Cada noite quente é mais um convite pra rua, é mais um bar sujo, é mais um gole, é impossivel. Toda noite quente é um caminhar ébrio até a porta dele, eu nunca mais tinha feito isso, quantos meses já? Dois, três? Quem sabe, quem lembra, quem liga? Eu chego bêbada na porta dele, eu ligo, eu interfono, eu jogo pedra na janela. Eu subo alta, tonta, como sou tonta. Eu suo por todos os poros, eu pingo suor, eu pingo desejo, eu prometo não voltar nunca mais, eu tão dele. Eu molho a cama, eu disfarço minhas lágrimas, eu rio o meu gozo, eu vou embora sorrindo minha tristeza com os cabelos encharcados de solidão. Eu conto pra Mirela. "Não acredito, amiga, tu é burra". "Sou burra não", eu respondo, digo que a culpa é do calor, mas garanto que não volto lá, que foi só dessa vez, não conto pra ela que vou desde a primeira vez que bateu os 30° e que volto enquanto não chover. Não falo pra ela dos choros e das cervejas e dos bares sujos, "foi de ocasião, aconteceu, mas nunca mais, é a seca" e recolho a lágrima que teima em escorrer e olho pro céu pedindo clemência. Não tem uma nuvem. Mando deus se foder em silêncio e peço desculpas pra minha mãe por isso, como se a culpa fosse de alguém. Culpa de belo monte, ele dizia enquanto apertava o beck e eu procurava rotas de fuga, eu odiava aquele desgraçado. "Amanhã a gente faz a dança da chuva", eu digo idiotamente. "Ou um tinder", ela responde cheia de sabedoria. Desligo o telefone resignada e mando deus se foder de novo. No dia seguinte, acordo com um temporal bíblico alagando meu apartamento e ele convidando prum filminho e edredom. Rain, I don't mind.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015
por um fio
- Espera, deixa eu ver se eu entendi, você tá me pedindo pra ir embora porque tá com medo que eu te deixe, é isso?
- Isso!
- Percebe o quanto isso não faz o menor sentido?
- Nós dois nunca fizemos sentido. Mas, sabe os segundos de tremenda agonia que a gente vive quando criança, e um dente amolece, aí amarram nele um fio dental pra arrancar? Parece que eu tô vendo você olhar pra mim, segurando aquele fiozinho, pronto pra puxar a qualquer momento...
- Eu não acredito que você tá fazendo uma comparação dessas, num momento como esse. Eu não acredito que você acha que a dor da nossa separação vai ser equivalente a dor de arrancar um dente de leite. Vou fingir que nem ouvi...
- Não é isso! Eu tô falando da angustia que antecede o fim. Às vezes, é maior e mais dolorosa do que o próprio fim. Eu prefiro te arrancar de uma vez da minha vida a viver com medo. Viu como a gente não se entende? Além do mais, eu não gosto de quem eu sou quando estou com você.
- Então não seja! Apenas não seja!
- Não dá! Você desperta o pior que existe em mim. Você não entende?
- Não, eu não entendo. Não entendo você querer me culpar por suas próprias atitudes. Você me culpa por tudo, tudo!
- Bingo! É exatamente isso! Eu não quero ser uma pessoa que responsabiliza outra pelas minhas próprias atitudes. Não quero mais ser alguém que faz você se sentir tão culpado. Ou alguém que vasculha seu telefone enquanto você toma banho. Seus bolsos, sua carteira... Não quero mais viver duvidando. Sabe, às vezes, eu paro e fico me perguntando: qual será a sensação de ouvir 'hoje vou ter que trabalhar até mais tarde' e simplesmente acreditar? Simplesmente relaxar e responder 'tudo bem, amor', sem imaginar você comendo de todas as formas possíveis "a moça que faz você se lembrar o que é ser leve"?
- Mas... Eu não... Não acredito que você realmente mexeu no meu celu...
- Amor, você ainda me ama?
- Sim, mas...
- Então prova!
- Como?
- Puxa esse fio de uma vez!
- Eu... (...) Vou arrumar minhas coisas...
terça-feira, 26 de maio de 2015
profiteroles
eu estava deitada na cama comendo pizza adormecida, bebendo coca sem gás e vendo um programa muito ruim de comédia. sábado, eu completamente abandonada. só conseguia pensar em como a diversão dos meus amigos podia dar errado e eles podiam ir pra casa cedo e ficar assistindo ao mesmo programa que eu, mas sem a pizza e sem a coca. pensei em pedir uns profiteroles por telefone, mas não sei de nenhum lugar aqui nesse fim de mundo que entregue profiteroles. aliás, não sei de lugar nenhum que venda profiteroles. o que é uma pena, profiteroles for life.
fiquei lá na minha cama e por lá fui ficando. pensei um monte de besteira, pensei em gente morta, pensei em matar gente, cortar meu cabelo, levar o carro na oficina pra fazer aquela revisão dos vinte mil que eu devia ter feito quando ele tava nos trinta mil, enfim. pensei. e pensei nele também, aquele ser humano todo grande, de mãos imensas que pegam em mim toda de uma só vez. pensei na última vez que ele teve por aqui, me trouxe uns profiteroles e a gente fez sexo selvagem e lambuzado e ele com aquela língua imensa e as mãos imensas e ele todo imenso. ah. ele tinha sumido, tava com a namorada, pensei na namorada e só de pensar já me senti pior, então preferi não pensar. fingi dar uma gargalhada de uma piada deveras sem-graça, comédia de sábado à noite, você sabe bem como é.
ele me ligou. deixei o telefone tocar umas quatro, cinco vezes. achei que ele fosse desistir, mas ele não desistiu, ele devia ter desistido de mim já fazia uns cinco anos, mas ele continuava. se ele tivesse desistido eu também desistia. resolvi atender. ele falou umas sessenta palavras em média, das quais filtrei cinco que eram realmente importantes: quero teu cheiro, porra. saudade. eu respondi: ié, babe - que é tudo que ando dizendo por agora. ele riu e falou mais umas setenta palavras sem profundidade alguma, das quais filtrei apenas as últimas: tou indo pra tua casa. antes de desligar, falei: me traz uns profiteroles. ele riu e disse: te levo outra coisa, babe.
joga pizza fora, coca sem gás pelo ralo da pia, toma banho e de repente, não mais que de repente, o sábado sem-graça se enche de glamour. ele vem. borrifa perfume no travesseiro, senta e ri feito idiota, se olha no espelho: tu não é mais adolescente, porra. controla o batimento cardíaco, não dê tão na cara, ele vai perceber. que perceba, foda-se. calcinha sexy rasgada, oh dog, a vida é ingrata e cruel. calcinha branca de algodão, ele gosta, ele gosta de mim toda e de tudo em mim. e o carro pára na frente da casa e eu abro a porta de calcinha e blusa de alcinha e ele vem me comendo toda e a gente faz sexo no corredor.
sexo no corredor for life. esqueçam os profiteroles.
(texto bem antigo, de 2007, recuperado de um blog também antigo. reaproveitamento é ecologicamente correto, né)
quinta-feira, 19 de março de 2015
Roubo
- Não diga isso, meu bem...
- ...
- Te chamei de 'meu bem' sem perguntar se você tem um. Mas se tiver um, e ele te tiver, dessa forma, não me importaria em roubar pela primeira vez.
- 'A ocasião faz o ladrão'.
- ...
- Te chamei de 'meu bem' sem perguntar se você tem um. Mas se tiver um, e ele te tiver, dessa forma, não me importaria em roubar pela primeira vez.
- 'A ocasião faz o ladrão'.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Urgência
Ela era feliz sim. De uma felicidade urgente, genuína e selvagem. Ela mergulhava nas madrugadas sorrindo enquanto era carregada pelo braço, ela bebia a saliva com a sede de deserto, ela beijava os olhos e os cabelos e os nós das mãos. Ela machucava os joelhos no sexo sujo do banheiro do bar, ela dormia durante toda a tarde dos domingos com a mão pousada no peito, ela sonhava com o céu aos seus pés. Ela corria pelo campo verde que era a vida a dois, corria e corria, não podia parar de correr. E de tanto correr ela chegou à beira do abismo, e deu as costas pro abismo, e deu as costas pros avisos, e deu um passo maior que a perna e caiu. E caiu e rolou pelas pedras, machucando a boca que bebia a saliva, que sorria, que beijava os olhos e os cabelos e os nós das mãos. Machucou os joelhos que machucava no sexo sujo do banheiro do bar, machucou as mãos que descansavam no peito nas tardes de domingo. Machucou o coração selvagem. Ela viu o céu aos seus pés. E caiu e caiu, e achou que nunca pararia de cair, até que uma hora parou. Lá do fundo do abismo ela viu um filete de água correndo, e seguiu a água até o ponto onde havia uma forte correnteza, onde havia um rio que corria, e ela seguiu o rio, seguiu a correnteza, e o rio foi dar no mar, e ela nadou e nadou até chegar à praia. Chegando na praia ela se deitou na areia e fitou o sol, e o sal foi fechando as feridas, as feridas da boca, da mão, dos joelhos, do coração. E ela se jogou de volta ao mar, e sentiu cada onda bater, e sentiu a urgência voltar, e a vertigem crescer. E sentiu pressa de voltar a amar. E sorriu pros banhistas, tão genuína como sempre fora, e de tempos em tempos ela voltava a mergulhar nas madrugadas enquanto era carregada, ela voltava a beber a saliva com a sede de deserto, ela voltava a machucar os joelhos no sexo sujo do bar, da praça, do chão do quarto. Ela voltava a correr pelo campo verde, ela voltava a se deparar com o abismo, ela voltava a dar um passo maior que a perna. Ela voltava a ver o céu aos seus pés. Mas ela, selvagem, seguia. E achava outro rio e nadava em outra correnteza até se curar. E seguia, pois tudo nela urgia.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
E se?
"E se?", eu me perguntava. E se a gente tivesse seguido adiante naquela bebedeira e se a gente tivesse dormido junto aquela noite e se a gente tivesse vivido essa parcela de vida que parecia tão óbvia e tão certa? E se a gente tivesse se lançado naquele abismo que era meu coração ainda se curando de tantas e tantas feridas? E se seu corpo me trouxesse as respostas pra todas as perguntas que teus olhos me faziam? E se teu corpo me comesse como me comiam teus olhos? E se a promessa dessa noite ensopada de suor e desejo se concretizasse e a gente enfim gritasse que era isso que a gente queria e que queria há bastante tempo e era sim inevitável? E se a gente cruzasse a fronteira só pra, dali à frente, perceber o passo maior que as pernas e querer voltar? E se a gente nunca voltasse? E se eu te abraçasse com as minhas pernas e a gente gozasse junto apenas por aquela noite quente naquele lugar que, ali, parecia ser só da gente? E se? Eu me cansei de esperar pela resposta. Eu me ensopei de outras noites, eu comi outros olhos, eu abracei outros corpos. Eu cruzei todas as fronteiras, mesmo as que eu nunca devia ter cruzado. Eu te vi desfilar com outras moças e eu desfilei meus moços e ainda assim seus olhos me comiam e me inquiriram e me diziam todas as coisas impossíveis de ser ditas. E eu dancei sozinha noites a fio, o cigarro por companhia e a solução pra todas as dúvidas descansando no meio das tuas pernas. E se?
terça-feira, 30 de setembro de 2014
A morte do menino amor
Aquele menino amor nascera na véspera do ano novo. Nascera feliz, saudável, pois já no início era dividido igualmente em duas partes, o que garantiria a ele bons anos de vida. Se tivesse nascido dividido em partes desiguais, mais cedo ou mais tarde uma das partes do amor pesaria demais e exigiria em demasia da parte menor, o que nunca é justo. Nunca é justo com o amor e munca é justo com quem ama.
Pois esse menino amor nasceu e cresceu bonito e saudável, nas duas partes jovens e saudáveis. O menino amor era cheio de vida. O menino amor viajou, morou junto, encarou o tempo ruim e celebrou o tempo bom. O menino amor foi feliz, certo de uma vida longa e plena.
Até que veio...a vida. E o menino amor, agora já crescido, se viu também partido. Continuava dividido em partes igualmente iguais, porém distantes uma da outra. Uma parte lá, outra parte aqui. Mas o amor não se deu por vencido e resistiu. E escreveu cartas, e varou noites em ligações intermináveis, e gastou todas as milhas acumuladas com o cartão de crédito. O amor tentou. Mas a vida se esforçou em continuar, e as ligações cessaram aos poucos, as cartas demoraram mais pra chegar, as milhas findaram e o bolso não podia comportar. E o silêncio veio chegando sorrateiramente, ocupando o lugar do riso, e o riso se viu em outros olhos, e outras bocas se beijaram numa noite fria, sem dor pra ninguém porque aquele amor não estava mais lá.
Não sem tentar, e cheio de dúvidas, o amor morreu.
Morreu ainda dividido em partes iguais, o que era de uma tristeza infinita. Amores morrem todos os dias, porque não são de verdade, ou não são do mesmo tamanho, ou foram traídos pelo melhor amigo - o pior inimigo. Mas ninguém lidava bem com essa morte assim. Era um amor jovem, verdadeiro e igual.
Que, infelizmente, morreu de fuso horário.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
A volta do boêmio
Engraçado retornar às linhas & letras e deixar um pouco de lado os números e as observações das mesas de pôquer. E já se vão mais de dois anos sem aparecer nesta Confraria. Sim, voltei porque fui. E fui porque já não via sinceridade nas minhas ideias de amor. Teve uma hora que me dei conta que escrevia, era lido e elogiado por falar de algo que ainda não tinha vivido de fato. Sacanagens, seduções, entre outros, ah... isso eu conhecia bem. Mas de amor, era (e talvez ainda seja) um completo retardado.
Eis que vivi. E como... Intensos, fulminantes, contraditórios. Meus amigos, garanto-lhes que esta puerra que tanto se fala sem o menor fundamento é o narcótico mais hardcore que existe e dele provei até ter overdose. Amei pra caralho. Poutaquepariu! E olha que nem acho que sou dos que mais se entrega. Um erro, claro. Amor é pra isso, é pra se lambuzar e deixar secar sem limpar, sem frescuras.
Ele é descontrolado, e me conheci um sujeito controlador. Daí as cagadas que aprontei, pois aquilo chamado amor é pior que touro brabo, não tem quem dome essa desgraça. Você fica sem chão (e me perdoem os lugares comuns, mas estou desenferrujando ainda), mas quando tu se vê nessa situação, ao invés de procurar algum lugar pra segurar, a vontade que dá é de se mergulhar mais fundo, de testa, só pra ver onde dá.
Voltando ao retorno ao blog, devo confessar que agora no meio do texto, minha cabeça fervilha de sensações que vivi e quero passar, mas ao mesmo tempo me dá um medo danado de não conseguir terminar esse texto de uma forma digna. Perdi um pouco dessa dignidade de escritor. Dessa moral.
Enfim, rumbora parar por aqui hoje ou não termino isso aqui muito bem. Melhor voltar de leve, sem um texto com a obrigação de ser realmente bom. Só um texto simples. Até meio ruim. Não vou divulgar, nem fazer o menor alarde sobre esta crônica. Quem sabe a próxima vingue. Penso em fazer uma carta aberta. Uma prova pro meu amor atual. Ou não. Ou só conte um pouco das minhas preserpadas, pois elas continuam.
Até mais.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
A sorveteria
“Boa escolha a sua” disse a ele com o
sorriso simpático de quem conhece a freguesia. – É! Dificilmente compro outros sabores,
respondeu. “Faz bem, o açaí tem ferro e dá energia” completou como se
conhecesse sua rotina e da sua necessidade de complexo B. – Está aqui seu
troco. – Obrigado, posso voltar outra hora para conversarmos mais sobre tabela
nutricional dos picolés? – Claro, será bem vindo! Respondeu com espanto e um ar
de riso.
Ele passou meses pensando naquele curto
diálogo despretensioso e imaginando a rotina daquela moça linda de olhar
materno. O que ela pensa ao acordar? De
quem lembra ao deitar? Qual sua comida preferida? Prefere rock ou sertanejo?
Mas a vida tratou de esfriar as perguntas e colocar
as tarefas burocráticas na pauta do dia. De segunda a sexta, dez horas de
trabalho contínuo, sábado a cerveja com os amigos e o domingo de futebol na TV.
A vida foi passando rapidamente rumo ao dia de mudar de cidade.
Com uma oferta de trabalho, foi para o
interior de Minas Gerais na esperança de que entre um pão de queijo e uma
cachaça a vida adoçasse e a paz chegasse. Com tanta dedicação ao trabalho,
prosperou e tornou-se um importante empresário da região. Comprou fazendas
quilométricas e uma fábrica de fazer queijos.
Certa vez, nas suas andanças pela
fabrica caiu no chão desmaiado. – “com certeza é estresse” disse uma das
funcionárias acostumada com a rotina do chefe. Era anemia! O baixo índice de
ferro no sangue era fruto de várias horas a mais de trabalho que lhe renderam
uma baixíssima imunidade.
Passou algumas semanas internado e
quando teve alta comprou imediatamente uma passagem para sua terra natal com um
desejo em mente.
–
“Moça, oito picolés de açaí, e um beijo, por favor!”.
~~ Fim ~~
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Sonhar...
…e acordar sem você, amor, é como não beber água depois de
escovar os dentes. Como esperar aquele ônibus há horas e perceber que ele não
vai parar porque ta lotado. É como precisar daquele abraço apertado e só ganhar
um aperto de mão e dois beijinhos no rosto (um em cada lado). É como dirigir um
carro de marchas na contra mão. É como tentar andar de costas e de olhos
fechados na tua direção.
Não te ter ao lado ao despertar, entorpecida de você, é como
ouvir uma música bonita só com um lado do fone de ouvido. Como andar no sol
quente sem óculos, desprotegido. É como esperar o sinal vermelho abrir. É como
sujar os sapatos recém engraxados. É como se preparar para um dia de sol e ver
que o tempo ta nublado.
É que não ter seus olhinhos pequenos e brilhantes, logo
depois de me deslumbrar contigo, me agonia. Eu não quero te dizer o que guardo
aqui dentro. Não quero te contar que você faz essa falta que machuca,
estraçalha e bagunça mais ainda a minha sutil insanidade. Não quero te contar a
vontade que tenho de mexer novamente em teus cachos. De enrolar meus dedos por
entre eles e adormecer contigo deitado de cabeça para baixo.
Mas deixa eu voltar a dormir agora, amor. Porque amanhã vai
ser difícil admitir que hoje você me encheu de saudades. Vai ser árduo perceber
que nenhum tempo é bom o bastante ao teu lado.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Vírus
"Mãe, acho que tô doente"
Ela estava atravessada na cama, ardendo em febre. Ao lado dela o notebook ligado, a página de uma rede social do moço. Ela passava os álbuns de foto em revista, sorrindo.
"O que você tem, filha?"
No chat, uma amiga perguntava pelo moço. Ela, ainda deitada, respondeu que só chegaria de viagem em dois dias. A viagem que duraria uma semana e já durava quase um mês. Ela sentiu ânsia.
"Ânsia de vômito. Febre. Tontura."
Ela e o moço se conheceram há uns cinco meses, numa festa. Beberam, dançaram, sorriram, e de lá foram para o apartamento dela. Era uma sexta. Ele só foi embora no domingo. Ela lembrou desse primeiro final de semana e a ânsia aumentou. Quis chorar.
"Ih, filha, será que é dengue?"
A amiga perguntou se eles estavam namorando. Ela respondeu que não sabia, e não podia ter sido mais honesta. Com seus 30 anos, nunca tivera um namorado a sério. Namorou por algumas semanas com um rapaz, na época da escola, mas a lembrança que tinha disso era amarga. Na verdade, o rapaz dissera à época, pra quem quisesse ouvir, que ela era amarga. Sem coração. Que não sabia amar.
"Ai, mãe, não sei. Tô com vontade de chorar. Tô sentindo um aperto, sabe? Uma dor aqui do lado esquerdo."
Ela, de fato, não sabia amar. Nunca amara na vida. Não havia razão específica para isso: não sofrera uma grande decepção, foi criada rodeada de amor e carinho, só não sentiu nada além de desejo pelas pessoas que frequentaram sua cama. Nem homens nem mulheres. Ah, ela se esforçou, mas nunca encontrou o tal do amor.
"Deve ser uma virose. Te pego aí pra te levar no médico, ok? Quinze minutinhos."
Ela desligou o telefone e rolou na cama, olhando pro teto. Não era de ficar doente. Mas, de uns tempos pra cá, ela adoecia com uma certa frequência.
A amiga voltou a chamar no chat, mas ela fechou a conversa e desligou o notebook. Tomou um banho gelado pra tentar aplacar a febre, mas não resolveu. Pouco depois do banho o moço ligou. Disse que sentia falta do cheiro dela, que estava tentando adiantar o retorno, que ansiava para vê-la. O estômago dela se revirou, a febre aumentou, seu rosto estava em brasa, o calor de seu corpo era palpável. Ela disse que não aguentava mais de saudade, pediu que ele voltasse logo pra ela porque ela, pra variar, havia adoecido e sentia falta do cuidado dele.
"Já reparou que você só fica assim quando eu preciso me ausentar? Acho que te faço mal.", ele fez charme. Ela riu, exasperada. "Não, quando você volta eu sempre fico bem. Você é meu remedinho."
No caminho pro hospital ela narrou os sintomas pra mãe. Falou da febre que não cessava nunca, do embrulho infalível no estômago, da ânsia cheia de ânsia do não sei o quê. A mãe perguntava sobre a ocorrência e a frequência dos sintomas, já com um meio sorriso, e ela respondia que se sentia melhor quando o moço estava. Que mesmo quando eles ficavam uns dois dias sem se falar ela se sabia bem porque ele tava ali, e quando o período era superior a isso ela sentia a casa cheia de ausências e já ficava assustada e irritadiça, e já se sentia indisposta e não queria fazer nada, e a febre queimava e queimava e queimava.
A mãe deu meia-volta. "Mãe, o hospital é pra lá", ela argumentou. "Filha, pra isso aí não tem médico, benzedeiro ou curandeiro que dê jeito. Isso aí, minha filha, é mal de amor". Ela sorriu, incrédula. Mas, ora, como haveria de saber que não era se nunca antes tinha experimentado aquilo? A mãe lhe explicou, com calma. Ela entendeu.
"Mas é assim, como vírus?"
"Sim, filha. Amor é assim, feito vírus."
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Old Love
Ela acordou naquela manhã fria e imediatamente quis dormir de novo. Tivera uma noite terrível, e o ritmo preguiçoso do feriado junto do final de semana não ajudaria na tarefa de começar a semana.
Era a semana de aniversário. Ela não era grande fã de aniversário, tanto por não se sentir mais sábia ao longo dos anos quanto pela perda do primeiro amor em uma de suas vésperas. O aniversário era basicamente o fim do inferno astral, nada digno de nota, e ela preferia encarar assim.
Por ser segunda ela já sabia que seria um dia inevitavelmente ruim, mas aquela era uma segunda diferente, e ela soube no momento em que tentou se levantar da cama, pois havia um peso novo dentro dela, no fundo da garganta. Uma coisa assim antiga, mofada, morta. Ou que ela pensava estar morta, pois estava ali bem viva dificultando a respiração. Tentou entender o que acontecia e seu corpo todo enrijeceu de medo. Lembrou com clareza da última vez que se sentira assim, e já fazia tantos anos que não parecia possível. Tanta água já tinha corrido, de uma correnteza tão violenta, que ela tinha certeza de que o menor fragmento restante tinha sido levado junto com tantas outras dores. Mas não, ela sabia que não. Estava ali, viva e cristalina, a saudade de um amor morto.
Morto. Mas um dos amores mais bonitos que ela viveu, ali pelo início da década passada (deus, que história antiga! - ela repetia pra si mesma). Namoraram por quase dois anos, um amor fresco, cheio de brisa, cheio de descoberta. Antes de namorados eram melhores amigos, e conheciam tão intimamente um do outro que era praticamente impossível que errassem. Ela lembrou desse detalhe com um certo pesar – o relacionamento posterior durou quase o dobro, mas deve ter tido metade da felicidade e uma quantidade infinitamente maior de lágrima e dor.
Ela tinha seus 19 e ele já 32 anos. Vinha apaixonada por ele há alguns meses, mas não sabia se era recíproco e não quis arriscar, afinal ele era seu melhor amigo. E era desses caras assim, facilmente apaixonáveis: bonito – de olhos escandalosamente verdes, inteligente, sensível, educado, simpático à causa feminista (o que já era deveras importante pra ela à época). Pilotava uma moto da cor preferida dela, era músico e jogava xadrez. Quando ele a pediu em namoro ela tinha a absoluta certeza de que ali era o início do fim dela, e que o fim dela era ele. Não queriam filhos, não queriam casamento, queriam morar fora do país e amavam cachorros. E eram completamente tarados um pelo outro – chegaram a ser indiscretos em algumas ocasiões sociais, mas era um cio interminável. Faziam sexo o tempo todo, conversavam sobre tudo o tempo todo, ouviam Beatles todos os dias, bebiam feito loucos e foram felizes feito loucos, o tempo todo. Nada com ele era difícil – nem a relação conflituosa que ela tinha com a família, nem a morte prematura e traumática do primeiro amor dela, nada era um obstáculo, nada era um enigma. Viveram uma relação tão madura pra idade dela, sem grandes brigas, sem grandes percalços, baseada numa confiança sem reservas e num amor que só crescia, que por vezes ela custava a acreditar que era real. E quando ela duvidava ele fazia questão de transformar a dúvida numa realidade tão palpável, tão intensa e desejável, que ela se sentia grata pela certeza que ele plantava no coração dela.
Até que ele mudou. De uma hora pra outra, sem motivo aparente, ele mudou. Quase não conversavam mais, ele estava ausente a maior parte do tempo, o sexo esfriou, ele simplesmente mudou. Não durou um mês, mas ela não quis esperar. Não quis pagar pra ver. Se achava tão madura, tão especial, tão auto-suficiente, que não tinha porque esperar por ele voltar. Ou batalhar para tê-lo de volta (se ela pudesse imaginar do que seria capaz mais à frente...). Tentou conversar uma vez, se muito, e como não obteve resposta, simplesmente resolveu partir.
A partir daí, tudo que era absolutamente especial entre eles adquiriu um aspecto turvo, e chegou ao ponto de parecer que sequer se conheciam. Meses depois ele a encarou e disse que havia errado, que tinha cometido esse erro e que esse erro foi responsável por fazê-lo mudar, porque ele não tinha condições de encará-la, não tendo feito o que fez. Mas que ele sabia de quem era a culpa pelo fim, e estaria disposto a carregá-la por quanto tempo fosse preciso, porque ele sabia o que esse erro custaria, e era um preço muito alto a se pagar. Ela ouviu num misto de alívio e ódio, pois se arrependera de ter partido sem lutar, mas por ouvir sem ouvir de verdade ela só maximizou esse erro pra se livrar da culpa. Ela, menina que se achava mulher, não soube perdoar. E desde então eles nunca mais conversaram como antes, e brigaram como nunca, e se perderam completamente no processo de assassinar o que sentiam um pelo outro. Ela nunca olhou pra trás, nem uma única vez, nem mesmo quando foi correndo ao hospital sem saber se ele estava vivo ou não. Ela matou o que sentia ali e decidiu se transformar em viúva de alguém que ainda vivia.
Ela encarou orgulhosa uma viuvez de quatro longos anos. Tinha a certeza de jamais viveria um amor como aquele, e de fato não viveu, e não queria se arriscar a perder tudo de novo, o que aconteceu de maneira ainda mais violenta anos depois. E se achando segura ela abriu mão de seu luto feroz, e permitiu a invasão alheia que viria a devastá-la sem precedentes. E vivendo um novo luto ela se agarrou à certeza de que tinha tanta morte dentro dela que isso impossibilitaria o renascimento de qualquer coisa que já tivera vida.
Desde então, desde o momento em que abandonou sua mortalha e se permitiu amar e ser amada por outra pessoa, ela nunca mais experimentou esse tipo de saudade. Nem quando seu relacionamento posterior ia se transformando lentamente no maior erro de sua vida. Ela mal lembrava da última vez em que estiveram diante um do outro e tiveram uma conversa decente, seis anos atrás. A última vez que se falaram, numa ligação à distância cheia de falsas promessas e mágoa, tinha sido há mais de quatro anos. Nunca mais havia pensado nele, nos olhos escandalosamente verdes e no cheiro do xampu que ele usava nos cabelos longos, na tatuagem de pássaro negro em homenagem à canção preferida dele que também era a dela. Tudo tinha ficado no campo do esquecimento.
Trazer à tona, de volta à vida, algo há tanto enterrado, e enterrado tão profundamente, não foi um processo simples pra ela: se sentiu pesada e assustada no decorrer do dia. Tentou ignorar o nó na garganta e falhou. Tentou situar as lembranças no campo da memória sem importância e também falhou. Experimentou o gosto que tem o arrependimento guardado por quase dez anos e engasgou, pois era amargo e cruel. Mas ela não chorou. Nem se torturou, tampouco. Ignorou o conselho da amiga que disse para procurá-lo. Ela não era mais a mesma, ele certamente não é mais o mesmo. Ela imaginou, claro, como seria se por acaso tivesse perdoado aquele deslize menor, e talvez ainda estivem juntos e felizes, e talvez ela tivesse vivido várias outras coisas. Mas ela ali, à distância, vislumbrou a possibilidade rica e serena que deixou passar, e se despediu dela sabendo quem ela era. Sem dor. No fim do dia se comprometeu a, dali pra frente, estar mais atenta aos sinais. E ouviu Eric Clapton até sangrar.
Old love, leave me alone
Old love, just go on home
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Indelével
adj.
Que
não se pode apagar ou desaparecer
Acredito que quase,
quase tudo na vida é superável. Superamos a dor, a perda, o engano,
a morte. Quase tudo. Acho que a única coisa que eu não superaria
seria a perda da minha mãe, por exemplo. De resto...perdemos
trabalhos, tempo, amigos, e vamos superando e continuamos a viver. E
dá pra viver uma vida cheia e verdadeira, mesmo com todas essas
perdas, mesmo com a energia que se despende pra superar as coisas.
Mas falemos de amores.
Amei três vezes na
vida. Ao fim de cada amor, achei que fosse morrer, porque tudo em mim
doía a maior dor do mundo e eu achei que nunca ia ter fim. E chorei
e sequei, mas nem morri. E as dores foram passando, a cicatriz
fechando e eu fui voltando aos poucos à vida. Daí depois de um
tempo eu me apaixonava de novo, e desapaixonava e seguia, até cruzar novamente com o tal do amor. E superei meus três amores mortos, e sei
que posso superar os outros que virão, caso morram.
Mas, sabe o que é?
Cicatriz fecha, mas não sai. Cada amor morto deixou uma marca
impossível de ser removida. E às vezes, no silêncio da hora mais
escura, aquela hora em que faz mais frio, a marca dói. E não dói
pelos amores já mortos, não dói pelo que se perdeu ou pelo tanto
que se deixou de acreditar. Dói porque é uma coisa ainda viva,
esquecida, mas viva dentro da gente. E vem assim, sem menos nem mais,
num átimo, porque é viva.
Não tenho medo dessas
dores.
sábado, 1 de junho de 2013
Repartição
Era
um moço bem moço. Trabalhava como mensageiro de uma empresa
terceirizada que prestava serviço pra várias repartições
públicas. Era sozinho – mas sozinho mesmo, de uma solidão de dar
dó. Não tinha família, amigos nem bichos de estimação. Era um
moço bem moço e bem só, que parecia carregar consigo uma gravidade
mais que pesada que o próprio peso. Era curvado, branco e frio.
Normalmente ele não falava com ninguém quando chegava, só
entregava o que tinha de entregar e partia. Mas aí ele começou a
mudar quando a outra mulher chegou.
A
outra mulher era a nova diretora da repartição. Ninguém gostava
muito dela, mas ela parecia gostar bastante de si mesma pra se
importar com isso. Era vaidosa, altiva e bastante egoísta. Mas o
moço bem moço que vinha deixar correspondência pra ela parecia ver
uma fada sempre que chegava. Parecia ser salvo sempre que a via. Eu
não entendia. Eu tentava trocar uma ou duas palavrinhas com ele mas
ele nunca olhava pra mim, então nunca podia ver meu sorriso – ele
tinha olhos só pra ela. Ele entrava, entregava a documentação
dela, parava ao meu lado pra tomar um copo d'água, ignorava meu
sorriso e ia embora, sempre olhando pra ela, e com uma fome que eu
nunca vi em olhar nenhum.
Com
o passar do tempo a gravidade dele foi se esvaindo, dando lugar a um
moço ainda mais moço. Jovial, sorridente, ereto e quente. Mas era
tudo só pra ela. Eu percebi isso quando ela tirou férias. Ele
voltou a ser o mensageiro macambúzio que as outras pessoas riam
quando ele saía da sala. O moço alegre voltou quando ela também
voltou, mas ela parecia não perceber. Ninguém ali parecia perceber,
além de mim. E um dia fui ter com ela, e perguntei se ela tinha
ideia do efeito que causava no rapaz. Ao que ela respondeu com uma
risada fria. Só isso, uma risada fria, e voltou ao que fazia, me
deixando ali feito boba.
Desde
então eu tentei de todas as formas atrair a atenção dele para o
fato de que ela não se importava, mas ele nunca me olhava. Até que
um dia eu o segui, consegui pegá-lo ainda na escada, e disse “sabe,
essa mulher por quem você é apaixonado, ela não liga”. Ele me
olhou sem me ver, disse que não sabia do que eu estava falando e
retomou a descida das escadas, sem olhar pra trás. Depois desse dia,
todas as vezes que eu tentava ter com ele eram fadadas ao fracasso.
Mas eu insisti. E da última vez que tentei, ele segurou com força
meu braço e disse que ela seria dele e eu não podia fazer nada pra
impedir, que ele já tinha percebido que eu o amava mas ele não me
amava e que devia deixá-lo em paz. Me assustei. E deixei pra lá.
Até
que chegou o final do ano. Faltavam algumas semanas pro réveillon
quando ele me procurou na repartição. Pediu desculpa pela forma que
havia me tratado e disse que eu ficaria feliz em saber que ele
passaria a virada de ano com ela. Nesse momento ela passou, ignorando
completamente qualquer ser ao redor, incluindo a mim e ao moço.
Olhei pra ele com curiosidade e interesse. “Como é possível que
ela passe a virada do ano com você se ela sequer considera sua
existência?”, perguntei. Ele riu e disse que já havia tomado
conta de tudo. Eu, que havia decidido desistir, apenas passei a ele
meu telefone e pedi que me ligasse caso algo desse errado, mas que eu
torcia pra que fosse uma noite ótima. Ele me abraçou e foi-se.
Fui
passar as festas no interior com minha família, mas não tirei o
moço da cabeça. Me arrependi de não ter pedido o celular dele pra
poder pelo menos sondar. E percebi que meu maior medo era, na
verdade, que eles realmente estivessem vivendo um affair, e ela por
ser daquele jeito não quisesse demonstrar pros funcionários. Porque
uma mulher como ela não se envolveria com um mensageiro – não
quando tem convites pra jantar com o chefe da repartição.
Na
festa de réveillon quase não me diverti, pensando no moço todo o
tempo. Até os imaginei, os dois de branco, com uma taça de
champagne, brindado àquele amor que nascia junto com o ano. Fiquei
num canto escondido e chorei a festa inteira. Quer dizer, eu entendia
o fascínio que ela exercia sobre ele, afinal ela era uma mulher,
linda, bem-sucedida, enquanto eu era só uma moça bem moça, que nem
ele, que passou a vida no canto, sem ser percebida.
Mas
meu celular tocou no momento da contagem regressiva. Havia uma
mensagem de um número desconhecido. Era ele. “Ela não pareceu
feliz em me ver na casa dela, mesmo com a ceia pronta, as velas
acesas e um bom champagne. Então tive de convencê-la a ficar”. Um
frio percorreu minha espinha. Não sabia o que ele queria dizer com
isso, então liguei. Mas a ligação não completou. Tentei de novo,
falhou de novo. Enquanto discava os números pela terceira vez,
tremendo, chegou uma foto. Ela estava amordaçada, amarrada à
cadeira, com os olhos inchados de apanhar e o nariz sangrando. Ele
estava ao lado dela. Feliz. Ele estava feliz.
Me
desesperei. Liguei de novo, a ligação completou mas ele não
atendeu. Mandei uma mensagem pedindo que ele a libertasse, passei meu
endereço caso ele quisesse ter um lugar pra pensar antes de decidir
que decisão tomar, mas que ele precisava sair da casa dela
imediatamente. Ele respondeu que estava com a mulher que amava no
exato lugar em que devia estar. Então eu entendi o processo dele.
Pedi o endereço pra fazer uma visita de cortesia, como amiga, pra
celebrar o amor dos dois. Ele me passou. Peguei o carro. Mais de uma
hora de viagem, mas algum dano maior podia ser evitado.
Durante
a viagem me perguntei o porquê de estar agindo dessa forma,
dirigindo na madrugada pra socorrer alguém assim. É certo que eu
gostava desse moço, mas não era certo o que ele estava fazendo, e
tampouco era certo eu tentar ajudá-lo. Eu podia simplesmente ter
avisado à polícia e ver o que acontecia. Mas percebi que, na
verdade, estava feliz por esse romance ser apenas um delírio dele.
Por ele ser louco de achar que uma mulher ficaria com ele. Ainda que
isso significasse cárcere privado e agressão, eu estava feliz por
saber que ele uma hora ia perceber isso e ia sofrer. E eu estaria lá
por ele.
Quando
cheguei não acreditei no que via. A mesa posta, as velas acesas, as
bebidas. Tudo tão cuidadosamente preparado por ele. Ela continuava
amarrada à cadeira, desacordada, sangrando. Ele cantarolava de algum
outro cômodo. Percorri a casa e fui encontrá-lo na cozinha. Ele
pareceu extremamente incomodado em me ver. Expliquei que tinha ido
até lá porque a festa que eu estava já tinha acabado e eu queria
me divertir. Ele não acreditou, mas não disse mais nada. Me levou
pela mão até a sala de jantar. No chão, perto da cadeira onde a
mulher estava sentada, vi um martelo de moer carne ao lado de um
celular destruído. “O namorado dela não parava de ligar”, ele
explicou. “Mas nós tivemos uma conversinha sobre isso, né, meu
amor?”, ele perguntou a ela, que havia acordado. Ela me olhou com
completo horror no olhos, começou a se debater tentando sair da
cadeira. Eu pedi a ele pra tirar a mordaça dela. Ele disse que não
podia, ela ia voltar a gritar, eu pedi por favor, fiz ela prometer
que não gritaria, ela indicou com a cabeça que não o faria, ele
tirou o pano. Ela, obviamente, gritou. Ele ficou desesperado, pediu a
ela que pelo amor de deus parasse, que os vizinhos iam aparecer e iam
estragar a noite deles, que ele tinha planejado tudo, que era pra ser
tudo perfeito. Ela continuou gritando. Peguei o martelo e bati na
cabeça dela com toda a força que pude acumular. Ele me olhou
aterrorizado. Veio pra cima de mim, e percebi que ele nem era tão
moço assim. Dei com o martelo na cabeça dele também. Uma, duas,
cinco vezes. O sangue dele cobriu meus braços, meu rosto. Limpei com
a toalha alvíssima da mesa. Apaguei as velas. Peguei uma coxa
particularmente gorda do peru e saí pela porta dos fundos. Um
vizinho olhava pela cerca. Desejei a ele um feliz ano-novo e ganhei a
rua. Ainda havia fogos, a noite estava bonita, então parei pra
olhar. Ouvi as sirenes ao longe, misturadas ao barulho dos fogos de
artifício. Parecia música.
Parecia
música.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Ritual
Toda sexta-feira ele
desaparecia. Não atendia celular, os amigos que eu ainda tinha
coragem de ligar nunca sabiam dele, ele simplesmente sumia. No início
ele me dizia que tinha ficado preso no escritório, que o pneu furou
e ele tava sem bateria pra chamar o seguro, depois de um tempo era
tanta desculpa estapafúrdia que eu simplesmente deixei de acreditar.
Eu sabia o que ele fazia – não sabia onde, nem com quem – mas
sabia o que ele andava a aprontar. E toda sexta-feira eu derretia de
ódio. Sentia ódio dele em todos os poros do meu corpo. Era medonho.
Eu tinha febre, e cerrava os dentes, e não dormia, e chorava, e
começava a imaginá-lo morto. Morto. E eu imaginava a morte dele bem
lenta e com muita dor, e ele me pedia perdão com os olhos vidrados
de desespero e aquilo me dava um prazer aterrorizante. A essa altura
eu já o tinha matado empalado, queimado, envenenado, mutilado,
atropelado, crucificado. Cada sexta-feira era uma morte diferente, e
às vezes eu fazia umas pesquisas durante a semana, pra garantir que
opções não faltariam. E ficava lá, na cama, comendo cigarros, os
olhos inchados de dor e mágoa, saboreando cada detalhe da morte
dele.
Mas aí, no sábado de
manhã, no sábado de manhã ele chegava, cheirando a álcool e
penteadeira de puta, e me abraçava e pedia perdão. E chorava, e
dizia que não mais faria aquilo comigo, que não era justo, e
pelamordedeus me perdoa, e eu dizia que tava cansada, que aquilo não
dava mais pra mim, e ele enfiava a cabeça no meio das minhas coxas e
eu gemia e chorava e gemia. Aí ele me deitava na cama e me penetrava
com tanto cuidado que o ódio ia embora, aos pouquinhos,
devagarzinho, e ele lambia meu mamilo e pedia perdão, e eu perdoava
e sorria, e aí ele acelerava, o ódio ia voltando à medida que ele
também ia acelerando, e quanto mais rápido ele me fodia mais rápido
o ódio voltava, aí eu explodia em gozo e raiva, e chorava e chorava
e chorava. Ele se limpava com o lençol, virava pro lado e
imediatamente começava a roncar. E eu, chorando chorando chorando,
ia pro banheiro, tomava um banho quente e eterno, até a raiva
passar, até eu conseguir enxergar de novo, e ia embora pra casa da
minha mãe. Todo sábado de manhã era isso. Todo sábado, há anos,
era assim.
No domingo à noite eu
voltava pra casa e ele me levava pra jantar. E nunca conversávamos
sobre o que acontecia toda sexta à noite e todo sábado de manhã.
Nunca conversávamos sobre nada. Ele me falava sobre a expectativa
dos negócios da semana, xingava minha mãe, falava dos passeios com
o cachorro. E eu ficava calada olhando pra ele, imaginando se ia doer
se eu enfiasse a faca de mesa no ouvido dele ali mesmo, naquela bosta
de restaurante chinês que ele me levava todo domingo. Depois ele me
levava pra melhor suíte do melhor hotel da cidade e pedia champanhe
e a cama estava coberta de rosas e a gente trepava por horas e horas
e eu sentia tudo ao mesmo tempo, amor e ódio, e às vezes eu
apertava o pescoço dele com um pouco mais de força, só pra saber
como seria se eu o matasse, e ele gostava, e cada vez que eu apertava
mais o pescoço ele se contorcia todo, e pedia mais e mais e eu
apertava mais e mais. Depois a gente gozava junto e caía cada um pra
um lado da cama, e se olhava pelo espelho, ele ria e dizia que me
amava, e eu segurando a lágrima respondia que o amava também, aí
ele fazia cócegas na minha barriga e a gente ia pro banho junto e
quando via já era quase segunda e já era hora de voltar à vida. Era o nosso ritual.
Aí veio uma sexta que
ele não saiu. Chegou cedo em casa, nem tinha jantar porque na sexta
eu liberava a Rosa mais cedo, sabendo que ele não vinha, mas nessa
sexta ele veio do trabalho direto pra casa. Pediu uma pizza, assistiu
ao jornal e lá pelas dez tava dormindo. Acordou cedo no sábado,
cuidou do jardim e do criadouro dos cachorros, fez almoço, à tarde
foi pra rua comprar coisas pra casa e voltou com pipoca, sorvete e
Dirty Dancing. Assistimos ao filme juntos, ao final imitamos a
coreografia, ele fez as vezes de Patrick Swayze e depois nos deitamos
abraçados, e ele me beijava com calma e bem devagar, a noite
inteira, como há muito não nos beijávamos, e ele me olhava como há
muito não me olhava mais, e cheirava meus cabelos e dizia que me
amava muito, tanto e como. No domingo fomos almoçar na casa da minha
mãe, de lá passamos num parque de diversões, ele não me levou na
porcaria do chinês, voltamos pra casa e, já na cama, ele me contou
que tinha percebido o que vinha fazendo, e o quanto me fazia sofrer,
e como ele arriscou à toa, por todos esses anos, me perder. Que isso
ia acabar, ia parar, que toda sexta-feira ele estaria lá pra dar
boa-noite pro William Bonner e seríamos um casal exemplar e de
causar inveja nos outros casais.
Eu sorri. Sorri e disse
a ele que não queria vê-lo em casa sexta à noite, que não o
queria acordado sábado de manhã aparando o jardim, ou indo aos
almoços de domingo na casa da minha mãe. Que mesmo que ele não me
traísse mais, que ele arranjasse o que fazer na sexta, que eu o
queria bêbado no sábado pela manhã, transando comigo como se fosse
morrer, e agindo como se nada tivesse acontecido o resto do final de
semana. A única exigência que fiz foi excluir definitivamente
aquele chinês de merda da nossa vida. Mas expliquei que, embora eu
sofresse muito em todos os finais de semana, só assim eu me sentia
viva. Que não queria o que a gente já tinha de segunda à quinta,
queria aquela loucura e paixão e perdição daqueles três dias
porque era a melhor parte dele que eu tinha. Ele me olhou
petrificado, tentou balbuciar que nunca havia me traído, falou que
isso não era coisa de gente normal, que ninguém pode ser feliz
vivendo assim, mas eu mantive minha posição. Expliquei que casada
eu já era, com a Rosa, que era quem me ouvia reclamar, quem me
auxiliava nas contas, quem via a novela comigo e tudo isso. Isso já
era um casamento perfeito e isso eu já tinha, e obviamente jamais
seria com ele, porque ele não era assim, ele era vadio e eu sabia,
sempre soube, e foi ali que eu vi meu coração a primeira vez e era
ali que eu queria ver meu coração pra sempre. Eu disse pra ele que,
feliz, aceitava a condição. Era a minha escolha. Se ele quisesse
emular um casamento perfeito, que fizesse sua trouxa de roupa e fosse
embora atrás de outra mulher, que eu preferia imaginá-lo morto toda
sexta feira a ter real vontade de matá-lo logo na segunda pela
manhã.
Na sexta seguinte, já
passando das três da manhã de sábado, ele me mandou uma mensagem
dizendo que o pneu tinha furado e ia dormir na casa de um amigo, mas
no sábado de manhã voltava pra casa. Sorri conformada, vesti minha
melhor lingerie e esperei ele voltar. Ele chegou oito da manhã,
bêbado e roto, eu gozei e chorei e sorri e fiz todo meu ritual.
Depois do banho voltei pra cama e fiquei olhando pra ele, até pegar
no sono, imaginando uma morte diferente das que eu já tinha
imaginado. E ele ainda dormindo procurou minhas coxas, repousou sua
mão e me chamou pelo nome. E eu chorei de ódio, feliz da vida, com
o coração no lugar.
domingo, 12 de maio de 2013
Da descoberta
Texto sincerista
Eu sabia. No fundo eu sabia que se eu fizesse isso, se eu atravessasse essa ponte que me levava até aquele lugar, eu sabia o que aconteceria. Mas eu pisei firme. Encarei mesmo, pensando que se o risco era esse, que fosse. Ia valer a pena. Por mim, nem sei se pela outra pessoa, mas por mim mesmo. Fazer isso por mim. Me dar essa chance.
E aí eu acordei. E tudo que vinha dormindo em mim acordou também. Sabia que não tinha morrido, essas coisas nunca morrem. Esse arrepio, a dúvida de saber como será quando estiver por perto, esse stalkear fajuto nas redes sociais. Acordou e não acordou como um monstro - acordou sereno. Sorrindo.E é bom.
Esse início de paixão. Essa coisa que a gente sabe exatamente onde termina, porque não tem mesmo pra onde ir. Mas a gente se permite viver isso porque, ora, é bom. É bom se reconhecer em outra pessoa. Sem aquilo de se sentir completa, só se reconhecer mesmo. Já estive partida, vivi partida por muitos anos, e terminei em pedacinhos. Quero isso de novo não. Quero o que eu tenho agora, esse conta-gotas, esse imaginar como seria, se pudesse ser. Esse se perguntar se é isso mesmo, se a intenção é essa, se é tão claro pra ele e pros outros como é pra mim. De imaginar que tudo é cifrado e ele diz uma coisa querendo dizer outra. Se o desejo dele é gêmeo do meu. Cansei de amor louco. Quero só essa paixãozinha fajuta pra me tirar o ar vez em quando, pra eu beber só quando der sede, se der sede. Não quero a urgência, prefiro essa espera, a doce espera pelo estar junto de novo, se assim caminharmos pra isso. Quero esse rubor ao acordar do sonho sem querer acordar. Essa coisa que queima devagar, sem pressa, que vai se acostumando ao fogo que lambe aos pouquinhos. Não quero a dúvida de saber onde anda e com quem anda, o que faz ou deixa de fazer. Prefiro não ouvir nenhuma promessa, quero só o momento do hálito quente. Da descoberta. De conhecer aos poucos, p-a-u-l-a-t-i-n-a-m-e-n-t-e, pra não conhecer por inteiro nunca, e continuar descobrindo. Não preciso de terra firme. Nesse caso, nesse caso em particular, prefiro a sensação de queda. Pelo arrepio na espinha que dá.
Paixãozinha besta, não esperava que viesse assim tão cedo. Mas que bom, que bom que você veio.
domingo, 21 de outubro de 2012
Com todo o amor
Quero-te bem, meu bem
Te amo além
Do que os sonhos fantasiavam
Do que eu sonhava também
Te amo além
Dos meus planos de amar alguém
Amo-te tanto, portanto
E sem porém.
Te amo aqui ou aí, ou ali, além
Em qualquer outro lugar
Amo-te sempre, sem você não sou ninguém
Nem quero ser
Nem quero ser
Pois você, amor, é o meu lar.
Thaís Carvalho
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Fim
Depois, pra começar a ler, dá o play.
Me lembro que uma amiga
costumava dizer, sobre as dores de amor que às vezes sentia, que não
se morria dessas coisas. Foi a primeira coisa que pensei quando
finalmente consegui voltar a andar após sair do apartamento dela.
Porque eu fiquei suspenso ali por, sei lá, cinco minutos, esperando
um chamado que nunca veio. E quando percebi que não veio e quando me
dei conta do que viria no lugar, a primeira coisa que pensei foi em
não morrer.
Qual o quê.
Talvez tivesse sido
mais fácil pra mim se tivessem me dito que a dor de perdê-la me
faria doente e meio louco. Talvez tivesse sido mais fácil se
tivessem me alertado que parar de trabalhar pra esperar por ela todos
os dias durante um mês não ia me fazer mais saudável, nem tampouco
a traria de volta. Ninguém me disse isso. Só me davam tapinhas nas
costas, riam quando eu dizia que estava à beira da morte e insistiam
em dizer que ia passar.
Por um tempo achei que
não ia passar nunca e vesti com orgulho minha mortalha. Me
transformei em péssima companhia de bar porque estava quase sempre
bêbado de dar dó, gritava com casais na rua e fui confundido com um
mendigo certa feita em que estava sentado na frente da casa dela
esperando ela passar com o noivo – agora já marido – só pra ir
pra casa chorar depois. Até que minha mãe, pobre mulher, resolveu
que eu tinha ultrapassado todos os limites do aceitável e impôs a
condição de eu fazer terapia pra continuar morando na casa dela.
Com o tempo o visual
mendigo foi embora, eu parei de frequentar a porta da casa dela, me
tornei a companhia de sempre no bar e fui deixando pra lá. Com uns,
sei lá, oito meses eu já tava refeito. Voltei a trabalhar, saí da
casa da minha mãe e dava festas absolutamente inacreditáveis no meu
apartamento.
Era feliz novamente sem amar ninguém.
Até que veio São
Paulo. De novo.
E com São Paulo veio a
Luísa.
Foi mais ou menos
assim: tinha uma reunião do escritório e de lá fomos todos prum
bar. E quando eu tava já muito bêbado ela chegou, mais bêbada que
eu. Também era arquiteta, tava lá pra encontrar com alguns amigos
que, por acaso, trabalhavam no meu escritório. Ela sentou do meu
lado e conversamos a noite inteira, sem a necessidade de sermos
apresentados. Eu, bêbado, contei toda minha história pra ela, que
ouviu com lágrimas nos olhos e se pôs a xingar a ex junto comigo.
Já quase amanhecia quando resolvemos ir embora. Disse a ela meu
nome, que me disse o seu. Perguntei se ela costumava beber tanto
daquele jeito, avisando que se a resposta fosse positiva eu adoraria
tê-la como companhia. Ao que ela respondeu que só bebia assim quando
o marido viajava, senão ele brigava com ela.
Claro, né.
Mas ficamos amigos.
Melhores amigos. Ela tinha sido a primeira pessoa em quem consegui
confiar depois do que a ex fez comigo, e isso não facilitava pro
amor que teimava em nascer no meu peito. Não lutei, mas não me
esforcei pra tirá-lo de lá. Só tentava agir como se ele não
existisse, porque eu sabia que se eu dissesse a ela o que sentia, ela
certamente se afastaria, por ser boa demais pra me machucar. Então
aceitei o posto de melhor amigo feliz, porque era melhor que nada.
Com um ano de São
Paulo resolvi me permitir me envolver com alguém, até pra ver se a
presença da Luísa no meu peito diminuía um pouco. A moça era
bonita, inteligente, gentil e completamente tarada, o que certamente
me deixou ocupado por uns meses. E a Luísa sentiu. De início achei
que seria somente ciúme normal de amiga quando um amigo começa a se
relacionar com outra mulher, e não dei muita bola. Mas as
reclamações cresceram e cresceram, e eu não podia falar da moça
sem que Luísa soltasse suspiro atrás de suspiro, e percebi que ali
era mais do que ciúme de amigo. E me doeu, doeu muito. Ao que me
afastei. Ela, percebendo que me perdia, me puxou de volta. E
perguntou o que havia. E eu rodeei, rodeei, até dizer que o ciúme
dela quase me ofendia, tendo em vista que ela a essa altura já devia
saber o quanto eu a amava.
Luísa me olhou como
nunca tinha me olhado na vida, o olho cheio de lágrima, o suspiro
suspenso. “Eu também te amo”, foi o que ouvi bem baixinho, quase
um segredo. Não acreditei, fiquei com raiva, mas ela me puxou pelo
braço e disse em voz alta, de maneira que meu peito entendesse bem:
“eu também te amo”.
No dia seguinte fiz
minhas malas e pedi pra passar um tempo na matriz do escritório. E
fui embora sem me despedir. Quando Luísa disse que me amava quase
pude ouvir a trilha sonora da minha vida, aquela há muito
silenciada, começando a primeira nota. Mas um segundo depois me dei
conta de que não poderia ficar com ela, porque veja bem, uma vez uma
moça tinha me traído sem que eu tivesse feito absolutamente nada
pra ela. E eu quase morri. O marido da Luísa, embora eu não tivesse
feito questão de conhecê-lo bem, certamente não o merecia. Então
não me cabia fazê-lo.
Passei seis meses sem
dar ou ter notícia dela, então achei que seria saudável voltar. E
voltei. E uns dias depois do meu retorno, no mesmo bar onde a
conheci, um amigo muito bêbado resolveu espalhar a notícia de que eu estava na cidade, e saiu mandando mensagens de texto pra todo mundo. Minutos depois o telefone dele tocou. Era Luísa. Ele confirmou que eu realmente tinha voltado a São Paulo, disse que tinha uns dois dias e disse que eu parecia bem. Ela pediu pra falar comigo. Fiz que não com a cabeça, falei que não queria, que era melhor não. O amigo bêbado insistiu.
__ Alô?
__ Oi.
__ Oi, Luísa. Como
você tá?
__ Solteira.
Começa a música. Sobe
o letreiro. Fim.
domingo, 23 de setembro de 2012
A estante
“Os
prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos
aborrecerem” me sopra o filósofo Epicuro me ajudando nessa empreitada, após
longa jornada de irresponsabilidade textual, de escrever ao blog.
Passemos
então a imaginar nossas vidas como uma grande sala branca, rodeada por estantes
que ocupam todo o pé direito do espaço da nossa alma. Coloridas, vagas
disformes ao estilo Escher em que são ocupadas por qualidades e defeitos de
diversos formatos.
“Estou
cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado, quem diz que me
entende nunca quis saber” disse Renato Russo ao ficar inconformado com as
críticas recebidas diante de sua estante escura, com a pintura manchada pelo
tempo e falta de cuidados.
Mas
é possível um retoque, diríamos ao mestre do rock que tanto nos compreendeu em
forma de letras e cifras. Diríamos ainda que é possível remontar a estante para
uma nova análise. Uma mensagem de esperança grudada sobre a mancha, Renato, é
tudo o que precisamos!
"Reconhece
a queda e não desanima" lembra-nos o próprio Vanzolini no seu
samba-aula-canção de vida, nos mostrando que nessa passagem pela vida, são vários
os cavalos de Tróia que nos são oferecidos e que a queda é a certeza pelo qual
devemos estar sempre preparados.
“Há males na vida que vem para o bem” nos diz Jorge
Aragão, aconselhando- nos a tirar o pó dos livros e Cd’s, nessa estante em construção,
deixando-a mais alegre, mas feliz e com um bom espaço para novos postais e cartas
de amor.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Cena 03
Essa coisa toda de
trilha sonora acabou surtindo efeito, mesmo que independente da minha
vontade. Dois anos se passaram e nunca mais ouvimos falar do ex-noivo
que a abandonou no altar, e se o universo não viesse em meu auxílio
eu mesmo tratava de criar uma possibilidade de trilha sonora pra ela.
Dava trabalho, às vezes, mas eu sempre conseguia arrancar o sorriso
que me transformava em refém. Era feliz com ela. Os dias eram bons.
Às vezes ruins, brigávamos muito no estádio, o que me fazia amá-la
ainda mais. No escritório também tudo corria da melhor maneira
possível, tanto que achava que em breve chegaria um convite pra uma
sociedade. Fazia sentido: eu era competente e fazia a filha do chefe
feliz.
Até que veio São
Paulo.
Foi um pedido especial
do pai dela, e eu não podia negar. Mas ao mesmo tempo não queria
deixá-la – fazia pouco tempo que morávamos juntos e eu me sentia
miseravelmente feliz por acordar e ter aquela mulher na minha cama.
Mas era trabalho. Um trabalho a pedido do chefe. Era a minha
sociedade acenando, do carro, me perguntando se eu não ia entrar.
Entrei.
Os primeiros seis meses
foram tranquilos: nos víamos todo final de semana. Quase sempre ela
vinha, e eu transformava o aeroporto numa cena clichê de filme de
romance só pra ela. E ela adorava, e dizia aos meus amigos
paulistanos que era minha musa. E era. Nunca fui um cara de
relacionamentos longos, e de repente percebi que queria ficar com ela
o resto da vida.
Percebi que queria me
casar. Era isso. Na igreja, com a pompa devida, ela no altar me
esperando.
Um dia, andando na rua,
parei pra olhar a vitrine de uma joalheria e vi o anel. E sabia que
ficaria perfeito nela. E sabia que ela adoraria. E comprei. Mas ela
não veio nesse fim de semana – ligou na sexta pela manhã dizendo
que tinha uma reunião de última hora no escritório e não poderia
ir. No final de semana seguinte ela também não pôde ir. E no outro, e no
outro, e assim se passaram dois meses sem que a gente se visse.
Pensando hoje, nem lembro mais quais eram os motivos da ausência,
mas eram coisas tolas a maior parte das vezes. Passíveis de serem
contornadas. Me ressenti pela falta de esforço dela, e obviamente
responsabilizei minha própria ausência. Então conversei com o
chefe e ele me deixou voltar.
Ela não foi me buscar
no aeroporto, e quando cheguei em casa ela não estava. Tinha um
bilhete dizendo que estava com o pai e não demorava. Ótimo, pensei.
Dá tempo de comprar umas flores e velas e sei lá mais o quê pra
fazer o pedido. Daí percebi que, muito embora fosse bom na parte da
trilha sonora, essas coisas de pedido de casamento eu não sabia como
funcionavam. Fiquei horas pesquisando na internet, até que ela
chegou. De imediato, senti que havia algo de diferente nela. Me deu
um peso no estômago, e na hora eu não soube precisar o porquê. Só
senti.
__ Você tá tão
diferente – eu disse, depois de um beijo.
__ Impressão sua. É
que faz tempo que a gente não se vê.
Mas a sensação
permaneceu. E nos dias seguintes, se intensificou. Ela havia mudado.
E havia uma gravidade nela, um peso, algo que ela não costumava
carregar.
__ Já sei o que
aconteceu com você?
__ Como assim?
Ela pareceu alarmada.
__ Seu perfume. Você
mudou o perfume.
__ Ah. É verdade.
__ É o perfume que
você usava naquele dia que eu te conheci.
__ Deus, você lembra
disso?
__ Lembro. Apesar do
cheiro da cachaça ter sido bem marcante também.
__ Hum.
Esses “hum” também
eram coisa nova. Lembram da gravidade a que me referi? Juntem com
ausência e silêncios.
__ Por que você voltou
a usar esse perfume?
__ Não sei. Acho que
enjoei do outro.
__ Eu preferia o outro.
O que eu comprei pra você.
__ Pois é. Eu também
gostava muito dele. Mas fiquei com saudade desse aqui.
__ Hum.
Ela sorriu, pela
primeira vez em dias. Mas veio diferente, e me feriu.
__ Posso perguntar o
que há de errado?
__ Nada. Por quê?
__ Você está
diferente. Disse isso assim que te vi e tenho razão. Cadê minha
mulher?
__ Besteira, Filipe.
São coisas do trabalho.
__ Bom, trabalhamos
juntos. Você pode me dizer.
Ela parou com as
anotações que fazia e me jogou aquele olhar escrutinador, o mesmo
da primeira cena.
__ Amor, meu pai acha
que é melhor você procurar outro escritório.
__ O QUÊ?
__ É. É por isso que
eu estou assim. Ele me pediu pra dizer isso, mas eu não sabia como.
__ Ele...ele ao menos
disse o porquê?
__ Bom...ele acha que
não pega bem, visto que temos um relacionamento. Os outros
arquitetos reclamam de privilégios e tal. Você pegou a maior conta
da empresa.
__ A de São Paulo? A
que eu não quis?
__ Amor...
__ Olha...essa eu não
vi chegar. Mesmo. Pelo contrário, achei que seu pai me ofereceria
sociedade depois de São Paulo.
__ Ai, Filipe. Sei nem
o que dizer.
__ Nada. Não precisa
dizer nada.
Saí pra beber e voltei
já com a madrugada dentro. Ela não estava em casa. Novamente, um
bilhete dizendo que tinha ido dormir na casa do pai. Celular
desligado.
Enterramos o assunto
pelos dias seguintes, e eu decidi propor casamento logo de uma vez,
visto que agora nem o trabalho seria problema. Comprei flores
(margaridas, as preferidas dela, que odiava rosas) pra casa. Pensei
em mandar pro escritório mas ela ia achar brega. Comprei velas mas
não acendi nenhuma, pois me passou a impressão de funeral. Só
fiquei sentado no sofá esperando ela chegar do trabalho, o anel no
bolso esquerdo e a mão pingando suor frio.
Ela chegou com ar
cansado e aparência de quem tinha chorado. Eu a abracei e ela chorou
ainda mais. Perguntei o que havia e ela voltou a dizer que nada. Pedi
a ela que tomasse um banho quente pra relaxar, que depois eu
precisaria conversar com ela. O banho durou, sei lá, 326 horas. E
ela não saiu relaxada, pelo contrário. Os olhos estavam ainda mais
inchados e vermelhos.
__ Filipe, tenho que te
dizer uma coisa.
__ Eu também.
__ Por favor, me deixa
falar primeiro.
Ela se sentou ao meu
lado e segurou minha mão.
__ Por favor não me
odeie.
__ O que houve?
__ Ah...por onde eu
começo? Filipe, eu sou horrível.
__ Por favor não diga
isso. O que aconteceu?
__ Lembra meu ex-noivo?
Imediatamente soltei a
mão dela. Em um microssegundo tudo, absolutamente tudo fez sentido.
Ela voltou a chorar e
contou que esteve com ele todos os dias nos últimos três meses. Que
não sabia como tinha acontecido, mas tinha acontecido e era o que
ela queria pra ela. Que foi covarde em não me dizer, que não devia
ter se afastado, mas não soube o que fazer. Que eu era uma pessoa
muito boa e tinha sido um grande amigo pra ela, mas ele era o amor de
sua vida e ela tinha certeza disso. Que pediu ao pai que me afastasse
da empresa porque não conseguiria trabalhar comigo depois do que me
fez. Falou mais um milhão de coisas que eu simplesmente não ouvi,
porque cada palavra me matava um pouco. Só não pediu perdão, nem
uma única vez. Minha mão já tinha parado de suar, mas tremia. Ela
pedia pra eu olhar pra ela, e eu não conseguia. Tirei a mão do
bolso, o porta-jóia molhado de suor.
__ Eu ia te pedir em
casamento.
A música começou,
como eu tinha programado, e eu não podia suportar. Me levantei e
bati a porta atrás de mim. Parei por um segundo no corredor, a respiração suspensa. Pra nada. Ela nunca veio me chamar.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Tanto

Quero todo dia
Sua companhia
Ter a sua voz
Ao pé do ouvido
Ter o seu olhar dentro do meu
Esse amor constante vivido
Por você e eu.
Te amo tanto é o que vou dizer
Com os seus dedos entre os meus
Quero acordar e dormir vendo você
E nunca mais ter que dizer adeus.
Thaís Carvalho
Férias de nós
Nada nesse mundo me dá tanto trabalho quanto controlar borboletas destrambelhadas no estômago. Especialmente as nascidas por tua causa, com esse quê de mutantes, sanguessugas, chupa-cabras. Desse modo, só por isso, pelo cansaço de ter de andar na contramão para te acompanhar, correndo riscos demasiados, resolvi tirar férias tranquilas de nós. Devo confessar que também é árduo o trabalho de me conter para não te fazer provar do próprio destempero. Para não me igualar a ti, como se eu pudesse tirar férias de mim, resolvi tirar férias de nós. Mas, tão fatalmente obvio, aonde eu vou, estou. Aonde eu vou, estamos. E, em se tratando de saudade, quando os olhos não veem é que o coração sente. Agora preciso te dizer que não há borboleta no estômago, mutante ou sanguessuga, que resista a azia causada por tua constante acidez. Eu sei, parece mais acertado chutar o balde antes que ele fique cheio demais. Passamos da conta, tudo bem. Quando você passou a dizer "Madalena, quando o stresse é maior que o prazer, não vale a pena" eu percebi que sempre fomos, um para o outro, como aquele sapato lindo que no pé nunca coube, e mesmo fazendo tanto calo a gente resiste
terça-feira, 10 de julho de 2012
Cena 02
Essa série de textos se baseia em sonhos que tive, que acabei condensando numa historinha de amor. A primeira parte você encontra aqui.
Dias depois recebi a
ligação do escritório dela marcando uma nova reunião. Obviamente
achei que tinha algo estranho, pois a primeira reunião tinha sido
marcada por ela, pessoalmente, e fora do escritório. Talvez ela não
estivesse à vontade, e provavelmente eu não ficaria também, se
assim o fosse. Mas eu precisava do contrato. E tinha pensado nela somente
uma vez por dia desde então. Valia a pena tentar.
A reunião foi numa
quarta à tarde, e tinha umas quatrocentos e cinquenta pessoas na
sala. Não, éramos só nós dois e a secretária, e o pai dela numa
videoconferência. Obviamente achei que ela estava evitando ficar a
sós comigo, e me fechei em copas. Talvez não quisesse que ela
soubesse que pensara nela, ou que o incômodo dela me incomodava.
Assim permaneci até o fim da reunião, quando ela me convidou pra um
cigarro.
__ Te achei
bastante...misterioso hoje.
__ Misterioso?
Hahaha...não, estava apenas concentrado.
__ Hum. E como vai
tudo?
__ Bem tranquilo.
É...como eu me saí? Será que consigo o contrato?
__ Ah, sim. Imagino que
sim, deu tudo certo lá dentro. Meu pai pareceu gostar de você.
Amanhã a Susi te liga pra dar a resposta.
__ Hum, ok.
__ É...sobre o outro
dia...
__ Não, não precisa.
Não vamos falar disso não.
__ Mexeu comigo, sabe?
Olhei pra ela surpreso
e quase engasguei com a fumaça do cigarro. Eu conseguia ser bem
ridículo às vezes.
__ E?
Ela ficou em silêncio
por um instante, depois me olhou com um meio sorriso.
__ E eu liguei pro meu
noivo no dia seguinte. Sem lágrimas, sem álcool, sabe?
__ E?
__ Daí nos encontramos
à noite. Conversamos bastante, foi tudo muito esclarecedor.
__ E?
__ Eu realmente quero
tentar isso, sabe? Fazer dar certo com ele.
__ Ah. Ok.
Tentei me concentrar no
cigarro pra não demonstrar minha clara decepção com o rumo que a
conversa tomara. Ela voltou ao silêncio, olhando pro sol.
__ Bom, eu preciso ir.
Posso esperar a ligação da sua secretária pra amanhã?
__ Pode sim, Filipe.
Depois nos falamos. Tomar uma cerveja, sei lá.
__ Claro, claro. Até
mais.
No dia seguinte a
secretária ligou, e de fato o contrato era meu. Pouco depois ela
mesma me ligou.
__ Viu? Eu disse que
você ia conseguir. Meu pai gostou bastante do seu portfólio.
__ Que bom. Depois que
eu saí do escritório tive muita dificuldade pra conseguir novos
clientes. Tava até considerando dar aula. Mas é meio frustrante.
__ Não, vai ser ótimo.
A Susi te mandou por e-mail alguns documentos, preciso que você dê
uma olhada e responda, tá? E se puder mandar algum rascunho pra
segunda-feira também...
__ Segunda? É...sabe o
que é? Eu sei que acabamos de fechar um contrato e tal, e você
agora é minha cliente, mas é que esse final de semana tô de viagem
marcada pro Rio. Vou ver a final do campeonato carioca. Tem como
adiar esse prazo pra mim até, sei lá, quarta da semana que vem?
__ Final do carioca, é?
E você torce pra qual time?
__ Botafogo. Mas não é
culpa minha, sabe?
__ Hahahahaha, tudo
bem. Você deve ser o único botafoguense com menos de cem anos no
mundo. Tá com o ingresso pro jogo comprado já?
__ Sim. É meio que um
ritual.
__ Ah, é?
__ Meu pai era
botafoguense também. Ele morreu ano passado. Nós nunca nos damos
muito bem, mas os domingos eram ótimos. A gente sempre ia junto pro
estádio. Ali podíamos ser só pai e filho.
__ Ah...nossa, nem sei
o que dizer.
__ Na verdade eu tô
brincando. Meu pai tá vivo e torce pro Flamengo. E nos damos muito
bem, apesar disso.
__ Nossa, que
engraçado. Tudo isso só pra me convencer a te liberar no final de
semana?
__ Pois é...peguei
pesado, né?
__ Não, tá ok. Acho
até que a gente podia se encontrar lá. Eu chego no Rio domingo de
manhã.
__ Vai a trabalho?
__ Não, vou ver o
Flamengo ser campeão em cima do seu timinho.
__ Claro que você
tinha que ser flamenguista.
__ Enfim, só não
comprei o ingresso ainda. Me manda o setor que você comprou pra eu
comprar perto.
__ Hum...ok.
Fiz um suspense, mas
acabei perguntando.
__ Seu noivo vai
também?
__ Ah, não. Não, ele
não suporta futebol.
__ Ah. Eu chego no Rio
na sexta, posso comprar seu ingresso se você quiser.
__ Ok.
__ Por isso perguntei
se seu noivo ia, pra saber se seriam dois ingressos.
__ Ah. Entendi.
__ Enfim. Eu preciso
desligar, quando chegar me avisa. Vai ficar em hotel?
__ Não, meu pai tem
apartamento lá. Eu te ligo. Beijo.
“Seu noivo vai
também?” foi, certamente, a pergunta mais estúpida que já fiz na
vida.
No domingo ela me ligou
cedo, bem cedo. Dez da manhã, pra mim, é bem cedo. Disse que como não podia beber no
estádio a gente precisava encher a cara antes, eu mais do que ela
tendo em vista que meu time ia perder. Deus, que mulher fantástica.
A gente se encontrou na praia, ela de bermuda jeans e camisa do
Flamengo, absolutamente linda. Conversamos amenidades, o projeto de
arquitetura, o histórico do jogo que veríamos mais tarde, como o
sol tava bonito, como o Rio era bonito e ela tinha vontade de morar
lá, todas essas besteiras que existem pra gente conversar quando não
quer falar sobre o que realmente importa. Eu continuava me
encantando, mesmo sabendo que depois de tudo ela voltaria para o
noivo e eu continuaria sendo só o arquiteto responsável pelo novo
projeto do escritório dela. Não sou do tipo que faz essas coisas,
mas tava ali fazendo, e nem sei bem porquê.
O jogo - não vou
entrar em detalhes a respeito do jogo em si, porque meu time perdeu –
só serviu pra aumentar o estrago. Ela era apaixonada por futebol. E
estava completamente bêbada. E ficou lá, com a camisa do Flamengo
no meio da torcida rival, gritando, xingando o goleiro – que chegou
a fazer um gesto obsceno pra ela – xingando a mãe do juiz e por
aí. Era fantástica, absolutamente fantástica. Ao apito final do
juiz ela me olhou com o maior sorriso do mundo e me abraçou.
__ Hoje tem festa na
favela.
Eu sorri, e voltamos
àquele momento anterior, em que ficamos abraçados, ela sorrindo e
eu olhando pra ela, e o olhar dela me puxando. E eu sorri também. E
ela parou de sorrir de repente, e abaixou a cabeça. Eu soltei o
abraço.
__ Tudo bem aí?
__ Sim. Vamos indo? Tem
um bar aqui pertinho que é ótimo, cerveja bem gelada e o melhor
frango a passarinho do Rio de Janeiro.
__ Sabe, eu vou
voltando pro hotel. Amanhã tenho muito trabalho a fazer, preciso
descansar.
__ Vai ficar chorando
sozinho no quarto só porque seu time perdeu?
Ela voltou a sorrir. E
lá fui eu, no sorriso dela.
Saímos do bar era alta
madrugada, e dessa vez eu estava tão bêbado quanto ela. Ela jurou
que o bar ficava perto do apartamento onde ela estava hospedada e que
dava pra ir andando. Falei pra ela que tinha medo de ser assaltado e
ela falou que todos os marginais estavam comemorando o título, então
não haveria perigo. A cidade ainda soltava fogos pelo jogo.
__ Admiro essa
capacidade que você tem de rir de si mesma. Normalmente o pessoal se
estressa quando a gente faz esse tipo de brincadeira a respeito da
torcida.
__ Bom, posso até ser
marginal, mas sou campeã. Né?
Outro sorriso. E eu
afundando.
Andamos bastante, até
chegarmos numa parquinho caindo aos pedaços. Me sentei no chão e
ela no balanço.
__ Sobre o que
aconteceu com a gente da outra vez...eu não fui totalmente sincera,
sabe?
Tentei fingir que não
me importava. Falhei, porque ela continuava lá sorrindo, senhora de
mim.
__ Eu realmente liguei
pro meu noivo. Nós realmente conversamos. Mas eu não sei se eu
quero fazer isso.
__ Isso o quê?
__ Fazer dar certo com
ele. Eu pelo menos não devia querer, né? Poxa, ele cancelou o
casamento e disse que não queria mais saber de mim. Eu não devia
estar atrás disso. Ou devia?
__ Vocês conversaram
de novo?
__ Não...falei que ia
ligar, mas não liguei. Ele me mandou um e-mail dizendo que ia pra
fazenda no fim de semana, que eu podia ir pra gente conversar e ver
como ficava, aí eu respondi que vinha pra cá ver o jogo e quando eu
percebi a gente tava brigando por e-mail.
__ Hum.
__ Mas nem foi só por
isso que eu vim pro Rio.
__ Não?
__ Não.
Um minuto eterno.
__ Meu pai pediu pra eu
ficar de olho em você. Ele diz que você é um desses moderninhos metidos a mendigo por conta da barba.
O centésimo sorriso, o
tiro de misericórdia. Eu sorri também. Ficamos em silêncio por
muito tempo, até que ela se levantou impaciente.
__ Tô esperando a
música. Toda vez que eu bebo com você e a gente para numa praça
tem trilha sonora. Aí você me beija e eu me sinto uma diva do
cinema.
Eu também me levantei,
com toda a dificuldade do mundo pra não cair. Ficamos olhando ao
redor, de fato procurando a música. E nada. Só o barulho distante
dos fogos. Cansei de esperar e dei um passo à frente.
__ Bom, eu posso te
beijar assim mesmo.
__ É, eu acho que
pode.
E nos beijamos. E os
fogos de artifício, aparentemente, ficaram mais próximos, e
clareavam a praça, enquanto a gente se beijava. E ela me apertou
forte contra ela, e os fogos ali pertinho. E a música começou. E
ela me apertou mais forte ainda. Paramos de nos beijar e olhamos ao
redor. Nada, só o clarão dos fogos. Ela sorriu e me abraçou. E
falou no meu ouvido bem baixinho
__ Isso não é justo.
Eu adoro essa música.
__ Peço desculpa pelo
atraso. Faltou sincronizar.
__ Mas você ganha
pontos extras pelos efeitos especiais.
Me puxou pela mão.
Olhei pra ela ainda parado, perguntando pra onde a gente ia.
__ Vem. Vamos nos
perder por aí.
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