quarta-feira, 30 de março de 2011

A Formiga

Escrevi após ter lido O Pequeno Príncipe



Não é a ingenuidade que nos comove

Somos todos tão ingênuos

Que até nossa malícia

Dá pena, por ser boba

Por almejar espontaneidade

Somos todos tão ingênuos


Que a profundidade não nos alcança

E que a as alturas não nos afligem

Por que não as percebemos ante os olhos

Somos tão pequenos

E em nossas coisas pequeninas

Somos tão cegos

Tão bobos

Tão adultos

Tão sozinhos.


E a formiga que passa, pequena princesa,

Ainda se comove

Por olhar-nos debaixo, mas enxergar-nos de cima.



Thaís Carvalho


segunda-feira, 21 de março de 2011

Pra acabar com mal de amor


Não use de qualquer espécie, a flor.

Quanto mais por infusão!

Pra acabar com mal de amor

Todo aroma é um vilão.

Folhas de lembrança boa

É veneno de primeira,

E evite ficar atoa

Pois o ócio é pimenteira.

Da raiz do esquecimento

Faça um chá por decocção,

Que faz bem ao coração

E corta o desalento.

Pra acabar com a enfermidade

Não use Melissa, Perpétua, ou Marcela.

(É bom que se tenha respeito!)

Mas folhas de amizade

Maceradas com Citronela

(Contra o "dengo", como emplastro sobre o peito).

Nunca Hortência ou Oriza

Pois todas tem Olor.

Dama da Noite, embora se diga,

Não é bom pra mal de amor.

O que acaba mesmo com a dor

É uma sopa estranha

Feita pela pessoa amada

Com letrinhas marcadas.

Em que todas as palavras formadas

So digam “Eu te amo”.

(Caso não tenha ainda

Continue procurando

Ou siga a receita acima).

sexta-feira, 4 de março de 2011

Quimera, 1978


Remexendo em papéis antigos , reencontrei alguns poemas de meu pai, datados de 1978. Fiz questão de compartilhar um deles com vocês, até mesmo escaneei para que pudessem ter a ideia de como se encontra esse poema hoje:

(Clique na imagem para vê-la ampliada)






Quimera

Quando parti não me deste nada
nem nada queria levar,
queria somente a certeza
de um dia poder voltar.
Em busca de fama e riqueza
Parti pelo mundo afora.
Era um convite auspicioso
que não aceitava demora.

Desconhecendo a ironia
aspirava realizar meu sonho,
que aos poucos se distanciava,
toldava o rosto tristonho.

Notei a mancha enegrecido,
quisera já ter sabido;
eram pessoas que como eu
em busca de sonho, partido.

E um tumulto interior,
uma funda turbação
dentro de mim implorava,
clamando por sua mão.

Mas a distância inimiga
a ignorar o que havia em mim,
vibrava de alegria
no anseio de ver o fim.

Voltar seria humilhante
pra quem saiu a lutar.
Sem nada ter conseguido
ao alto me ponho a olhar.
Como um raio que corta o céu
iluminando o que há na terra,
meus gestos se tornam claros,
o orgulho gera essa guerra.

Passei a dar meia volta,
saindo da vida alvacenta
na certeza de reencontrar
'você' que minh'alma acalenta.

Com os olhos entrelaçados
palavras não são ações;
E num abraço apertado
unimos os corações.

Foi o momento mais puro
por dentre todos demais,
com o mais dócil dos beijos
pediu: não me deixe jamais.


Nivacyr G. Carvalho
17-08-1978

quarta-feira, 2 de março de 2011

Gambiarras


Dias desses, sentado num banco de praça, assisti ao show capaz de apertar o coração até mesmo de um texano cowboy mastigador de abelha: o semblante da mulher que estabeleceu sua morada oficial em Desiludidanópolis.

Era uma amiga de longa data, pero que há tempos não sentávamos pra falar do tudo e mais nada. Estávamos ali de bobeira, e eu hablava a respeito da minha recente paixão, enquanto flagrei a bichinha com seus olhinhos pro chão e com bico torto. Deu uma dó da gota.

Questionei o que se passava, afinal, essa menina não partilhava dos hábitos e manias daquelas aves de mau agouro, com costume de se enfezar com a alegria alheia. A querida decretou:

- Helder, acho que nunca vou encontrar o meu par perfeito...

O que dizer para essa aspirante à princesa de contos-de-fada órfã de príncipe encantado? Na situação, as palavras corretas saíram pra comprar cigarros e não tive resposta. Só ofertei o calejado ombro e torci para que suas propriedades terapêuticas & consoladoras fizessem efeito na carente moça.

Mujeres, quem avisa amigo é: desistam de procurar nas oficinas mecânicas da vida, a peça perfeita para a engrenagem do “felizes para sempre”. O amor é a capacidade de se fazer as melhores gambiarras.

Si, si, mi hermosas compañeras... Esse talento tupiniquim não pode ser de jeito maneira negligenciado. É o jeitinho brasileiro, no sentido bom da expressão. Alguns amores só andam após uma ligação direta. Mãos ao improviso, aconselho.

Se usted é daquelas que fãs do som sertanejo, não vá julgar um infeliz por sua camisa do Iron Maiden. Se fores daquelas mulheres descritas por Chico Buarque que faz cinema, não se apoquente se o sujeito sugerir um cine pipoca com a série de “Um Tira da Pesada”. Por baixo desse cobertor de clichê, o cristão pode te surpreender.

“Ah, mas ele é muito diferente...”, denuncia a leitora, que também possui seu apartamento em Desiludidanópolis. Aceite as diferenças. Sem dúvida, para tudo há um limite e a senhora sabe muito bem o seu. Só peço um pouco menos de rigor, só pra ver no que dá. Se o pretendente continuar a frustrar as expectativas, aí sim, apresente o bico do seu calçado de preferência.

Paciência, minha linda. Faça como a Mônica e ensine coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Mas sem exageros. Não mude seu hombre, pois numa dessas, acaba que você consegue.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sonhos



Amores vêm, e vãos,

Matam-me insalubres.

Anunciam lúgubres

Dante ou Ícaro.

Ainda, porém, em paixão

Me pego. Tocando o Pífaro.

Indo-me a voar de beijos alados.

Nunca sentidos, nunca tocados,

Há muito sonhados, existentes em saudade.

Aqueles teus, nunca tidos de verdade.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Procura

Estou à procura de palavras
Que não digam
O que eu não quero dizer
Palavras que sussurrem
O que não pode ser ouvido
E que só sejam ouvidas
Por quem não pode entender
Vocábulos abandonados pela estrada
Pois quem não pôde usá-los
Soltou-os pelo ar
Procuro a tais
Revejo o caminho
Reviro as folhas amassadas
Mas não consigo encontrar
Caço palavras selvagens
Que com suas garras afiadas
Possam dilacerar um coração
E ao mesmo tempo
Com seus olhos de pedido
Peçam pra ser meu bicho de estimação.
Preciso delas com toda minha alma
As espero com todo meu ardor
Hora não tenho, outra hora tenho calma
Quero aguardar, outra hora tenho horror.
Palavras agitadas como o mar
Ou simplesmente calmas como um rio
Palavras que deixei de ouvir e de falar
E chego a pensar que esse tipo de palavra
Nunca existiu.





Curta Metragem:
Eu Não Quero Voltar Sozinho

http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho

Sinopse: A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel


porque o amor não tem preconceitos

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O tal ponto final

Desistia de tudo pela metade.
Quando achava estar deixando-se conhecer demais , em uma conversa, desvirtuava o assunto.
Acreditava que a felicidade plena não era algo de suma importância em sua vida. Queria tranquilidade, rotina, mesmice, normalidade. O almejo de meros mortais.
Não chorava, tampouco procurava consolo em quem parecia disposto a ajudá-lo. Preferia o canto quente na parede, que parecia acolher seu corpo com prazer.
Agia com descaso na maioria de seus casos. Não saberia lidar com qualquer entrega - completa - que fosse. Assustava-se quando alguém perguntava sobre suas origens. Não sabia contar suas histórias.
-
Aquela tarde parecia comum, como tudo em sua vida.
Mas queria agir impulsivamente. Mesmo que não fosse de sua parte o tal impulso.
Comprou o que havia prometido para a moça. Tentando criar alguma coragem - era algo árduo e demorado a se fazer - mas conseguira.
Discou os 8 números e pediu para esperá-lo em frente ao seu prédio de trabalho.
5 minutos depois estavam juntos. No mesmo carro, rindo das besteiras.
Talvez nervoso - talvez propositalmente para passar alguns minutos á mais ao lado daquela mulher estranha, ele tomara o caminho errado. Mas logo fora avisado.

P - E ae, como ta a vida, cara?
A - Estamos ae, tipo... Normal.
P - E essa roupa, não era pra estar sociável, porque olha... Nunca vi homens do seu tipo tão desleixados, rs.
A - Último dia de trabalho, né, chefe deu um desconto.
P - HAHAHA, claro, claro.
P - E então, esse livrinho, te manca caralho, tu fica distribuindo perversão para pessoas inocentes.
A - UE, mas foi você que pediu.
P - É , pode ser. Mas o Sr. podia ter dito não.
A - Acho que te conheço o bastante pra saber que ia ficar insistindo, ou fazendo drama.
P - Pode ser. Mas você abriu. Era pra ser um presente.
A - Eu não resisti, dá um desconto.
P - Não. Seu fuleiro.

Chegaram ao destino. Ainda era claro.
- o fuso horário daqui é muito engraçado, acho que nunca irei me habituar, ela pensou.
Ele parou o carro. A moça hesitou. Procurou algo olhando aquele par de vidros brilhantes.
Conseguiu ver o que preferia não ter completa certeza de existir: Covardia.
Se demorou ainda, permitindo-se alguns instantes de lembranças.
Saiu do carro, pulando da poça - aquela tarde choveu mais que o esperado, tardes de Dezembro Acreano.
Não olhou pra trás. Era o primeiro passo.
E o resto viria com o tempo.
- Foi uma boa despedida. disse para si.
Não queria mais estragar o que ficou guardado - o bonito do acaso.
Não queria deturpar as boas memórias.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Caixa Postal

Outro dia me peguei pensando em você. De novo. Achei que já tinhamos superado isso. Nós. Por favor vá embora.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sonho, mas não parece...


Quero compartilhar com vocês um poema que aprecio já há muito tempo e com o qual me identifico profundamente (com cada palavra, cada vírgula, cada silêncio...)





Biografia

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

(Miguel Torga)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Da alma apaziguada.

Deixou a música preferida - já tão clichê e repetida - ser o som de fundo para o primeiro beijo.
Segurou-lhe a face com vontade e beijou seu nariz. Acariciou com delicadeza o rosto - antes triste e cansado - sereno.
Ela sentia mansidão ao seu lado. Era o agasalho no inverno, custava acreditar ter encontrado aquilo. E no meio de tantas reviravoltas.... Achá-lo ao seu lado, bem ali. Como se fosse prisioneiro da condição. Como se esperasse um carro em alta velocidade, voltar na contra-mão.
Foi o abraço de despedida que a fez ver: - Ele era tudo aquilo que queria ter. Só pra ela.
Dividir seria complicado. Começar algo no que já estava planejado.
As mãos se largaram. Mesmo depois do efeito da presença, tudo ficou ameno.
E o pôr vir , tão incerto, parecia agora tão concreto, algo que jamais viu.
Sem alianças ou compromissos , falas ou serviços. Eram dois em poucas horas.
Iriam começar a longa história. Sem tristeza, ambos eram a fortaleza... Um do outro.
Anestesiou-se ao vê-lo partir. Queria a noite inteira pra ouvir sua voz - sussurrante - rir dos relatos chocantes das noites insanas.
Conseguiu , enfim, entrar em casa, enquanto ele partia para o universo de um outro tempo.
De uma longa caminhada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dimytria III



O sol já desaparecera no horizonte. Todas as cores misturavam-se. O mesmo acontecia com seus sentimentos. Era tão difícil externá-los quando todas as portas do coração estavam fechadas. Queria que fosse simples assim como o laranja se misturava com o vermelho, azul e o branco no céu sobre sua cabeça. Sabia que nada era fácil.

A dor sufoca junto com as lágrimas que não foram derramadas.

Os olhos fecharam.



Foto: Fany

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As melhores brigas do universo

Dizem que a partir de uma mega explosão nasceu o universo, as flores, as veias mais complexas do nosso corpo, a cerveja e os Alpes Suíços. Discordo, sou criacionista. Mas a lógica por trás disso é reproduzida nas brigas conjugais e, é inevitável concordar: depois do caos realmente nasce o paraíso.

Não importa o nível da briga, pode ser uma discussão boba ou um quebra pau de delegacia, o melhor de tudo é a reconciliação - nunca mais faço isso, não sei viver sem você e declarações robertocarlianas.

Manchas de batom inexplicáveis na gola da camisa, palavra áspera no momento mais sensível, a data esquecida, a piada fora de hora ou o atraso sem motivo, por que isso não pode ser esquecido em um jantar à luz de velas, no cinema com pipoca no fim de semana, no refúgio na cidade próxima e o principal: a enorme vontade de fazer o outro feliz?

Então, caro mancebo e nobre donzela, tire da briga o que ela tem de melhor: faça as pazes, mande flores, um SMS com desenho esquisito, um vídeo toscamente editado, um pedido de desculpas e curta a lua-de-mel pós briga feia. Você perceberá que por mais que não brote nenhuma vida do seu bigbang, o orgulho engolido lhe dará forças para continuar tentando brigar menos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Renomear

Ele vai encontrar alguém e vai fazer esse alguém a pessoa mais feliz do mundo. Porque ele sabe bem como fazer isso. Ela será suspeita e cúmplice sobre como abrir mão da sua sorte. Porque ela é profissional neste aspecto. Ele vai querer falar de trabalho. Porque ele precisa. Ela vai tentar não pensar muito a fim de evitar o mundo real. Porque ela tem medo. Ele vai pedir para falar das coisas, da sua condição de mulher. Porque ele se surpreende. Ela vai falar com o silêncio, com a delicada e determinada entrega. Porque ela é só o que ela sabe – muito de pouco. Os dois vão se referir a terceira pessoa como “nisso que a gente vive”. Um segue pensando e refletindo para se encontrar e se situar num contexto que é só presente. O outro, numa luta inútil de permanecer com a mente vazia para não se perder e nem cair no abismo da palavra amor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Por que opostas, atraem-se quando dispostas, as cores...*

Não sei começar pelo começo. Adio sempre a decisão do relacionamento sério com o papel. Assim, o memorial descritivo que eu quis fazer sobre as cores pode não acontecer antes do espaço desse retângulo branco e fino acabar. A chama incipiente para a escrita deve vir como um chiste, uma anedota. Eu devo ironizar os fatos ou torno a vida em letras uma tristeza. Então começo.

Também não compreendo: Eram arabescos sob minhas mãos apertadas, os meus olhos voltando sempre para a fuga, os meus beijos mudos. Eu não queria ser abraçada, mas também não queria dormir sozinha...

Começo?!

Era o verde... Como cheguei, ali, ai, Deusa! Quando eu cheguei? Porque a cor que eu era estava repleta de pragas, e eu sei lá! Eram todas as pragas. Desde o ódio ao tédio.

Ele era o verde! A natureza, a primavera, a juventude, a boa sorte e todas as coisas que trazem desenvolvimento e esperança. Sabíamos que eu era a cor oposta ou o vermelho ao cipreste era apenas atrativo, inebriante?

Também a mim, que devia ser paixão, força, energia, amor, liderança, masculinidade, perigo, fogo, raiva e revolução, chegava a agonia de não entender a outra cor. Eu era o vermelho. Vocês sabem? A cor oposta ao verde...

Aquilo devia ser agonia. O que eu sentia não era exatamente o que as cores opostas, quando misturadas, acometem. Com o Preto e Branco vocês podem compreender melhor. Desponta o Sol sob a beleza de um casal contrário. Na paleta real das cores, primárias e secundárias quando opostas formam Cinza. A cor mais neutra e sem graça que eu já conheci!

E eu não sei por que pecados pago agora nesta noite que mais parece eterna. É cinza o céu. É cinza o meu peito. É cinza a cor da minha alma. Mas é verde todo o meu pensamento.

Pensei esta manhã em pintar de azul os cabelos de uma das cinco mulheres que eu criei sob o espectro de mim. Mas quando dei por mim, todo o resto da tela estava pintado de vermelho, verde e cinza. E cinza não porque eu quis, mas porque as cores opostas quando se misturam caem na mesmice da cor mais neutra e sem graça que eu já vi.

E eu era toda a cor vermelho. Mas quando chegava o verde com o panteísmo e a complexidade, as chamas da minha combustão espontânea prostrada, era vencida pelas desastradas florestas mágicas da tonalidade formada por duas cores primárias como eu. E que verde era aquele? Eu saberia designar para os outros uma infinidade de variantes de musgo, lima, mar, broto, jade, esmeralda, menta, grama, oliva e outras, muitas, muitas outras. Mas aquele eu nunca vi. Era tal a força mística daquela percepção visual quase inexorável de excitação da minha curiosidade.

Eu saberia bem dizer que verde é cor-luz primária ou uma cor-pigmento secundária composta pelo ciano e amarelo. Mas não. Naquelas horas preferia pensar que havia um pouco de vermelho também no azul, formando o índigo. Assim eu não sentia a unilateralidade do meu espasmo.

Ah! Eu também não disse que nunca acaba o meu texto. O início tarda, mas a conclusão também não é meu forte. Afinal, as minhas variações são imensuráveis, e de vermelho em todos os tons, eu vou deixando puírem palavras das mais insignificantes, porque nunca faço sentido. (Explico: Vermelho é ódio e amor. Alegria e dor. Como posso ser inteligível também a mim? Tão contrária, acabo por neutralizar-me. E no verde, então? Escolho um dos lados ou escolho a morte. Acinzentar-me seria sutil demais para a minha significância).

O que será, pois, se eu não findar o texto?

Deve ser trivial que eu conte então, que alguma parte do meu corpo de que eu não tinha consciência agora reclamavam horas de atenção. Eu via o farol luzindo na cor laranja. Devia ser mesmo perigoso. Devia eu manter a atenção. Mas que era o mundo ao meu amor? Que era o círculo cromático à minha retina? Que ordem haveria na freqüência espectral se eu não pensasse no esplendor do mágico respeito pela experiência de deixar o posto rubro e tomar a sem-gracinha tabela de acinzentados?

Eu vi quando encostei a mão na sua mão, sem querer e sem que ele sentisse, Matiz, Luminosidade e Saturação. Tudo num segundo, como nunca, porque eu detestava antes a forma circular nas representações quaisquer.

Mas moço, tenho que parar? Findar o que recordo?

Dize-me como? Se nunca, nunca antes houvera a profusão de um riso em mim, por ser piegas e virar paixão como se fosse como qualquer outro vermelho... Tola, tola, ai, como era tola pensando no respeito pela cor de Deus, a alma emudecida pela atração pelo ininteligível, como desejo, capricho, qualquer coisa que influísse um manto de pureza na minha tonalidade primária.

Aquele tom. Olha... Aquele tom, não é possível que o gerasse outra vez um Deus. Porque incompreensível a paciência de sofrê-lo um pouco mais, delicadamente, outra que não eu.

E silencio! Os beijos mudos? Não sei... Mas ó, paixão que sou e guardo a alma cheia de contrastes felizes e tristes, sem admitir realmente que o apetite é raro pela dor de amar. Silencio! As minhas variações cevando todo esse espaço que é o silêncio, porque a folha já acaba o verso. Canto as cores dos lábios que não toco. Quais não sei, porque os olhos vidram.

A cor não pode ser representada. Porventura, é sem nome! Inexiste. Portanto, é eterna. E não limita o acaso de uma narrativa pormenorizada. Eis um verde inopinável...

*Texto de Clara Campelo do blog Zebra Trash

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Futuro pretérito

E se eu tivesse coragem, te chamaria pra ver o filme que milagrosamente está em cartaz na sala de cinema fria. E compraríamos pipocas e cocacola e até ficaríamos meio sem jeito no início, mas depois as coisas tenderiam a se acertar e estaríamos de novo à vontade, como é de costume. E depois caminharíamos até um bar, ou uma sorveteria, ou um lanche (como diz o pessoal daqui) conversando sobre o filme, nossas impressões sobre o roteiro, a fotografia, a direção, quase sempre deixando a atuação de lado, fora de foco, porque somos assim e realmente temos isso em comum. E durante a caminhada iríamos vislumbrando mais e mais quanto de cada um tem no outro, e sentiríamos aquela ânsia na boca do estômago, ainda sem saber se boa ou ruim, sabendo apenas que é ânsia e se é ânsia tem uma razão de existir, talvez oculta ou clara demais, mas sempre a ponto de cegar. E depois de umas cervejas e uns cigarros a conversa já estaria solta e falaríamos sobre projetos e música e cinema e sentimentalidades e todos os assuntos sobre os quais costumamos conversar quando somos somente nós, deixando os outros nós e todos os outros seres viventes em suspenso, à deriva. E novamente a sensação incômoda de espelho, assim como tenho com minha melhor amiga e você deve ter com mais alguém, e novamente a sensação de medo de estar se mostrando a alguém que, embora grata surpresa, é um ilustre desconhecido. E ao chegar em casa, na sua ou na minha, iríamos sorrir daquele jeito que as pessoas sorriem quando estão sem-graça e tentando disfarçar o quanto aquela situação, por mais constrangedora que seja, é exatamente a situação que você esperava. E quase como num romance você me beijaria devagar, relembrando meu gosto, e me apertaria contra o peito como se fosse morrer se me soltasse. E eu me faria completamente sua, sem cerimônia, porque não há razão alguma em lutar contra isso, eu acredito nisso, eu me diria isso repetidas vezes em silêncio e no escuro, só a brasa do cigarro por companhia. E por acreditar nisso eu sentiria toda a intensidade do teu toque e conseguiria definir o desenho perfeito da tua língua entre os meus dentes. E você me sorriria e perguntaria, quase num sussurro, que mistério é esse que há entre nós que nos fez tão próximos em tão pouco tempo. E eu te responderia que também ando me perguntando isso, a cabeça irrequieta e o coração pateticamente exposto. E você tentaria fingir que as coisas não são assim, e eu pensaria na ingrata criatura que tu me serás futuramente, e já até sinto o gosto de cinzeiro de tantos cigarros comidos quando você findar por me machucar. Mas àquela hora, àquela hora em que estaríamos somente nós na escuridão quente do teu quarto ou do meu quarto, eu me esqueceria da ingrata criatura que tu me serás e só pensaria na grata surpresa que tu me seria naquele momento de mel e suor. E pensaríamos em todas as coisas que haveriam de ocorrer dali em diante, de como estaríamos mais próximos porém mais distantes quando todos juntos, naquelas noites de cerveja e divertimentos mundanos. E tentaríamos fingir que somos imunes a isso, melhores que isso, somos adultos e maduros, ninguém acreditaria nas ânsias que sentíamos se não disséssemos aos outros. Mas findaríamos por seguir, com medo e possíveis dores, porque haveria essa vontade soberana e inexplicável de nos sentirmos vivos. Porque seríamos esse tipo de gente assim, que sangra pra se sentir vivo. E deixaríamos sangrar.

Texto escrito em 2008, quando meu relacionamento ainda nascia.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ponte


As cicatrizes já não doem, nem mesmo em tempos frios. Se às vezes lembro que existem, o sorriso diminui nos lábios por pouquíssimos segundos. Não mais que isso.

As palavras que por toda uma vida se calaram comigo ferem menos do que as que usei para magoar (mesmo que sem perceber) outras pessoas. É um fato com o qual convivo bem.

Não sou do tipo de pessoa que se arrepende só do que não fez. Na realidade carrego um certo orgulho de muitas coisas que evitei.

Assim como tenho certa angústia de lembrar do que poderia ter feito diferente também carrego a tranqüilidade das coisas boas que conquistei ao longo do tempo.

Já sofri decepções como todo mundo nessa vida. Também já provoquei infelizmente sofrimento em outros.

Já desconfiei de pessoas que mais tarde aprendi que podia confiar. E, infelizmente, também já confiei muito em outros que aprendi, a duras penas, que era necessário duvidar.

Não há nenhuma façanha em tudo isso. Passamos, cada um a seu momento, por situações semelhantes. Mas, a grandiosidade de se abrir os olhos para um novo dia e encher os pulmões de ar me faz ver que é muito bom estar viva para escrever.

Um dia ainda conto a história da ponte pra você. Ou talvez não. Na realidade era um pensamento fruto de uma mágoa que um dia tive.

Quer mesmo saber? ...

Bem, a ponte nem mesmo existe, só que aqui, na minha imaginação, era bem alta, sem cordas pra se segurar, balançando sobre um precipício.

Altíssima, estreita, comprida e completamente insegura - eu jamais ousaria passar sozinha por ela! Mas, por diversas vezes me ofereceram a mão para me acompanhar até o outro lado. Quando dei por mim, estava lá bem no meio da ponte... e sozinha.

Sei que parece triste. Só que eis que aparece você, segura firme minha mão e me ajuda a equilibrar. E ainda agora estamos passando pelas inseguranças dessa ponte. Ela às vezes parece uma aventura perigosa, mas com você ao meu lado conquistei essa certa coragem. Acho que isso me basta para enfrentar o medo e sorrir. E só precisamos continuar de mãos dadas assim.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

carta aberta de um incerto apaixonado*

Sinto a dor anestesiar minhas entranhas, como uma lâmina que corta sutilmente os pulsos de um suicida famigerado. Uma dor que nunca foi tão profundo dentro de meu corpo. Sinto o coração apertado, o peito doendo, as mãos trêmulas como uma bandeira fincada no topo de uma montanha. Mas de que adianta passar base sobre a ferida, se ela ali permanecerá? Quero um remédio que cure a dor, que cure o aparente, mas talvez nem nas melhores farmácias se encontre algo que faça efeito em vinte e quatro horas. E na farmácia cerebral, então, é que não existe mesmo.

Como te dar certeza, como te prender a mim, se eu não sei? Se não sou sabedor dessa coisa que ainda chamo de mente. Escura mente. Indecifrável mente. Estúpida mente. Como te segurar com minhas mãos, te pedindo que não vá, se não tenho pássaros em gaiolas e os prefiro ver livres para pousar onde acharem que devem? E como não te dizer que te amo se, definitivamente, é o sentimento que me corrói inteiro por dentro? Como te dizer que não te quero, se com meu corpo e alma é isso que desejo? Como posso ser egoísta a tal ponto de te querer pra mim, mas não poder me doar como, indefinidamente, eu gostaria?

Sinto minha voz rouca, meus cabelos desgrenhados, meu corpo desfalecendo à simples percepção de que deixar ir pode significar nunca mais voltar. Sinto minhas mãos abraçando o vento enquanto durmo e tenho sonhos que outrora foram reais. Sinto-me extasiado, demasiadamente cansado, copiosamente lacrimejando ao mero sinal de que o nunca mais não existe pra mim, mas que nada é igual pra todo mundo, e que essa deve ser a conseqüência para as coisas da vida pela qual você se arrisca. Mas e não saber, e não saber, e não saber?

Como resistir à tentação de não te ligar, de não te enviar um torpedo ou de simplesmente olhar em seus olhos? E como olhar em seus olhos, em meio a essa luta interna de sentimento, e dizer que não consigo, que não posso, enquanto quero me jogar nos teus braços, beijar a tua boca e deitar no teu colo? Não posso fingir que você não existe e não me sinto capaz de perceber que pra você eu não existo mais. Será isso o necessário? Será que você vai me apagar, me esquecer e pensar que eu realmente já não existo mais?


*Texto de Jeronymo Artur

domingo, 28 de novembro de 2010

Chuva Fina


Era um dia cinza e frio. Entrei no ônibus e sentei-me num daqueles bancos altos, sozinho. Fiquei olhando pela janela a chuva fina molhar a cidade toda aos poucos, sem pressa. Duas moças sentaram-se à minha frente e uma delas ouvia passiva a outra relatar suas dores de um amor distante.

O que mais me cativou não foi a história da moça em si, e sim a pergunta que ela fazia para si mesma em voz alta: ‘Como é possível sentir saudade de um beijo que nunca ganhei?’ Naquele momento me senti tentado a corrigi-la. Quis dizer que havia um equívoco na pergunta. Ela deveria dizer que desejava muito o beijo, pois não haveria como sentir saudade do que não viveu.

Ainda bem que não disse nada a ela, pois o equivocado certamente era eu. Afinal de contas o sentimento era dela, ninguém melhor do que ela para descrevê-lo (ou mesmo questioná-lo). Visto que a amiga apenas sorriu, provavelmente a julgando tola, ela se calou. Eu também me calei. Na realidade, nem estava falando. Mas calei o pensamento.

Pude entender que ela realmente devia sentir saudade. Olhei para fora e percebi que a rua estava completamente molhada, mas a chuva continuava fina. Sem pressa, como tudo nessa vida necessitava ser. Desci duas paradas depois da que eu deveria descer. O pensamento de ter saudade do que não vivi tomou conta de mim de tal forma que já nem sabia direito pra onde estava indo antes. Só que agora eu já sabia onde queria chegar.

Thais Carvalho

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Do dia que te vi na rua*

Te vi na rua. Mudei de caminho. Talvez tivesse sido melhor mudar o pensamento pra evitar aquela velha história que começa pelo fitar dos olhos, vem gelando os sinos, as orelhas, a boca começa a ficar seca e ao mesmo tempo os joelhos começam a tremer e ela, claro, sempre, anuncia sua volta triunfante, com toda acidez e amargor possível para alguns metros de estômago.

Teria sido melhor se eu ao invés de desviar o olhar, desviasse o carro e batesse na primeira latrina, no primeiro poste que estivesse pela frente. Aí sim eu teria motivos para sentir dor. Enganaria meu cérebro, deslocaria as sinapses para a testa batida no volante, ou pra perna amassada pelas ferragens, ou para as orelhas atingidas pelos estilhaços do vidro. Aí sim eu teria motivo para doer à vontade e deixaria minha gastrite quieta pra sempre.

Se eu tivesse escolhido outro caminho, aquele que costumo ir... Mas não, logo hoje decidi fazer um percurso desconhecido só por que ouvi dizer que faz bem para o cérebro. Exercita. Deixa inteligente. Mas eu não quero ser inteligente. Quero só ser eu e em toda a miudeza dos pequenos grandes detalhes e defeitos pré-moldados.

Talvez eu devesse ter saído de bicicleta, mas o pneu dela está sempre murcho. Sempre, sempre, por mais que eu insista em deixá-lo apto para a minha próxima volta. Pensando bem, se eu tivesse saído de bicicleta também tinha te encontrado. Você está em todos os lugares. Nos orelhões, nas calçadas, nas vidraças, nas costas de meninos e homenzinhos em puberdade. Nas camisetas da Hering, nas cores que vejo pelas vitrines. Não adianta eu desviar o caminho. Sempre vai ter um quiosque que vende cachorro quente, sorvete, pipoca doce, pizza, sushi... que você gosta, assim como eu, de coisas que engordam. Pois é, somos dois falsos magros com cérebros gordos, mas eu só queria ser inteligente. É eu sei que disse que não queria ser, mas na verdade, no fundo mesmo, eu queria. Queria poder assistir filmes e ouvir músicas sem conectá-los aos meus sentimentos - olha a pretensão- como se os autores tivessem feito aquilo que vejo e ouço só pra mim. Sou burra, eu sei. Mas todo mundo acha que o que serve como carapuça, foi feito por encomenda.

Eu te vi na rua mas não desviei. Passei por cima e você nem me viu.


*O texto é da escritora Kaline Rossi. Que seja só o primeiro de infinitos por esta Confraria. é o que esperamos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Da despedida forçada, ou como lidar com um sofrimento inevitável

Daí que moro em terra estrangeira há mais de quatro anos. Foram quatro anos inteiros com o desejo maciço e permanente de voltar pra casa. Mas o momento nunca chegava. Chorei sozinha, quis fugir, cheguei a pegar o carro e dirigir até o aeroporto com a mala no banco do passageiro, mas voltei a tempo de repensar e decidir que não se morria dessas coisas.

É claro que em quatro anos nasceu um monte de gente na minha vida, um monte de pseudo-amores que coube a mim, com o tempo e com a razão, transformar em amores de fato ou apenas experiências de crescimento. Sempre deixei meu céu aberto pra invasão alheia, porque a saudade de minha casa me cegava pra um fato: o que eu ia fazer desses amores quando fosse a hora de voltar em definitivo?

Estive tão afundada no desejo maciço e permanente de voltar pra casa, pros meus, que deixei no modo espera o fato de ser, hoje em dia, absolutamente dividida em duas cidades. Ignorei que mesmo morando em terra estrangeira eu tenho casa, minha casa, o peito do homem amado que me abriga há dois anos. Ignorei que aqui fiz amigos reais e pra vida toda, apesar da distância física diminuir os ímpetos sentimentais. E agora, agora tudo veio à tona.

Sim, vou embora, cedo ou tarde. E a solução mais prática e menos indolor era, claro, levar todo mundo embora comigo, fundir minhas duas vidas numa só. Mas não é possível, ou é? Alguém tem o resultado favorável dessa fórmula matemática?

Então me peguei pensando, já com uma dor latente, no tanto que eu perco. Porque amizades à distância se mantêm, mas e meu amor? O porto seguro que nadei, nadei e quase me afoguei tentando encontrar? Meu lugar preferido, como fica?

Vou me preparando então para, obrigatoriamente, esquecer. Esquecer alguém não por ter me feito mal, e sim por ter me feito a pessoa mais feliz do mundo. Esquecer alguém não por desamor, mas por amor puro e intenso. Esquecer alguém simplesmente porque um capricho do destino fez com que ele tivesse nascido no Acre e eu em Brasília.

Esquecer os gestos, o cheiro, o sabor. Esquecer das palavras de afeto, dos momentos duros que enfrentamos, momentos meus e momentos deles. Esquecer o quanto um fez pelo outro. Porque viver com uma lembrança dessa é aprender a morrer, e eu não quero. Saudade só faz sentido quando se pode matá-la na saliva. De resto, é virar viúva de alguém que ainda vive. É se enrolar em uma mortalha pro resto dos dias.

E fica a pergunta: quando é que se poderá amar assim de novo? Quem vai me chamar de babe e viver cada momento íntimo que a gente viveu? Quem vai me ensinar a ser o melhor que eu posso ser, todos os dias? Com quem vou fazer cinema? Até nossos momentos íntimos em que somos um casal feliz e retardado, onde vão parar? Com quem farei a secreta dança da vitória?

Haverá uma resposta para isso e para tudo. No mais, vou aqui fingindo que não me preocupo com isso, e que tudo vai dar certo no final.

Enquanto isso, vou redecorando as palavras de Chico Buarque, que sabiamente diz que “a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi”.

Se dependesse do que diz Chico nessa canção, esse post seria só o vídeo. Porque ele basicamente diz tudo, né.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A gravidez

Poucas cenas são tão simbólicas na representação do mais puro amor, do que a da mãe grávida acariciando o ventre durante a gestação. O chamego embrionário promove de maneira misteriosa, uma múltipla repercussão em todo o ciclo social da mãe e por que não, do pai.

A mulher grávida é tratada como uma valiosa obra de arte, daquelas dos leilões milionários, sensíveis ao toque e com o respeito que só um grande artista tem. Mas é fato que ela é muito mais que isso, ela além de mudar-se muda seu redor, promove paz e cultiva esperança.

Através do que conhecemos como instinto maternal, ela consegue criar o ambiente tranqüilo para a paz do bebê mais bonito. Todos se sentem movidos a ter paciência, atenção, carinho e amor de forma generosa e sem cobranças.

Os horários se tornam mais flexíveis e a saúde passa a ser prioridade, o desejo de bom dia é mais sincero, e o trânsito já não irrita mais, a fila do banco não tem pressa e ela ganha fiscais de seu bem estar por onde passa.

É durante a gravidez que a sociedade mostra sua mais bela faceta, nos enche de orgulho e consegue ser verdadeiramente feliz, e por mais que o sistema imponha cada vez mais limites, a mulher grávida será sempre uma magnífica prova de amor.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A gente nunca esquece...


... A primeira vez: o primeiro olhar, o primeiro beijo... são todos tão valiosos para uma relação e por isso mesmo tão citados. Um desses momentos - quase sempre esquecido - porém igualmente ou ainda mais valioso é o primeiro encontro de mãos.
Estar em contato com uma pele que antes nunca tenha tocado, sentir a textura do outro, sua diferente temperatura são essenciais para o amor.
Sejam mãos inseguras ou firmes, delicadas ou calejadas, pequenas, grandes, macias, ásperas, tímidas ou decididas. O primeiro ato de dar as mãos em um romance é a descoberta do outro. Dá uma sensação de que, de mãos dadas (com aquelas específicas mãos, insubstituíveis pro coração) é possível enfrentar tudo que vier.
É a partir desse conhecimento (e reconhecimento) das mãos do outro que nasce uma certeza ainda mais forte de que não se está só no mundo. Que se separem por algumas horas, dias ou meses... mas sabe-se que a extensão de si mesmo pode ser reencontrada e novamente conectada por elas. Tão frágeis, mas tão grandiosas - as nossas mãos dadas, confiadas, sejam por amor, ou paixão... ou não.


Thaís Carvalho

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quem ama recomenda


Os mais antigos hão de recordar daquele casal nu, como numa referência a um dos trajes mais adequados à felicidade no romance, onde suas figuras sempre eram acompanhadas pelo famigerado preâmbulo “Amar é...”. Se, num desses lances de suerte, me permitissem dar uma contribuição para o legado dos naturalistas conselheiros, diria: “Amar é... recomendar.”

Quem ama recomenda. Só se quer apresentar o novo, o melhor, a experiência, o ponto de vista para quem se ama. Já amei, e como não podia deixar de ser, recomendei. Recomendei tudo que mais admirava. Tudo que mais sabia.

Para a dama, provei meu amor ao apresentar Robert Crumb. Ao explicar que se dormisse oito horas por noite podia se sentir melhor. Que se você entornasse aquela tequila sem ingerir muita água antes, podia ter aquela ressaca apocalíptica. Ou quando sugeri que o arroz podia ficar um pouco melhor com ervilhas. 

Expliquei a mágica que só pipoca salgada e com bolinhas de chocolate podem proporcionar. Lembro quando pedi pra que saísse um pouco mais cedo da faculdade para termos mais um tempinho juntos naquela sexta-feira cuja aula era um vídeo da Ilha das Flores. 

Recomendações dadas.

Sei reconhecer as recomendações que me ofertaram. Lembro que me recomendaram ouvir Damien Rice. Ou que assistisse a grande película hermana “El secreto de sus ojos”. A macarronada naquele restaurante italiano escondido. E teve a vez em que me foi pedido morder de leve quando se finaliza o beijo.

Recomendações recebidas.

Na recomendação não cabe a arrogância professoral. Não tem espaço para a mesquinhez do “te avisei”. Não se obriga. Faz se quiser, e não ofende por deixar de fazer. A recomendação não foi inventada para se mudar alguém. Apenas é um bônus de afeto. Se não for, não é recomendação.

Uma recomendação sempre carrega no quengo uma dose de ingênuo bem querer. Se recomenda é porque se torce a favor. Repito, é porque se ama.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A sorte

"Audaces fortuna iuvat" - A sorte proteje os audazes

É como se me mostrasse o oásis
E me pedisse prova de merecimento
Julgou-me por critérios desconhecidos

O resultado foi o que se esperava
De quem apenas sentia que podia
Mas não provava o que sentia

A demora e a dor são necessários
Mas a recompensa haverá de curar
Todos os mal entendidos

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Se cuida

Nada planejado. A pergunta. O sorriso tímido. A junção de 5 sílabas. Fora o bastante.
O carro não tinha espaço o suficiente e o barulho lá vindo de fora era pertubardor. Ele preferia o silêncio. A quietude e mansidão de algum lugar para aproveitar a única oportunidade boa que a vida lhe dera em décadas. Suas mãos nervosas não sabiam repousar depois de trocar a marcha e logo aprendeu a usar somente uma mão para guiar o carro... A mão direita segurava firmemente a dela. Unificando o tempo que ainda tinham juntos... Aumentando a veemência daquela noite que nenhum dos dois jamais esqueceria. Passearam pela cidade, até encontrar um lugar em que pudessem repousar a frustração um do outro. O silêncio entre eles nunca existira, nem mesmo em um olhar. Havia muito a ser dito, e sentido, em apenas algumas horas e se privar de tamanha benção seria errôneo demais. Não queriam pensar no depois, no amanhã. No peso que carregavam nas costas. Estavam sendo jovens, imprudentes, imaturos guiados pelo sentimento, vontade – bem longe de qualquer razão - e conseguiam sorrir e regozijarem com isto.
Suas mentes foram pra bem longe. Podia-se dizer que o alter-ego de um guiava o do outro. A troca súbita de ‘conhecimento’. Alcançavam a paz interior.

~

P -

Os toques delicados beirando pinceladas. As coxas estendidas sob o lençol branco. Os gemidos que faziam com que a mente não quisesse estar em outro lugar a não ser ali. Guardando aquelas expressões no lugar mais seguro que tinha em seu âmago.

E -

O corpo sobre o seu. Esforçando-se para provocar algo mais intenso a cada segundo, a cada investida. As mãos tocando seu rosto, os lábios sugando o seu suor. Os olhos penetrando a sua alma. Como nunca ninguém fizera antes. Como ninguém nunca se importara em fazer...

Não tinham a mínima idéia de quanto tempo ficaram imersos em carícias e sorrisos bobos. Duas bestas sentimentais. Vivendo pela primeira vez, juntos, algo inusitado. Inesperado demais. Tão completamente novo que fazia-se tornar seguro. Mesmo que o mundo os chamasse de volta com pequenos alertas – imperceptíveis.

Foi ele que voltou a si. Lembrando do quanto era antiquado, do que esperavam que ele fizesse depois. -De como devia agir. As palavras que devia usar. A rotina que deveria seguir. Apenas aquele momento, pra ser completamente o que queria. Com ela.

Fotografou o rosto redondo e macio pela última vez. Contemplou aquele par de petecas marrons e voltou à realidade. Sem se permitir sofrer.

As mãos continuaram juntas até o destino. Ela sentia o cansaço tomar conta do seu corpo. Mas sabia que tudo aquilo seria multiplicado, na manhã seguinte, em sua cabeça. Beijava-lhe as mãos. Queria manter o cheiro dele em sua pele. Eternizar tudo em lembranças. Guardou em seus ouvidos cada música que parecia expressar completamente o que acabara de acontecer. Mais tarde iria chorar por não ter dito o que devia.

O Adeus foi breve. Quase a despedida de dois saudosos amigos.

‘’Se cuida’’ - Disseram um ao outro. O último beijo. A última união dos lábios chorosos de vontade.

O início do fim. O que poderia ter sido e não seria. Jamais. O tempo passado antes de chegar. As vidas seguidas como se nada tivesse acontecido… Um devaneio passageiro.

A vida normal os esperava lá fora.

‘’Too young to hold on and too old to just break free and run…’’


Texto é da Fany Dimytria do blog Cold Water. Eu (Helder) não via a Confraria sem um texto dela, no caso feito especialmente para nosso blog. Espero que ela não demore para enviar o próximo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Insulto I


"Uma peregrinação involuntária talvez fosse a solução.
Auto-exílio nada mais é do que ter seu coração na solidão"
Conexão Amazônica - Legião Urbana

É discurso fora de moda, vai à contramão da humanidade, do progresso, da liberdade sexual, da vida artística de malhação e novelas das oito. Mas o fato é: o mundo inteiro está infeliz com tanta liberdade.

E boa parte da culpa deve-se as opiniões turvas, e cheias de ênfase, dos auto nomeados intelectuais modernos, que não passam de primatas que usam a linguagem de forma oportunista.

Leia duas ou três vezes a opinião de um antropólogo de araque, aqueles de determinam o lote e o prazo de validade do amor, e perceberá que seus argumentos não suspendem uma pena ao vento. Os cientistas e seus vícios de classificar tudo e todos, reduzem um complexo jogo de sentimentos a algumas ligações de sinapses nas regiões do cérebro afetado no ventre.

O fato é que em situações vexatórias, onde não são analisadas as telas de raios-X do cérebro, até o mais racional dos seres recorre à poesia, ao abstrato, e tudo aquilo que não podemos reduzir a uma função matemática.

A música, a pintura, a literatura e até as imagens do Google, expressam melhor um sentimento do que a opinião de um especialista (os de araque). Uma piada de bar talvez cause tanta reflexão, quanto uma análise da conjuntura sócio-afetiva de um sujeito abandonado.

O discurso fora de moda não descarta o valor do livre pensamento, e da ciência, mas afirma que os valores têm importância maior do que um livro de Engels, que colocar-se no lugar de outrem vale mais que uma leitura de horóscopo, e que respeito não se aprende na faculdade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Convivência*

Foi na feira de livros infantis que a viu pela primeira vez. Dali a cinco anos estariam casados, com dois filhos e insuportavelmente dividindo a mesma casa. Se soubesse disso, não dos filhos, jamais teria parado para perguntar se ela já tinha lido O Pequeno Príncipe. Foi amor a primeira vista, garantiram. Mas a convivência é mesmo uma merda. E ela passou a se incomodar com as cuecas jogadas fora do cesto de roupa suja. E ele passou a se incomodar com a tampa do vaso sanitário sempre fechada. Era pasta de dente apertada em qualquer lugar e louça suja por um dia inteiro em cima da pia. Se soubesse de tudo isso, que chegariam a esse ponto, jamais teria contado a história d’O Pequeno Príncipe, quando ela respondera que nunca o tinha lido. Casaram na igreja mais bonita da cidade, e mais antiga também. Tinham amor para a vida inteira, como diziam. Tinham cativado um a outro e eram ambos responsáveis por isso. Mas a convivência, lá vem ela, os tornara tão desconhecidos quanto antes de trocarem as primeiras palavras naquela feira de livros infantis. Ela, sabedora de tantas coisas, resolveu deixar a vida levar para o caminho que desejasse. Ele, que sempre fazia tudo o que ela queria, concordou e seguiu assim. Mas as revistas de moda espalhadas por toda a sala, e a televisão sempre ligada no SporTV começaram a não só torná-los insuportáveis um com o outro, mas com todos os outros. Não recebiam mais visitas e sequer dormiam no mesmo quarto. Mandaram os filhos passarem férias com os avós. O pai dele e a mãe dela. Cada um com um para, pelo menos aí, não se desagradarem. Ele resolveu sair de casa, não ia criar caso por causa de um sofá velho presenteado no casamento. Ela, naquele dia, resolveu ir dormir na casa da melhor amiga. A casa ficou vazia. Sem desentendimentos, sem crianças, sem pais, sem amor. Ele decidiu que realmente ainda não estava preparado para iniciar um novo relacionamento. Olhou bem para aquela moça na feira de livros infantis, mas depois de vivenciar mentalmente como estariam dali a cinco anos, devolveu O Pequeno Príncipe para a prateleira.

*Texto de Jeronymo Artur. Há tempos ele já escreve. E muito bem.