quinta-feira, 13 de novembro de 2014

E se?

"E se?", eu me perguntava. E se a gente tivesse seguido adiante naquela bebedeira e se a gente tivesse dormido junto aquela noite e se a gente tivesse vivido essa parcela de vida que parecia tão óbvia e tão certa? E se a gente tivesse se lançado naquele abismo que era meu coração ainda se curando de tantas e tantas feridas? E se seu corpo me trouxesse as respostas pra todas as perguntas que teus olhos me faziam? E se teu corpo me comesse como me comiam teus olhos? E se a promessa dessa noite ensopada de suor e desejo se concretizasse e a gente enfim gritasse que era isso que a gente queria e que queria há bastante tempo e era sim inevitável? E se a gente cruzasse a fronteira só pra, dali à frente, perceber o passo maior que as pernas e querer voltar? E se a gente nunca voltasse? E se eu te abraçasse com as minhas pernas e a gente gozasse junto apenas por aquela noite quente naquele lugar que, ali, parecia ser só da gente? E se? Eu me cansei de esperar pela resposta. Eu me ensopei de outras noites, eu comi outros olhos, eu abracei outros corpos. Eu cruzei todas as fronteiras, mesmo as que eu nunca devia ter cruzado. Eu te vi desfilar com outras moças e eu desfilei meus moços e ainda assim seus olhos me comiam e me inquiriram e me diziam todas as coisas impossíveis de ser ditas. E eu dancei sozinha noites a fio, o cigarro por companhia e a solução pra todas as dúvidas descansando no meio das tuas pernas. E se?

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A morte do menino amor

Aquele menino amor nascera na véspera do ano novo. Nascera feliz, saudável, pois já no início era dividido igualmente em duas partes, o que garantiria a ele bons anos de vida. Se tivesse nascido dividido em partes desiguais, mais cedo ou mais tarde uma das partes do amor pesaria demais e exigiria em demasia da parte menor, o que nunca é justo. Nunca é justo com o amor e munca é justo com quem ama.

Pois esse menino amor nasceu e cresceu bonito e saudável, nas duas partes jovens e saudáveis. O menino amor era cheio de vida. O menino amor viajou, morou junto, encarou o tempo ruim e celebrou o tempo bom. O menino amor foi feliz, certo de uma vida longa e plena.

Até que veio...a vida. E o menino amor, agora já crescido, se viu também partido. Continuava dividido em partes igualmente iguais, porém distantes uma da outra. Uma parte lá, outra parte aqui. Mas o amor não se deu por vencido e resistiu. E escreveu cartas, e varou noites em ligações intermináveis,  e gastou todas as milhas acumuladas com o cartão de crédito. O amor tentou. Mas a vida se esforçou em continuar, e as ligações cessaram aos poucos, as cartas demoraram mais pra chegar, as milhas findaram e o bolso não podia comportar. E o silêncio veio chegando sorrateiramente, ocupando o lugar do riso, e o riso se viu em outros olhos, e outras bocas se beijaram numa noite fria, sem dor pra ninguém porque aquele amor não estava mais lá. 

Não sem tentar, e cheio de dúvidas,  o amor morreu. 

Morreu ainda dividido em partes iguais, o que era de uma tristeza infinita. Amores morrem todos os dias, porque não são de verdade, ou não são do mesmo tamanho, ou foram traídos pelo melhor amigo - o pior inimigo. Mas ninguém lidava bem com essa morte assim. Era um amor jovem, verdadeiro e igual. 

Que, infelizmente,  morreu de fuso horário.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A volta do boêmio




Engraçado retornar às linhas & letras e deixar um pouco de lado os números e as observações das mesas de pôquer. E já se vão mais de dois anos sem aparecer nesta Confraria. Sim, voltei porque fui. E fui porque já não via sinceridade nas minhas ideias de amor. Teve uma hora que me dei conta que escrevia, era lido e elogiado por falar de algo que ainda não tinha vivido de fato. Sacanagens, seduções, entre outros, ah... isso eu conhecia bem. Mas de amor, era (e talvez ainda seja) um completo retardado.

Eis que vivi. E como... Intensos, fulminantes, contraditórios. Meus amigos, garanto-lhes que esta puerra que tanto se fala sem o menor fundamento é o narcótico mais hardcore que existe e dele provei até ter overdose. Amei pra caralho. Poutaquepariu! E olha que nem acho que sou dos que mais se entrega. Um erro, claro. Amor é pra isso, é pra se lambuzar e deixar secar sem limpar, sem frescuras.

Ele é descontrolado, e me conheci um sujeito controlador. Daí as cagadas que aprontei, pois aquilo chamado amor é pior que touro brabo, não tem quem dome essa desgraça. Você fica sem chão (e me perdoem os lugares comuns, mas estou desenferrujando ainda), mas quando tu se vê nessa situação, ao invés de procurar algum lugar pra segurar, a vontade que dá é de se mergulhar mais fundo, de testa, só pra ver onde dá.

Voltando ao retorno ao blog, devo confessar que agora no meio do texto, minha cabeça fervilha de sensações que vivi e quero passar, mas ao mesmo tempo me dá um medo danado de não conseguir terminar esse texto de uma forma digna. Perdi um pouco dessa dignidade de escritor. Dessa moral.

Enfim, rumbora parar por aqui hoje ou não termino isso aqui muito bem. Melhor voltar de leve, sem um texto com a obrigação de ser realmente bom. Só um texto simples. Até meio ruim. Não vou divulgar, nem fazer o menor alarde sobre esta crônica. Quem sabe a próxima vingue. Penso em fazer uma carta aberta. Uma prova pro meu amor atual. Ou não. Ou só conte um pouco das minhas preserpadas, pois elas continuam.

Até mais.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A sorveteria

“Boa escolha a sua” disse a ele com o sorriso simpático de quem conhece a freguesia. – É! Dificilmente compro outros sabores, respondeu. “Faz bem, o açaí tem ferro e dá energia” completou como se conhecesse sua rotina e da sua necessidade de complexo B. – Está aqui seu troco. – Obrigado, posso voltar outra hora para conversarmos mais sobre tabela nutricional dos picolés? – Claro, será bem vindo! Respondeu com espanto e um ar de riso.
Ele passou meses pensando naquele curto diálogo despretensioso e imaginando a rotina daquela moça linda de olhar materno.  O que ela pensa ao acordar? De quem lembra ao deitar? Qual sua comida preferida? Prefere rock ou sertanejo?
Mas a vida tratou de esfriar as perguntas e colocar as tarefas burocráticas na pauta do dia. De segunda a sexta, dez horas de trabalho contínuo, sábado a cerveja com os amigos e o domingo de futebol na TV. A vida foi passando rapidamente rumo ao dia de mudar de cidade.
Com uma oferta de trabalho, foi para o interior de Minas Gerais na esperança de que entre um pão de queijo e uma cachaça a vida adoçasse e a paz chegasse. Com tanta dedicação ao trabalho, prosperou e tornou-se um importante empresário da região. Comprou fazendas quilométricas e uma fábrica de fazer queijos.
Certa vez, nas suas andanças pela fabrica caiu no chão desmaiado. – “com certeza é estresse” disse uma das funcionárias acostumada com a rotina do chefe. Era anemia! O baixo índice de ferro no sangue era fruto de várias horas a mais de trabalho que lhe renderam uma baixíssima imunidade.
Passou algumas semanas internado e quando teve alta comprou imediatamente uma passagem para sua terra natal com um desejo em mente.
 – “Moça, oito picolés de açaí, e um beijo, por favor!”.



~~ Fim ~~

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sonhar...

…e acordar sem você, amor, é como não beber água depois de escovar os dentes. Como esperar aquele ônibus há horas e perceber que ele não vai parar porque ta lotado. É como precisar daquele abraço apertado e só ganhar um aperto de mão e dois beijinhos no rosto (um em cada lado). É como dirigir um carro de marchas na contra mão. É como tentar andar de costas e de olhos fechados na tua direção.

Não te ter ao lado ao despertar, entorpecida de você, é como ouvir uma música bonita só com um lado do fone de ouvido. Como andar no sol quente sem óculos, desprotegido. É como esperar o sinal vermelho abrir. É como sujar os sapatos recém engraxados. É como se preparar para um dia de sol e ver que o tempo ta nublado.

É que não ter seus olhinhos pequenos e brilhantes, logo depois de me deslumbrar contigo, me agonia. Eu não quero te dizer o que guardo aqui dentro. Não quero te contar que você faz essa falta que machuca, estraçalha e bagunça mais ainda a minha sutil insanidade. Não quero te contar a vontade que tenho de mexer novamente em teus cachos. De enrolar meus dedos por entre eles e adormecer contigo deitado de cabeça para baixo.


Mas deixa eu voltar a dormir agora, amor. Porque amanhã vai ser difícil admitir que hoje você me encheu de saudades. Vai ser árduo perceber que nenhum tempo é bom o bastante ao teu lado.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Vírus

"Mãe, acho que tô doente"

Ela estava atravessada na cama, ardendo em febre. Ao lado dela o notebook ligado, a página de uma rede social do moço. Ela passava os álbuns de foto em revista, sorrindo.

"O que você tem, filha?"

No chat, uma amiga perguntava pelo moço. Ela, ainda deitada, respondeu que só chegaria de viagem em dois dias. A viagem que duraria uma semana e já durava quase um mês. Ela sentiu ânsia.

"Ânsia de vômito. Febre. Tontura."

Ela e o moço se conheceram há uns cinco meses, numa festa. Beberam, dançaram, sorriram, e de lá foram para o apartamento dela. Era uma sexta. Ele só foi embora no domingo. Ela lembrou desse primeiro final de semana e a ânsia aumentou. Quis chorar.

"Ih, filha, será que é dengue?"

A amiga perguntou se eles estavam namorando. Ela respondeu que não sabia, e não podia ter sido mais honesta. Com seus 30 anos, nunca tivera um namorado a sério. Namorou por algumas semanas com um rapaz, na época da escola, mas a lembrança que tinha disso era amarga. Na verdade, o rapaz dissera à época, pra quem quisesse ouvir, que ela era amarga. Sem coração. Que não sabia amar.

"Ai, mãe, não sei. Tô com vontade de chorar. Tô sentindo um aperto, sabe? Uma dor aqui do lado esquerdo."

Ela, de fato, não sabia amar. Nunca amara na vida. Não havia razão específica para isso: não sofrera uma grande decepção, foi criada rodeada de amor e carinho, só não sentiu nada além de desejo pelas pessoas que frequentaram sua cama. Nem homens nem mulheres. Ah, ela se esforçou, mas nunca encontrou o tal do amor.

"Deve ser uma virose. Te pego aí pra te levar no médico, ok? Quinze minutinhos."

Ela desligou o telefone e rolou na cama, olhando pro teto. Não era de ficar doente. Mas, de uns tempos pra cá, ela adoecia com uma certa frequência.

A amiga voltou a chamar no chat, mas ela fechou a conversa e desligou o notebook. Tomou um banho gelado pra tentar aplacar a febre, mas não resolveu. Pouco depois do banho o moço ligou. Disse que sentia falta do cheiro dela, que estava tentando adiantar o retorno, que ansiava para vê-la. O estômago dela se revirou, a febre aumentou, seu rosto estava em brasa, o calor de seu corpo era palpável. Ela disse que não aguentava mais de saudade, pediu que ele voltasse logo pra ela porque ela, pra variar, havia adoecido e sentia falta do cuidado dele.

"Já reparou que você só fica assim quando eu preciso me ausentar? Acho que te faço mal.", ele fez charme. Ela riu, exasperada. "Não, quando você volta eu sempre fico bem. Você é meu remedinho."

No caminho pro hospital ela narrou os sintomas pra mãe. Falou da febre que não cessava nunca, do embrulho infalível no estômago, da ânsia cheia de ânsia do não sei o quê. A mãe perguntava sobre a ocorrência e a frequência dos sintomas, já com um meio sorriso, e ela respondia que se sentia melhor quando o moço estava. Que mesmo quando eles ficavam uns dois dias sem se falar ela se sabia bem porque ele tava ali, e quando o período era superior a isso ela sentia a casa cheia de ausências e já ficava assustada e irritadiça, e já se sentia indisposta e não queria fazer nada, e a febre queimava e queimava e queimava.

A mãe deu meia-volta. "Mãe, o hospital é pra lá", ela argumentou. "Filha, pra isso aí não tem médico, benzedeiro ou curandeiro que dê jeito. Isso aí, minha filha, é mal de amor". Ela sorriu, incrédula. Mas, ora, como haveria de saber que não era se nunca antes tinha experimentado aquilo? A mãe lhe explicou, com calma. Ela entendeu.

"Mas é assim, como vírus?"

"Sim, filha. Amor é assim, feito vírus."

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Old Love


Ela acordou naquela manhã fria e imediatamente quis dormir de novo. Tivera uma noite terrível, e o ritmo preguiçoso do feriado junto do final de semana não ajudaria na tarefa de começar a semana.

Era a semana de aniversário. Ela não era grande fã de aniversário, tanto por não se sentir mais sábia ao longo dos anos quanto pela perda do primeiro amor em uma de suas vésperas. O aniversário era basicamente o fim do inferno astral, nada digno de nota, e ela preferia encarar assim.

Por ser segunda ela já sabia que seria um dia inevitavelmente ruim, mas aquela era uma segunda diferente, e ela soube no momento em que tentou se levantar da cama, pois havia um peso novo dentro dela, no fundo da garganta. Uma coisa assim antiga, mofada, morta. Ou que ela pensava estar morta, pois estava ali bem viva dificultando a respiração. Tentou entender o que acontecia e seu corpo todo enrijeceu de medo. Lembrou com clareza da última vez que se sentira assim, e já fazia tantos anos que não parecia possível. Tanta água já tinha corrido, de uma correnteza tão violenta, que ela tinha certeza de que o menor fragmento restante tinha sido levado junto com tantas outras dores. Mas não, ela sabia que não. Estava ali, viva e cristalina, a saudade de um amor morto.

Morto. Mas um dos amores mais bonitos que ela viveu, ali pelo início da década passada (deus, que história antiga! - ela repetia pra si mesma). Namoraram por quase dois anos, um amor fresco, cheio de brisa, cheio de descoberta. Antes de namorados eram melhores amigos, e conheciam tão intimamente um do outro que era praticamente impossível que errassem. Ela lembrou desse detalhe com um certo pesar – o relacionamento posterior durou quase o dobro, mas deve ter tido metade da felicidade e uma quantidade infinitamente maior de lágrima e dor.

Ela tinha seus 19 e ele já 32 anos. Vinha apaixonada por ele há alguns meses, mas não sabia se era recíproco e não quis arriscar, afinal ele era seu melhor amigo. E era desses caras assim, facilmente apaixonáveis: bonito – de olhos escandalosamente verdes, inteligente, sensível, educado, simpático à causa feminista (o que já era deveras importante pra ela à época). Pilotava uma moto da cor preferida dela, era músico e jogava xadrez. Quando ele a pediu em namoro ela tinha a absoluta certeza de que ali era o início do fim dela, e que o fim dela era ele. Não queriam filhos, não queriam casamento, queriam morar fora do país e amavam cachorros. E eram completamente tarados um pelo outro – chegaram a ser indiscretos em algumas ocasiões sociais, mas era um cio interminável. Faziam sexo o tempo todo, conversavam sobre tudo o tempo todo, ouviam Beatles todos os dias, bebiam feito loucos e foram felizes feito loucos, o tempo todo. Nada com ele era difícil – nem a relação conflituosa que ela tinha com a família, nem a morte prematura e traumática do primeiro amor dela, nada era um obstáculo, nada era um enigma. Viveram uma relação tão madura pra idade dela, sem grandes brigas, sem grandes percalços, baseada numa confiança sem reservas e num amor que só crescia, que por vezes ela custava a acreditar que era real. E quando ela duvidava ele fazia questão de transformar a dúvida numa realidade tão palpável, tão intensa e desejável, que ela se sentia grata pela certeza que ele plantava no coração dela.

Até que ele mudou. De uma hora pra outra, sem motivo aparente, ele mudou. Quase não conversavam mais, ele estava ausente a maior parte do tempo, o sexo esfriou, ele simplesmente mudou. Não durou um mês, mas ela não quis esperar. Não quis pagar pra ver. Se achava tão madura, tão especial, tão auto-suficiente, que não tinha porque esperar por ele voltar. Ou batalhar para tê-lo de volta (se ela pudesse imaginar do que seria capaz mais à frente...). Tentou conversar uma vez, se muito, e como não obteve resposta, simplesmente resolveu partir.

A partir daí, tudo que era absolutamente especial entre eles adquiriu um aspecto turvo, e chegou ao ponto de parecer que sequer se conheciam. Meses depois ele a encarou e disse que havia errado, que tinha cometido esse erro e que esse erro foi responsável por fazê-lo mudar, porque ele não tinha condições de encará-la, não tendo feito o que fez. Mas que ele sabia de quem era a culpa pelo fim, e estaria disposto a carregá-la por quanto tempo fosse preciso, porque ele sabia o que esse erro custaria, e era um preço muito alto a se pagar. Ela ouviu num misto de alívio e ódio, pois se arrependera de ter partido sem lutar, mas por ouvir sem ouvir de verdade ela só maximizou esse erro pra se livrar da culpa. Ela, menina que se achava mulher, não soube perdoar. E desde então eles nunca mais conversaram como antes, e brigaram como nunca, e se perderam completamente no processo de assassinar o que sentiam um pelo outro. Ela nunca olhou pra trás, nem uma única vez, nem mesmo quando foi correndo ao hospital sem saber se ele estava vivo ou não. Ela matou o que sentia ali e decidiu se transformar em viúva de alguém que ainda vivia.

Ela encarou orgulhosa uma viuvez de quatro longos anos. Tinha a certeza de jamais viveria um amor como aquele, e de fato não viveu, e não queria se arriscar a perder tudo de novo, o que aconteceu de maneira ainda mais violenta anos depois. E se achando segura ela abriu mão de seu luto feroz, e permitiu a invasão alheia que viria a devastá-la sem precedentes. E vivendo um novo luto ela se agarrou à certeza de que tinha tanta morte dentro dela que isso impossibilitaria o renascimento de qualquer coisa que já tivera vida.

Desde então, desde o momento em que abandonou sua mortalha e se permitiu amar e ser amada por outra pessoa, ela nunca mais experimentou esse tipo de saudade. Nem quando seu relacionamento posterior ia se transformando lentamente no maior erro de sua vida. Ela mal lembrava da última vez em que estiveram diante um do outro e tiveram uma conversa decente, seis anos atrás. A última vez que se falaram, numa ligação à distância cheia de falsas promessas e mágoa, tinha sido há mais de quatro anos. Nunca mais havia pensado nele, nos olhos escandalosamente verdes e no cheiro do xampu que ele usava nos cabelos longos, na tatuagem de pássaro negro em homenagem à canção preferida dele que também era a dela. Tudo tinha ficado no campo do esquecimento.

Trazer à tona, de volta à vida, algo há tanto enterrado, e enterrado tão profundamente, não foi um processo simples pra ela: se sentiu pesada e assustada no decorrer do dia. Tentou ignorar o nó na garganta e falhou. Tentou situar as lembranças no campo da memória sem importância e também falhou. Experimentou o gosto que tem o arrependimento guardado por quase dez anos e engasgou, pois era amargo e cruel. Mas ela não chorou. Nem se torturou, tampouco. Ignorou o conselho da amiga que disse para procurá-lo. Ela não era mais a mesma, ele certamente não é mais o mesmo. Ela imaginou, claro, como seria se por acaso tivesse perdoado aquele deslize menor, e talvez ainda estivem juntos e felizes, e talvez ela tivesse vivido várias outras coisas. Mas ela ali, à distância, vislumbrou a possibilidade rica e serena que deixou passar, e se despediu dela sabendo quem ela era. Sem dor. No fim do dia se comprometeu a, dali pra frente, estar mais atenta aos sinais. E ouviu Eric Clapton até sangrar.

Old love, leave me alone
Old love, just go on home

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Indelével

adj.
Que não se pode apagar ou desaparecer

Acredito que quase, quase tudo na vida é superável. Superamos a dor, a perda, o engano, a morte. Quase tudo. Acho que a única coisa que eu não superaria seria a perda da minha mãe, por exemplo. De resto...perdemos trabalhos, tempo, amigos, e vamos superando e continuamos a viver. E dá pra viver uma vida cheia e verdadeira, mesmo com todas essas perdas, mesmo com a energia que se despende pra superar as coisas.

Mas falemos de amores.

Amei três vezes na vida. Ao fim de cada amor, achei que fosse morrer, porque tudo em mim doía a maior dor do mundo e eu achei que nunca ia ter fim. E chorei e sequei, mas nem morri. E as dores foram passando, a cicatriz fechando e eu fui voltando aos poucos à vida. Daí depois de um tempo eu me apaixonava de novo, e desapaixonava e seguia, até cruzar novamente com o tal do amor. E superei meus três amores mortos, e sei que posso superar os outros que virão, caso morram.

Mas, sabe o que é? Cicatriz fecha, mas não sai. Cada amor morto deixou uma marca impossível de ser removida. E às vezes, no silêncio da hora mais escura, aquela hora em que faz mais frio, a marca dói. E não dói pelos amores já mortos, não dói pelo que se perdeu ou pelo tanto que se deixou de acreditar. Dói porque é uma coisa ainda viva, esquecida, mas viva dentro da gente. E vem assim, sem menos nem mais, num átimo, porque é viva.

Não tenho medo dessas dores.

Não mais. Não me provocam nostalgia, e se me arrancam lágrimas não é pelo que podia ter sido e não foi (obrigada, Bandeira). São só dores, latentes, esperando uma brecha pra voltarem. E a gente nem consegue controlar porque a maior parte do tempo elas não anunciam o golpe. O golpe vem seco e a gente sente. Daí enxuga a lágrima e, um segundo depois, esquece. Mas ela tá lá. E sempre estará. Ninguém nunca vai saber. Ninguém nunca vai olhar pra você e perguntar: “o que é esse corte aqui?” e você vai responder “foi um amor que morreu”. Não se pode enxergar. Nem remover. Mas se pode inspirar.

sábado, 1 de junho de 2013

Repartição

Era um moço bem moço. Trabalhava como mensageiro de uma empresa terceirizada que prestava serviço pra várias repartições públicas. Era sozinho – mas sozinho mesmo, de uma solidão de dar dó. Não tinha família, amigos nem bichos de estimação. Era um moço bem moço e bem só, que parecia carregar consigo uma gravidade mais que pesada que o próprio peso. Era curvado, branco e frio. Normalmente ele não falava com ninguém quando chegava, só entregava o que tinha de entregar e partia. Mas aí ele começou a mudar quando a outra mulher chegou.
A outra mulher era a nova diretora da repartição. Ninguém gostava muito dela, mas ela parecia gostar bastante de si mesma pra se importar com isso. Era vaidosa, altiva e bastante egoísta. Mas o moço bem moço que vinha deixar correspondência pra ela parecia ver uma fada sempre que chegava. Parecia ser salvo sempre que a via. Eu não entendia. Eu tentava trocar uma ou duas palavrinhas com ele mas ele nunca olhava pra mim, então nunca podia ver meu sorriso – ele tinha olhos só pra ela. Ele entrava, entregava a documentação dela, parava ao meu lado pra tomar um copo d'água, ignorava meu sorriso e ia embora, sempre olhando pra ela, e com uma fome que eu nunca vi em olhar nenhum.
Com o passar do tempo a gravidade dele foi se esvaindo, dando lugar a um moço ainda mais moço. Jovial, sorridente, ereto e quente. Mas era tudo só pra ela. Eu percebi isso quando ela tirou férias. Ele voltou a ser o mensageiro macambúzio que as outras pessoas riam quando ele saía da sala. O moço alegre voltou quando ela também voltou, mas ela parecia não perceber. Ninguém ali parecia perceber, além de mim. E um dia fui ter com ela, e perguntei se ela tinha ideia do efeito que causava no rapaz. Ao que ela respondeu com uma risada fria. Só isso, uma risada fria, e voltou ao que fazia, me deixando ali feito boba.
Desde então eu tentei de todas as formas atrair a atenção dele para o fato de que ela não se importava, mas ele nunca me olhava. Até que um dia eu o segui, consegui pegá-lo ainda na escada, e disse “sabe, essa mulher por quem você é apaixonado, ela não liga”. Ele me olhou sem me ver, disse que não sabia do que eu estava falando e retomou a descida das escadas, sem olhar pra trás. Depois desse dia, todas as vezes que eu tentava ter com ele eram fadadas ao fracasso. Mas eu insisti. E da última vez que tentei, ele segurou com força meu braço e disse que ela seria dele e eu não podia fazer nada pra impedir, que ele já tinha percebido que eu o amava mas ele não me amava e que devia deixá-lo em paz. Me assustei. E deixei pra lá.
Até que chegou o final do ano. Faltavam algumas semanas pro réveillon quando ele me procurou na repartição. Pediu desculpa pela forma que havia me tratado e disse que eu ficaria feliz em saber que ele passaria a virada de ano com ela. Nesse momento ela passou, ignorando completamente qualquer ser ao redor, incluindo a mim e ao moço. Olhei pra ele com curiosidade e interesse. “Como é possível que ela passe a virada do ano com você se ela sequer considera sua existência?”, perguntei. Ele riu e disse que já havia tomado conta de tudo. Eu, que havia decidido desistir, apenas passei a ele meu telefone e pedi que me ligasse caso algo desse errado, mas que eu torcia pra que fosse uma noite ótima. Ele me abraçou e foi-se.
Fui passar as festas no interior com minha família, mas não tirei o moço da cabeça. Me arrependi de não ter pedido o celular dele pra poder pelo menos sondar. E percebi que meu maior medo era, na verdade, que eles realmente estivessem vivendo um affair, e ela por ser daquele jeito não quisesse demonstrar pros funcionários. Porque uma mulher como ela não se envolveria com um mensageiro – não quando tem convites pra jantar com o chefe da repartição.
Na festa de réveillon quase não me diverti, pensando no moço todo o tempo. Até os imaginei, os dois de branco, com uma taça de champagne, brindado àquele amor que nascia junto com o ano. Fiquei num canto escondido e chorei a festa inteira. Quer dizer, eu entendia o fascínio que ela exercia sobre ele, afinal ela era uma mulher, linda, bem-sucedida, enquanto eu era só uma moça bem moça, que nem ele, que passou a vida no canto, sem ser percebida.
Mas meu celular tocou no momento da contagem regressiva. Havia uma mensagem de um número desconhecido. Era ele. “Ela não pareceu feliz em me ver na casa dela, mesmo com a ceia pronta, as velas acesas e um bom champagne. Então tive de convencê-la a ficar”. Um frio percorreu minha espinha. Não sabia o que ele queria dizer com isso, então liguei. Mas a ligação não completou. Tentei de novo, falhou de novo. Enquanto discava os números pela terceira vez, tremendo, chegou uma foto. Ela estava amordaçada, amarrada à cadeira, com os olhos inchados de apanhar e o nariz sangrando. Ele estava ao lado dela. Feliz. Ele estava feliz.
Me desesperei. Liguei de novo, a ligação completou mas ele não atendeu. Mandei uma mensagem pedindo que ele a libertasse, passei meu endereço caso ele quisesse ter um lugar pra pensar antes de decidir que decisão tomar, mas que ele precisava sair da casa dela imediatamente. Ele respondeu que estava com a mulher que amava no exato lugar em que devia estar. Então eu entendi o processo dele. Pedi o endereço pra fazer uma visita de cortesia, como amiga, pra celebrar o amor dos dois. Ele me passou. Peguei o carro. Mais de uma hora de viagem, mas algum dano maior podia ser evitado.
Durante a viagem me perguntei o porquê de estar agindo dessa forma, dirigindo na madrugada pra socorrer alguém assim. É certo que eu gostava desse moço, mas não era certo o que ele estava fazendo, e tampouco era certo eu tentar ajudá-lo. Eu podia simplesmente ter avisado à polícia e ver o que acontecia. Mas percebi que, na verdade, estava feliz por esse romance ser apenas um delírio dele. Por ele ser louco de achar que uma mulher ficaria com ele. Ainda que isso significasse cárcere privado e agressão, eu estava feliz por saber que ele uma hora ia perceber isso e ia sofrer. E eu estaria lá por ele.
Quando cheguei não acreditei no que via. A mesa posta, as velas acesas, as bebidas. Tudo tão cuidadosamente preparado por ele. Ela continuava amarrada à cadeira, desacordada, sangrando. Ele cantarolava de algum outro cômodo. Percorri a casa e fui encontrá-lo na cozinha. Ele pareceu extremamente incomodado em me ver. Expliquei que tinha ido até lá porque a festa que eu estava já tinha acabado e eu queria me divertir. Ele não acreditou, mas não disse mais nada. Me levou pela mão até a sala de jantar. No chão, perto da cadeira onde a mulher estava sentada, vi um martelo de moer carne ao lado de um celular destruído. “O namorado dela não parava de ligar”, ele explicou. “Mas nós tivemos uma conversinha sobre isso, né, meu amor?”, ele perguntou a ela, que havia acordado. Ela me olhou com completo horror no olhos, começou a se debater tentando sair da cadeira. Eu pedi a ele pra tirar a mordaça dela. Ele disse que não podia, ela ia voltar a gritar, eu pedi por favor, fiz ela prometer que não gritaria, ela indicou com a cabeça que não o faria, ele tirou o pano. Ela, obviamente, gritou. Ele ficou desesperado, pediu a ela que pelo amor de deus parasse, que os vizinhos iam aparecer e iam estragar a noite deles, que ele tinha planejado tudo, que era pra ser tudo perfeito. Ela continuou gritando. Peguei o martelo e bati na cabeça dela com toda a força que pude acumular. Ele me olhou aterrorizado. Veio pra cima de mim, e percebi que ele nem era tão moço assim. Dei com o martelo na cabeça dele também. Uma, duas, cinco vezes. O sangue dele cobriu meus braços, meu rosto. Limpei com a toalha alvíssima da mesa. Apaguei as velas. Peguei uma coxa particularmente gorda do peru e saí pela porta dos fundos. Um vizinho olhava pela cerca. Desejei a ele um feliz ano-novo e ganhei a rua. Ainda havia fogos, a noite estava bonita, então parei pra olhar. Ouvi as sirenes ao longe, misturadas ao barulho dos fogos de artifício. Parecia música.

Parecia música.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ritual


Toda sexta-feira ele desaparecia. Não atendia celular, os amigos que eu ainda tinha coragem de ligar nunca sabiam dele, ele simplesmente sumia. No início ele me dizia que tinha ficado preso no escritório, que o pneu furou e ele tava sem bateria pra chamar o seguro, depois de um tempo era tanta desculpa estapafúrdia que eu simplesmente deixei de acreditar. Eu sabia o que ele fazia – não sabia onde, nem com quem – mas sabia o que ele andava a aprontar. E toda sexta-feira eu derretia de ódio. Sentia ódio dele em todos os poros do meu corpo. Era medonho. Eu tinha febre, e cerrava os dentes, e não dormia, e chorava, e começava a imaginá-lo morto. Morto. E eu imaginava a morte dele bem lenta e com muita dor, e ele me pedia perdão com os olhos vidrados de desespero e aquilo me dava um prazer aterrorizante. A essa altura eu já o tinha matado empalado, queimado, envenenado, mutilado, atropelado, crucificado. Cada sexta-feira era uma morte diferente, e às vezes eu fazia umas pesquisas durante a semana, pra garantir que opções não faltariam. E ficava lá, na cama, comendo cigarros, os olhos inchados de dor e mágoa, saboreando cada detalhe da morte dele.

Mas aí, no sábado de manhã, no sábado de manhã ele chegava, cheirando a álcool e penteadeira de puta, e me abraçava e pedia perdão. E chorava, e dizia que não mais faria aquilo comigo, que não era justo, e pelamordedeus me perdoa, e eu dizia que tava cansada, que aquilo não dava mais pra mim, e ele enfiava a cabeça no meio das minhas coxas e eu gemia e chorava e gemia. Aí ele me deitava na cama e me penetrava com tanto cuidado que o ódio ia embora, aos pouquinhos, devagarzinho, e ele lambia meu mamilo e pedia perdão, e eu perdoava e sorria, e aí ele acelerava, o ódio ia voltando à medida que ele também ia acelerando, e quanto mais rápido ele me fodia mais rápido o ódio voltava, aí eu explodia em gozo e raiva, e chorava e chorava e chorava. Ele se limpava com o lençol, virava pro lado e imediatamente começava a roncar. E eu, chorando chorando chorando, ia pro banheiro, tomava um banho quente e eterno, até a raiva passar, até eu conseguir enxergar de novo, e ia embora pra casa da minha mãe. Todo sábado de manhã era isso. Todo sábado, há anos, era assim.

No domingo à noite eu voltava pra casa e ele me levava pra jantar. E nunca conversávamos sobre o que acontecia toda sexta à noite e todo sábado de manhã. Nunca conversávamos sobre nada. Ele me falava sobre a expectativa dos negócios da semana, xingava minha mãe, falava dos passeios com o cachorro. E eu ficava calada olhando pra ele, imaginando se ia doer se eu enfiasse a faca de mesa no ouvido dele ali mesmo, naquela bosta de restaurante chinês que ele me levava todo domingo. Depois ele me levava pra melhor suíte do melhor hotel da cidade e pedia champanhe e a cama estava coberta de rosas e a gente trepava por horas e horas e eu sentia tudo ao mesmo tempo, amor e ódio, e às vezes eu apertava o pescoço dele com um pouco mais de força, só pra saber como seria se eu o matasse, e ele gostava, e cada vez que eu apertava mais o pescoço ele se contorcia todo, e pedia mais e mais e eu apertava mais e mais. Depois a gente gozava junto e caía cada um pra um lado da cama, e se olhava pelo espelho, ele ria e dizia que me amava, e eu segurando a lágrima respondia que o amava também, aí ele fazia cócegas na minha barriga e a gente ia pro banho junto e quando via já era quase segunda e já era hora de voltar à vida. Era o nosso ritual.

Aí veio uma sexta que ele não saiu. Chegou cedo em casa, nem tinha jantar porque na sexta eu liberava a Rosa mais cedo, sabendo que ele não vinha, mas nessa sexta ele veio do trabalho direto pra casa. Pediu uma pizza, assistiu ao jornal e lá pelas dez tava dormindo. Acordou cedo no sábado, cuidou do jardim e do criadouro dos cachorros, fez almoço, à tarde foi pra rua comprar coisas pra casa e voltou com pipoca, sorvete e Dirty Dancing. Assistimos ao filme juntos, ao final imitamos a coreografia, ele fez as vezes de Patrick Swayze e depois nos deitamos abraçados, e ele me beijava com calma e bem devagar, a noite inteira, como há muito não nos beijávamos, e ele me olhava como há muito não me olhava mais, e cheirava meus cabelos e dizia que me amava muito, tanto e como. No domingo fomos almoçar na casa da minha mãe, de lá passamos num parque de diversões, ele não me levou na porcaria do chinês, voltamos pra casa e, já na cama, ele me contou que tinha percebido o que vinha fazendo, e o quanto me fazia sofrer, e como ele arriscou à toa, por todos esses anos, me perder. Que isso ia acabar, ia parar, que toda sexta-feira ele estaria lá pra dar boa-noite pro William Bonner e seríamos um casal exemplar e de causar inveja nos outros casais.

Eu sorri. Sorri e disse a ele que não queria vê-lo em casa sexta à noite, que não o queria acordado sábado de manhã aparando o jardim, ou indo aos almoços de domingo na casa da minha mãe. Que mesmo que ele não me traísse mais, que ele arranjasse o que fazer na sexta, que eu o queria bêbado no sábado pela manhã, transando comigo como se fosse morrer, e agindo como se nada tivesse acontecido o resto do final de semana. A única exigência que fiz foi excluir definitivamente aquele chinês de merda da nossa vida. Mas expliquei que, embora eu sofresse muito em todos os finais de semana, só assim eu me sentia viva. Que não queria o que a gente já tinha de segunda à quinta, queria aquela loucura e paixão e perdição daqueles três dias porque era a melhor parte dele que eu tinha. Ele me olhou petrificado, tentou balbuciar que nunca havia me traído, falou que isso não era coisa de gente normal, que ninguém pode ser feliz vivendo assim, mas eu mantive minha posição. Expliquei que casada eu já era, com a Rosa, que era quem me ouvia reclamar, quem me auxiliava nas contas, quem via a novela comigo e tudo isso. Isso já era um casamento perfeito e isso eu já tinha, e obviamente jamais seria com ele, porque ele não era assim, ele era vadio e eu sabia, sempre soube, e foi ali que eu vi meu coração a primeira vez e era ali que eu queria ver meu coração pra sempre. Eu disse pra ele que, feliz, aceitava a condição. Era a minha escolha. Se ele quisesse emular um casamento perfeito, que fizesse sua trouxa de roupa e fosse embora atrás de outra mulher, que eu preferia imaginá-lo morto toda sexta feira a ter real vontade de matá-lo logo na segunda pela manhã.

Na sexta seguinte, já passando das três da manhã de sábado, ele me mandou uma mensagem dizendo que o pneu tinha furado e ia dormir na casa de um amigo, mas no sábado de manhã voltava pra casa. Sorri conformada, vesti minha melhor lingerie e esperei ele voltar. Ele chegou oito da manhã, bêbado e roto, eu gozei e chorei e sorri e fiz todo meu ritual. Depois do banho voltei pra cama e fiquei olhando pra ele, até pegar no sono, imaginando uma morte diferente das que eu já tinha imaginado. E ele ainda dormindo procurou minhas coxas, repousou sua mão e me chamou pelo nome. E eu chorei de ódio, feliz da vida, com o coração no lugar.

domingo, 12 de maio de 2013

Da descoberta

Texto sincerista


Eu sabia. No fundo eu sabia que se eu fizesse isso, se eu atravessasse essa ponte que me levava até aquele lugar, eu sabia o que aconteceria. Mas eu pisei firme. Encarei mesmo, pensando que se o risco era esse, que fosse. Ia valer a pena. Por mim, nem sei se pela outra pessoa, mas por mim mesmo. Fazer isso por mim. Me dar essa chance.

E aí eu acordei. E tudo que vinha dormindo em mim acordou também. Sabia que não tinha morrido, essas coisas nunca morrem. Esse arrepio, a dúvida de saber como será quando estiver por perto, esse stalkear fajuto nas redes sociais. Acordou e não acordou como um monstro - acordou sereno. Sorrindo.E é bom.

Esse início de paixão. Essa coisa que a gente sabe exatamente onde termina, porque não tem mesmo pra onde ir. Mas a gente se permite viver isso porque, ora, é bom. É bom se reconhecer em outra pessoa. Sem aquilo de se sentir completa, só se reconhecer mesmo. Já estive partida, vivi partida por muitos anos, e terminei em pedacinhos. Quero isso de novo não. Quero o que eu tenho agora, esse conta-gotas, esse imaginar como seria, se pudesse ser. Esse se perguntar se é isso mesmo, se a intenção é essa, se é tão claro pra ele e pros outros como é pra mim. De imaginar que tudo é cifrado e ele diz uma coisa querendo dizer outra. Se o desejo dele é gêmeo do meu. Cansei de amor louco. Quero só essa paixãozinha fajuta pra me tirar o ar vez em quando, pra eu beber só quando der sede, se der sede. Não quero a urgência, prefiro essa espera, a doce espera pelo estar junto de novo, se assim caminharmos pra isso. Quero esse rubor ao acordar do sonho sem querer acordar. Essa coisa que queima devagar, sem pressa, que vai se acostumando ao fogo que lambe aos pouquinhos. Não quero a dúvida de saber onde anda e com quem anda, o que faz ou deixa de fazer. Prefiro não ouvir nenhuma promessa, quero só o momento do hálito quente. Da descoberta. De conhecer aos poucos, p-a-u-l-a-t-i-n-a-m-e-n-t-e, pra não conhecer por inteiro nunca, e continuar descobrindo. Não preciso de terra firme. Nesse caso, nesse caso em particular, prefiro a sensação de queda. Pelo arrepio na espinha que dá.

Paixãozinha besta, não esperava que viesse assim tão cedo. Mas que bom, que bom que você veio.

domingo, 21 de outubro de 2012

Com todo o amor



Quero-te bem, meu bem
Te amo além
Do que os sonhos fantasiavam
Do que eu sonhava também
Te amo além
Dos meus planos de amar alguém
Amo-te tanto, portanto
E sem porém.

Te amo aqui ou aí, ou ali, além
Em qualquer outro lugar
Amo-te sempre, sem você não sou ninguém
Nem quero ser
Pois você, amor, é o meu lar.

Thaís Carvalho

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fim


Antes, se você ainda não conhece a saga do nosso herói, clica aquiaqui e aqui,
Depois, pra começar a ler, dá o play.


Me lembro que uma amiga costumava dizer, sobre as dores de amor que às vezes sentia, que não se morria dessas coisas. Foi a primeira coisa que pensei quando finalmente consegui voltar a andar após sair do apartamento dela. Porque eu fiquei suspenso ali por, sei lá, cinco minutos, esperando um chamado que nunca veio. E quando percebi que não veio e quando me dei conta do que viria no lugar, a primeira coisa que pensei foi em não morrer.

Qual o quê.

Talvez tivesse sido mais fácil pra mim se tivessem me dito que a dor de perdê-la me faria doente e meio louco. Talvez tivesse sido mais fácil se tivessem me alertado que parar de trabalhar pra esperar por ela todos os dias durante um mês não ia me fazer mais saudável, nem tampouco a traria de volta. Ninguém me disse isso. Só me davam tapinhas nas costas, riam quando eu dizia que estava à beira da morte e insistiam em dizer que ia passar.

Por um tempo achei que não ia passar nunca e vesti com orgulho minha mortalha. Me transformei em péssima companhia de bar porque estava quase sempre bêbado de dar dó, gritava com casais na rua e fui confundido com um mendigo certa feita em que estava sentado na frente da casa dela esperando ela passar com o noivo – agora já marido – só pra ir pra casa chorar depois. Até que minha mãe, pobre mulher, resolveu que eu tinha ultrapassado todos os limites do aceitável e impôs a condição de eu fazer terapia pra continuar morando na casa dela.

Com o tempo o visual mendigo foi embora, eu parei de frequentar a porta da casa dela, me tornei a companhia de sempre no bar e fui deixando pra lá. Com uns, sei lá, oito meses eu já tava refeito. Voltei a trabalhar, saí da casa da minha mãe e dava festas absolutamente inacreditáveis no meu apartamento.

Era feliz novamente sem amar ninguém.

Até que veio São Paulo. De novo.

E com São Paulo veio a Luísa.

Foi mais ou menos assim: tinha uma reunião do escritório e de lá fomos todos prum bar. E quando eu tava já muito bêbado ela chegou, mais bêbada que eu. Também era arquiteta, tava lá pra encontrar com alguns amigos que, por acaso, trabalhavam no meu escritório. Ela sentou do meu lado e conversamos a noite inteira, sem a necessidade de sermos apresentados. Eu, bêbado, contei toda minha história pra ela, que ouviu com lágrimas nos olhos e se pôs a xingar a ex junto comigo. Já quase amanhecia quando resolvemos ir embora. Disse a ela meu nome, que me disse o seu. Perguntei se ela costumava beber tanto daquele jeito, avisando que se a resposta fosse positiva eu adoraria tê-la como companhia. Ao que ela respondeu que só bebia assim quando o marido viajava, senão ele brigava com ela.

Claro, né.

Mas ficamos amigos. Melhores amigos. Ela tinha sido a primeira pessoa em quem consegui confiar depois do que a ex fez comigo, e isso não facilitava pro amor que teimava em nascer no meu peito. Não lutei, mas não me esforcei pra tirá-lo de lá. Só tentava agir como se ele não existisse, porque eu sabia que se eu dissesse a ela o que sentia, ela certamente se afastaria, por ser boa demais pra me machucar. Então aceitei o posto de melhor amigo feliz, porque era melhor que nada.

Com um ano de São Paulo resolvi me permitir me envolver com alguém, até pra ver se a presença da Luísa no meu peito diminuía um pouco. A moça era bonita, inteligente, gentil e completamente tarada, o que certamente me deixou ocupado por uns meses. E a Luísa sentiu. De início achei que seria somente ciúme normal de amiga quando um amigo começa a se relacionar com outra mulher, e não dei muita bola. Mas as reclamações cresceram e cresceram, e eu não podia falar da moça sem que Luísa soltasse suspiro atrás de suspiro, e percebi que ali era mais do que ciúme de amigo. E me doeu, doeu muito. Ao que me afastei. Ela, percebendo que me perdia, me puxou de volta. E perguntou o que havia. E eu rodeei, rodeei, até dizer que o ciúme dela quase me ofendia, tendo em vista que ela a essa altura já devia saber o quanto eu a amava.

Luísa me olhou como nunca tinha me olhado na vida, o olho cheio de lágrima, o suspiro suspenso. “Eu também te amo”, foi o que ouvi bem baixinho, quase um segredo. Não acreditei, fiquei com raiva, mas ela me puxou pelo braço e disse em voz alta, de maneira que meu peito entendesse bem: “eu também te amo”.

No dia seguinte fiz minhas malas e pedi pra passar um tempo na matriz do escritório. E fui embora sem me despedir. Quando Luísa disse que me amava quase pude ouvir a trilha sonora da minha vida, aquela há muito silenciada, começando a primeira nota. Mas um segundo depois me dei conta de que não poderia ficar com ela, porque veja bem, uma vez uma moça tinha me traído sem que eu tivesse feito absolutamente nada pra ela. E eu quase morri. O marido da Luísa, embora eu não tivesse feito questão de conhecê-lo bem, certamente não o merecia. Então não me cabia fazê-lo.

Passei seis meses sem dar ou ter notícia dela, então achei que seria saudável voltar. E voltei. E uns dias depois do meu retorno, no mesmo bar onde a conheci, um amigo muito bêbado resolveu espalhar a notícia de que eu estava na cidade, e saiu mandando mensagens de texto pra todo mundo. Minutos depois o telefone dele tocou. Era Luísa. Ele confirmou que eu realmente tinha voltado a São Paulo, disse que tinha uns dois dias e disse que eu parecia bem. Ela pediu pra falar comigo. Fiz que não com a cabeça, falei que não queria, que era melhor não. O amigo bêbado insistiu.

__ Alô?

__ Oi.

__ Oi, Luísa. Como você tá?

__ Solteira.

Começa a música. Sobe o letreiro. Fim.

domingo, 23 de setembro de 2012

A estante



“Os prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos aborrecerem” me sopra o filósofo Epicuro me ajudando nessa empreitada, após longa jornada de irresponsabilidade textual, de escrever ao blog.
Passemos então a imaginar nossas vidas como uma grande sala branca, rodeada por estantes que ocupam todo o pé direito do espaço da nossa alma. Coloridas, vagas disformes ao estilo Escher em que são ocupadas por qualidades e defeitos de diversos formatos.
“Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado, quem diz que me entende nunca quis saber” disse Renato Russo ao ficar inconformado com as críticas recebidas diante de sua estante escura, com a pintura manchada pelo tempo e falta de cuidados.
Mas é possível um retoque, diríamos ao mestre do rock que tanto nos compreendeu em forma de letras e cifras. Diríamos ainda que é possível remontar a estante para uma nova análise. Uma mensagem de esperança grudada sobre a mancha, Renato, é tudo o que precisamos!
"Reconhece a queda e não desanima" lembra-nos o próprio Vanzolini no seu samba-aula-canção de vida, nos mostrando que nessa passagem pela vida, são vários os cavalos de Tróia que nos são oferecidos e que a queda é a certeza pelo qual devemos estar sempre preparados.
 “Há males na vida que vem para o bem” nos diz Jorge Aragão, aconselhando- nos a tirar o pó dos livros e Cd’s, nessa estante em construção, deixando-a mais alegre, mas feliz e com um bom espaço para novos postais e cartas de amor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Cena 03


Leia antes: cena 01 e cena 02

Essa coisa toda de trilha sonora acabou surtindo efeito, mesmo que independente da minha vontade. Dois anos se passaram e nunca mais ouvimos falar do ex-noivo que a abandonou no altar, e se o universo não viesse em meu auxílio eu mesmo tratava de criar uma possibilidade de trilha sonora pra ela. Dava trabalho, às vezes, mas eu sempre conseguia arrancar o sorriso que me transformava em refém. Era feliz com ela. Os dias eram bons. Às vezes ruins, brigávamos muito no estádio, o que me fazia amá-la ainda mais. No escritório também tudo corria da melhor maneira possível, tanto que achava que em breve chegaria um convite pra uma sociedade. Fazia sentido: eu era competente e fazia a filha do chefe feliz.

Até que veio São Paulo.

Foi um pedido especial do pai dela, e eu não podia negar. Mas ao mesmo tempo não queria deixá-la – fazia pouco tempo que morávamos juntos e eu me sentia miseravelmente feliz por acordar e ter aquela mulher na minha cama. Mas era trabalho. Um trabalho a pedido do chefe. Era a minha sociedade acenando, do carro, me perguntando se eu não ia entrar. Entrei.

Os primeiros seis meses foram tranquilos: nos víamos todo final de semana. Quase sempre ela vinha, e eu transformava o aeroporto numa cena clichê de filme de romance só pra ela. E ela adorava, e dizia aos meus amigos paulistanos que era minha musa. E era. Nunca fui um cara de relacionamentos longos, e de repente percebi que queria ficar com ela o resto da vida.

Percebi que queria me casar. Era isso. Na igreja, com a pompa devida, ela no altar me esperando.

Um dia, andando na rua, parei pra olhar a vitrine de uma joalheria e vi o anel. E sabia que ficaria perfeito nela. E sabia que ela adoraria. E comprei. Mas ela não veio nesse fim de semana – ligou na sexta pela manhã dizendo que tinha uma reunião de última hora no escritório e não poderia ir. No final de semana seguinte ela também não pôde ir. E no outro, e no outro, e assim se passaram dois meses sem que a gente se visse. Pensando hoje, nem lembro mais quais eram os motivos da ausência, mas eram coisas tolas a maior parte das vezes. Passíveis de serem contornadas. Me ressenti pela falta de esforço dela, e obviamente responsabilizei minha própria ausência. Então conversei com o chefe e ele me deixou voltar.

Ela não foi me buscar no aeroporto, e quando cheguei em casa ela não estava. Tinha um bilhete dizendo que estava com o pai e não demorava. Ótimo, pensei. Dá tempo de comprar umas flores e velas e sei lá mais o quê pra fazer o pedido. Daí percebi que, muito embora fosse bom na parte da trilha sonora, essas coisas de pedido de casamento eu não sabia como funcionavam. Fiquei horas pesquisando na internet, até que ela chegou. De imediato, senti que havia algo de diferente nela. Me deu um peso no estômago, e na hora eu não soube precisar o porquê. Só senti.

__ Você tá tão diferente – eu disse, depois de um beijo.
__ Impressão sua. É que faz tempo que a gente não se vê.

Mas a sensação permaneceu. E nos dias seguintes, se intensificou. Ela havia mudado. E havia uma gravidade nela, um peso, algo que ela não costumava carregar.

__ Já sei o que aconteceu com você?
__ Como assim?

Ela pareceu alarmada.

__ Seu perfume. Você mudou o perfume.
__ Ah. É verdade.
__ É o perfume que você usava naquele dia que eu te conheci.
__ Deus, você lembra disso?
__ Lembro. Apesar do cheiro da cachaça ter sido bem marcante também.
__ Hum.

Esses “hum” também eram coisa nova. Lembram da gravidade a que me referi? Juntem com ausência e silêncios.

__ Por que você voltou a usar esse perfume?
__ Não sei. Acho que enjoei do outro.
__ Eu preferia o outro. O que eu comprei pra você.
__ Pois é. Eu também gostava muito dele. Mas fiquei com saudade desse aqui.
__ Hum.

Ela sorriu, pela primeira vez em dias. Mas veio diferente, e me feriu.

__ Posso perguntar o que há de errado?
__ Nada. Por quê?
__ Você está diferente. Disse isso assim que te vi e tenho razão. Cadê minha mulher?
__ Besteira, Filipe. São coisas do trabalho.
__ Bom, trabalhamos juntos. Você pode me dizer.

Ela parou com as anotações que fazia e me jogou aquele olhar escrutinador, o mesmo da primeira cena.

__ Amor, meu pai acha que é melhor você procurar outro escritório.
__ O QUÊ?
__ É. É por isso que eu estou assim. Ele me pediu pra dizer isso, mas eu não sabia como.
__ Ele...ele ao menos disse o porquê?
__ Bom...ele acha que não pega bem, visto que temos um relacionamento. Os outros arquitetos reclamam de privilégios e tal. Você pegou a maior conta da empresa.
__ A de São Paulo? A que eu não quis?
__ Amor...
__ Olha...essa eu não vi chegar. Mesmo. Pelo contrário, achei que seu pai me ofereceria sociedade depois de São Paulo.
__ Ai, Filipe. Sei nem o que dizer.
__ Nada. Não precisa dizer nada.

Saí pra beber e voltei já com a madrugada dentro. Ela não estava em casa. Novamente, um bilhete dizendo que tinha ido dormir na casa do pai. Celular desligado.

Enterramos o assunto pelos dias seguintes, e eu decidi propor casamento logo de uma vez, visto que agora nem o trabalho seria problema. Comprei flores (margaridas, as preferidas dela, que odiava rosas) pra casa. Pensei em mandar pro escritório mas ela ia achar brega. Comprei velas mas não acendi nenhuma, pois me passou a impressão de funeral. Só fiquei sentado no sofá esperando ela chegar do trabalho, o anel no bolso esquerdo e a mão pingando suor frio.

Ela chegou com ar cansado e aparência de quem tinha chorado. Eu a abracei e ela chorou ainda mais. Perguntei o que havia e ela voltou a dizer que nada. Pedi a ela que tomasse um banho quente pra relaxar, que depois eu precisaria conversar com ela. O banho durou, sei lá, 326 horas. E ela não saiu relaxada, pelo contrário. Os olhos estavam ainda mais inchados e vermelhos.

__ Filipe, tenho que te dizer uma coisa.
__ Eu também.
__ Por favor, me deixa falar primeiro.

Ela se sentou ao meu lado e segurou minha mão.

__ Por favor não me odeie.
__ O que houve?
__ Ah...por onde eu começo? Filipe, eu sou horrível.
__ Por favor não diga isso. O que aconteceu?
__ Lembra meu ex-noivo?

Imediatamente soltei a mão dela. Em um microssegundo tudo, absolutamente tudo fez sentido.

Ela voltou a chorar e contou que esteve com ele todos os dias nos últimos três meses. Que não sabia como tinha acontecido, mas tinha acontecido e era o que ela queria pra ela. Que foi covarde em não me dizer, que não devia ter se afastado, mas não soube o que fazer. Que eu era uma pessoa muito boa e tinha sido um grande amigo pra ela, mas ele era o amor de sua vida e ela tinha certeza disso. Que pediu ao pai que me afastasse da empresa porque não conseguiria trabalhar comigo depois do que me fez. Falou mais um milhão de coisas que eu simplesmente não ouvi, porque cada palavra me matava um pouco. Só não pediu perdão, nem uma única vez. Minha mão já tinha parado de suar, mas tremia. Ela pedia pra eu olhar pra ela, e eu não conseguia. Tirei a mão do bolso, o porta-jóia molhado de suor.

__ Eu ia te pedir em casamento.

A música começou, como eu tinha programado, e eu não podia suportar. Me levantei e bati a porta atrás de mim. Parei por um segundo no corredor, a respiração suspensa. Pra nada. Ela nunca veio me chamar.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Tanto


Quero todo dia
Sua companhia
Ter a sua voz
Ao pé do ouvido
Ter o seu olhar dentro do meu
Esse amor constante vivido
Por você e eu.
Te amo tanto é o que vou dizer
Com os seus dedos entre os meus
Quero acordar e dormir vendo você
E nunca mais ter que dizer adeus.


Thaís Carvalho

Férias de nós


Nada nesse mundo me dá tanto trabalho quanto controlar borboletas destrambelhadas no estômago. Especialmente as nascidas por tua causa, com esse quê de mutantes, sanguessugas, chupa-cabras. Desse modo, só por isso, pelo cansaço de ter de andar na contramão para te acompanhar, correndo riscos demasiados, resolvi tirar férias tranquilas de nós. Devo confessar que também é árduo o trabalho de me conter para não te fazer provar do próprio destempero. Para não me igualar a ti, como se eu pudesse tirar férias de mim, resolvi tirar férias de nós. Mas, tão fatalmente obvio, aonde eu vou, estou. Aonde eu vou, estamos. E, em se tratando de saudade, quando os olhos não veem é que o coração sente. Agora preciso te dizer que não há borboleta no estômago, mutante ou sanguessuga, que resista a azia causada por tua constante acidez. Eu sei, parece mais acertado chutar o balde antes que ele fique cheio demais. Passamos da conta, tudo bem. Quando você passou a dizer "Madalena, quando o stresse é maior que o prazer, não vale a pena" eu percebi que sempre fomos, um para o outro, como aquele sapato lindo que no pé nunca coube, e mesmo fazendo tanto calo a gente resiste em desapegar. Então decidi, pra desanuviar as ideias, que pelo trabalho exacerbado de se manter vivo o que nunca nasceu, precisamos de férias eternas. Férias das brigas. Das reconciliações. Do que somos. Das lamentações pelo que não somos. Das borboletas mutantes. De nós.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Cena 02

Essa série de textos se baseia em sonhos que tive, que acabei condensando numa historinha de amor. A primeira parte você encontra aqui.


Dias depois recebi a ligação do escritório dela marcando uma nova reunião. Obviamente achei que tinha algo estranho, pois a primeira reunião tinha sido marcada por ela, pessoalmente, e fora do escritório. Talvez ela não estivesse à vontade, e provavelmente eu não ficaria também, se assim o fosse. Mas eu precisava do contrato. E tinha pensado nela somente uma vez por dia desde então. Valia a pena tentar.

A reunião foi numa quarta à tarde, e tinha umas quatrocentos e cinquenta pessoas na sala. Não, éramos só nós dois e a secretária, e o pai dela numa videoconferência. Obviamente achei que ela estava evitando ficar a sós comigo, e me fechei em copas. Talvez não quisesse que ela soubesse que pensara nela, ou que o incômodo dela me incomodava. Assim permaneci até o fim da reunião, quando ela me convidou pra um cigarro.

__ Te achei bastante...misterioso hoje.

__ Misterioso? Hahaha...não, estava apenas concentrado.

__ Hum. E como vai tudo?

__ Bem tranquilo. É...como eu me saí? Será que consigo o contrato?

__ Ah, sim. Imagino que sim, deu tudo certo lá dentro. Meu pai pareceu gostar de você. Amanhã a Susi te liga pra dar a resposta.

__ Hum, ok.

__ É...sobre o outro dia...

__ Não, não precisa. Não vamos falar disso não.

__ Mexeu comigo, sabe?

Olhei pra ela surpreso e quase engasguei com a fumaça do cigarro. Eu conseguia ser bem ridículo às vezes.

__ E?

Ela ficou em silêncio por um instante, depois me olhou com um meio sorriso.

__ E eu liguei pro meu noivo no dia seguinte. Sem lágrimas, sem álcool, sabe?

__ E?

__ Daí nos encontramos à noite. Conversamos bastante, foi tudo muito esclarecedor.

__ E?

__ Eu realmente quero tentar isso, sabe? Fazer dar certo com ele.

__ Ah. Ok.

Tentei me concentrar no cigarro pra não demonstrar minha clara decepção com o rumo que a conversa tomara. Ela voltou ao silêncio, olhando pro sol.

__ Bom, eu preciso ir. Posso esperar a ligação da sua secretária pra amanhã?

__ Pode sim, Filipe. Depois nos falamos. Tomar uma cerveja, sei lá.

__ Claro, claro. Até mais.


No dia seguinte a secretária ligou, e de fato o contrato era meu. Pouco depois ela mesma me ligou.

__ Viu? Eu disse que você ia conseguir. Meu pai gostou bastante do seu portfólio.

__ Que bom. Depois que eu saí do escritório tive muita dificuldade pra conseguir novos clientes. Tava até considerando dar aula. Mas é meio frustrante.

__ Não, vai ser ótimo. A Susi te mandou por e-mail alguns documentos, preciso que você dê uma olhada e responda, tá? E se puder mandar algum rascunho pra segunda-feira também...

__ Segunda? É...sabe o que é? Eu sei que acabamos de fechar um contrato e tal, e você agora é minha cliente, mas é que esse final de semana tô de viagem marcada pro Rio. Vou ver a final do campeonato carioca. Tem como adiar esse prazo pra mim até, sei lá, quarta da semana que vem?

__ Final do carioca, é? E você torce pra qual time?

__ Botafogo. Mas não é culpa minha, sabe?

__ Hahahahaha, tudo bem. Você deve ser o único botafoguense com menos de cem anos no mundo. Tá com o ingresso pro jogo comprado já?

__ Sim. É meio que um ritual.

__ Ah, é?

__ Meu pai era botafoguense também. Ele morreu ano passado. Nós nunca nos damos muito bem, mas os domingos eram ótimos. A gente sempre ia junto pro estádio. Ali podíamos ser só pai e filho.

__ Ah...nossa, nem sei o que dizer.

__ Na verdade eu tô brincando. Meu pai tá vivo e torce pro Flamengo. E nos damos muito bem, apesar disso.

__ Nossa, que engraçado. Tudo isso só pra me convencer a te liberar no final de semana?

__ Pois é...peguei pesado, né?

__ Não, tá ok. Acho até que a gente podia se encontrar lá. Eu chego no Rio domingo de manhã.

__ Vai a trabalho?

__ Não, vou ver o Flamengo ser campeão em cima do seu timinho.

__ Claro que você tinha que ser flamenguista.

__ Enfim, só não comprei o ingresso ainda. Me manda o setor que você comprou pra eu comprar perto.

__ Hum...ok.

Fiz um suspense, mas acabei perguntando.

__ Seu noivo vai também?

__ Ah, não. Não, ele não suporta futebol.

__ Ah. Eu chego no Rio na sexta, posso comprar seu ingresso se você quiser.

__ Ok.

__ Por isso perguntei se seu noivo ia, pra saber se seriam dois ingressos.

__ Ah. Entendi.

__ Enfim. Eu preciso desligar, quando chegar me avisa. Vai ficar em hotel?

__ Não, meu pai tem apartamento lá. Eu te ligo. Beijo.

“Seu noivo vai também?” foi, certamente, a pergunta mais estúpida que já fiz na vida.

No domingo ela me ligou cedo, bem cedo. Dez da manhã, pra mim, é bem cedo. Disse que como não podia beber no estádio a gente precisava encher a cara antes, eu mais do que ela tendo em vista que meu time ia perder. Deus, que mulher fantástica. A gente se encontrou na praia, ela de bermuda jeans e camisa do Flamengo, absolutamente linda. Conversamos amenidades, o projeto de arquitetura, o histórico do jogo que veríamos mais tarde, como o sol tava bonito, como o Rio era bonito e ela tinha vontade de morar lá, todas essas besteiras que existem pra gente conversar quando não quer falar sobre o que realmente importa. Eu continuava me encantando, mesmo sabendo que depois de tudo ela voltaria para o noivo e eu continuaria sendo só o arquiteto responsável pelo novo projeto do escritório dela. Não sou do tipo que faz essas coisas, mas tava ali fazendo, e nem sei bem porquê.

O jogo - não vou entrar em detalhes a respeito do jogo em si, porque meu time perdeu – só serviu pra aumentar o estrago. Ela era apaixonada por futebol. E estava completamente bêbada. E ficou lá, com a camisa do Flamengo no meio da torcida rival, gritando, xingando o goleiro – que chegou a fazer um gesto obsceno pra ela – xingando a mãe do juiz e por aí. Era fantástica, absolutamente fantástica. Ao apito final do juiz ela me olhou com o maior sorriso do mundo e me abraçou.

__ Hoje tem festa na favela.

Eu sorri, e voltamos àquele momento anterior, em que ficamos abraçados, ela sorrindo e eu olhando pra ela, e o olhar dela me puxando. E eu sorri também. E ela parou de sorrir de repente, e abaixou a cabeça. Eu soltei o abraço.

__ Tudo bem aí?

__ Sim. Vamos indo? Tem um bar aqui pertinho que é ótimo, cerveja bem gelada e o melhor frango a passarinho do Rio de Janeiro.

__ Sabe, eu vou voltando pro hotel. Amanhã tenho muito trabalho a fazer, preciso descansar.

__ Vai ficar chorando sozinho no quarto só porque seu time perdeu?

Ela voltou a sorrir. E lá fui eu, no sorriso dela.

Saímos do bar era alta madrugada, e dessa vez eu estava tão bêbado quanto ela. Ela jurou que o bar ficava perto do apartamento onde ela estava hospedada e que dava pra ir andando. Falei pra ela que tinha medo de ser assaltado e ela falou que todos os marginais estavam comemorando o título, então não haveria perigo. A cidade ainda soltava fogos pelo jogo.

__ Admiro essa capacidade que você tem de rir de si mesma. Normalmente o pessoal se estressa quando a gente faz esse tipo de brincadeira a respeito da torcida.

__ Bom, posso até ser marginal, mas sou campeã. Né?

Outro sorriso. E eu afundando.

Andamos bastante, até chegarmos numa parquinho caindo aos pedaços. Me sentei no chão e ela no balanço.

__ Sobre o que aconteceu com a gente da outra vez...eu não fui totalmente sincera, sabe?

Tentei fingir que não me importava. Falhei, porque ela continuava lá sorrindo, senhora de mim.

__ Eu realmente liguei pro meu noivo. Nós realmente conversamos. Mas eu não sei se eu quero fazer isso.

__ Isso o quê?

__ Fazer dar certo com ele. Eu pelo menos não devia querer, né? Poxa, ele cancelou o casamento e disse que não queria mais saber de mim. Eu não devia estar atrás disso. Ou devia?

__ Vocês conversaram de novo?

__ Não...falei que ia ligar, mas não liguei. Ele me mandou um e-mail dizendo que ia pra fazenda no fim de semana, que eu podia ir pra gente conversar e ver como ficava, aí eu respondi que vinha pra cá ver o jogo e quando eu percebi a gente tava brigando por e-mail.

__ Hum.

__ Mas nem foi só por isso que eu vim pro Rio.

__ Não?

__ Não.

Um minuto eterno.

__ Meu pai pediu pra eu ficar de olho em você. Ele diz que você é um desses moderninhos metidos a mendigo por conta da barba.

O centésimo sorriso, o tiro de misericórdia. Eu sorri também. Ficamos em silêncio por muito tempo, até que ela se levantou impaciente.

__ Tô esperando a música. Toda vez que eu bebo com você e a gente para numa praça tem trilha sonora. Aí você me beija e eu me sinto uma diva do cinema.

Eu também me levantei, com toda a dificuldade do mundo pra não cair. Ficamos olhando ao redor, de fato procurando a música. E nada. Só o barulho distante dos fogos. Cansei de esperar e dei um passo à frente.

__ Bom, eu posso te beijar assim mesmo.

__ É, eu acho que pode.

E nos beijamos. E os fogos de artifício, aparentemente, ficaram mais próximos, e clareavam a praça, enquanto a gente se beijava. E ela me apertou forte contra ela, e os fogos ali pertinho. E a música começou. E ela me apertou mais forte ainda. Paramos de nos beijar e olhamos ao redor. Nada, só o clarão dos fogos. Ela sorriu e me abraçou. E falou no meu ouvido bem baixinho

__ Isso não é justo. Eu adoro essa música.

__ Peço desculpa pelo atraso. Faltou sincronizar.

__ Mas você ganha pontos extras pelos efeitos especiais.

Me puxou pela mão. Olhei pra ela ainda parado, perguntando pra onde a gente ia.

__ Vem. Vamos nos perder por aí.