segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pedras no peito

Em um quarto vazio.
A chuva caindo como que querendo anunciar o presságio de algo ruim. A mal-iluminação, a situação e o aperto no peito.
Mesmo que conseguisse afastar aquele peso, não saberia se era o melhor a se fazer.
Alguns de seus velhos cadernos - há muito tempo evitara escrever, afinal, isso só aumentava seu estado de torpor - achados, espalhados á sua frente, todos preenchidos com escritas mal organizadas, desenhos sem sentido e riscos rústicos.
A velha caneta - e a tinta que parecia nunca acabar - tudo encontrado no mesmo lugar, como se tivesse encontrando a paz que parecia sempre querer fugir de sua vida.
Se você esforçar-se somente um pouco e repousa-se sobre a pequena seus olhos, notaria o seu semblante sombrio. Enxergaria seu quase imperceptível desespero gritante.
Ela queria se livrar de tudo aquilo e nunca conseguiu, não consegue e provavelmente não conseguirá.
Suas mãos, trêmulas, vasculhavam seus cadernos á procura de folhas em branco, e quando as encontrou começou o seu discurso sem hesitação:

Hoje, eu morri novamente
Com o toque das
minhas pálpebras
Com o suspiro e a respiração
que somente existem para lágrimas.
As lamúrias constavam mais de mil anos
em meu apodrecido peito.
Eu quis novamente viver
E o custo da escolha foi o meu retorno ás origens...
Aquelas que me separei e mandei embora.
Meu sentir - já tão debilitado - Outra vez ajoelha-se implorando
á mim para sua extinção.
Toco uma última vez na face dessa
desordem
e a deixo á mercê de suas próprias displicências.
Adequa-se á outra - maldita -
não existe mais apego em mim
E eu continuo debruçando sobre meu caos melancólico.
Sobreviverei.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Manual da nova vida solitária

Primeira parte.

"Eu passei na frente do prédio dela / Mas pensei: eu nunca vou por aqui / Fiquei feliz em só passar na frente do prédio dela / I just believe in love"

Funciona assim: um dia você decide que já deu e resolve mudar; de emprego, de ideal, de projeto acadêmico, de localidade. Você acha que assim, e com algum esforço, também vai conseguir tirar o ser sobrehumano colado no peito. Pode até ser. Mas lembre-se de evitar as bandas da sua antiga localidade. Eu, por exemplo, não gostava da Filomedusa quando morava em Rio Branco... Bastou ouvir uma única vez, agora que estou longe e não posso ver de perto vez em quando, pra resolver que é a melhor banda no arquivo do meu iPod. Por que? Algumas letras imitam a vida. Ou o contrário.

"Fiquei feliz em só passar na frente do prédio dele" [leve adaptação].

domingo, 15 de maio de 2011

eu esperei


Eu esperei pelo seu beijo. Logo eu que nunca fui de esperar por nada nem ninguém. Sempre tão decidida com aquilo que queria ou deixava de querer. Sempre ação e não reação. Mas por você eu esperei. Por um sinal, qualquer tipo que fosse, que mostrasse que você se importava, que estava ali para mim. Mas nada. Então eu esperei. Esperei que você tocasse a minha mão. Esperei que me sussurrasse algo no ouvido. Esperei que não fosse embora. Esperei que você me pedisse para ficar. Esperei, e ainda estou a esperar. E acredite, eu me odeio por isso.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A maior qualidade do homem

“Nada se cria, tudo se copia ”*, foi o jeito chacrinha que encontrei para dar inicio a essa peleja com as letras, mas explico isso depois, porque o tema proposto hoje é: pra você, donzela, qual a maior qualidade do homem? Sim, aquela sem a qual você se faria de cega, surda e muda e não cederia uma bolinha de gude ao pretendente?


Já ouvimos de tudo a esse respeito, de máximas como “homem tem que ser homem” e “compreensão é essencial” até constatações capitalistas do gênero “elas gostam mesmo é de dinheiro”.

Claro, leitores! É óbvio que uma qualidade só não faz verão, quiçá um relacionamento duradouro, mas insistimos na nossa mania de classificar tudo e colocar no pódio para um banho de champagne, ou seja, queremos saber qual o primeiro atributo que vem à cabeça das muchachas ao pensarem o príncipe encantado, ou, em outras palavras, de onde vem esse encantamento?

Pedimos licença ao tão badalado conhecedor da mente humana, Freud, para atualizar, ou tentar por outros meios responder a pergunta: “Afinal, o que querem as mulheres?” – classifique, elejam, comentem – depois confiram o resultado. O texto é curto e acaba aqui, segue a explicação do asterisco.

* “O grã-mestre @xicosa propôs, em seu novo blog, a eleição do maior bandido vivo do Brasil, e o plagiador de plantão, sempre atento às variações para o blog dos românticos, no caso eu, quer saber das leitoras desse blog por todo o Brasil (usamos o Google Analytics) “Qual a maior qualidade do homem?”Comentem! E desde já, gracias!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uísque

__ Isso não está mais dando certo. Acho melhor cada um seguir seu rumo.
__ Do que você está falando, criatura, posso saber?
__ A gente. Isso. Não dá mais. Preciso de ar.
__ Amor, eu...
__ Tchau. A gente se vê.

Foi assim que ele terminou comigo. Por torpedo. Depois de dois anos, três meses e alguns dias de um namoro perfeito com o namorado perfeito. Ele terminou comigo assim. Do mesmo jeito que começou...assim.

Nos conhecemos numa festa de um pessoal que fazia cinema experimental. Logo no começo ele disse que odiava aquilo, essas festas com esse pessoal que faz essas coisas alternativas, mas o irmão dele era metido a intelectual que usa seda javanesa, e também era menor de idade, então ele tinha que acompanhá-lo por todos os cantos. Conversamos bastante, ele era divertido de um jeito fino e ácido, como eu sempre gostei, e tinha a língua ligeiramente presa [um charme, diga-se de passagem]. Dado momento a cerveja acabou, o cigarro também, ou seja, a festa teve seu fim prematuro decretado, ele meio que me seqüestrou [e ao irmão, que estava se atracando com uma senhora que fazia uma ponta num dos filmes] e fomos parar num bar que eu não conhecia, escondido no centro da cidade. Lá, música alta, fumaça, uma jukebox e um barman imenso que não foi com a minha cara desde o primeiro dia. Sentamos ao balcão e ele pediu uísque para nós dois e coca com gelo para o irmão, que se recusou a beber o líquido imperialista e ficou na água de torneira.

O uísque veio puro. Ele dizia ser absurdo deixar o uísque curtindo doze anos no carvalho pra se jogar gelo, água, energético ou refrigerante naquele líquido abençoado. Eu, como nunca havia bebido uísque na vida, não pude perceber a diferença. Ele também disse que nunca havia se embriagado com uísque puro. Eu acreditei, não só porque a maconha fazia efeito, mas porque ele era o ser mais incrivelmente incrível que eu já conheci e eu queria muito, muito, muito mesmo que ele ficasse impressionado comigo.

Saímos do bar já era madrugada alta, voltamos caminhando até minha casa, ele me beijou no portão, disse que gostou de mim, no dia seguinte pediu minha mão em namoro pra minha mãe conservadora e dois anos, três meses e alguns dias depois ele terminou comigo. Por torpedo.

Custou até eu entender o que acontecia, porque ele era perfeito e jamais me machucaria. Eu ainda achei que ele precisava de espaço, como nos filmes bregas, e fiquei inventando desculpas para a atitude irracional dele. Não fazia sentido. Até que eu conheci a cantora-performática-que-parece-paquita. Aí, tudo fez sentido.

Porque ele me trocou por ela. Numa dessas festas ridículas que o irmão dele freqüentava, ele conheceu esse ser de cabelo amarelo e bota branca, uma perfeita barbie boliviana, e se encantou com ela e desencantou comigo. Ele não atentou para o fato de que ela se vestia como paquita, ou era desafinada, ou tentava bancar a alternativa-maníaca-sexual. Ele só se encantou com ela e terminou comigo.

Dias depois fui a um show da banda-alternativa-perfomática-de-garagem da barbie fajuta. No mesmo bar onde ele me levou a primeira vez. Pedi uísque sem gelo e o barman que me odiava mal me olhou, jogando dois icebergs no meu copo. Quando olhei para o palco pude vê-lo ao lado, um perfeito tiete, com seu all star estúpido desamarrado. Tentei a todo custo não chamar a atenção dele, mas quando ela começou a cantar eu comecei a vaiar. E ele me viu. E eu quis mostrar a ele que eu não o amava mais, e que se ele não terminasse comigo eu ia terminar de qualquer jeito.

Daí ele fez que não me viu. E eu fiz que não o vi. E pedi mais uísque. E ele voltou a olhar pra ela, que cantava olhando pra mim, enquanto eu olhava com ódio para os blocos de gelo boiando no copo. A canção acabou e eles se beijaram. E eu passei a odiá-lo mais que aos pobres gelinhos que já se derretiam.

A essa altura eu já estava no terceiro uísque [com gelo], amaldiçoando todas as formas de vida humana, especialmente as deploráveis. Ele chegou com seu jeitinho de cão sarnento e eu só conseguia pensar em socá-lo repetidamente. Eu só pensava em deixar clara a mentira que eu tentava pregar, eu queria fazê-lo acreditar que eu não me importava mais, ouviu bem? EU NÃO DOU A MÍNIMA. Na minha humilde opinião de espectadora ele podia abandonar a vida de merda que a gente construiu junto pra viver seu conto de fada às avessas com aquela bruxa mascarada que fazia as vezes de princesa do reino encantado do caralho a quatro. E quando ele se chegou, tão manso, eu pensei com todas as minhas forças no quão agradável seria se ele morresse bem ali, naquele exato momento e com bastante dor, para ficar retido no inconsciente da minha memória para os dias vindouros e menos divertidos. Julguei ter pensado alto, pois ele se abaixou de repente, mas era só pra amarrar os cadarços de seu all star estúpido. Droga, eu adorava o jeito estúpido dele amarrar cadarços.

Pedi mais um uísque ao homem imenso atrás do balcão, que me olhou do alto com seus bigodes de morsa e me pediu pra segurar a onda, ao que retruquei perguntando idiotamente se ele já havia sido abandonado pelo cara-mais-que-perfeito-que-ele-amava-desesperadamente. Ele sorriu condescendente e me ofereceu água, enquanto o outro, o idiota do all star, andou até o palco e abraçou sua nova-namorada-maravilha-de-pessoa-e-cantora-performática. E foi a vez dela vir até mim, eu tenho cara de ímã ou o quê, ora porra?! Ela veio gingando na sua bota branca estúpida de assistente de palco de apresentadora loura de programa infantil, como eu queria socá-la também, bater nela com aquela bota branca estúpida que ela usava, ela me perguntou se eu gostei do show e eu pensei "vê se morre", mas dessa vez pensei em voz alta e ela ouviu, porque eu não pensei e sim gritei, ela deu um passo para trás com cara de virgem que descobre o que é o verdadeiro sacrifício, pobre vítima. Ele puxou meu braço, isso-não-é-coisa-que-se-diga-ora-bolas, mandei todos para o inferno e fui atrás de outro bar. Consegui uísque sem gelo e fiquei ouvindo Air Supply. Desabei no choro. A culpa não era do uísque, nem do Air Supply. A culpa era do gelo, eu tenho certeza.

Uísque com gelo e cigarro e música alta e músicos bêbados e ripongas sujos e aquela boneca barbie fajuta com sua bota branca de paquita, tudo aquilo voltou com violência tamanha quando cheguei em casa. Air Supply continuava bombeando meu cérebro, como pode uma música ser tão ruim e ao mesmo tempo tão tocante? Nunca tinha me embriagado àquele estado. E não, não era culpa dele, do meu ex-namorado perfeito que de tão perfeito me trocou por alguém mais perfeita que ele, a barbie de cabelo amarelo e bota branca. Eu estava convicta que a culpa era do gelo.

Vomitar não é glamouroso, aposto que a assistente de palco da Angélica não vomita, nem tem gases, nem arrota, nem faz metade das coisas que fiz nessa noite longa, perdida e suja. Mas duvido que ela sinta metade das coisas que sinto agora, duvido que ela sinta esse amor, ainda essa vergonha, ainda essa tontura que não é de embriguez mas de encantamento diante daquele ser de all star estúpido com os cadarços infantilmente desamarrados. Duvido que ela já tenha rodado bares e bares só pra não ter que encarar a solidão de um quarto agora desocupado.

Também duvido que ela use palavras tão bonitas pra justificar uma bebedeira. Eu não existo, sou uma farsa.

Passei uns dias em casa curtindo o escuro e o silêncio, sem pensar em all star, uísque ou botas brancas. Me sentia um tanto ridícula depois do ocorrido em metade dos bares bem freqüentados da cidade [os mal freqüentados não me preocupavam]. Tinha aquela vontadezinha fajuta de ligar pra ele, de pedir desculpa, mas logo vinha a vontadezona de bater nele todo de uma vez só, pra economizar força e poder cuidar dele quando ele estivesse bastante machucado. Não sabia exatamente o que eu queria fazer, por ora só queria estar ali, no escuro. Assim ninguém me via chorar.

Depois de quase um mês sem notícia, dei de cara com ele em uma festa alternativa, daquelas que ele dizia odiar mas passara a freqüentar por causa da namorada-barbie-cantora-performática. Ela não usava sua bota estúpida desta vez, mas um penteado à moda 80 que me deu tanta pena que sequer consegui rir. Ele veio ter comigo e disse coisas simpáticas que ex-namorados dizem a suas ex-namoradas psicóticas, eu ouvi metade do que ele falou sem prestar atenção verdadeiramente. O som alto me incomodava tanto que eu tive de sair dali, e urgentemente.

O casal também não ficou na festa muito tempo. Eles foram caminhando pela rua mal iluminada, de mãos dadas e sem pressa, em direção à casa dele, que não era distante. Havia muita intimidade ali, muito conhecer um do outro, e eu inflei de ódio, porque eu já tinha visto aquela cena antes, aquele caminhar noturno, lembrei do nosso primeiro beijo no meu portão. Avancei com o carro sobre eles, atropelando meu ex-namorado perfeito, sendo que a última recordação que tenho era do all star dele voando após o impacto. Aumentei o volume do som, tocava Bob Dylan na rádio, dirigi até o bar mais próximo e pedi um uísque duplo. Sem gelo.

sábado, 23 de abril de 2011

Ovo de Páscoa sabor Blues Boy

Ou o famoso: quem não tem cão caça com gato

Depois que você sai de um relacionamento relativamente longo, seguido de um outro também relativamente longo, daqueles em que você comete a imaturidade de se distanciar – de forma natural e espontânea – de seus coleguinhas da infância, dos vizinhos e até dos familiares, em troca de dias e momentos inteirinhos e exclusivos ao lado do seu amorzinho, do seu xuxu lindo, do seu docinho de coco, neném - e por aí vai - você se desfaz de certa habilidade e jeito para vivenciar – e enfrentar - algumas datas comemorativas e feriados prolongados.

Chocolate tem gordura trans
Natal, Ano Novo, Carnaval, aniversário e até a Páscoa ficam meio sem nexo e precisando de um roteiro pré-estabelecido muito bem pensado. Para quem você vai dar aquele ovo de páscoa que você mesmo tanto deseja comer? Aliás, quem vai te dar o seu chocolate preferido? Com quem você vai se jogar debaixo dum edredom, tomando aquele chocolate quente ou degustando aquele crocante ao leite, vendo um filminho? Com quem você vai aproveitar os dias sem trabalho e escalar uma montanha, andar de carro por aí ouvindo uma música legal ou apenas caminhar na beira do rio? Pois é...

B.B.King: consumo sem moderação
Meus caros amigos e amores. Aproveitando que chocolate tem gordura trans e que o mar não tá pra peixe, nesta páscoa, eu resolvi dizer não ao capitalismo selvagem, às tentações dos brinquedos surpresas e das camadas duplas de chocolate e me dar um CD do B.B.King de presente, declarando, sim, o meu amor ao blues e ao velho e bom rock, algo que realmente alimenta alma e espírito, não causa celulite, pode ser consumido solitariamente, às escondidas, moderadamente ou não, sem nenhuma conseqüência ou culpa. Nada de Sonho de Valsa, Ouro Branco, Bis Branco, Ferreiro Rocher, Cacau Show Trufa, Canudo Recheado da Kopenhagen... Nesta páscoa, eu fico aqui degustando solos de guitarra que vão sim me conquistar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O bar e seus debates

ou o Manifesto pelo Vale-Boteco


Dia desses estava aqui, frustrado, pensativo na razão do sumiço de pautas sobre romances, relações, besos arretados, dentre outras safadezas cordiais que compõem o meu catálogo de assuntos abordados nesta Confraria. Nessa cabeça y corazón, num passe de mágica para os otimistas e num revés de azar para os realistas, me vi sem nada para contar.

“Cadê tu, inspiração?!”, pergunto e incorporo o escritor-mequetrefe metido a ter bloqueios criativos. Balela, amigos y amigas. Bastou uma análise mais sincera, uma crítica menos regada de auto-piedade para enxergar o que se fazia óbvio. Há tempos não visitava os meus mosteiros de pensamentos românticos: os botecos pés-sujos.

Vejam que cheguei a culpar o excesso de trabalho ou a temporada de enamoro que vivi. “Bullshit!”, diria o xerife do velho-oeste após desferir uma cuspida de asco e tomar de uma lapada só a sua tequila no Saloon. Nada disso é causa pra tal escafedo. A culpa era do intervalo de jogos de futebol na televisão, razão para que todos os domingos e algumas quartas-feiras, quintas-feiras e sábados, batesse meu cartão de ponto no Bar do Papagaio ou Bar dos Papudos.

Lá, naquelas mesas com cadeiras de plástico desbotado ou de ferro comidas de ferrugem – quando não é um tamborete – escuto e desabafo sobre as mujeres e suas façanhas, juntamente com meus comparsas e os entrosados que sentam nas adjacências, porém, nem por isso, inibidos em se achegarem nos debates.

É lá, mirando se a breja vem com a aparência de uma canela-de-pedreiro (abre-se parêntese para explicar que não se trata de um termo pejorativo, mas sim uma justa homenagem aos trabalhadores que edificam nossas casas), que o sujeito é obrigado a desempenhar os papéis de conselheiro e de aconselhado. Relembra os feitos e as derrotas, e com elas aprendem.

É lá, inclinando o copo para evitar a espuma indesejada, que o cabra se sente confortável em expor os chifres próprios e alheios, as conquistas, a cantada de canalha revisada e atualizada, a mais nova piada sobre o amigo que não sai mais de casa sem o alvará da patroa lavrado em cartório. É o divã etílico.

Para tal liberdade, confesso, nossas protagonistas não podem se fazer presentes. Nessas horas, os hombres são acanhados perante um rabo de saia. É preciso que sejam pessoas do mesmo gênero, para que a palestra sobre fêmeas seja irrestrita. De preferências, amigos que joguem no mesmo time na pelada de sábado. Assim existe confiança.

Espero que com esse relato, possa esclarecer a importância que o boteco pé-sujo de estimação tem na vida do seu cônjuge, minha cara leitora. Relaxe a pena, emita um habeas corpus e ‘copus’, e libere o seu amado. De lá, sairá a próxima artimanha do cidadão para te agradar. É preciso ter fé no seu taco, senhora.

E assim desfecho o Manifesto pelo Vale-Boteco com a reflexão conflituosa por ser canastra e sincera de uma vez só: Mais vale um sujeito que freqüenta o botequim e por isso é ajuizado de como ameigar a própria cara metade do que um prisioneiro que mete as mãos pelos pés na hora do afago com a patroa.

sábado, 9 de abril de 2011

Carnal


“Não é chato quando você é trocada por uma salada de rúcula??????”, desabafa no Twitter, o divã eletrônico da hora, a amiga Eliza. Não duvidem da seqüência de seis interrogações utilizadas com sabedoria.

A questão é digna de intrigar até mesmo o mais xiita dos ativistas eco-chatos. Quando foi que a alimentação verde se tornou mais importante que o ato sacro de chamar na chincha?!

¡Preocupemos-nos, confrades!

Prontamente indignado, meti meu bedelho no drama da minha cara nipo-querida. Taquei um “reply” – para manter o glossário internenglês da ferramenta – solidário ao episódio, do qual já passei semelhante: “Todo ano acontece comigo. É porque sou muito de relações carnais. E esse povo é meio vegan no amor”.

O amor é feito de carne. Peço licença aos legumes e verduras, mas estou com o escritor-mestre, Gabriel García Márquez, detentor de mais de cem anos de artimanha pura, e não abro. O colombiano decretou: “Não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.”. Romantismo não piegas roots na veia.

É hora de darmos um basta, sociedade. Faço questão de carne e derivados nos meus amores. Em algumas horas, prefiro relações mal-passadas. Depois opto pelos afetos ao ponto. Quero beijos ao molho madeira. Faço questão da minha cama na brasa.

Parafraseando o grande astro renegado, Wilson Simonal, “nem vem que não tem” defensores verdes. Peço o perdão vegetariano, pero yo no abro mão do sabor das coxas, maminhas, orelhas, línguas, lábios...

Devemos aloprar aos quatro cantos: Si no hay carne, yo soy contra! Não que devamos acabar com os vegetais na dieta. Sem fundamentalismos carnívoros. Venho aqui fazer uma proposta. Criemos uma edição extra do festival da carne que, não por acaso, chama-se carnaval.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

hoje eu quero



eu sinto saudades na hora errada. estou lembrando de você me abraçando no meio da calçada, decidindo se valia a pena arriscar sua reputação com um beijo na hora errada, no lugar errado e na frente de quem não deveria ver nada. ainda bem que o táxi chegou para te salvar, porque sinceramente eu não me importava com nada daquilo. foi você quem fez eu me importar, bem depois. mas eu não deveria estar lembrando de você agora, porque afinal de contas, fui eu que te deixei ir. fui eu que fiquei com medo. e fui eu que me afastei. eu não deveria sentir saudades, principalmente agora que comecei tudo de novo. mas é sempre assim. estou sempre de olho no que não está mais na minha frente. com você também foi assim. lembro que na época estava preocupado demais pensando se já tinha esquecido ele. e sabe que até hoje não encontrei a resposta dessa pergunta, acho que ainda sinto saudades. de vez enquanto. ainda espero ele me mandar um carta, um e-mail, um telefonema ou uma mensagem de fogo. essa semana percebi que havia perdido o papel onde tinha anotado o numero dele, eu sabia que deveria ter passado pro celular, mas não queria mexer naquilo e agora foi embora. acho que nunca mais terei noticias dele, mas ainda sinto falta. e sinto falta de você. e fico surpreso como você sumiu. antes te via em todos os lugares e agora fazem meses que nem ouço noticias. tenho vergonha de perguntar por aí, afinal, fui eu que não quis mais e você respeitou. mas é que de vez em quando eu ainda quero. como hoje.

domingo, 3 de abril de 2011

A dúvida


A criança de 10 anos, moderna e equipada de seu playstation 10, dispara a pergunta: “Ei, como faço para conquistar uma garota?” E o adulto bobalhão responde: “bom, comece conversando coisas interessantes e se aproxime da menina aos poucos...”


Ufa! Ainda bem que o impulso da maioria das crianças é desobediente o suficiente para não cair nessa. O grande barato do amor-infante é a originalidade e a pureza do gostar. Sim, acredite adulto-corrompido, um simples enlaçar de mãos, na paixão das crianças é a verdadeira conquista do Everest!

E melhor, eles não precisam de cerimônias ou adaptações sociais para despertar seus sentimentos mais sublimes. Desconsiderando o fato de que há um verdadeiro abismo entre meninos e meninas no quesito maturidade, é nessa idade, no comecinho da vida, que é despertado dentro de cada um, a poesia e o romantismo.


Nesse caso, acendo a centelha da guerra dos sexos: o meninos estão no lucro! A demora da visita dessa tão chata, porém necessária maturidade, dá aos garotos um tempo maior de vida sem preocupações desnecessárias ou fobia da decepção.

Portanto, aos adultos a reflexão: que resposta daria à pergunta do início? Só não valem as opiniões chatas e burocráticas que fomos acumulando ao longo da vida... Da próxima vez, calo-me, afinal, não é a toa que passamos o resto da vida lamentando a despedida da infância...

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Formiga

Escrevi após ter lido O Pequeno Príncipe



Não é a ingenuidade que nos comove

Somos todos tão ingênuos

Que até nossa malícia

Dá pena, por ser boba

Por almejar espontaneidade

Somos todos tão ingênuos


Que a profundidade não nos alcança

E que a as alturas não nos afligem

Por que não as percebemos ante os olhos

Somos tão pequenos

E em nossas coisas pequeninas

Somos tão cegos

Tão bobos

Tão adultos

Tão sozinhos.


E a formiga que passa, pequena princesa,

Ainda se comove

Por olhar-nos debaixo, mas enxergar-nos de cima.



Thaís Carvalho


segunda-feira, 21 de março de 2011

Pra acabar com mal de amor


Não use de qualquer espécie, a flor.

Quanto mais por infusão!

Pra acabar com mal de amor

Todo aroma é um vilão.

Folhas de lembrança boa

É veneno de primeira,

E evite ficar atoa

Pois o ócio é pimenteira.

Da raiz do esquecimento

Faça um chá por decocção,

Que faz bem ao coração

E corta o desalento.

Pra acabar com a enfermidade

Não use Melissa, Perpétua, ou Marcela.

(É bom que se tenha respeito!)

Mas folhas de amizade

Maceradas com Citronela

(Contra o "dengo", como emplastro sobre o peito).

Nunca Hortência ou Oriza

Pois todas tem Olor.

Dama da Noite, embora se diga,

Não é bom pra mal de amor.

O que acaba mesmo com a dor

É uma sopa estranha

Feita pela pessoa amada

Com letrinhas marcadas.

Em que todas as palavras formadas

So digam “Eu te amo”.

(Caso não tenha ainda

Continue procurando

Ou siga a receita acima).

sexta-feira, 4 de março de 2011

Quimera, 1978


Remexendo em papéis antigos , reencontrei alguns poemas de meu pai, datados de 1978. Fiz questão de compartilhar um deles com vocês, até mesmo escaneei para que pudessem ter a ideia de como se encontra esse poema hoje:

(Clique na imagem para vê-la ampliada)






Quimera

Quando parti não me deste nada
nem nada queria levar,
queria somente a certeza
de um dia poder voltar.
Em busca de fama e riqueza
Parti pelo mundo afora.
Era um convite auspicioso
que não aceitava demora.

Desconhecendo a ironia
aspirava realizar meu sonho,
que aos poucos se distanciava,
toldava o rosto tristonho.

Notei a mancha enegrecido,
quisera já ter sabido;
eram pessoas que como eu
em busca de sonho, partido.

E um tumulto interior,
uma funda turbação
dentro de mim implorava,
clamando por sua mão.

Mas a distância inimiga
a ignorar o que havia em mim,
vibrava de alegria
no anseio de ver o fim.

Voltar seria humilhante
pra quem saiu a lutar.
Sem nada ter conseguido
ao alto me ponho a olhar.
Como um raio que corta o céu
iluminando o que há na terra,
meus gestos se tornam claros,
o orgulho gera essa guerra.

Passei a dar meia volta,
saindo da vida alvacenta
na certeza de reencontrar
'você' que minh'alma acalenta.

Com os olhos entrelaçados
palavras não são ações;
E num abraço apertado
unimos os corações.

Foi o momento mais puro
por dentre todos demais,
com o mais dócil dos beijos
pediu: não me deixe jamais.


Nivacyr G. Carvalho
17-08-1978

quarta-feira, 2 de março de 2011

Gambiarras


Dias desses, sentado num banco de praça, assisti ao show capaz de apertar o coração até mesmo de um texano cowboy mastigador de abelha: o semblante da mulher que estabeleceu sua morada oficial em Desiludidanópolis.

Era uma amiga de longa data, pero que há tempos não sentávamos pra falar do tudo e mais nada. Estávamos ali de bobeira, e eu hablava a respeito da minha recente paixão, enquanto flagrei a bichinha com seus olhinhos pro chão e com bico torto. Deu uma dó da gota.

Questionei o que se passava, afinal, essa menina não partilhava dos hábitos e manias daquelas aves de mau agouro, com costume de se enfezar com a alegria alheia. A querida decretou:

- Helder, acho que nunca vou encontrar o meu par perfeito...

O que dizer para essa aspirante à princesa de contos-de-fada órfã de príncipe encantado? Na situação, as palavras corretas saíram pra comprar cigarros e não tive resposta. Só ofertei o calejado ombro e torci para que suas propriedades terapêuticas & consoladoras fizessem efeito na carente moça.

Mujeres, quem avisa amigo é: desistam de procurar nas oficinas mecânicas da vida, a peça perfeita para a engrenagem do “felizes para sempre”. O amor é a capacidade de se fazer as melhores gambiarras.

Si, si, mi hermosas compañeras... Esse talento tupiniquim não pode ser de jeito maneira negligenciado. É o jeitinho brasileiro, no sentido bom da expressão. Alguns amores só andam após uma ligação direta. Mãos ao improviso, aconselho.

Se usted é daquelas que fãs do som sertanejo, não vá julgar um infeliz por sua camisa do Iron Maiden. Se fores daquelas mulheres descritas por Chico Buarque que faz cinema, não se apoquente se o sujeito sugerir um cine pipoca com a série de “Um Tira da Pesada”. Por baixo desse cobertor de clichê, o cristão pode te surpreender.

“Ah, mas ele é muito diferente...”, denuncia a leitora, que também possui seu apartamento em Desiludidanópolis. Aceite as diferenças. Sem dúvida, para tudo há um limite e a senhora sabe muito bem o seu. Só peço um pouco menos de rigor, só pra ver no que dá. Se o pretendente continuar a frustrar as expectativas, aí sim, apresente o bico do seu calçado de preferência.

Paciência, minha linda. Faça como a Mônica e ensine coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Mas sem exageros. Não mude seu hombre, pois numa dessas, acaba que você consegue.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sonhos



Amores vêm, e vãos,

Matam-me insalubres.

Anunciam lúgubres

Dante ou Ícaro.

Ainda, porém, em paixão

Me pego. Tocando o Pífaro.

Indo-me a voar de beijos alados.

Nunca sentidos, nunca tocados,

Há muito sonhados, existentes em saudade.

Aqueles teus, nunca tidos de verdade.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Procura

Estou à procura de palavras
Que não digam
O que eu não quero dizer
Palavras que sussurrem
O que não pode ser ouvido
E que só sejam ouvidas
Por quem não pode entender
Vocábulos abandonados pela estrada
Pois quem não pôde usá-los
Soltou-os pelo ar
Procuro a tais
Revejo o caminho
Reviro as folhas amassadas
Mas não consigo encontrar
Caço palavras selvagens
Que com suas garras afiadas
Possam dilacerar um coração
E ao mesmo tempo
Com seus olhos de pedido
Peçam pra ser meu bicho de estimação.
Preciso delas com toda minha alma
As espero com todo meu ardor
Hora não tenho, outra hora tenho calma
Quero aguardar, outra hora tenho horror.
Palavras agitadas como o mar
Ou simplesmente calmas como um rio
Palavras que deixei de ouvir e de falar
E chego a pensar que esse tipo de palavra
Nunca existiu.





Curta Metragem:
Eu Não Quero Voltar Sozinho

http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho

Sinopse: A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel


porque o amor não tem preconceitos

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O tal ponto final

Desistia de tudo pela metade.
Quando achava estar deixando-se conhecer demais , em uma conversa, desvirtuava o assunto.
Acreditava que a felicidade plena não era algo de suma importância em sua vida. Queria tranquilidade, rotina, mesmice, normalidade. O almejo de meros mortais.
Não chorava, tampouco procurava consolo em quem parecia disposto a ajudá-lo. Preferia o canto quente na parede, que parecia acolher seu corpo com prazer.
Agia com descaso na maioria de seus casos. Não saberia lidar com qualquer entrega - completa - que fosse. Assustava-se quando alguém perguntava sobre suas origens. Não sabia contar suas histórias.
-
Aquela tarde parecia comum, como tudo em sua vida.
Mas queria agir impulsivamente. Mesmo que não fosse de sua parte o tal impulso.
Comprou o que havia prometido para a moça. Tentando criar alguma coragem - era algo árduo e demorado a se fazer - mas conseguira.
Discou os 8 números e pediu para esperá-lo em frente ao seu prédio de trabalho.
5 minutos depois estavam juntos. No mesmo carro, rindo das besteiras.
Talvez nervoso - talvez propositalmente para passar alguns minutos á mais ao lado daquela mulher estranha, ele tomara o caminho errado. Mas logo fora avisado.

P - E ae, como ta a vida, cara?
A - Estamos ae, tipo... Normal.
P - E essa roupa, não era pra estar sociável, porque olha... Nunca vi homens do seu tipo tão desleixados, rs.
A - Último dia de trabalho, né, chefe deu um desconto.
P - HAHAHA, claro, claro.
P - E então, esse livrinho, te manca caralho, tu fica distribuindo perversão para pessoas inocentes.
A - UE, mas foi você que pediu.
P - É , pode ser. Mas o Sr. podia ter dito não.
A - Acho que te conheço o bastante pra saber que ia ficar insistindo, ou fazendo drama.
P - Pode ser. Mas você abriu. Era pra ser um presente.
A - Eu não resisti, dá um desconto.
P - Não. Seu fuleiro.

Chegaram ao destino. Ainda era claro.
- o fuso horário daqui é muito engraçado, acho que nunca irei me habituar, ela pensou.
Ele parou o carro. A moça hesitou. Procurou algo olhando aquele par de vidros brilhantes.
Conseguiu ver o que preferia não ter completa certeza de existir: Covardia.
Se demorou ainda, permitindo-se alguns instantes de lembranças.
Saiu do carro, pulando da poça - aquela tarde choveu mais que o esperado, tardes de Dezembro Acreano.
Não olhou pra trás. Era o primeiro passo.
E o resto viria com o tempo.
- Foi uma boa despedida. disse para si.
Não queria mais estragar o que ficou guardado - o bonito do acaso.
Não queria deturpar as boas memórias.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Caixa Postal

Outro dia me peguei pensando em você. De novo. Achei que já tinhamos superado isso. Nós. Por favor vá embora.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sonho, mas não parece...


Quero compartilhar com vocês um poema que aprecio já há muito tempo e com o qual me identifico profundamente (com cada palavra, cada vírgula, cada silêncio...)





Biografia

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

(Miguel Torga)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Da alma apaziguada.

Deixou a música preferida - já tão clichê e repetida - ser o som de fundo para o primeiro beijo.
Segurou-lhe a face com vontade e beijou seu nariz. Acariciou com delicadeza o rosto - antes triste e cansado - sereno.
Ela sentia mansidão ao seu lado. Era o agasalho no inverno, custava acreditar ter encontrado aquilo. E no meio de tantas reviravoltas.... Achá-lo ao seu lado, bem ali. Como se fosse prisioneiro da condição. Como se esperasse um carro em alta velocidade, voltar na contra-mão.
Foi o abraço de despedida que a fez ver: - Ele era tudo aquilo que queria ter. Só pra ela.
Dividir seria complicado. Começar algo no que já estava planejado.
As mãos se largaram. Mesmo depois do efeito da presença, tudo ficou ameno.
E o pôr vir , tão incerto, parecia agora tão concreto, algo que jamais viu.
Sem alianças ou compromissos , falas ou serviços. Eram dois em poucas horas.
Iriam começar a longa história. Sem tristeza, ambos eram a fortaleza... Um do outro.
Anestesiou-se ao vê-lo partir. Queria a noite inteira pra ouvir sua voz - sussurrante - rir dos relatos chocantes das noites insanas.
Conseguiu , enfim, entrar em casa, enquanto ele partia para o universo de um outro tempo.
De uma longa caminhada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dimytria III



O sol já desaparecera no horizonte. Todas as cores misturavam-se. O mesmo acontecia com seus sentimentos. Era tão difícil externá-los quando todas as portas do coração estavam fechadas. Queria que fosse simples assim como o laranja se misturava com o vermelho, azul e o branco no céu sobre sua cabeça. Sabia que nada era fácil.

A dor sufoca junto com as lágrimas que não foram derramadas.

Os olhos fecharam.



Foto: Fany

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As melhores brigas do universo

Dizem que a partir de uma mega explosão nasceu o universo, as flores, as veias mais complexas do nosso corpo, a cerveja e os Alpes Suíços. Discordo, sou criacionista. Mas a lógica por trás disso é reproduzida nas brigas conjugais e, é inevitável concordar: depois do caos realmente nasce o paraíso.

Não importa o nível da briga, pode ser uma discussão boba ou um quebra pau de delegacia, o melhor de tudo é a reconciliação - nunca mais faço isso, não sei viver sem você e declarações robertocarlianas.

Manchas de batom inexplicáveis na gola da camisa, palavra áspera no momento mais sensível, a data esquecida, a piada fora de hora ou o atraso sem motivo, por que isso não pode ser esquecido em um jantar à luz de velas, no cinema com pipoca no fim de semana, no refúgio na cidade próxima e o principal: a enorme vontade de fazer o outro feliz?

Então, caro mancebo e nobre donzela, tire da briga o que ela tem de melhor: faça as pazes, mande flores, um SMS com desenho esquisito, um vídeo toscamente editado, um pedido de desculpas e curta a lua-de-mel pós briga feia. Você perceberá que por mais que não brote nenhuma vida do seu bigbang, o orgulho engolido lhe dará forças para continuar tentando brigar menos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Renomear

Ele vai encontrar alguém e vai fazer esse alguém a pessoa mais feliz do mundo. Porque ele sabe bem como fazer isso. Ela será suspeita e cúmplice sobre como abrir mão da sua sorte. Porque ela é profissional neste aspecto. Ele vai querer falar de trabalho. Porque ele precisa. Ela vai tentar não pensar muito a fim de evitar o mundo real. Porque ela tem medo. Ele vai pedir para falar das coisas, da sua condição de mulher. Porque ele se surpreende. Ela vai falar com o silêncio, com a delicada e determinada entrega. Porque ela é só o que ela sabe – muito de pouco. Os dois vão se referir a terceira pessoa como “nisso que a gente vive”. Um segue pensando e refletindo para se encontrar e se situar num contexto que é só presente. O outro, numa luta inútil de permanecer com a mente vazia para não se perder e nem cair no abismo da palavra amor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Por que opostas, atraem-se quando dispostas, as cores...*

Não sei começar pelo começo. Adio sempre a decisão do relacionamento sério com o papel. Assim, o memorial descritivo que eu quis fazer sobre as cores pode não acontecer antes do espaço desse retângulo branco e fino acabar. A chama incipiente para a escrita deve vir como um chiste, uma anedota. Eu devo ironizar os fatos ou torno a vida em letras uma tristeza. Então começo.

Também não compreendo: Eram arabescos sob minhas mãos apertadas, os meus olhos voltando sempre para a fuga, os meus beijos mudos. Eu não queria ser abraçada, mas também não queria dormir sozinha...

Começo?!

Era o verde... Como cheguei, ali, ai, Deusa! Quando eu cheguei? Porque a cor que eu era estava repleta de pragas, e eu sei lá! Eram todas as pragas. Desde o ódio ao tédio.

Ele era o verde! A natureza, a primavera, a juventude, a boa sorte e todas as coisas que trazem desenvolvimento e esperança. Sabíamos que eu era a cor oposta ou o vermelho ao cipreste era apenas atrativo, inebriante?

Também a mim, que devia ser paixão, força, energia, amor, liderança, masculinidade, perigo, fogo, raiva e revolução, chegava a agonia de não entender a outra cor. Eu era o vermelho. Vocês sabem? A cor oposta ao verde...

Aquilo devia ser agonia. O que eu sentia não era exatamente o que as cores opostas, quando misturadas, acometem. Com o Preto e Branco vocês podem compreender melhor. Desponta o Sol sob a beleza de um casal contrário. Na paleta real das cores, primárias e secundárias quando opostas formam Cinza. A cor mais neutra e sem graça que eu já conheci!

E eu não sei por que pecados pago agora nesta noite que mais parece eterna. É cinza o céu. É cinza o meu peito. É cinza a cor da minha alma. Mas é verde todo o meu pensamento.

Pensei esta manhã em pintar de azul os cabelos de uma das cinco mulheres que eu criei sob o espectro de mim. Mas quando dei por mim, todo o resto da tela estava pintado de vermelho, verde e cinza. E cinza não porque eu quis, mas porque as cores opostas quando se misturam caem na mesmice da cor mais neutra e sem graça que eu já vi.

E eu era toda a cor vermelho. Mas quando chegava o verde com o panteísmo e a complexidade, as chamas da minha combustão espontânea prostrada, era vencida pelas desastradas florestas mágicas da tonalidade formada por duas cores primárias como eu. E que verde era aquele? Eu saberia designar para os outros uma infinidade de variantes de musgo, lima, mar, broto, jade, esmeralda, menta, grama, oliva e outras, muitas, muitas outras. Mas aquele eu nunca vi. Era tal a força mística daquela percepção visual quase inexorável de excitação da minha curiosidade.

Eu saberia bem dizer que verde é cor-luz primária ou uma cor-pigmento secundária composta pelo ciano e amarelo. Mas não. Naquelas horas preferia pensar que havia um pouco de vermelho também no azul, formando o índigo. Assim eu não sentia a unilateralidade do meu espasmo.

Ah! Eu também não disse que nunca acaba o meu texto. O início tarda, mas a conclusão também não é meu forte. Afinal, as minhas variações são imensuráveis, e de vermelho em todos os tons, eu vou deixando puírem palavras das mais insignificantes, porque nunca faço sentido. (Explico: Vermelho é ódio e amor. Alegria e dor. Como posso ser inteligível também a mim? Tão contrária, acabo por neutralizar-me. E no verde, então? Escolho um dos lados ou escolho a morte. Acinzentar-me seria sutil demais para a minha significância).

O que será, pois, se eu não findar o texto?

Deve ser trivial que eu conte então, que alguma parte do meu corpo de que eu não tinha consciência agora reclamavam horas de atenção. Eu via o farol luzindo na cor laranja. Devia ser mesmo perigoso. Devia eu manter a atenção. Mas que era o mundo ao meu amor? Que era o círculo cromático à minha retina? Que ordem haveria na freqüência espectral se eu não pensasse no esplendor do mágico respeito pela experiência de deixar o posto rubro e tomar a sem-gracinha tabela de acinzentados?

Eu vi quando encostei a mão na sua mão, sem querer e sem que ele sentisse, Matiz, Luminosidade e Saturação. Tudo num segundo, como nunca, porque eu detestava antes a forma circular nas representações quaisquer.

Mas moço, tenho que parar? Findar o que recordo?

Dize-me como? Se nunca, nunca antes houvera a profusão de um riso em mim, por ser piegas e virar paixão como se fosse como qualquer outro vermelho... Tola, tola, ai, como era tola pensando no respeito pela cor de Deus, a alma emudecida pela atração pelo ininteligível, como desejo, capricho, qualquer coisa que influísse um manto de pureza na minha tonalidade primária.

Aquele tom. Olha... Aquele tom, não é possível que o gerasse outra vez um Deus. Porque incompreensível a paciência de sofrê-lo um pouco mais, delicadamente, outra que não eu.

E silencio! Os beijos mudos? Não sei... Mas ó, paixão que sou e guardo a alma cheia de contrastes felizes e tristes, sem admitir realmente que o apetite é raro pela dor de amar. Silencio! As minhas variações cevando todo esse espaço que é o silêncio, porque a folha já acaba o verso. Canto as cores dos lábios que não toco. Quais não sei, porque os olhos vidram.

A cor não pode ser representada. Porventura, é sem nome! Inexiste. Portanto, é eterna. E não limita o acaso de uma narrativa pormenorizada. Eis um verde inopinável...

*Texto de Clara Campelo do blog Zebra Trash

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Futuro pretérito

E se eu tivesse coragem, te chamaria pra ver o filme que milagrosamente está em cartaz na sala de cinema fria. E compraríamos pipocas e cocacola e até ficaríamos meio sem jeito no início, mas depois as coisas tenderiam a se acertar e estaríamos de novo à vontade, como é de costume. E depois caminharíamos até um bar, ou uma sorveteria, ou um lanche (como diz o pessoal daqui) conversando sobre o filme, nossas impressões sobre o roteiro, a fotografia, a direção, quase sempre deixando a atuação de lado, fora de foco, porque somos assim e realmente temos isso em comum. E durante a caminhada iríamos vislumbrando mais e mais quanto de cada um tem no outro, e sentiríamos aquela ânsia na boca do estômago, ainda sem saber se boa ou ruim, sabendo apenas que é ânsia e se é ânsia tem uma razão de existir, talvez oculta ou clara demais, mas sempre a ponto de cegar. E depois de umas cervejas e uns cigarros a conversa já estaria solta e falaríamos sobre projetos e música e cinema e sentimentalidades e todos os assuntos sobre os quais costumamos conversar quando somos somente nós, deixando os outros nós e todos os outros seres viventes em suspenso, à deriva. E novamente a sensação incômoda de espelho, assim como tenho com minha melhor amiga e você deve ter com mais alguém, e novamente a sensação de medo de estar se mostrando a alguém que, embora grata surpresa, é um ilustre desconhecido. E ao chegar em casa, na sua ou na minha, iríamos sorrir daquele jeito que as pessoas sorriem quando estão sem-graça e tentando disfarçar o quanto aquela situação, por mais constrangedora que seja, é exatamente a situação que você esperava. E quase como num romance você me beijaria devagar, relembrando meu gosto, e me apertaria contra o peito como se fosse morrer se me soltasse. E eu me faria completamente sua, sem cerimônia, porque não há razão alguma em lutar contra isso, eu acredito nisso, eu me diria isso repetidas vezes em silêncio e no escuro, só a brasa do cigarro por companhia. E por acreditar nisso eu sentiria toda a intensidade do teu toque e conseguiria definir o desenho perfeito da tua língua entre os meus dentes. E você me sorriria e perguntaria, quase num sussurro, que mistério é esse que há entre nós que nos fez tão próximos em tão pouco tempo. E eu te responderia que também ando me perguntando isso, a cabeça irrequieta e o coração pateticamente exposto. E você tentaria fingir que as coisas não são assim, e eu pensaria na ingrata criatura que tu me serás futuramente, e já até sinto o gosto de cinzeiro de tantos cigarros comidos quando você findar por me machucar. Mas àquela hora, àquela hora em que estaríamos somente nós na escuridão quente do teu quarto ou do meu quarto, eu me esqueceria da ingrata criatura que tu me serás e só pensaria na grata surpresa que tu me seria naquele momento de mel e suor. E pensaríamos em todas as coisas que haveriam de ocorrer dali em diante, de como estaríamos mais próximos porém mais distantes quando todos juntos, naquelas noites de cerveja e divertimentos mundanos. E tentaríamos fingir que somos imunes a isso, melhores que isso, somos adultos e maduros, ninguém acreditaria nas ânsias que sentíamos se não disséssemos aos outros. Mas findaríamos por seguir, com medo e possíveis dores, porque haveria essa vontade soberana e inexplicável de nos sentirmos vivos. Porque seríamos esse tipo de gente assim, que sangra pra se sentir vivo. E deixaríamos sangrar.

Texto escrito em 2008, quando meu relacionamento ainda nascia.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ponte


As cicatrizes já não doem, nem mesmo em tempos frios. Se às vezes lembro que existem, o sorriso diminui nos lábios por pouquíssimos segundos. Não mais que isso.

As palavras que por toda uma vida se calaram comigo ferem menos do que as que usei para magoar (mesmo que sem perceber) outras pessoas. É um fato com o qual convivo bem.

Não sou do tipo de pessoa que se arrepende só do que não fez. Na realidade carrego um certo orgulho de muitas coisas que evitei.

Assim como tenho certa angústia de lembrar do que poderia ter feito diferente também carrego a tranqüilidade das coisas boas que conquistei ao longo do tempo.

Já sofri decepções como todo mundo nessa vida. Também já provoquei infelizmente sofrimento em outros.

Já desconfiei de pessoas que mais tarde aprendi que podia confiar. E, infelizmente, também já confiei muito em outros que aprendi, a duras penas, que era necessário duvidar.

Não há nenhuma façanha em tudo isso. Passamos, cada um a seu momento, por situações semelhantes. Mas, a grandiosidade de se abrir os olhos para um novo dia e encher os pulmões de ar me faz ver que é muito bom estar viva para escrever.

Um dia ainda conto a história da ponte pra você. Ou talvez não. Na realidade era um pensamento fruto de uma mágoa que um dia tive.

Quer mesmo saber? ...

Bem, a ponte nem mesmo existe, só que aqui, na minha imaginação, era bem alta, sem cordas pra se segurar, balançando sobre um precipício.

Altíssima, estreita, comprida e completamente insegura - eu jamais ousaria passar sozinha por ela! Mas, por diversas vezes me ofereceram a mão para me acompanhar até o outro lado. Quando dei por mim, estava lá bem no meio da ponte... e sozinha.

Sei que parece triste. Só que eis que aparece você, segura firme minha mão e me ajuda a equilibrar. E ainda agora estamos passando pelas inseguranças dessa ponte. Ela às vezes parece uma aventura perigosa, mas com você ao meu lado conquistei essa certa coragem. Acho que isso me basta para enfrentar o medo e sorrir. E só precisamos continuar de mãos dadas assim.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

carta aberta de um incerto apaixonado*

Sinto a dor anestesiar minhas entranhas, como uma lâmina que corta sutilmente os pulsos de um suicida famigerado. Uma dor que nunca foi tão profundo dentro de meu corpo. Sinto o coração apertado, o peito doendo, as mãos trêmulas como uma bandeira fincada no topo de uma montanha. Mas de que adianta passar base sobre a ferida, se ela ali permanecerá? Quero um remédio que cure a dor, que cure o aparente, mas talvez nem nas melhores farmácias se encontre algo que faça efeito em vinte e quatro horas. E na farmácia cerebral, então, é que não existe mesmo.

Como te dar certeza, como te prender a mim, se eu não sei? Se não sou sabedor dessa coisa que ainda chamo de mente. Escura mente. Indecifrável mente. Estúpida mente. Como te segurar com minhas mãos, te pedindo que não vá, se não tenho pássaros em gaiolas e os prefiro ver livres para pousar onde acharem que devem? E como não te dizer que te amo se, definitivamente, é o sentimento que me corrói inteiro por dentro? Como te dizer que não te quero, se com meu corpo e alma é isso que desejo? Como posso ser egoísta a tal ponto de te querer pra mim, mas não poder me doar como, indefinidamente, eu gostaria?

Sinto minha voz rouca, meus cabelos desgrenhados, meu corpo desfalecendo à simples percepção de que deixar ir pode significar nunca mais voltar. Sinto minhas mãos abraçando o vento enquanto durmo e tenho sonhos que outrora foram reais. Sinto-me extasiado, demasiadamente cansado, copiosamente lacrimejando ao mero sinal de que o nunca mais não existe pra mim, mas que nada é igual pra todo mundo, e que essa deve ser a conseqüência para as coisas da vida pela qual você se arrisca. Mas e não saber, e não saber, e não saber?

Como resistir à tentação de não te ligar, de não te enviar um torpedo ou de simplesmente olhar em seus olhos? E como olhar em seus olhos, em meio a essa luta interna de sentimento, e dizer que não consigo, que não posso, enquanto quero me jogar nos teus braços, beijar a tua boca e deitar no teu colo? Não posso fingir que você não existe e não me sinto capaz de perceber que pra você eu não existo mais. Será isso o necessário? Será que você vai me apagar, me esquecer e pensar que eu realmente já não existo mais?


*Texto de Jeronymo Artur