Mostrando postagens com marcador Daniela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniela. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de julho de 2012

Cena 02

Essa série de textos se baseia em sonhos que tive, que acabei condensando numa historinha de amor. A primeira parte você encontra aqui.


Dias depois recebi a ligação do escritório dela marcando uma nova reunião. Obviamente achei que tinha algo estranho, pois a primeira reunião tinha sido marcada por ela, pessoalmente, e fora do escritório. Talvez ela não estivesse à vontade, e provavelmente eu não ficaria também, se assim o fosse. Mas eu precisava do contrato. E tinha pensado nela somente uma vez por dia desde então. Valia a pena tentar.

A reunião foi numa quarta à tarde, e tinha umas quatrocentos e cinquenta pessoas na sala. Não, éramos só nós dois e a secretária, e o pai dela numa videoconferência. Obviamente achei que ela estava evitando ficar a sós comigo, e me fechei em copas. Talvez não quisesse que ela soubesse que pensara nela, ou que o incômodo dela me incomodava. Assim permaneci até o fim da reunião, quando ela me convidou pra um cigarro.

__ Te achei bastante...misterioso hoje.

__ Misterioso? Hahaha...não, estava apenas concentrado.

__ Hum. E como vai tudo?

__ Bem tranquilo. É...como eu me saí? Será que consigo o contrato?

__ Ah, sim. Imagino que sim, deu tudo certo lá dentro. Meu pai pareceu gostar de você. Amanhã a Susi te liga pra dar a resposta.

__ Hum, ok.

__ É...sobre o outro dia...

__ Não, não precisa. Não vamos falar disso não.

__ Mexeu comigo, sabe?

Olhei pra ela surpreso e quase engasguei com a fumaça do cigarro. Eu conseguia ser bem ridículo às vezes.

__ E?

Ela ficou em silêncio por um instante, depois me olhou com um meio sorriso.

__ E eu liguei pro meu noivo no dia seguinte. Sem lágrimas, sem álcool, sabe?

__ E?

__ Daí nos encontramos à noite. Conversamos bastante, foi tudo muito esclarecedor.

__ E?

__ Eu realmente quero tentar isso, sabe? Fazer dar certo com ele.

__ Ah. Ok.

Tentei me concentrar no cigarro pra não demonstrar minha clara decepção com o rumo que a conversa tomara. Ela voltou ao silêncio, olhando pro sol.

__ Bom, eu preciso ir. Posso esperar a ligação da sua secretária pra amanhã?

__ Pode sim, Filipe. Depois nos falamos. Tomar uma cerveja, sei lá.

__ Claro, claro. Até mais.


No dia seguinte a secretária ligou, e de fato o contrato era meu. Pouco depois ela mesma me ligou.

__ Viu? Eu disse que você ia conseguir. Meu pai gostou bastante do seu portfólio.

__ Que bom. Depois que eu saí do escritório tive muita dificuldade pra conseguir novos clientes. Tava até considerando dar aula. Mas é meio frustrante.

__ Não, vai ser ótimo. A Susi te mandou por e-mail alguns documentos, preciso que você dê uma olhada e responda, tá? E se puder mandar algum rascunho pra segunda-feira também...

__ Segunda? É...sabe o que é? Eu sei que acabamos de fechar um contrato e tal, e você agora é minha cliente, mas é que esse final de semana tô de viagem marcada pro Rio. Vou ver a final do campeonato carioca. Tem como adiar esse prazo pra mim até, sei lá, quarta da semana que vem?

__ Final do carioca, é? E você torce pra qual time?

__ Botafogo. Mas não é culpa minha, sabe?

__ Hahahahaha, tudo bem. Você deve ser o único botafoguense com menos de cem anos no mundo. Tá com o ingresso pro jogo comprado já?

__ Sim. É meio que um ritual.

__ Ah, é?

__ Meu pai era botafoguense também. Ele morreu ano passado. Nós nunca nos damos muito bem, mas os domingos eram ótimos. A gente sempre ia junto pro estádio. Ali podíamos ser só pai e filho.

__ Ah...nossa, nem sei o que dizer.

__ Na verdade eu tô brincando. Meu pai tá vivo e torce pro Flamengo. E nos damos muito bem, apesar disso.

__ Nossa, que engraçado. Tudo isso só pra me convencer a te liberar no final de semana?

__ Pois é...peguei pesado, né?

__ Não, tá ok. Acho até que a gente podia se encontrar lá. Eu chego no Rio domingo de manhã.

__ Vai a trabalho?

__ Não, vou ver o Flamengo ser campeão em cima do seu timinho.

__ Claro que você tinha que ser flamenguista.

__ Enfim, só não comprei o ingresso ainda. Me manda o setor que você comprou pra eu comprar perto.

__ Hum...ok.

Fiz um suspense, mas acabei perguntando.

__ Seu noivo vai também?

__ Ah, não. Não, ele não suporta futebol.

__ Ah. Eu chego no Rio na sexta, posso comprar seu ingresso se você quiser.

__ Ok.

__ Por isso perguntei se seu noivo ia, pra saber se seriam dois ingressos.

__ Ah. Entendi.

__ Enfim. Eu preciso desligar, quando chegar me avisa. Vai ficar em hotel?

__ Não, meu pai tem apartamento lá. Eu te ligo. Beijo.

“Seu noivo vai também?” foi, certamente, a pergunta mais estúpida que já fiz na vida.

No domingo ela me ligou cedo, bem cedo. Dez da manhã, pra mim, é bem cedo. Disse que como não podia beber no estádio a gente precisava encher a cara antes, eu mais do que ela tendo em vista que meu time ia perder. Deus, que mulher fantástica. A gente se encontrou na praia, ela de bermuda jeans e camisa do Flamengo, absolutamente linda. Conversamos amenidades, o projeto de arquitetura, o histórico do jogo que veríamos mais tarde, como o sol tava bonito, como o Rio era bonito e ela tinha vontade de morar lá, todas essas besteiras que existem pra gente conversar quando não quer falar sobre o que realmente importa. Eu continuava me encantando, mesmo sabendo que depois de tudo ela voltaria para o noivo e eu continuaria sendo só o arquiteto responsável pelo novo projeto do escritório dela. Não sou do tipo que faz essas coisas, mas tava ali fazendo, e nem sei bem porquê.

O jogo - não vou entrar em detalhes a respeito do jogo em si, porque meu time perdeu – só serviu pra aumentar o estrago. Ela era apaixonada por futebol. E estava completamente bêbada. E ficou lá, com a camisa do Flamengo no meio da torcida rival, gritando, xingando o goleiro – que chegou a fazer um gesto obsceno pra ela – xingando a mãe do juiz e por aí. Era fantástica, absolutamente fantástica. Ao apito final do juiz ela me olhou com o maior sorriso do mundo e me abraçou.

__ Hoje tem festa na favela.

Eu sorri, e voltamos àquele momento anterior, em que ficamos abraçados, ela sorrindo e eu olhando pra ela, e o olhar dela me puxando. E eu sorri também. E ela parou de sorrir de repente, e abaixou a cabeça. Eu soltei o abraço.

__ Tudo bem aí?

__ Sim. Vamos indo? Tem um bar aqui pertinho que é ótimo, cerveja bem gelada e o melhor frango a passarinho do Rio de Janeiro.

__ Sabe, eu vou voltando pro hotel. Amanhã tenho muito trabalho a fazer, preciso descansar.

__ Vai ficar chorando sozinho no quarto só porque seu time perdeu?

Ela voltou a sorrir. E lá fui eu, no sorriso dela.

Saímos do bar era alta madrugada, e dessa vez eu estava tão bêbado quanto ela. Ela jurou que o bar ficava perto do apartamento onde ela estava hospedada e que dava pra ir andando. Falei pra ela que tinha medo de ser assaltado e ela falou que todos os marginais estavam comemorando o título, então não haveria perigo. A cidade ainda soltava fogos pelo jogo.

__ Admiro essa capacidade que você tem de rir de si mesma. Normalmente o pessoal se estressa quando a gente faz esse tipo de brincadeira a respeito da torcida.

__ Bom, posso até ser marginal, mas sou campeã. Né?

Outro sorriso. E eu afundando.

Andamos bastante, até chegarmos numa parquinho caindo aos pedaços. Me sentei no chão e ela no balanço.

__ Sobre o que aconteceu com a gente da outra vez...eu não fui totalmente sincera, sabe?

Tentei fingir que não me importava. Falhei, porque ela continuava lá sorrindo, senhora de mim.

__ Eu realmente liguei pro meu noivo. Nós realmente conversamos. Mas eu não sei se eu quero fazer isso.

__ Isso o quê?

__ Fazer dar certo com ele. Eu pelo menos não devia querer, né? Poxa, ele cancelou o casamento e disse que não queria mais saber de mim. Eu não devia estar atrás disso. Ou devia?

__ Vocês conversaram de novo?

__ Não...falei que ia ligar, mas não liguei. Ele me mandou um e-mail dizendo que ia pra fazenda no fim de semana, que eu podia ir pra gente conversar e ver como ficava, aí eu respondi que vinha pra cá ver o jogo e quando eu percebi a gente tava brigando por e-mail.

__ Hum.

__ Mas nem foi só por isso que eu vim pro Rio.

__ Não?

__ Não.

Um minuto eterno.

__ Meu pai pediu pra eu ficar de olho em você. Ele diz que você é um desses moderninhos metidos a mendigo por conta da barba.

O centésimo sorriso, o tiro de misericórdia. Eu sorri também. Ficamos em silêncio por muito tempo, até que ela se levantou impaciente.

__ Tô esperando a música. Toda vez que eu bebo com você e a gente para numa praça tem trilha sonora. Aí você me beija e eu me sinto uma diva do cinema.

Eu também me levantei, com toda a dificuldade do mundo pra não cair. Ficamos olhando ao redor, de fato procurando a música. E nada. Só o barulho distante dos fogos. Cansei de esperar e dei um passo à frente.

__ Bom, eu posso te beijar assim mesmo.

__ É, eu acho que pode.

E nos beijamos. E os fogos de artifício, aparentemente, ficaram mais próximos, e clareavam a praça, enquanto a gente se beijava. E ela me apertou forte contra ela, e os fogos ali pertinho. E a música começou. E ela me apertou mais forte ainda. Paramos de nos beijar e olhamos ao redor. Nada, só o clarão dos fogos. Ela sorriu e me abraçou. E falou no meu ouvido bem baixinho

__ Isso não é justo. Eu adoro essa música.

__ Peço desculpa pelo atraso. Faltou sincronizar.

__ Mas você ganha pontos extras pelos efeitos especiais.

Me puxou pela mão. Olhei pra ela ainda parado, perguntando pra onde a gente ia.

__ Vem. Vamos nos perder por aí.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cena 01

Quando a vi pela primeira vez ela caminhava a passos largos de bêbado, numa ruazinha esquecida do Centro, a noite já dentro. Cigarro aceso, garrafa na mão e um riso aberto. Ela olhava pra cima, pro alto dos prédios, procurando sabe deus o quê.

Fui ao seu encontro sem saber como proceder: nos falamos algumas vezes por telefone e e-mail, e sempre no tom profissional do trabalho. Não tinha idéia de como ela se permitira vir bêbada ao meu encontro. Mas fui ter com ela. Chamei-a pelo nome, ela me olhou surpresa.

__ Você quem é?
__ Filipe. Nos falamos hoje cedo por telefone.
__ OOOOOOIII, Filipe. Vai me desculpar. Acabei de ser deixada no altar.
__ Como?
__ Não que eu estivesse no altar dez minutos atrás. Não, mas tava quase lá. Filipe, ia me casar mês que vem. Daí meu noivo achou legal terminar comigo. E ainda me pediu a aliança de volta, vê só, pra empenhar.

E aí eu fazia o quê? Não sabia nem que ela era noiva. Como consolar alguém que não conheço? Era péssimo com essas coisas.

__ Daí, Filipe, daí resolvi beber. Nunca fui muito de beber, mas essa situação merecia um porre, não acha?

Ela passou por mim ainda rindo, o álcool misturado com o perfume dela, e eu fiquei...engraçado. Realmente não sabia o que fazer, então só fiquei ali parado, esperando pelo próximo movimento dela. Ela parou perto de mim, me jogou um olhar escrutinador e, por fim, estendeu a mão pra um cumprimento.

__ Oi, Filipe. Prazer te conhecer. Vai desculpando o mau jeito.

Eu meio que sorri, e fiz um aceno leve de cabeça. Ela devia me achar um idiota, pensei. E depois pensei no porquê de me preocupar com o que ela achava de mim. Mas me preocupei. E não quis parecer idiota. E falhei. O cumprimento não terminou, ela não soltou minha mão, por isso falhei.

__ Filipe, a gente pode deixar nossa reunião de trabalho prum outro dia? Hoje eu quero...
__ O quê?
__ Quero rodar. Vem, vamos rodar.

Descemos de mãos dadas pelas vielas do Centro. Ela ia num passo apressado e eu atrás tentando acompanhar mas sem parecer muito afoito. No passo apressado ela ia me narrando sua tragédia pessoal, de maneira não muito linear, e misturava o sorriso com lágrimas vez em quando. Daí ela parava, sem mais nem menos, se encostava no muro e fazia que não com a cabeça.

__ Posso te levar pra algum lugar?
__ Precisamos de mais bebida antes disso, Filipe. Não sei pra onde você quer me levar, mas sei que lá não tem bebida. E sem bebida não tem negócio hoje, Filipe.
__ Eu entendo. Mas tem algum lugar que você queira que eu te leve?
__ Tem, Filipe. Pior que tem.

Ela me arrastou até a Igreja Matriz. É.

__ Filipe, eu ia casar aqui mês que vem. Agora não vou mais. Ó, tem nem aliança mais no dedo, só a marquinha do sol. Era linda a minha aliança, Filipe. Agora tá empenhada.

Ela fez cara de surpresa, depois guardou um breve silêncio. De cabeça baixa, me perguntou se eu podia ajudá-la a contar pro padre que o casamento tinha sido cancelado.

__ Mas nesse estado? Você acha prudente? Afinal, é um padre, não sei se ele vai gostar de te ver assim.
__ Quem liga? Você liga? Eu não ligo pro que o padreco aí acha: eu fui largada. Se tô bebendo a culpa não é minha, se não tivesse sido largada tava linda em casa pensando nos docinhos da minha festa. Uma hora tava pensando nos docinhos e de repente virei um pudim de cana. E eu não ligo, Filipe. E você parece ser um cara muito bacana, então hoje, por mim, você também não vai ligar.
__ Mas ó, já é noite. Não acha melhor voltar aqui amanhã? Venho com você se você quiser, sem problema algum.
__ E você pretende passar a noite comigo pra vir aqui amanhã? Porque ó, hoje não durmo. Não tem como dormir, Filipe, ou tem? Como eu vou deitar a cabeça no travesseiro sem lembrar daquele desgraçado que me largou com o casamento todo pago? Porque, Filipe, eu não sei se eu te falei, mas tava tudo pago. Meu pai pagou tudo, coitado, até a lua-de-mel pra Fernando de Noronha ele pagou. Meu Deus do céu, Filipe, tenho nem como pagar pro meu pai essas coisas aí. Será que posso cobrar dele?
__ Escuta, vamos deixar a conversa com o padre pra amanhã. Deve ter outra coisa que você queira fazer agora.

Ela fez que sim com a cabeça e voltou a me arrastar pela cidade. Paramos em frente à loja de penhores. Claro. Estava fechada, mas ela não se deu por vencida. Bateu, bateu, bateu. O dono veio ter com ela meio indignado, mas ela chorou litros e ele enfim abriu a porta. Ela me pediu pra aguardar do lado de fora e entrou sozinha. Cinco minutos depois, veio ter comigo.

__ Você tem quinhentos reais aí? O infeliz empenhou minha aliança por essa mixaria. Não dá pra acreditar que eu ia casar com esse cara.
__ Tenho não.
__ Você pode ir no banco sacar?
__ Também não tenho no banco não.

Nem se tivesse, ela resmungou. Voltou pra loja e saiu um minutinho depois, brava, bem brava. O dono não quis devolver a aliança sem receber o valor do empenho. Não adiantou nem contar sua tragédia pessoal.

Seguimos andando pela cidade, parando ocasionalmente pra comprar bebida. Ela entornava vorazmente uma garrafa de pinga, da branca, a pior. Eu bebia uma cervejinha. Conversamos um pouco sobre ela, as coisas que ela fazia, as coisas que ela gostava, e a cada minuto eu gostava mais dela. E não conseguia vislumbrar um motivo sequer pra uma mulher como ela ser deixada. Tentei verbalizar isso, certamente a faria se sentir melhor, mas preferi não falar nada.

Já devia passar da meia-noite, já havíamos andado por horas. Paramos na praça, eu me sentei, ela ficou em pé, falando sozinha. Do nada a música começou a tocar. Era uma música antiga, me lembro de ouvir quando criança, meu pai escutava muito em vinil. Começou a tocar mas nem eu nem ela pudemos precisar de onde vinha: não havia uma luz acesa em nenhum prédio, nem carro passando, nada. E a música vinha alta e clara, tão perto da gente, e ao mesmo tempo de lugar nenhum. Ela parou, encantada. Sorriu, encantada. Eu olhei pra ela, encantado.

__ Parece que temos trilha sonora, Filipe.

Ela rodou, e rodou, e rodou. E aí parou e me encarou, as lágrimas escorrendo fartas. Eu a puxei pra perto e a beijei. Ela não resistiu. Nos beijamos longamente, e a música não terminava, e ela amoleceu no meu braço. Findo o beijo ela voltou a me olhar, e me puxava com o olhar pra ela. A música continuava, e eu a olhei por longos minutos, uma eternidade. Sorri. Ela sorriu também.

__ Me senti num filme, Filipe. Isso não é coisa que se faça.