terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma verdade






o amor
ALTERA
todos os discursos



ponto. 





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cena 01

Quando a vi pela primeira vez ela caminhava a passos largos de bêbado, numa ruazinha esquecida do Centro, a noite já dentro. Cigarro aceso, garrafa na mão e um riso aberto. Ela olhava pra cima, pro alto dos prédios, procurando sabe deus o quê.

Fui ao seu encontro sem saber como proceder: nos falamos algumas vezes por telefone e e-mail, e sempre no tom profissional do trabalho. Não tinha idéia de como ela se permitira vir bêbada ao meu encontro. Mas fui ter com ela. Chamei-a pelo nome, ela me olhou surpresa.

__ Você quem é?
__ Filipe. Nos falamos hoje cedo por telefone.
__ OOOOOOIII, Filipe. Vai me desculpar. Acabei de ser deixada no altar.
__ Como?
__ Não que eu estivesse no altar dez minutos atrás. Não, mas tava quase lá. Filipe, ia me casar mês que vem. Daí meu noivo achou legal terminar comigo. E ainda me pediu a aliança de volta, vê só, pra empenhar.

E aí eu fazia o quê? Não sabia nem que ela era noiva. Como consolar alguém que não conheço? Era péssimo com essas coisas.

__ Daí, Filipe, daí resolvi beber. Nunca fui muito de beber, mas essa situação merecia um porre, não acha?

Ela passou por mim ainda rindo, o álcool misturado com o perfume dela, e eu fiquei...engraçado. Realmente não sabia o que fazer, então só fiquei ali parado, esperando pelo próximo movimento dela. Ela parou perto de mim, me jogou um olhar escrutinador e, por fim, estendeu a mão pra um cumprimento.

__ Oi, Filipe. Prazer te conhecer. Vai desculpando o mau jeito.

Eu meio que sorri, e fiz um aceno leve de cabeça. Ela devia me achar um idiota, pensei. E depois pensei no porquê de me preocupar com o que ela achava de mim. Mas me preocupei. E não quis parecer idiota. E falhei. O cumprimento não terminou, ela não soltou minha mão, por isso falhei.

__ Filipe, a gente pode deixar nossa reunião de trabalho prum outro dia? Hoje eu quero...
__ O quê?
__ Quero rodar. Vem, vamos rodar.

Descemos de mãos dadas pelas vielas do Centro. Ela ia num passo apressado e eu atrás tentando acompanhar mas sem parecer muito afoito. No passo apressado ela ia me narrando sua tragédia pessoal, de maneira não muito linear, e misturava o sorriso com lágrimas vez em quando. Daí ela parava, sem mais nem menos, se encostava no muro e fazia que não com a cabeça.

__ Posso te levar pra algum lugar?
__ Precisamos de mais bebida antes disso, Filipe. Não sei pra onde você quer me levar, mas sei que lá não tem bebida. E sem bebida não tem negócio hoje, Filipe.
__ Eu entendo. Mas tem algum lugar que você queira que eu te leve?
__ Tem, Filipe. Pior que tem.

Ela me arrastou até a Igreja Matriz. É.

__ Filipe, eu ia casar aqui mês que vem. Agora não vou mais. Ó, tem nem aliança mais no dedo, só a marquinha do sol. Era linda a minha aliança, Filipe. Agora tá empenhada.

Ela fez cara de surpresa, depois guardou um breve silêncio. De cabeça baixa, me perguntou se eu podia ajudá-la a contar pro padre que o casamento tinha sido cancelado.

__ Mas nesse estado? Você acha prudente? Afinal, é um padre, não sei se ele vai gostar de te ver assim.
__ Quem liga? Você liga? Eu não ligo pro que o padreco aí acha: eu fui largada. Se tô bebendo a culpa não é minha, se não tivesse sido largada tava linda em casa pensando nos docinhos da minha festa. Uma hora tava pensando nos docinhos e de repente virei um pudim de cana. E eu não ligo, Filipe. E você parece ser um cara muito bacana, então hoje, por mim, você também não vai ligar.
__ Mas ó, já é noite. Não acha melhor voltar aqui amanhã? Venho com você se você quiser, sem problema algum.
__ E você pretende passar a noite comigo pra vir aqui amanhã? Porque ó, hoje não durmo. Não tem como dormir, Filipe, ou tem? Como eu vou deitar a cabeça no travesseiro sem lembrar daquele desgraçado que me largou com o casamento todo pago? Porque, Filipe, eu não sei se eu te falei, mas tava tudo pago. Meu pai pagou tudo, coitado, até a lua-de-mel pra Fernando de Noronha ele pagou. Meu Deus do céu, Filipe, tenho nem como pagar pro meu pai essas coisas aí. Será que posso cobrar dele?
__ Escuta, vamos deixar a conversa com o padre pra amanhã. Deve ter outra coisa que você queira fazer agora.

Ela fez que sim com a cabeça e voltou a me arrastar pela cidade. Paramos em frente à loja de penhores. Claro. Estava fechada, mas ela não se deu por vencida. Bateu, bateu, bateu. O dono veio ter com ela meio indignado, mas ela chorou litros e ele enfim abriu a porta. Ela me pediu pra aguardar do lado de fora e entrou sozinha. Cinco minutos depois, veio ter comigo.

__ Você tem quinhentos reais aí? O infeliz empenhou minha aliança por essa mixaria. Não dá pra acreditar que eu ia casar com esse cara.
__ Tenho não.
__ Você pode ir no banco sacar?
__ Também não tenho no banco não.

Nem se tivesse, ela resmungou. Voltou pra loja e saiu um minutinho depois, brava, bem brava. O dono não quis devolver a aliança sem receber o valor do empenho. Não adiantou nem contar sua tragédia pessoal.

Seguimos andando pela cidade, parando ocasionalmente pra comprar bebida. Ela entornava vorazmente uma garrafa de pinga, da branca, a pior. Eu bebia uma cervejinha. Conversamos um pouco sobre ela, as coisas que ela fazia, as coisas que ela gostava, e a cada minuto eu gostava mais dela. E não conseguia vislumbrar um motivo sequer pra uma mulher como ela ser deixada. Tentei verbalizar isso, certamente a faria se sentir melhor, mas preferi não falar nada.

Já devia passar da meia-noite, já havíamos andado por horas. Paramos na praça, eu me sentei, ela ficou em pé, falando sozinha. Do nada a música começou a tocar. Era uma música antiga, me lembro de ouvir quando criança, meu pai escutava muito em vinil. Começou a tocar mas nem eu nem ela pudemos precisar de onde vinha: não havia uma luz acesa em nenhum prédio, nem carro passando, nada. E a música vinha alta e clara, tão perto da gente, e ao mesmo tempo de lugar nenhum. Ela parou, encantada. Sorriu, encantada. Eu olhei pra ela, encantado.

__ Parece que temos trilha sonora, Filipe.

Ela rodou, e rodou, e rodou. E aí parou e me encarou, as lágrimas escorrendo fartas. Eu a puxei pra perto e a beijei. Ela não resistiu. Nos beijamos longamente, e a música não terminava, e ela amoleceu no meu braço. Findo o beijo ela voltou a me olhar, e me puxava com o olhar pra ela. A música continuava, e eu a olhei por longos minutos, uma eternidade. Sorri. Ela sorriu também.

__ Me senti num filme, Filipe. Isso não é coisa que se faça.

 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mendigos, poetas e seus amores


Porque a gente se apaixona pela vida, pela pessoa... e pela cidade também

É no Viaduto do Santa Tereza que meus joelhos tremem. Aqui embaixo vão os mendigos, enquanto que os poetas passam lá em cima - embora haja casos de completa indistinção entre seres e caminhos. Me contaram, afinal, que era por onde Drummond e tantos outros caminhavam madrugada adentro, imersos em boemia e solidão. Lembro disso e apresso o passo como em poesia. É preciso estar atento ao que pode te tomar de assalto. Certa vez, alguém disse: “ela passa por aqui todos os dias”. Tremi. Morri. E suspeitei ser tempo de mudar o trajeto e, assim, a história quase inteira. Em cada esquina, há policiais distraídos e eles me parecem um tanto quanto vulgares.

Viaduto Santa Tereza – construído em 1929 – os mais inspirados e aventureiros escalam os arcos

Avistei um garoto que, como eu, levava cor nos cabelos e duvidava da vida: não sabia o que era falso, verso ou devaneio. “O que há de tão poético nessas Minas?” - Eu não cansava de me perguntar. Foi já na Estação Central do metrô que uma Sra. Gari, meio translúcida de cansaço, meio feliz de cachaça, avistou o trem (o trem de verdade), de longe, e disse: “Lá vem o bichão! Pode correr gente! Olha isso, de tão feio, é bonito!”.

Me despertou um sorriso convincente: essas são as Gerais, onde se é apaixonado pela simplicidade e leveza da vida, e a coincidência é um encontro com o cotidiano que facilmente vira verso. Eis o segredo da crônica. Mais de 20 milhões de pessoas por entre as mais de 800 cidades, seus queijos, cachaças, doces de goiaba, miniaturas em pedra-sabão, tantos nomes de santo e um histórico inteiro de romances indecifráveis.

Gameleira: onde Rio Branco nasceu; e meu destino é acordar

Por estas Minas Gerais se vai em silêncio tranquilo, por algo que preenche o peito; se volta por algo que sufoca e não cabe mais. BH, afinal, é dona da grandeza que atrai e amedronta sua vizinhança. Em alguns casos, gera conflito e inveja, só por conta de sua completude e autonomia - como num amor não correspondido. E só quando brinquei de poeta e rabisquei estas linhas, que me dei conta que meu destino diário é a Estação Gameleira, aquela de mesmo nome da árvore da curva do rio, d’onde Rio Branco nasceu, lá no Acre. Viu só?

Encontro e saúdo Paulo Mendes Campos, aquele cronista que diz que “o amor acaba”, e sou obrigada a concordar, porque ele também sabe que o amor recomeça, em qualquer esquina, diante de qualquer sorvete, espetáculo de dança, canção do Milton Nascimento ou ipê amarelo da Praça da Liberdade.

Praça da Liberdade: onde é justa toda forma de amor, bem como guerra de travesseiros, espetáculos de beijos, lágrimas civis e um jardim que perfuma longe

Mas o que eu queria, o que eu queria mesmo, era compreender estes olhares, ser poeta e ordenar algumas frases que expressassem bem o fato de que, naquele dia, embora houvesse sol, caqui e tempo, faltava alguém que deixasse as mãos firmes, ajudasse a ocupar o banco vazio e ouvisse o chamado (acreano) que diz: “cuida...”. E me dou conta da sensação de que tudo só pode ser somente quase perfeito.

Ítalo Calvino não é mineiro, mas talvez pudesse ser; foi ele quem ensinou, pois, que “de uma cidade, não aproveitamos suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. A cidade, penso eu, é o que cada um é como indivíduo, e se torna o que você está disposto a ser ou a questionar. Belo Horizonte foi uma ilha. Agora é constelação que compõe um Cruzeiro do Sul e me sinaliza: “avante!”.  


ps: fotos encontradas pela internet, sem autoria informada




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mórbido*


Depois de mais de uma hora esperando o ônibus, que só passava lotado, resolvi encarar a multidão enlatada e me juntar a aquele sacrifício. Na entrada um senhor meio cego pisa no meu pé e nem pede desculpas. Eu peço. O cartão de passe livre que nem sempre é fácil resolve se calar em seus códigos chipados e sou obrigado a tirar da carteira os últimos reais que guardava para um lanche rápido que faria ao invés de um prato de feijão com arroz e salada costumeiro. O dia já começava me dando pistas de que seria daqueles em que só não temos ataques de fúrias por saber que existem policiais muito mais violentos que qualquer surto. Melhor me espremer de algum jeito e, pelo menos, ouvir um rock no aparelhinho de mp3 escondido no fundo da mochila e que levo horas pra encontrar e, mesmo assim, a bateria acaba antes da primeira música. Pelo menos a paisagem do lago e da esplanada vai me tirar a atenção, mas as comemorações do aniversário da cidade faz aquelas paisagens ficarem turvas e sem graça. Tomara que a rodoviário chegue logo, pois este baú não parece que está indo pra lá. No aperto da saída o empurra me faz cambalear e derrubar a mochila onde, bem guardado e protegido, está o meu tablet novinho comprado em 24 prestações no cartão de crédito. Quebrou. Pensei logo dando uma forcinha a mais para o mau agouro que parecia ter me acordado e me seguido durante o inicio daquela manhã. Só um arranhão, mesmo com toda aquela proteção de plástico bolhas. Um cafezinho, certamente, me fará esquecer estas mazelas de cidade grande. E aquele cigarrinho depois, esquecendo claro da minha asma, para tentar escurecer os sentimentos tanto quanto ao pulmão. Porra de isqueiro que não funciona. Ela me chama pelo nome e eu nem sabia que ela sabia o meu nome. Queria também acender o cigarro. Porra de isqueiro que não funciona. Tento puxar uma conversa sobre estes pequenos importados que nos deixam na mão e ela simplesmente me diz que não tem problemas e vai embora. Mais na frente ela vira-se e me sorri, e me manda um beijinho de ponta de dedos. Pra quê isqueiro? Minhas esperanças acenderam e eu tenho a tímida sensação de que ganhei o dia. Mas ela vai embora sem mais e deixa aquela pequena chama ardendo. É o combustível que preciso pra passar mais um dia na solidão mórbida desta cidade.

*Texto de autoria de Silvio Margarido, diretamente de Brasília, publicado originalmente em seu blog, O Reino da Entonação.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Do fim ao começo


Era uma vez... Assim como eram todas as vezes. Madrugada, você deitada na cama encarando o relógio no criado mudo. Eu chutava a porta, depois de tentar, sem sucesso, meter a chave no buraco da fechadura. “Calma, cacete. Já vou abrir”, lá vinha você, bodejando sei lá mais o quê, que de tão bêbado nunca lembrei.

Todas as vezes que eu me via preferir a mesa de bar a tua companhia, lembrava de quando largara meu mundo pelas tuas vontades. Tu querias sair do sítio. E lá fomos nós, jurando amor eterno, prometendo estudar, trabalhar, ter filhos, casar. Não necessariamente nessa ordem.

Nossos planos de amores feitos ao lado dos pés de amora, em cima dos jambeiros e ingazeiros, aos poucos se desfaziam no segundo andar do nosso prédio, onde as paredes me sufocavam. A rotina também. A cidade te tirou aquele ar de menina do campo, Soraia. Flores no cabelo, cara limpa, vestimentas singelas... Teus cachos, que eu tanto amava, você esticou. Tuas unhas agora combinavam com a boca vermelha. Até teu cheiro deixou de ser teu (e meu). 

Depois de meses de bebedeira continua pra fugir de nós, você já tinha aprendido. Com gente bêbada não se discute. E me deixava soltar os cachorros, despejar as cobras, os lagartos, enquanto você engolia os sapos, rãs e cururus. Engolia com maestria. Até um dia vomita-los todos na minha cara, enquanto dizia que engolir era fácil, difícil era digerir. E me mandou ir embora, sem saber que eu já planejava ir. Mas essa parte só veio agora porque eu comecei pelo final.

Até porque, diz o clichê, no começo tudo são flores. E nós éramos orquídeas crescendo sobre as árvores, em busca de sol. E brincávamos de esconde-esconde, corríamos pelo sítio, pulávamos pelados no açude, ríamos das piabas taradas mordiscando nossas coisas. Coisas estas, que descobrimos juntos.

A cerca que separava nossas terras tinha uma pequena falha. A falha mais certa de nossas vidas. Os dois faltosos pedaços de madeira que me permitiram adentrar teus lados em busca de uma pipa qualquer. Enquanto você, arengueira, ameaçava não devolver. “Eu que aparei, ela é minha”, gritava. E eu te mandei ir atrás das tuas bonecas, costurar roupinhas e me deixar em paz, com minhas coisas de menino.

Você dava de ombros. Dava língua. Mostrava o dedo do meio. Tinhosa, como sempre foi, batia o pé no chão e dizia não. E eu te odiei. Odiei por ter me feito, a partir dali, esquecer a pipa e as demais coisas de menino. Mas antes, corri atrás de ti, até cairmos no chão, nos atracando numa briga digna de filhotes de cães. A pipa já não tinha mais papel de seda, teus cachos enfeitados com folhas secas e você, ofegante, pedia trégua.

Deitamos lado a lado no chão. Tomamos minutos de fôlego em silêncio, até você quebra-lo com um riso baixo, que foi aumentando e aumentando devagar até se transformar na melhor das gargalhadas já registradas por minha memória auditiva. “Ta rindo de quê, em, menina velha?”. “To rindo da tua pipa, que ta só o bagaço. Nem tu nem eu vamos poder brincar”.

Eu lembro, Soraia. Eu lembro que foi assim. Lembro até do teu primeiro abraço demorado, quando terminei de consertar a escada da tua casa na árvore. Três degraus soltos, doze pregos, um martelo, um erro a cada cinco marteladas e um beijo no meu rosto a cada dedo machucado, pra aliviar a dor. Lembro que foi ali, naquela casa, que descobri teu corpo, o cheiro da tua nuca, teus beijos, tuas primeiras taras.

Foi assim.  Te escrevo em resposta aquela carta sem cabimento pra te dizer que não. É claro que eu não esqueci. Te contei de rabo a cabo, de trás pra frente como nossa história se deu porque, ao relembrar, eu sempre preferi terminar pelo início e começar pelo fim.

Beijos.

Jairo

pequeno grande monstro





- Precisei entorpecer minha saudade pra sobreviver os dias sem a tua presença. Precisei me convencer que a sua falta não era tão importante. Que não me custava a ausência dos teus beijos ou do toque da sua mão. Foi necessário repetir infinitamente que podia viver sem lembrar o teu cheiro. Mas mentia como nunca pensei que seria possível, ate para mim, que sou especialista em inventar mentiras internas para acalmar a minha alma. Eu me importava. A tua falta me matava. Todos os dias, lentamente. E agora que vou lhe ver, que o tempo decidiu ser nosso aliado e fazer os dias nos calendários ate o nosso encontro diminuírem, o pequeno monstro da saudade acordou. E se alimenta de tudo que lembre você. O problema, Moreno, é que tudo faz referência a você.
- Dizem que pessoas apaixonadas encontram o amor ate em uma folha de árvore caída  no chão, talvez seja esse o seu problema Pequena.
- O meu problema é que aqui não me faltam árvores. Quem mandou morar bem no meio da Amazônia?  Só sei que eu te quero Moreno. E sinceramente não me importa que o tempo seja nosso inimigo, e que nossos dias estejam contados. Aproveito cada hora. Todas as 72.  O pequeno monstro que existe aqui dentro já acordou, e eu preciso alimenta-lo um pouco pra que ele possa voltar a hibernar. O problema  é que ele sempre deixa uma bagunça depois que vai dormir. E no final do dia, tenho que ficar juntando os meus cacos pelo chão. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

No meio de tanta gente chata, eu encontrei você

Parece música da Marisa Monte, mas é a nossa história. Foi no meio daquela multidão que eu te vi. Estava com aquela blusa verde que nunca mais você usou e beijava um amigo meu. Fingi que não tinha percebido e te puxei pelo braço, tirando você da roda de amigos em que se encontrava e roubei um beijo enquanto as pessoas pulavam a nossa volta. Você ficou assustada e por um minuto pensei que fosse me dar um tapa na cara, e acho que cogitou isso, mas no final retribuiu. Retribuiu com gosto. No fundo musical nada de sinos, tocava um daqueles axés chatos de carnaval. Eu perguntei seu nome, mas não consegui entender direito. Era Carolina ou Carminha? E quando vi, você já tinha sumido no meio da multidão. Virei as costas, achando que nunca mais iria te ver. Quem diria que dois anos depois, estaríamos deitados nessa varanda construindo nossa vida juntos. Bem assim, lado a lado. Mas essa já é outra música.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os homens que não tinham medo de amar as mulheres




Fiz um trocadalho do carilho (crédito da expressão ao mestre amigo Marcos Vinicius) com o nome do filme “Os homens que não amavam as mulheres” do grande David Fincher.

Rapaz, mas vocês são muito bestas mesmo. Esperto é o meu amigo André, que mal se achamegou com a sua digníssima e já saiu distribuindo, para quem quisesse e para quem não tivesse nem aí, a alegria de ter encontrado a sua metade da maçã. Bem aventurado o cabra, pois não tem vergonha de mandar essa ditadura dos relacionamentos pedra de gelo pro escambal.

Culpa dessas Marie Clarie, VIP, Alpha, Cláudia e o – me perdoem a agressividade – carajo a quatro de revistas que se atrevem a ensinar pros ingênuos como se portar com o cônjuge.

Que fuleiragem!

Mania sem cabimento de dizer que demonstrar afeto é coisa dos fracos. Olhe, tô pra ver sujeito mais valente que meu comparsa de confraria Ulisses. O bicho não quis nem saber e tascou uma homenagem para sua Clara aqui no blog. Queria ser assim, ó.

Admito que não me jogo tanto quanto os chegados que citei aqui. Não é falta de vontade, mas uma questão de jeito mesmo. Pero, bato palmas. São meus heróis.

Um bom namorado deve ser cachorro. Deve aderir aos apelidos carinhosos. Precisa fazer um cafuné 0800. Carece cantar a companheira de dias, meses, anos ou encarnações.

Não custa ressaltar a saudade que sente. Macho sente falta da mulher sim. Vai sentir do quê?

Escrevo para alertar dos perigos escondidos por trás da imagem do cidadão inabalável. Não confie num homem que não se proporciona momentos de dores cotovelais após um pontapé da parceira. Esse hombre é doido ou imbecil.

Sou explosivo no carinho e no carão. Já chorei e já pedi perdão. Me declaro e tento ser original no agrado. Digo que amo e amo do vera. Insisto pra voltar e confesso saudade. Se usted não tem peito pra isso, amigo, estás lascado. Só um sujeito cafajeste é capaz de ser cachorro pra sua mulher sem timidez alguma.

A minha arenga é pelo respeito que devemos aos que se admitem cachorros. Não precisa ser bonachão, daqueles que perturbam a paz da moça. Mas não custa nada fazer uns bons cariños, daqueles que só faz quem ama.

Feliz mesmo era o Sinhorzinho Malta com sua Porcina e mais ninguém!

domingo, 15 de abril de 2012

Assinado eu

Às vezes, em alguns contextos, situações e cenários não conseguimos transcrever, traduzir ou achar o tom para diluir o que há por dentro. Mas aí, vem o artista e essa coisa toda que chamam arte, música e poesia, e torna tudo mais leve e delicado, encurta caminho e, de quebra, adiciona trilha e ritmo. Divido cá com vocês um clipe que, embora sem muito auê, está repleto de sentidos e permite viajar um pouquinho sobre essa coisa que chamam sentimento. Pode até não parecer, mas este post é, sobretudo, uma breve declaração de amor à arte que se dedica, exatamente, a isto.

Com vocês: Assinado eu - Tiê 



sábado, 10 de março de 2012

O elogio do tarado



Toda mulher quer, precisa e merece uma boa dose de taradice 0800 do seu compañero. É o olhar canalha que se dá ao desabotoar o sutiã com destreza, é a imoralidade dita no pé d’ouvido, é a mordiscada dadas nos bicos e juntas da fêmea, é o vap-vap sem pudor. Não fazemos mais que nosso dever cívico/cínico.

Sim, falo de cinismo ao se convidar para um sorvete geladíssimo com as intenções de, no final, convencer a querida a esquentar la vida y corazón. Toda dama – não, como diria Nelson Rodrigues, ‘só as normais’ – almeja roçadas na nuca, beijos com olhos fechados, dentadas egoístas, mãos hermeticamente encaixadas nos quadris.

O cabra macho joxó valoriza o gosto que lambuza a boca e infesta as narinas. Não tem a frescura do ‘isso aqui é ruim’. Pena dá daquelas donzelas que não assumem sua predileção pela sem-vergonhice a quatro paredes. Das pervertidas enrustidas. Daquelas que travam com pensamos do tipo ‘onde ele aprendeu isso?’.

Por outro lado, de nada adianta o brucutu cuspir macheza no boteco da esquina e se borrar nas calças se a mulher aparece com algum aparato sexyshopiano no momento do coito. Propaganda falsa. Procon no patife, minha senhora!

Sou tarado, sou canalha, tenho cara de safado e sou bom nisso. Tenho minha mulher ideal e sigo as indicações do mestre Chico Buarque sobre a profana: “Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega. Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca”. Valeu pela dica, Jorge Maravilha.

terça-feira, 6 de março de 2012

Carta aberta a Ovídio


Ressuscitem imediatamente Públio Ovídio Naso, escritor romano que viveu entre a segunda metade do I século a.C e do século I d.C, para que complete sua obra inacabada.

Em “A Arte de Amar”, Naso compra a briga com o cupido e jura que pode derrotar o efeito desastroso do amor. “Venham às minhas aulas, jovens enganados a quem o amor só trouxe decepções. O mesmo que vos ensinou a amar vos ensinará como vos curardes” promete o político das causas impossíveis há 2012 anos.

Diria ao poeta-curandeiro que, mesmo diante de tantas dicas valiosas, foi incompetente diante do principal mal da separação: o domingo. Provavelmente naquele tempo não existiam Faustões e outras drogas depressivas, mas esquecer do principal efeito colateral do pós-romance é imperdoável.

Mas onde quer que esteja Nasão, nesse momento, digo-vos em verdade: Ovídio, quando disseste “Elimina a ociosidade: é ela que impele as setas de Cupido” não tinha a real noção do que é um domingo na vida dos amantes. É justamente da ociosidade compartilhada que os amantes sentem falta, Naso! Não adianta nos ocuparmos com trabalho, pois o corpo pedirá um almoço às 3h da tarde na churrascaria preferida ou tacacá do fim de tarde.

Poderá dizer que ao usar esse argumento deixei de lado o descanso sabático. Engana-se! A ociosidade do sábado é facilmente driblada pelo futebol e pela cerveja com os amigos, pelas religiosas faxinas ou as compras do mês. Ademais, o sábado não usa as algemas de ser um dia pré-segunda-feira, como é o caso do dramático domingo.

Pouco adianta “fazer longas viagens e fugir para muito longe” se, independente do lugar, os amantes precisam passar pelo sofrimento dominical e outros fantásticos shows da vida. Como pode Nasão, dizer que para se livrar do sofrimento, “O uso de feitiços é condenável” se temos um dia na semana tão cheio de ocultismo, como é o caso do Sunday e seus filmes com Charles Bronson no domingo maior.

Por fim, Ovídio, é muito fácil dizer que “A melhor maneira de ter de volta tua liberdade é romper as cadeias que ferem o coração” em uma segunda-feira com muito trabalho por fazer onde tudo volta ao normal, às mais tradicionais e previsíveis rotinas, ansiosas pelo próximo domingo temeroso, onde tudo se acaba para recomeçar.

Do homem na ilha

Me lembro perfeitamente de como vim parar aqui, apesar de tanta poeira que já vi passar, de tanta poeira a comer o melhor dos dias. Os barcos passam e não param mais. Certa feita um senhor veio me buscar e disse que eu devia ir, mas eu não queria. Preferia ficar aqui sozinho. Esse mesmo senhor quis saber o porquê. Eu disse que ia esperar ela voltar.
Conheci essa mulher e no mesmo dia me apaixonei. E logo depois de me apaixonar por ela, ela se apaixonou por mim e aconteceu de ficarmos juntos. Divina Providência. Ficamos juntos e éramos delirantemente felizes. Daí ela teve a ideia de vir pra cá, pra essa ilha, pra construir um mundo nosso, um mundo onde só a gente acontecesse de existir e só a gente daria conta da gente. Tinha um barco, me lembro sim que tinha um barco, uma pequena embarcação tosca de madeira, que ficava atracado na ilha pra quando a gente precisasse ir ao continente. Me lembro que a primeira vez que pisei na ilha me assustei porque não conseguia ver o continente. Me lembro que ela disse que era só questão de acostumar, que já que eu estava ali eu tinha que viver aquilo ali. Me lembro que disse a ela que abriria mão de toda uma vida pra ficar lá, se ela pudesse me garantir que ficaria lá comigo pra sempre. Me lembro que ela sorriu e disse que era pra sempre, que não tinha outro jeito de ser. Me lembro que quando chegamos ela mesma cuidou da casa, de todos os detalhes, e sempre ia ao continente pra buscar o que fosse preciso. E vivemos felizes aqui, por anos e anos. Até que um dia ela cansou, eu acho. Disse que queria voltar pra ilha. Daí eu disse a ela que não tinha como, que seríamos como estranhos lá fora porque já éramos tão um do outro que não havia a mínima possibilidade de ser de mais ninguém. Que ninguém mais lembraria de mim porque eu tinha deixado tudo pra trás sem nem avisar, que eu tinha simplesmente ido e não tinha como voltar. Me lembro que chorei pedindo pra ela não fazer pouco do meu gesto. Mas ela insistiu. Então combinamos que ela poderia passar uns dias no continente, pra matar a saudade do que quer que fosse, e depois voltaria sem remorso de ter deixado tudo aquilo pra trás. Quer dizer, era o que aconteceria comigo caso eu quisesse ir embora da ilha: ao botar os pés no continente, ia perceber que o meu lugar no mundo era o peito onde ela me abrigava nas noites de tormenta e não teria sentido em insistir nisso. Porque há anos eu tinha saído do continente sem olhar pra trás e não saberia reconhecê-lo, nem conseguiria encará-lo de frente. Eu acreditei nisso. E pedi pra ela lembrar disso quando lá estivesse, e pedi pra ela lembrar de quantas noites pedi pra voltar e ela me abraçava e dizia “não tem necessidade de voltar porque é aqui nosso lugar, é aqui que somos de verdade e é aqui que vamos ficar pra sempre”. Ela prometeu que ia lembrar. E entrou no barco e partiu. Foi pro continente e dias após voltou, e pareceu mais disposta, e pareceu verdadeiramente feliz em estar ali pra sempre. E eu agradeci por ela não ter me deixado ir quando eu quis, porque senão eu findaria sem ela e sem luz pros meus dias. Mas eu a via chorar à noite, e não sabia que a saudade do continente tinha apertado tanto. Fiquei triste por ela, e claro que a única solução seria queimar o barco. Se voltar ao continente tinha feito mal a ela, não voltaríamos nunca mais. Queimei o barco. Tinha ouvido isso numa canção e achei extremamente poético. Então queimei o barco. Ela chorou dias e dias seguidos, disse que queria a vida dela de volta. E eu só conseguia dizer “fiz isso por você”. Ela não ouvia, ela se olhava no espelho e dizia que não se reconhecia, ela me olhava e dizia que não me amava mais. Que eu a sufocava naquela ilha. Que era egoísmo meu ter queimado o barco. Eu chorava e repetia “fiz isso por você, fiz isso por nós, porque eu acreditava na gente”. Ela não ouvia. E não me abraçava mais, e quando me beijava era tão fria que doía. E eu repetia “foi por você, só por você”.
Me lembro que isso durou uns meses, não sei precisar quanto tempo, mas pareceu uma eternidade. E um dia eu acordei e ela não estava. Corri pra praia e a vi no mar, nadando em direção a uma embarcação que passava próxima. A primeira embarcação que vi passar em anos. A primeira embarcação e ela partiu. Da praia eu a vi ser resgatada pelos tripulantes do navio e não olhar uma única vez pra trás, assim como fiz anos antes, assim como quando deixei o continente pra viver naquela ilha com ela. Deus, ela não olhou pra trás por um segundo sequer. E partiu.
No início ela mandava cartas em garrafas, coisa mais ridícula. Dizia que sofria também, mas que precisava seguir, viver novas coisas, que eu fazia mal pra ela. Depois o tom das cartas foi mudando, ela dizia que eu precisava sair dessa loucura e me tratar, que eu era doente e que ela não viveria comigo nunca mais. Por fim, ela mandou uma carta seca dizendo que não podia mais fazer nada por mim, e junto à carta uma foto dela com um rapaz que ela conhecera na última visita ao continente antes de me deixar.
E eu fui ficando por aqui, fui fincando por aqui. Desaprendi a linguagem que as pessoas usam pra se comunicar umas com as outras. Desacreditei no ser humano e em qualquer forma de amor. Fui ficando aqui, náufrago das promessas que ela me fez, náufrago do cheiro que ela tinha na nuca. Não tinha porque voltar ao continente – as promessas dela nunca se realizariam, o cheiro da nuca dela nunca voltaria a ser meu. Mas, lá no fundo, nunca fui embora porque achei mesmo que um dia ela voltaria. Nem que fosse pra tripudiar, ou sentir pena, ou até quem sabe me salvar. Mas ela me esqueceu. Ela seguiu com a vida e eu chorei até secar, e eu pedi a Deus que fosse piedoso e me levasse, mas quanto mais eu pedia menos ele me ouvia. Porque eu zombei dele um dia, e dos sinais, e ignorei tudo. Deixei tudo pra ter nada. Pra ser nada.
E agora voltar parece despropositado. Surreal. Sou o espectro infeliz do que fui um dia. Porque um dia fui inteiro, mas dei tudo de mim pra ela. A parte humana que tinha em mim morreu junto com a lembrança dela.

"Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dicionário da Mulher – Verbete: A puxadinha


ou “Abolição da escravatura da calça saruel”

Calças saruel são inimigas do amor. É chutar cachorro morto ao falar que estamos lidando com uma unanimidade negativa – ou quase, o quê dá contornos de inteligência a esta despretensiosa opinião.

Estas vestimentas canalhas ludibriam nossas donas. Não, não há macho joxó que crie suas perversões com a imagem mental que desvirtua as formas perfeitas das mujeres. Com perdão da palavra, mas senhoras ficam escrotas. Ficam, imageticamente hablando, com escroto. Triste.

Outro detalhe tão pequeno entre os casais, momento muito grande pra se esquecer, que esta indumentária medíocre decepa, sem dó nem piedade, é a puxadinha pós-coito. Si, meus caros. Confesso que um cenário que emociona este escritor de imoralidades é a puxadinha que a mulher dá ao se vestir.

Faço questão de tirar a calça, aquela que libera as formas da donzela, mas a recomposição da peça, deixo por conta dela. Não movo uma palha se quer. Sovino auxílio mesmo. Assisto de camarote a puxadinha. Recomendo aos camaradas esse prazer. A vista é maravilhosa.

Não reclamo das saias por razões claras. São nossas amigas. Não nos privilegiam com a puxadinha, porém trazem outras vantagens que nem aquele cartão de crédito mentiroso menciona em seu reclame. Porém, peço de coração às leitoras deste verbete, não vistam esta vigarice da moda. Abaixo à calça saruel, rumo à vitória!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Lençol





  Ela queria se apaixonar porque o amor é assim, é uma questão de querer. Ficava horas isolada ouvindo seus pensamentos, e não precisava muito para convencer seu coração a entrar de encontro com essa querência. 

  Não era capricho. Só quis amá-lo. Não se importou de sentir-se asfixiada ao lembrar do sorriso dele, das mãos que percorriam seu corpo e nem daqueles olhos graúdos que se fechavam quando a beijava à boca. 

  Gostava do coração batendo, entoando sonetos. Gostava dos olhos cheios de saudade, gostava do cheiro da lembrança que a acalmava, de tê-lo em pensamentos todos os dias ao acordar. De ficar com o olhar perdido diante as situações mais inusitadas, dos pequenos deslizes, desastres que cometia quando a mente vagueava em busca dele.

  Naqueles abraços ela se encontrava, encontrava cada pedaço que pensava ter perdido em algumas situações. A tristeza entrava em estado de calefação quando era anunciado um encontro entre aquelas duas almas, a dela, que julgava estar perdida há tempos, com a dele. Ele encontrou o âmago perdido dela. Aos poucos, o interesse dela não era pegar algo que lhe pertencia, mas sim, de vê-lo e estar com ele. Nesses encontros, viu como o ser é transcendente, principalmente quando se ama.

  Queria sentar ao lado dele e contar as coisas que tinha visto, das experiências vividas e observadas, apresentar-lhe suas teorias, mas a vontade quando estava próxima a ele, ultrapassava o desejo de falar e se contentava muito mais em ouvi-lo, de observar cada expressão facial e de apreciar cada brincadeira.

  O cabelo negro espalhado pelo lençol branco da cama, fones de ouvido e os olhos de um castanho profundo perdidos nos pensamentos.Eram dele aqueles sorrisos dados em meio a tormenta da sua vida, dos dias nublados. Gostava de lembrar que já deitou ao lado dele e se entregou, entregou-se como nunca tivera feito antes.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um bom motivo







Já não escrevo tanto assim

Não por falta de palavras

Ou mesmo inspiração

Se não escrevo como antes

É por falta de tempo

Não por falta de paixão.

É que o tempo anda escasso

E o que me sobra eu passo

Sem reservas com meu bem

Se não escrevo poesia

Não é por falta de amor

Nem de alegria

É por culpa de alguém

Que me ocupa os pensamentos

Preenche o coração

Alimenta meu sorriso

Já não tenho mais tempo

Perdoem o meu sumiço

Essa vida de correria

Entendam e relevem

Melhor ainda que escrever

É viver... Viver a poesia.



Thaís Carvalho

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O copidesque da parceira

Todo careta no relacionamento é maldito. Não sabe que, dentre as maiores bestagens, ser caxias com o amor é imperdoável. Vade retro, Lineu Silva! É regrinhas pra cá, chatices pra lá. Sem pestanejar, na hora em que a dama usa teu ombro de travesseiro, não é pra apelar pro cartesianismo. 

Por supuesto, não se formata um chamego com normas da ABNT. Amigos, este conselheiro sentimental paraguaio de araque avisa: não seja o fiscal sanitário do amor. Não fique ali, cri cri que só, procurando o menor vacilo para se vangloriar de percebê-lo e exigir mudança. É claro que vai achar, mas é mais claro ainda que vai encher o saco. Deixa de fazer testes pré-olímpicos na sua relação. 

Em outras palavras, largue mão da sarna para se coçar. Amor não deve ser testado, só vivido. De tanto querer que a parada dê errado, uma hora consegue. Resta saber se é intenção. Se for, seja macho e dê cabo ao envolvimento sem frescuras de querer sair por cima. 

Outro ponto que vale menção é a mania da mudança da parceira. Só os idiotas pagam de copidesque dos hábitos da cúmplice. ¡És la perdición! Corta essa de mania besta de diagramar a saia, as amigas, os gostos musicais, e por aí vai. Invés de conselho, dê afago.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Receita para um relacionamento saudável



Cientistas de alguma universidade importante da Europa, pesquisaram, pesquisaram... e chegaram a uma conclusão, no mínimo, curiosa: a receita do relacionamento saudável. Consiste em medidas exatas de comportamentos, para que não se desgaste o relacionamento a dois.


Aos dados: o “eu te amo” não deve ser pronunciado mais de 5 vezes por mês, segundo eles, isso pode contribuir para a dependência do outro, causa fundamental dos casos crônicos de ciúmes e esquizofrenia.


Nada de rodízios de carinho. Além de ser limitado duas vezes por semana, deve-se evitar mudanças bruscas no modo como agradamos o cônjuge, pois isso evita o tão propagado câncer de carência de atenção. Mas caso você extrapole (ninguém é de ferro), pode balancear com algumas horas de preocupação com a carreira ou com o risco da bomba atômica do Irã.


O segredo da vida feliz consiste, assim, na burocratização do amor. É leitores, burocracia é chata, mas necessária, uma gestão bem feita pode estabelecer o perfeito controle da situação. Sendo assim, beba essas palavras, caso não queira viver.

domingo, 20 de novembro de 2011

Da camiseta



Receio em pedir de volta a camiseta. Medo. Daqueles medos que se tem de saber a verdade por que mais que seja ela ruim. Fingir que é boa também não adianta nada. Ela foi minha, mas tão tua ao mesmo tempo. E não lembro, mas acho que foi de muitos outros antes de nós. Usávamos eu e tu e às vezes ao mesmo tempo. Mas acabou ficando sem mim. Ficava melhor em ti, confesso. Todo cinza é teu e isso nada vai mudar. Está registrado em ata. Se carregas contigo ou se guardas no fundo da gaveta junto com aquelas que estão furadas, com as mangas rasgadas, talvez comida por traças, manchada de água sanitária ou simplesmente apertada, se mandaram-te queimar ou doar para necessitados ou fizeram-na de pano de chão: não me importo. Só queria certificar que ela passa bem mesmo amassada. 

*Texto de Kaline Rossi

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Perigo à vista


Uma menina num jardim fotografa girassóis com cheiro de jasmim. Em sua memória, a imagem de um móbile de peixes, que ela fotografou ontem, na casa de um amigo seu. Ela tenta ilustrar algo que não tem nome. Se o amor existe, afinal, qual é a sua cor? Sua forma e textura? Se não tem nome, será mesmo que existe? Se não existe, o que existe, então? Aquelas flores bem que poderiam ser jasmins disfarçados de girassóis. E aqueles peixes... ah, se fossem pas-as-ri-nhos! Se é amor, pode ter nome, cor e forma que a imaginação permitir. E pode se alterar com os dias... Crescer, se intimidar, ficar de longe e criar uma saudade só para ter o gostinho do reencontro. Pode ir embora só para forçar um beijo mais forte de despedida. E, na noite do dia seguinte, ele vai perguntar: como foi seu dia hoje? Ela vai falar que fez fotos de nove balões voando. Uma parte é mentira, a outra é um convite para voarem juntos. Quando perguntar sobre o dia dele, ele vai falar de política e economia só para calcular, do jeito certo, um sentimento que dispensa cifras e regras. 

[...]

Quando ele abriu os olhos, ela já estava com a mão na chave quase ligando o carro. Ele demorou a voltar ao mundo real e notar que o cheiro de jasmim vinha de um canteiro miúdo e não daquele jardim para o qual foi transportado enquanto a beijava. Tocava qualquer música do Queen, que também podia ser Beatles, The Doors ou Led Zeppelin. E foi apenas um drink de morango com abacaxi, meio sem açúcar, com uma vodka meio aguada, que a fez fechar os olhos e se deixar bailar, enquanto ele brincava com os cabelos e tentava lembrar o nome da música. E ela foi capaz de passar o dia inteirinho lembrando o segundo em que aqueles lábios se tocaram pela primeira vez. “Tudo está nos olhos” – ele pensava. Mesmo sendo capaz de evitar prováveis mal-entendidos (mesmo lembrando que: o que atrapalha um relacionamento é o anterior), ela soube: está tudo perdido. Tentou transverter tudo em literatura para ver se aquele sentimento se imprimia e fugia por entre os dedos e seguia para o mundo da terceira pessoa, daqueles que vão e não voltam nunca mais, até serem reencontrados, por acaso, na gaveta do esquecimento. Mas, o máximo que conseguiu foi traçar algumas poucas linhas em que “ele” e “ela” são os mesmos, com a simples ilusão de que é capaz de dividir, decifrar e decidir. 

*da série de inacabadas. 

sábado, 29 de outubro de 2011

Sentir Saudade

  Aqueles olhos que nasceram para sorrir, que outrora foram locados pela tristeza, haviam voltado ao seu normal. Alí residia a felicidade.

  Agora ao encontrar-se sozinha já não chorava, apenas sentia um aperto no peito, era saudade. Não daquilo que a feriu, mas dos momentos ternos que fazia morada em sua vida há poucas semanas.
Não concordava com camões: O amor não era fogo que ardia sem se ver. Era mais brando, pacífico, era o descanso da sua alma cansada de perambular pelo mundo. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Dos Encontros da Vida




 Aquele encontro tímido. As palavras eram medidas, mas a troca de olhares não era capaz de conter o verdadeiro desejo que se fazia oculto naquele momento.  O tremor tomava conta do corpo dela. Ele era como um corpo fechado, difícil tentar decifrar. O coração da menina batia a cada palavra dita pela boca daquele estranho, afinal era a primeira vez que se viam.

  Quanto mais o tempo passava, menos a garota queria se distanciar dele. Sentia um nó na garganta por estar chegando a hora de partir sem receber um ósculo qualquer. Lembrou da recepção que tivera ao se reconhecerem: abraço demorado. Um aconchego que aliviava a cruz que trazia na alma. Afagou-lhe os cabelos, pretos, desalinhado pelo vento que fizera enquanto procurava pela casa do estranho.

  Nessa procura, suas pernas tremiam, tudo que conseguia externar era um sorriso louco, insano, de saber que encontraria finalmente seu cúmplice de conversas e teorias furadas. A medida que buscava pela casa, sentia também medo. Medo de estar se apaixonando por ele. Não poderia saber jamais. Caminhou calmamente, respiração cada vez mais ofegante.

  Alí estava. Abaixou a cabeça para esconder o riso que escapou ao ver que ele estava a sua espera. Como era alto. Olho-a e a menina se sentiu perdida naquela mirada. Fitou-o e foi correspondida com um longo abraço. Era como uma boneca naqueles braços, pequenina, indefesa, apesar da dor que marcava seu âmago. Entraram e conversaram por horas.
  Ele levou a garota para casa e por fim, chegaram ao destino final, despediram-se amistosamente. Os dois seguiram seus rumos. Mais tarde, ao conversarem, umas 2 da madrugada, o garoto faz a pergunta que gelou a menina:

"Se eu for aí, você me dá um beijo?"

 Confirmou a resposta e em cinco minutos lá estava ele, esperando pelo grande prêmio da noite.

  O beijo aconteceu. O tremor que tomou conta dela anteriormente já não existia. Era perfeito.

Ela o amou.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sobre relacionamentos não vividos


Procrastinar tem sido uma válvula de escape da maioria das pessoas que eu conheço. Imaginar como tudo vai ser, sem ao menos ter uma base das possibilidades do que desejam, acontecer. Parece que quanto mais você quer, menos será possível conseguir. Imagino que 99% de toda a população terráquea já teve algum tipo de devaneio sobre como seria se tivessem coragem de entregar-se para os sentimentos sem pensar demais nas consequências. Mas aí vem o ponto chave dos que criam uma dimensão paralela, e dos que não fazem ideia de estarem sendo ''usados'' em vontades oprimidas - e/ou reprimidas. A grande diferença é simplesmente a racionalidade e o sentimentalismo de ambos - o que deseja, e o ''objeto'' de desejo.

Geralmente eles são completos opostos e , talvez exatamente por isso, não concretizaram-se como possíveis companheiros amorosos.Relacionamentos não vividos são mais complexos que casamentos.
Tanto porque causam aquela ansiedade de ter a pessoa perto e vendo uma aparente estabilidade feliz, tanto pela dependência de imaginar como teria sido se fulano tivesse arriscado, ou se ciclano não fosse tão covarde.
É inevitável não pensar, e até se abater pela tristeza que , vez ou outra, insiste em te puxar pelo pé de madrugada e te colocar no fundo do poço ( ''bad'' para os íntimos, rs ) que você pensou ter saído faz tempo.
Mas a vida não é lá muito injusta, porque se por um lado você sofre por não poder ficar com quem achou amar, por outro em um dia chuvoso e tranquilo, você vai receber uma ligação inesperada , um convite para jantar , de alguém que talvez mereça mais atenção do que ficar remoendo-se em situações bonitas que procrastinou - ou , até mesmo, já viveu .

Acredito que o ser humano é capaz de se adaptar à situações extremas, e se elas ainda não foram superadas é porque você ainda não lavou toda a fossa do peito, amigo! Então tratemos de fazê-lo, antes que todo esse lodo apodreça essa parte tão vital, que nos diferencia de todo o resto.
O romantismo exacerbado pode parecer utopia remota, mas enquanto houver um punhado de pessoas que o pregam com convicção, ainda existirá esperança para superações e recomeços.
Esses ciclos de relacionamentos não vividos duram a vida toda; sucumbir à melancolia enquanto você pode sorrir com algumas lembranças boas, que naquele momento era tudo que você podia permitir-se , é tolice. Se antigamente isso era algo digno e admirável, nesses nossos tempos modernos resume-se a simplesmente uma palavra: fraqueza.
Não seja um mártir de suas história de amor, seja pura e simplesmente o único protagonista.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Detalhes



“Detalhes tão pequenos de nós dois, são coisas muito grandes prá esquecer. E a toda hora vão estar presentes, você vai ver...” cantarola o Rei, inspirando nesse momento cerca de 1292 brasileiros enamorados, maiores de 18 anos.
Tudo bem, digam que isso foi há 30 anos, mas em seguida assumam, os detalhes continuam grandes demais para esquecer, e continuamos com a velha calça desbotada, procurando o retrato antes de dormir.
Quem nega, provavelmente é fruto do amor líquido, objeto de Bauman e não merece, neste momento, dividir atenção com o homem das rosas brancas. Então em frente, com nosso amor e até os erros do meu português ruim, para dizer dos detalhes envoltos nesse troço chamado sentimento.
No seu ouvido, palavras de amor e na agenda o bilhete discreto com palavras de veludo, no celular a musica da banda famosa, feita sob medida para nossos encontros e promessas pro futuro.
Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver, fazendo confissões difíceis sem medo da longa estrada do tempo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O amor

Quando o amor minguar
Vou procurar outra dor
Vou me envolver noutro laço
Vou me perder noutro vício
Vou recolher meus pedaços
Vou retornar ao início

Eu, que ando preso num vácuo
Eu, que não sei nem quem sou

O amor despenteia os cabelos
Deixa o sono intranquilo
É impossível detê-lo
É inútil segui-lo

É o amor quem nos segue
Nos cega
Nos suga
Depois faz que peçamos
Mais

O amor quebra algemas da alma
E enche os copos vazios
Leva o resto da calma
Deixa os olhos no cio

Toda vez que o amor
Te chamar
Te quiser
Bota a casa nas costas
E, asas postas,
Vai

Rodolfo Minari

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Amar é...


Entre tantas janelas,
ver, num pedacinho de céu, alguém. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A música e o amor


A música começa dentro

Depois salta como uma expressão

Transformando o corpo em instrumento


A música é uma atitude

Que transborda em sentimentos

Diariamente provado pelo corpo


O AMOR não é tão diferente

Ele começa com uma atitude

Que resulta em sentimentos


O AMOR é sempre grátis

Assim como a música


O AMOR tudo supera

A música nunca acaba


O AMOR é o tempero

A música o delicioso prato


Quem não tem música

Morreu para o AMOR


E quem não tem AMOR

Jamais fará da VIDA

Uma canção para VOCÊ