caído. Até porque rotina, te garanto, não é esse bicho papão que cêis pensam não. Tem coisa mais deliciosa que conhecer tão bem a persona grata a ponto de poder surpreendê-la num estalar de dedos? Tem não. E esse é o tipo de coisa que a rotina proporciona. Conheço casais que têm tanto medo da rotina que sequer suportam estar a sós. E isso não é legal.

Olha, me perdi. Voltando aos solteiros profissionais: você pode, de fato, ser feliz sem um namorado. Você pode, claro, achar um nojo aqueles casais absurdamente felizes. Eu também acho. Mas você não precisa maldizer o amor e todos os namorados do mundo. Porque tem gente normal, sabe? Gente que mora junto e tenta tirar o bom e eliminar o ruim da rotina. Gente que não mora junto e não se fala todo dia.Tem gente, EU JURO PROCÊ, que não faz idéia do que o namorado almoçou.

E o dia dos namorados taí, é um fato. Eu não costumo dar presentes e nem receber. Italo Rocha me fez um quadro uma vez. Eu escrevi pra ele o texto mais bonito e sincero que já tive capacidade. São lembranças. Pequenos gestos que dizem apenas "oi, lembrei de você, porque amo você". Ninguém precisa de rosas caindo de um helicóptero ou carro de som com música da Celine Dion pra provar que ama. Isso, de fato, é um exercício diário. Mas você não precisa ser coração gelado e fingir que não dá pra fazer uma coisinha bacaninha a dois.

E, uma dica: as operadoras de telefonia sempre têm promoções ótimas essa época do ano. Até se você for solteiro dá pra aproveitar. Então sai do cercadinho se joga nos smartphones em promoção, boba.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pedras no peito

Em um quarto vazio.
A chuva caindo como que querendo anunciar o presságio de algo ruim. A mal-iluminação, a situação e o aperto no peito.
Mesmo que conseguisse afastar aquele peso, não saberia se era o melhor a se fazer.
Alguns de seus velhos cadernos - há muito tempo evitara escrever, afinal, isso só aumentava seu estado de torpor - achados, espalhados á sua frente, todos preenchidos com escritas mal organizadas, desenhos sem sentido e riscos rústicos.
A velha caneta - e a tinta que parecia nunca acabar - tudo encontrado no mesmo lugar, como se tivesse encontrando a paz que parecia sempre querer fugir de sua vida.
Se você esforçar-se somente um pouco e repousa-se sobre a pequena seus olhos, notaria o seu semblante sombrio. Enxergaria seu quase imperceptível desespero gritante.
Ela queria se livrar de tudo aquilo e nunca conseguiu, não consegue e provavelmente não conseguirá.
Suas mãos, trêmulas, vasculhavam seus cadernos á procura de folhas em branco, e quando as encontrou começou o seu discurso sem hesitação:

Hoje, eu morri novamente
Com o toque das
minhas pálpebras
Com o suspiro e a respiração
que somente existem para lágrimas.
As lamúrias constavam mais de mil anos
em meu apodrecido peito.
Eu quis novamente viver
E o custo da escolha foi o meu retorno ás origens...
Aquelas que me separei e mandei embora.
Meu sentir - já tão debilitado - Outra vez ajoelha-se implorando
á mim para sua extinção.
Toco uma última vez na face dessa
desordem
e a deixo á mercê de suas próprias displicências.
Adequa-se á outra - maldita -
não existe mais apego em mim
E eu continuo debruçando sobre meu caos melancólico.
Sobreviverei.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Manual da nova vida solitária

Primeira parte.

"Eu passei na frente do prédio dela / Mas pensei: eu nunca vou por aqui / Fiquei feliz em só passar na frente do prédio dela / I just believe in love"

Funciona assim: um dia você decide que já deu e resolve mudar; de emprego, de ideal, de projeto acadêmico, de localidade. Você acha que assim, e com algum esforço, também vai conseguir tirar o ser sobrehumano colado no peito. Pode até ser. Mas lembre-se de evitar as bandas da sua antiga localidade. Eu, por exemplo, não gostava da Filomedusa quando morava em Rio Branco... Bastou ouvir uma única vez, agora que estou longe e não posso ver de perto vez em quando, pra resolver que é a melhor banda no arquivo do meu iPod. Por que? Algumas letras imitam a vida. Ou o contrário.

"Fiquei feliz em só passar na frente do prédio dele" [leve adaptação].

domingo, 15 de maio de 2011

eu esperei


Eu esperei pelo seu beijo. Logo eu que nunca fui de esperar por nada nem ninguém. Sempre tão decidida com aquilo que queria ou deixava de querer. Sempre ação e não reação. Mas por você eu esperei. Por um sinal, qualquer tipo que fosse, que mostrasse que você se importava, que estava ali para mim. Mas nada. Então eu esperei. Esperei que você tocasse a minha mão. Esperei que me sussurrasse algo no ouvido. Esperei que não fosse embora. Esperei que você me pedisse para ficar. Esperei, e ainda estou a esperar. E acredite, eu me odeio por isso.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A maior qualidade do homem

“Nada se cria, tudo se copia ”*, foi o jeito chacrinha que encontrei para dar inicio a essa peleja com as letras, mas explico isso depois, porque o tema proposto hoje é: pra você, donzela, qual a maior qualidade do homem? Sim, aquela sem a qual você se faria de cega, surda e muda e não cederia uma bolinha de gude ao pretendente?


Já ouvimos de tudo a esse respeito, de máximas como “homem tem que ser homem” e “compreensão é essencial” até constatações capitalistas do gênero “elas gostam mesmo é de dinheiro”.

Claro, leitores! É óbvio que uma qualidade só não faz verão, quiçá um relacionamento duradouro, mas insistimos na nossa mania de classificar tudo e colocar no pódio para um banho de champagne, ou seja, queremos saber qual o primeiro atributo que vem à cabeça das muchachas ao pensarem o príncipe encantado, ou, em outras palavras, de onde vem esse encantamento?

Pedimos licença ao tão badalado conhecedor da mente humana, Freud, para atualizar, ou tentar por outros meios responder a pergunta: “Afinal, o que querem as mulheres?” – classifique, elejam, comentem – depois confiram o resultado. O texto é curto e acaba aqui, segue a explicação do asterisco.

* “O grã-mestre @xicosa propôs, em seu novo blog, a eleição do maior bandido vivo do Brasil, e o plagiador de plantão, sempre atento às variações para o blog dos românticos, no caso eu, quer saber das leitoras desse blog por todo o Brasil (usamos o Google Analytics) “Qual a maior qualidade do homem?”Comentem! E desde já, gracias!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uísque

__ Isso não está mais dando certo. Acho melhor cada um seguir seu rumo.
__ Do que você está falando, criatura, posso saber?
__ A gente. Isso. Não dá mais. Preciso de ar.
__ Amor, eu...
__ Tchau. A gente se vê.

Foi assim que ele terminou comigo. Por torpedo. Depois de dois anos, três meses e alguns dias de um namoro perfeito com o namorado perfeito. Ele terminou comigo assim. Do mesmo jeito que começou...assim.

Nos conhecemos numa festa de um pessoal que fazia cinema experimental. Logo no começo ele disse que odiava aquilo, essas festas com esse pessoal que faz essas coisas alternativas, mas o irmão dele era metido a intelectual que usa seda javanesa, e também era menor de idade, então ele tinha que acompanhá-lo por todos os cantos. Conversamos bastante, ele era divertido de um jeito fino e ácido, como eu sempre gostei, e tinha a língua ligeiramente presa [um charme, diga-se de passagem]. Dado momento a cerveja acabou, o cigarro também, ou seja, a festa teve seu fim prematuro decretado, ele meio que me seqüestrou [e ao irmão, que estava se atracando com uma senhora que fazia uma ponta num dos filmes] e fomos parar num bar que eu não conhecia, escondido no centro da cidade. Lá, música alta, fumaça, uma jukebox e um barman imenso que não foi com a minha cara desde o primeiro dia. Sentamos ao balcão e ele pediu uísque para nós dois e coca com gelo para o irmão, que se recusou a beber o líquido imperialista e ficou na água de torneira.

O uísque veio puro. Ele dizia ser absurdo deixar o uísque curtindo doze anos no carvalho pra se jogar gelo, água, energético ou refrigerante naquele líquido abençoado. Eu, como nunca havia bebido uísque na vida, não pude perceber a diferença. Ele também disse que nunca havia se embriagado com uísque puro. Eu acreditei, não só porque a maconha fazia efeito, mas porque ele era o ser mais incrivelmente incrível que eu já conheci e eu queria muito, muito, muito mesmo que ele ficasse impressionado comigo.

Saímos do bar já era madrugada alta, voltamos caminhando até minha casa, ele me beijou no portão, disse que gostou de mim, no dia seguinte pediu minha mão em namoro pra minha mãe conservadora e dois anos, três meses e alguns dias depois ele terminou comigo. Por torpedo.

Custou até eu entender o que acontecia, porque ele era perfeito e jamais me machucaria. Eu ainda achei que ele precisava de espaço, como nos filmes bregas, e fiquei inventando desculpas para a atitude irracional dele. Não fazia sentido. Até que eu conheci a cantora-performática-que-parece-paquita. Aí, tudo fez sentido.

Porque ele me trocou por ela. Numa dessas festas ridículas que o irmão dele freqüentava, ele conheceu esse ser de cabelo amarelo e bota branca, uma perfeita barbie boliviana, e se encantou com ela e desencantou comigo. Ele não atentou para o fato de que ela se vestia como paquita, ou era desafinada, ou tentava bancar a alternativa-maníaca-sexual. Ele só se encantou com ela e terminou comigo.

Dias depois fui a um show da banda-alternativa-perfomática-de-garagem da barbie fajuta. No mesmo bar onde ele me levou a primeira vez. Pedi uísque sem gelo e o barman que me odiava mal me olhou, jogando dois icebergs no meu copo. Quando olhei para o palco pude vê-lo ao lado, um perfeito tiete, com seu all star estúpido desamarrado. Tentei a todo custo não chamar a atenção dele, mas quando ela começou a cantar eu comecei a vaiar. E ele me viu. E eu quis mostrar a ele que eu não o amava mais, e que se ele não terminasse comigo eu ia terminar de qualquer jeito.

Daí ele fez que não me viu. E eu fiz que não o vi. E pedi mais uísque. E ele voltou a olhar pra ela, que cantava olhando pra mim, enquanto eu olhava com ódio para os blocos de gelo boiando no copo. A canção acabou e eles se beijaram. E eu passei a odiá-lo mais que aos pobres gelinhos que já se derretiam.

A essa altura eu já estava no terceiro uísque [com gelo], amaldiçoando todas as formas de vida humana, especialmente as deploráveis. Ele chegou com seu jeitinho de cão sarnento e eu só conseguia pensar em socá-lo repetidamente. Eu só pensava em deixar clara a mentira que eu tentava pregar, eu queria fazê-lo acreditar que eu não me importava mais, ouviu bem? EU NÃO DOU A MÍNIMA. Na minha humilde opinião de espectadora ele podia abandonar a vida de merda que a gente construiu junto pra viver seu conto de fada às avessas com aquela bruxa mascarada que fazia as vezes de princesa do reino encantado do caralho a quatro. E quando ele se chegou, tão manso, eu pensei com todas as minhas forças no quão agradável seria se ele morresse bem ali, naquele exato momento e com bastante dor, para ficar retido no inconsciente da minha memória para os dias vindouros e menos divertidos. Julguei ter pensado alto, pois ele se abaixou de repente, mas era só pra amarrar os cadarços de seu all star estúpido. Droga, eu adorava o jeito estúpido dele amarrar cadarços.

Pedi mais um uísque ao homem imenso atrás do balcão, que me olhou do alto com seus bigodes de morsa e me pediu pra segurar a onda, ao que retruquei perguntando idiotamente se ele já havia sido abandonado pelo cara-mais-que-perfeito-que-ele-amava-desesperadamente. Ele sorriu condescendente e me ofereceu água, enquanto o outro, o idiota do all star, andou até o palco e abraçou sua nova-namorada-maravilha-de-pessoa-e-cantora-performática. E foi a vez dela vir até mim, eu tenho cara de ímã ou o quê, ora porra?! Ela veio gingando na sua bota branca estúpida de assistente de palco de apresentadora loura de programa infantil, como eu queria socá-la também, bater nela com aquela bota branca estúpida que ela usava, ela me perguntou se eu gostei do show e eu pensei "vê se morre", mas dessa vez pensei em voz alta e ela ouviu, porque eu não pensei e sim gritei, ela deu um passo para trás com cara de virgem que descobre o que é o verdadeiro sacrifício, pobre vítima. Ele puxou meu braço, isso-não-é-coisa-que-se-diga-ora-bolas, mandei todos para o inferno e fui atrás de outro bar. Consegui uísque sem gelo e fiquei ouvindo Air Supply. Desabei no choro. A culpa não era do uísque, nem do Air Supply. A culpa era do gelo, eu tenho certeza.

Uísque com gelo e cigarro e música alta e músicos bêbados e ripongas sujos e aquela boneca barbie fajuta com sua bota branca de paquita, tudo aquilo voltou com violência tamanha quando cheguei em casa. Air Supply continuava bombeando meu cérebro, como pode uma música ser tão ruim e ao mesmo tempo tão tocante? Nunca tinha me embriagado àquele estado. E não, não era culpa dele, do meu ex-namorado perfeito que de tão perfeito me trocou por alguém mais perfeita que ele, a barbie de cabelo amarelo e bota branca. Eu estava convicta que a culpa era do gelo.

Vomitar não é glamouroso, aposto que a assistente de palco da Angélica não vomita, nem tem gases, nem arrota, nem faz metade das coisas que fiz nessa noite longa, perdida e suja. Mas duvido que ela sinta metade das coisas que sinto agora, duvido que ela sinta esse amor, ainda essa vergonha, ainda essa tontura que não é de embriguez mas de encantamento diante daquele ser de all star estúpido com os cadarços infantilmente desamarrados. Duvido que ela já tenha rodado bares e bares só pra não ter que encarar a solidão de um quarto agora desocupado.

Também duvido que ela use palavras tão bonitas pra justificar uma bebedeira. Eu não existo, sou uma farsa.

Passei uns dias em casa curtindo o escuro e o silêncio, sem pensar em all star, uísque ou botas brancas. Me sentia um tanto ridícula depois do ocorrido em metade dos bares bem freqüentados da cidade [os mal freqüentados não me preocupavam]. Tinha aquela vontadezinha fajuta de ligar pra ele, de pedir desculpa, mas logo vinha a vontadezona de bater nele todo de uma vez só, pra economizar força e poder cuidar dele quando ele estivesse bastante machucado. Não sabia exatamente o que eu queria fazer, por ora só queria estar ali, no escuro. Assim ninguém me via chorar.

Depois de quase um mês sem notícia, dei de cara com ele em uma festa alternativa, daquelas que ele dizia odiar mas passara a freqüentar por causa da namorada-barbie-cantora-performática. Ela não usava sua bota estúpida desta vez, mas um penteado à moda 80 que me deu tanta pena que sequer consegui rir. Ele veio ter comigo e disse coisas simpáticas que ex-namorados dizem a suas ex-namoradas psicóticas, eu ouvi metade do que ele falou sem prestar atenção verdadeiramente. O som alto me incomodava tanto que eu tive de sair dali, e urgentemente.

O casal também não ficou na festa muito tempo. Eles foram caminhando pela rua mal iluminada, de mãos dadas e sem pressa, em direção à casa dele, que não era distante. Havia muita intimidade ali, muito conhecer um do outro, e eu inflei de ódio, porque eu já tinha visto aquela cena antes, aquele caminhar noturno, lembrei do nosso primeiro beijo no meu portão. Avancei com o carro sobre eles, atropelando meu ex-namorado perfeito, sendo que a última recordação que tenho era do all star dele voando após o impacto. Aumentei o volume do som, tocava Bob Dylan na rádio, dirigi até o bar mais próximo e pedi um uísque duplo. Sem gelo.

sábado, 23 de abril de 2011

Ovo de Páscoa sabor Blues Boy

Ou o famoso: quem não tem cão caça com gato

Depois que você sai de um relacionamento relativamente longo, seguido de um outro também relativamente longo, daqueles em que você comete a imaturidade de se distanciar – de forma natural e espontânea – de seus coleguinhas da infância, dos vizinhos e até dos familiares, em troca de dias e momentos inteirinhos e exclusivos ao lado do seu amorzinho, do seu xuxu lindo, do seu docinho de coco, neném - e por aí vai - você se desfaz de certa habilidade e jeito para vivenciar – e enfrentar - algumas datas comemorativas e feriados prolongados.

Chocolate tem gordura trans
Natal, Ano Novo, Carnaval, aniversário e até a Páscoa ficam meio sem nexo e precisando de um roteiro pré-estabelecido muito bem pensado. Para quem você vai dar aquele ovo de páscoa que você mesmo tanto deseja comer? Aliás, quem vai te dar o seu chocolate preferido? Com quem você vai se jogar debaixo dum edredom, tomando aquele chocolate quente ou degustando aquele crocante ao leite, vendo um filminho? Com quem você vai aproveitar os dias sem trabalho e escalar uma montanha, andar de carro por aí ouvindo uma música legal ou apenas caminhar na beira do rio? Pois é...

B.B.King: consumo sem moderação
Meus caros amigos e amores. Aproveitando que chocolate tem gordura trans e que o mar não tá pra peixe, nesta páscoa, eu resolvi dizer não ao capitalismo selvagem, às tentações dos brinquedos surpresas e das camadas duplas de chocolate e me dar um CD do B.B.King de presente, declarando, sim, o meu amor ao blues e ao velho e bom rock, algo que realmente alimenta alma e espírito, não causa celulite, pode ser consumido solitariamente, às escondidas, moderadamente ou não, sem nenhuma conseqüência ou culpa. Nada de Sonho de Valsa, Ouro Branco, Bis Branco, Ferreiro Rocher, Cacau Show Trufa, Canudo Recheado da Kopenhagen... Nesta páscoa, eu fico aqui degustando solos de guitarra que vão sim me conquistar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O bar e seus debates

ou o Manifesto pelo Vale-Boteco


Dia desses estava aqui, frustrado, pensativo na razão do sumiço de pautas sobre romances, relações, besos arretados, dentre outras safadezas cordiais que compõem o meu catálogo de assuntos abordados nesta Confraria. Nessa cabeça y corazón, num passe de mágica para os otimistas e num revés de azar para os realistas, me vi sem nada para contar.

“Cadê tu, inspiração?!”, pergunto e incorporo o escritor-mequetrefe metido a ter bloqueios criativos. Balela, amigos y amigas. Bastou uma análise mais sincera, uma crítica menos regada de auto-piedade para enxergar o que se fazia óbvio. Há tempos não visitava os meus mosteiros de pensamentos românticos: os botecos pés-sujos.

Vejam que cheguei a culpar o excesso de trabalho ou a temporada de enamoro que vivi. “Bullshit!”, diria o xerife do velho-oeste após desferir uma cuspida de asco e tomar de uma lapada só a sua tequila no Saloon. Nada disso é causa pra tal escafedo. A culpa era do intervalo de jogos de futebol na televisão, razão para que todos os domingos e algumas quartas-feiras, quintas-feiras e sábados, batesse meu cartão de ponto no Bar do Papagaio ou Bar dos Papudos.

Lá, naquelas mesas com cadeiras de plástico desbotado ou de ferro comidas de ferrugem – quando não é um tamborete – escuto e desabafo sobre as mujeres e suas façanhas, juntamente com meus comparsas e os entrosados que sentam nas adjacências, porém, nem por isso, inibidos em se achegarem nos debates.

É lá, mirando se a breja vem com a aparência de uma canela-de-pedreiro (abre-se parêntese para explicar que não se trata de um termo pejorativo, mas sim uma justa homenagem aos trabalhadores que edificam nossas casas), que o sujeito é obrigado a desempenhar os papéis de conselheiro e de aconselhado. Relembra os feitos e as derrotas, e com elas aprendem.

É lá, inclinando o copo para evitar a espuma indesejada, que o cabra se sente confortável em expor os chifres próprios e alheios, as conquistas, a cantada de canalha revisada e atualizada, a mais nova piada sobre o amigo que não sai mais de casa sem o alvará da patroa lavrado em cartório. É o divã etílico.

Para tal liberdade, confesso, nossas protagonistas não podem se fazer presentes. Nessas horas, os hombres são acanhados perante um rabo de saia. É preciso que sejam pessoas do mesmo gênero, para que a palestra sobre fêmeas seja irrestrita. De preferências, amigos que joguem no mesmo time na pelada de sábado. Assim existe confiança.

Espero que com esse relato, possa esclarecer a importância que o boteco pé-sujo de estimação tem na vida do seu cônjuge, minha cara leitora. Relaxe a pena, emita um habeas corpus e ‘copus’, e libere o seu amado. De lá, sairá a próxima artimanha do cidadão para te agradar. É preciso ter fé no seu taco, senhora.

E assim desfecho o Manifesto pelo Vale-Boteco com a reflexão conflituosa por ser canastra e sincera de uma vez só: Mais vale um sujeito que freqüenta o botequim e por isso é ajuizado de como ameigar a própria cara metade do que um prisioneiro que mete as mãos pelos pés na hora do afago com a patroa.

sábado, 9 de abril de 2011

Carnal


“Não é chato quando você é trocada por uma salada de rúcula??????”, desabafa no Twitter, o divã eletrônico da hora, a amiga Eliza. Não duvidem da seqüência de seis interrogações utilizadas com sabedoria.

A questão é digna de intrigar até mesmo o mais xiita dos ativistas eco-chatos. Quando foi que a alimentação verde se tornou mais importante que o ato sacro de chamar na chincha?!

¡Preocupemos-nos, confrades!

Prontamente indignado, meti meu bedelho no drama da minha cara nipo-querida. Taquei um “reply” – para manter o glossário internenglês da ferramenta – solidário ao episódio, do qual já passei semelhante: “Todo ano acontece comigo. É porque sou muito de relações carnais. E esse povo é meio vegan no amor”.

O amor é feito de carne. Peço licença aos legumes e verduras, mas estou com o escritor-mestre, Gabriel García Márquez, detentor de mais de cem anos de artimanha pura, e não abro. O colombiano decretou: “Não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.”. Romantismo não piegas roots na veia.

É hora de darmos um basta, sociedade. Faço questão de carne e derivados nos meus amores. Em algumas horas, prefiro relações mal-passadas. Depois opto pelos afetos ao ponto. Quero beijos ao molho madeira. Faço questão da minha cama na brasa.

Parafraseando o grande astro renegado, Wilson Simonal, “nem vem que não tem” defensores verdes. Peço o perdão vegetariano, pero yo no abro mão do sabor das coxas, maminhas, orelhas, línguas, lábios...

Devemos aloprar aos quatro cantos: Si no hay carne, yo soy contra! Não que devamos acabar com os vegetais na dieta. Sem fundamentalismos carnívoros. Venho aqui fazer uma proposta. Criemos uma edição extra do festival da carne que, não por acaso, chama-se carnaval.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

hoje eu quero



eu sinto saudades na hora errada. estou lembrando de você me abraçando no meio da calçada, decidindo se valia a pena arriscar sua reputação com um beijo na hora errada, no lugar errado e na frente de quem não deveria ver nada. ainda bem que o táxi chegou para te salvar, porque sinceramente eu não me importava com nada daquilo. foi você quem fez eu me importar, bem depois. mas eu não deveria estar lembrando de você agora, porque afinal de contas, fui eu que te deixei ir. fui eu que fiquei com medo. e fui eu que me afastei. eu não deveria sentir saudades, principalmente agora que comecei tudo de novo. mas é sempre assim. estou sempre de olho no que não está mais na minha frente. com você também foi assim. lembro que na época estava preocupado demais pensando se já tinha esquecido ele. e sabe que até hoje não encontrei a resposta dessa pergunta, acho que ainda sinto saudades. de vez enquanto. ainda espero ele me mandar um carta, um e-mail, um telefonema ou uma mensagem de fogo. essa semana percebi que havia perdido o papel onde tinha anotado o numero dele, eu sabia que deveria ter passado pro celular, mas não queria mexer naquilo e agora foi embora. acho que nunca mais terei noticias dele, mas ainda sinto falta. e sinto falta de você. e fico surpreso como você sumiu. antes te via em todos os lugares e agora fazem meses que nem ouço noticias. tenho vergonha de perguntar por aí, afinal, fui eu que não quis mais e você respeitou. mas é que de vez em quando eu ainda quero. como hoje.

domingo, 3 de abril de 2011

A dúvida


A criança de 10 anos, moderna e equipada de seu playstation 10, dispara a pergunta: “Ei, como faço para conquistar uma garota?” E o adulto bobalhão responde: “bom, comece conversando coisas interessantes e se aproxime da menina aos poucos...”


Ufa! Ainda bem que o impulso da maioria das crianças é desobediente o suficiente para não cair nessa. O grande barato do amor-infante é a originalidade e a pureza do gostar. Sim, acredite adulto-corrompido, um simples enlaçar de mãos, na paixão das crianças é a verdadeira conquista do Everest!

E melhor, eles não precisam de cerimônias ou adaptações sociais para despertar seus sentimentos mais sublimes. Desconsiderando o fato de que há um verdadeiro abismo entre meninos e meninas no quesito maturidade, é nessa idade, no comecinho da vida, que é despertado dentro de cada um, a poesia e o romantismo.


Nesse caso, acendo a centelha da guerra dos sexos: o meninos estão no lucro! A demora da visita dessa tão chata, porém necessária maturidade, dá aos garotos um tempo maior de vida sem preocupações desnecessárias ou fobia da decepção.

Portanto, aos adultos a reflexão: que resposta daria à pergunta do início? Só não valem as opiniões chatas e burocráticas que fomos acumulando ao longo da vida... Da próxima vez, calo-me, afinal, não é a toa que passamos o resto da vida lamentando a despedida da infância...

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Formiga

Escrevi após ter lido O Pequeno Príncipe



Não é a ingenuidade que nos comove

Somos todos tão ingênuos

Que até nossa malícia

Dá pena, por ser boba

Por almejar espontaneidade

Somos todos tão ingênuos


Que a profundidade não nos alcança

E que a as alturas não nos afligem

Por que não as percebemos ante os olhos

Somos tão pequenos

E em nossas coisas pequeninas

Somos tão cegos

Tão bobos

Tão adultos

Tão sozinhos.


E a formiga que passa, pequena princesa,

Ainda se comove

Por olhar-nos debaixo, mas enxergar-nos de cima.



Thaís Carvalho


segunda-feira, 21 de março de 2011

Pra acabar com mal de amor


Não use de qualquer espécie, a flor.

Quanto mais por infusão!

Pra acabar com mal de amor

Todo aroma é um vilão.

Folhas de lembrança boa

É veneno de primeira,

E evite ficar atoa

Pois o ócio é pimenteira.

Da raiz do esquecimento

Faça um chá por decocção,

Que faz bem ao coração

E corta o desalento.

Pra acabar com a enfermidade

Não use Melissa, Perpétua, ou Marcela.

(É bom que se tenha respeito!)

Mas folhas de amizade

Maceradas com Citronela

(Contra o "dengo", como emplastro sobre o peito).

Nunca Hortência ou Oriza

Pois todas tem Olor.

Dama da Noite, embora se diga,

Não é bom pra mal de amor.

O que acaba mesmo com a dor

É uma sopa estranha

Feita pela pessoa amada

Com letrinhas marcadas.

Em que todas as palavras formadas

So digam “Eu te amo”.

(Caso não tenha ainda

Continue procurando

Ou siga a receita acima).

sexta-feira, 4 de março de 2011

Quimera, 1978


Remexendo em papéis antigos , reencontrei alguns poemas de meu pai, datados de 1978. Fiz questão de compartilhar um deles com vocês, até mesmo escaneei para que pudessem ter a ideia de como se encontra esse poema hoje:

(Clique na imagem para vê-la ampliada)






Quimera

Quando parti não me deste nada
nem nada queria levar,
queria somente a certeza
de um dia poder voltar.
Em busca de fama e riqueza
Parti pelo mundo afora.
Era um convite auspicioso
que não aceitava demora.

Desconhecendo a ironia
aspirava realizar meu sonho,
que aos poucos se distanciava,
toldava o rosto tristonho.

Notei a mancha enegrecido,
quisera já ter sabido;
eram pessoas que como eu
em busca de sonho, partido.

E um tumulto interior,
uma funda turbação
dentro de mim implorava,
clamando por sua mão.

Mas a distância inimiga
a ignorar o que havia em mim,
vibrava de alegria
no anseio de ver o fim.

Voltar seria humilhante
pra quem saiu a lutar.
Sem nada ter conseguido
ao alto me ponho a olhar.
Como um raio que corta o céu
iluminando o que há na terra,
meus gestos se tornam claros,
o orgulho gera essa guerra.

Passei a dar meia volta,
saindo da vida alvacenta
na certeza de reencontrar
'você' que minh'alma acalenta.

Com os olhos entrelaçados
palavras não são ações;
E num abraço apertado
unimos os corações.

Foi o momento mais puro
por dentre todos demais,
com o mais dócil dos beijos
pediu: não me deixe jamais.


Nivacyr G. Carvalho
17-08-1978

quarta-feira, 2 de março de 2011

Gambiarras


Dias desses, sentado num banco de praça, assisti ao show capaz de apertar o coração até mesmo de um texano cowboy mastigador de abelha: o semblante da mulher que estabeleceu sua morada oficial em Desiludidanópolis.

Era uma amiga de longa data, pero que há tempos não sentávamos pra falar do tudo e mais nada. Estávamos ali de bobeira, e eu hablava a respeito da minha recente paixão, enquanto flagrei a bichinha com seus olhinhos pro chão e com bico torto. Deu uma dó da gota.

Questionei o que se passava, afinal, essa menina não partilhava dos hábitos e manias daquelas aves de mau agouro, com costume de se enfezar com a alegria alheia. A querida decretou:

- Helder, acho que nunca vou encontrar o meu par perfeito...

O que dizer para essa aspirante à princesa de contos-de-fada órfã de príncipe encantado? Na situação, as palavras corretas saíram pra comprar cigarros e não tive resposta. Só ofertei o calejado ombro e torci para que suas propriedades terapêuticas & consoladoras fizessem efeito na carente moça.

Mujeres, quem avisa amigo é: desistam de procurar nas oficinas mecânicas da vida, a peça perfeita para a engrenagem do “felizes para sempre”. O amor é a capacidade de se fazer as melhores gambiarras.

Si, si, mi hermosas compañeras... Esse talento tupiniquim não pode ser de jeito maneira negligenciado. É o jeitinho brasileiro, no sentido bom da expressão. Alguns amores só andam após uma ligação direta. Mãos ao improviso, aconselho.

Se usted é daquelas que fãs do som sertanejo, não vá julgar um infeliz por sua camisa do Iron Maiden. Se fores daquelas mulheres descritas por Chico Buarque que faz cinema, não se apoquente se o sujeito sugerir um cine pipoca com a série de “Um Tira da Pesada”. Por baixo desse cobertor de clichê, o cristão pode te surpreender.

“Ah, mas ele é muito diferente...”, denuncia a leitora, que também possui seu apartamento em Desiludidanópolis. Aceite as diferenças. Sem dúvida, para tudo há um limite e a senhora sabe muito bem o seu. Só peço um pouco menos de rigor, só pra ver no que dá. Se o pretendente continuar a frustrar as expectativas, aí sim, apresente o bico do seu calçado de preferência.

Paciência, minha linda. Faça como a Mônica e ensine coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Mas sem exageros. Não mude seu hombre, pois numa dessas, acaba que você consegue.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sonhos



Amores vêm, e vãos,

Matam-me insalubres.

Anunciam lúgubres

Dante ou Ícaro.

Ainda, porém, em paixão

Me pego. Tocando o Pífaro.

Indo-me a voar de beijos alados.

Nunca sentidos, nunca tocados,

Há muito sonhados, existentes em saudade.

Aqueles teus, nunca tidos de verdade.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Procura

Estou à procura de palavras
Que não digam
O que eu não quero dizer
Palavras que sussurrem
O que não pode ser ouvido
E que só sejam ouvidas
Por quem não pode entender
Vocábulos abandonados pela estrada
Pois quem não pôde usá-los
Soltou-os pelo ar
Procuro a tais
Revejo o caminho
Reviro as folhas amassadas
Mas não consigo encontrar
Caço palavras selvagens
Que com suas garras afiadas
Possam dilacerar um coração
E ao mesmo tempo
Com seus olhos de pedido
Peçam pra ser meu bicho de estimação.
Preciso delas com toda minha alma
As espero com todo meu ardor
Hora não tenho, outra hora tenho calma
Quero aguardar, outra hora tenho horror.
Palavras agitadas como o mar
Ou simplesmente calmas como um rio
Palavras que deixei de ouvir e de falar
E chego a pensar que esse tipo de palavra
Nunca existiu.





Curta Metragem:
Eu Não Quero Voltar Sozinho

http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho

Sinopse: A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel


porque o amor não tem preconceitos

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O tal ponto final

Desistia de tudo pela metade.
Quando achava estar deixando-se conhecer demais , em uma conversa, desvirtuava o assunto.
Acreditava que a felicidade plena não era algo de suma importância em sua vida. Queria tranquilidade, rotina, mesmice, normalidade. O almejo de meros mortais.
Não chorava, tampouco procurava consolo em quem parecia disposto a ajudá-lo. Preferia o canto quente na parede, que parecia acolher seu corpo com prazer.
Agia com descaso na maioria de seus casos. Não saberia lidar com qualquer entrega - completa - que fosse. Assustava-se quando alguém perguntava sobre suas origens. Não sabia contar suas histórias.
-
Aquela tarde parecia comum, como tudo em sua vida.
Mas queria agir impulsivamente. Mesmo que não fosse de sua parte o tal impulso.
Comprou o que havia prometido para a moça. Tentando criar alguma coragem - era algo árduo e demorado a se fazer - mas conseguira.
Discou os 8 números e pediu para esperá-lo em frente ao seu prédio de trabalho.
5 minutos depois estavam juntos. No mesmo carro, rindo das besteiras.
Talvez nervoso - talvez propositalmente para passar alguns minutos á mais ao lado daquela mulher estranha, ele tomara o caminho errado. Mas logo fora avisado.

P - E ae, como ta a vida, cara?
A - Estamos ae, tipo... Normal.
P - E essa roupa, não era pra estar sociável, porque olha... Nunca vi homens do seu tipo tão desleixados, rs.
A - Último dia de trabalho, né, chefe deu um desconto.
P - HAHAHA, claro, claro.
P - E então, esse livrinho, te manca caralho, tu fica distribuindo perversão para pessoas inocentes.
A - UE, mas foi você que pediu.
P - É , pode ser. Mas o Sr. podia ter dito não.
A - Acho que te conheço o bastante pra saber que ia ficar insistindo, ou fazendo drama.
P - Pode ser. Mas você abriu. Era pra ser um presente.
A - Eu não resisti, dá um desconto.
P - Não. Seu fuleiro.

Chegaram ao destino. Ainda era claro.
- o fuso horário daqui é muito engraçado, acho que nunca irei me habituar, ela pensou.
Ele parou o carro. A moça hesitou. Procurou algo olhando aquele par de vidros brilhantes.
Conseguiu ver o que preferia não ter completa certeza de existir: Covardia.
Se demorou ainda, permitindo-se alguns instantes de lembranças.
Saiu do carro, pulando da poça - aquela tarde choveu mais que o esperado, tardes de Dezembro Acreano.
Não olhou pra trás. Era o primeiro passo.
E o resto viria com o tempo.
- Foi uma boa despedida. disse para si.
Não queria mais estragar o que ficou guardado - o bonito do acaso.
Não queria deturpar as boas memórias.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Caixa Postal

Outro dia me peguei pensando em você. De novo. Achei que já tinhamos superado isso. Nós. Por favor vá embora.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sonho, mas não parece...


Quero compartilhar com vocês um poema que aprecio já há muito tempo e com o qual me identifico profundamente (com cada palavra, cada vírgula, cada silêncio...)





Biografia

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

(Miguel Torga)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Da alma apaziguada.

Deixou a música preferida - já tão clichê e repetida - ser o som de fundo para o primeiro beijo.
Segurou-lhe a face com vontade e beijou seu nariz. Acariciou com delicadeza o rosto - antes triste e cansado - sereno.
Ela sentia mansidão ao seu lado. Era o agasalho no inverno, custava acreditar ter encontrado aquilo. E no meio de tantas reviravoltas.... Achá-lo ao seu lado, bem ali. Como se fosse prisioneiro da condição. Como se esperasse um carro em alta velocidade, voltar na contra-mão.
Foi o abraço de despedida que a fez ver: - Ele era tudo aquilo que queria ter. Só pra ela.
Dividir seria complicado. Começar algo no que já estava planejado.
As mãos se largaram. Mesmo depois do efeito da presença, tudo ficou ameno.
E o pôr vir , tão incerto, parecia agora tão concreto, algo que jamais viu.
Sem alianças ou compromissos , falas ou serviços. Eram dois em poucas horas.
Iriam começar a longa história. Sem tristeza, ambos eram a fortaleza... Um do outro.
Anestesiou-se ao vê-lo partir. Queria a noite inteira pra ouvir sua voz - sussurrante - rir dos relatos chocantes das noites insanas.
Conseguiu , enfim, entrar em casa, enquanto ele partia para o universo de um outro tempo.
De uma longa caminhada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dimytria III



O sol já desaparecera no horizonte. Todas as cores misturavam-se. O mesmo acontecia com seus sentimentos. Era tão difícil externá-los quando todas as portas do coração estavam fechadas. Queria que fosse simples assim como o laranja se misturava com o vermelho, azul e o branco no céu sobre sua cabeça. Sabia que nada era fácil.

A dor sufoca junto com as lágrimas que não foram derramadas.

Os olhos fecharam.



Foto: Fany

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As melhores brigas do universo

Dizem que a partir de uma mega explosão nasceu o universo, as flores, as veias mais complexas do nosso corpo, a cerveja e os Alpes Suíços. Discordo, sou criacionista. Mas a lógica por trás disso é reproduzida nas brigas conjugais e, é inevitável concordar: depois do caos realmente nasce o paraíso.

Não importa o nível da briga, pode ser uma discussão boba ou um quebra pau de delegacia, o melhor de tudo é a reconciliação - nunca mais faço isso, não sei viver sem você e declarações robertocarlianas.

Manchas de batom inexplicáveis na gola da camisa, palavra áspera no momento mais sensível, a data esquecida, a piada fora de hora ou o atraso sem motivo, por que isso não pode ser esquecido em um jantar à luz de velas, no cinema com pipoca no fim de semana, no refúgio na cidade próxima e o principal: a enorme vontade de fazer o outro feliz?

Então, caro mancebo e nobre donzela, tire da briga o que ela tem de melhor: faça as pazes, mande flores, um SMS com desenho esquisito, um vídeo toscamente editado, um pedido de desculpas e curta a lua-de-mel pós briga feia. Você perceberá que por mais que não brote nenhuma vida do seu bigbang, o orgulho engolido lhe dará forças para continuar tentando brigar menos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Renomear

Ele vai encontrar alguém e vai fazer esse alguém a pessoa mais feliz do mundo. Porque ele sabe bem como fazer isso. Ela será suspeita e cúmplice sobre como abrir mão da sua sorte. Porque ela é profissional neste aspecto. Ele vai querer falar de trabalho. Porque ele precisa. Ela vai tentar não pensar muito a fim de evitar o mundo real. Porque ela tem medo. Ele vai pedir para falar das coisas, da sua condição de mulher. Porque ele se surpreende. Ela vai falar com o silêncio, com a delicada e determinada entrega. Porque ela é só o que ela sabe – muito de pouco. Os dois vão se referir a terceira pessoa como “nisso que a gente vive”. Um segue pensando e refletindo para se encontrar e se situar num contexto que é só presente. O outro, numa luta inútil de permanecer com a mente vazia para não se perder e nem cair no abismo da palavra amor.