terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um Abrir de Janelas

Hoje a Biblioteca abriu suas janelas. O dia amanheceu bem disposto de um vento frio e cálido. Por isso resolveram os coordenadores renunciar ao ar condicionado, e deixar que a brisa do dia novo climatizasse o espaço dos livros e de seus leitores.

As janelas abertas trouxeram do verde das praças os pássaros. Varavam o ar e entravam sutis. Mas depois de certo tempo já estavam fazendo ninho entre Shakespeare e Vinícius de Moraes, e alguns leitores já não mais conseguiam desperceber o eco que o canto dos vários espécimes entoava. Coroando o saguão, o som tinha a amplitude dos sinos de igrejas, mas não faziam doer os ouvidos e nem o juízo. Era um canto alegre e amanhecedor.

E em pouco tempo, os interesses de todos já não eram mais os livros e suas histórias, mas sim os pássaros e seus cantos. Enquanto isso, eu que já havia percebido e me encantado a tempo com aquela invasão mágica, percebi um movimento gracioso de calcanhares entre as primeiras prateleiras em que eu me encontrava.

Atento, encontrei, além de mais pássaros e ninhos, duas pessoas se segurando pelas mãos. Buscavam algo que na hora eu não compreenderia. Na frente ia uma menina, a qual parecia pertencer toda a decisão da busca. E quase pisando nos calcanhares da frente, um menino que parecia tão surpreendido com a caminhada, como os outros com os passarinhos.

O passo apressava-se, e cada prateleira deixada para trás era um adeus que davam ao mundo. E me escondendo no canto dos pássaros, que ecoava cada vez mais forte e tenso como passos a procura de sossego, eu os vi parar.

E pararam na última estante onde só poderiam ser visto por livros e por mim, que os via atrás dos livros de Ornitologia. Pararam e, logo, se encostaram num desejo invejável de paixão impossível. Os lábios se tocaram. E foi aí que eu vi literatura nos lábios alheios. Aquele beijo, entre tantos livros, me encheu de uma poesia única e imensa. Senti Federico Garcia Lorca dentro de mim. Antônio Maria pulsar nas minhas veias apaixonadas. As palavras do Gabriel Garcia Marquez nunca fizeram tanto sentido. Vinícius estava nas minhas mãos. E as letras do Chico Buarque passavam por meus olhos contando com palavras aquela história que eu via na minha frente.

Sim, amigos, eu vi literatura nos lábios alheios. Estarrecido, o beijo foi andando de volta. E eu continuei no cenário daquela ilusão que nunca me pareceu tão verdadeira. Aquele momento tomou-me durante todo o dia. E muita vezes me perguntei se os pássaros conspiraram para que aquele mar de palavras em forma de amor se materializasse a minha frente. Ou se teriam os amantes armado a visita dos pássaros, espalhando alpiste nas estantes, para despistar a atenção da burocracia arcaica que proíbe o beijo entre os livros, e eu apenas como um intruso de aventura alheia, tivesse encontrado literatura onde não haveria de ter. Não sei dizer mais. Não sei pensar muita coisa agora. Não sei quem são. E nem me lembraria a face se os visse de novo.

Só sei que aquele romance visto hoje de manhã não me abandonou a retina. E ao chegar em casa, corri à minha estante e tentei reviver tudo nos livros que tanto guardo. Tentativa infundada. As palavras, sim, eu compreendia melhor. Mas aquela efusão, aquela sensação parece ter virado ninho, e ido embora pela praça com o fechar das janelas.


Por André Cezar

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Skank para todos!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Hoje não deu rock

Desci. Desci o elevador, alguns degraus e a rua. Fui e confesso: estava à procura de um amor. Em qualquer bar, em qualquer esquina. A cada olhar que cruzava com o meu, eu dizia: vem! Estava com meu vestido decotado e um casaco que não esquentava nada. Apenas um charminho inútil. Na falta de um drink de frutas, pedi uma ice. Não era como aquela da garrafa de gato, mas tinha o gosto (e a sensação) bem parecido. Na verdade, eu desci em busca de um licor de menta no bar da esquina de cima, onde uns negros de dread tocam reggae a noite inteira. Mas estava fechado, assim como o céu que já não me apresentava estrela ou esperança nenhuma. Fui então seguindo a música. E segui com as minhas botas de salto alto naquela noite fria e bem agitada por aqueles estudantes na melhor época na faculdade. Sempre me recusei a fazer parte daquilo, afinal, era uma coisa que eu simplesmente não conseguia fazer parte. Bando de gente chata, afinal. Mas resolvi sair assim, acompanhada apenas pelo resto da noite e pela madrugada inteira. Me aventurando de cabelos soltos e sem bolsos para esconder as mãos sem jeito. Esqueci a Tv ligada, como sempre, com algum filme que me faz dormir, só para não esbarrar no silêncio quando voltasse. Afinal, eu já sabia que aquele show do Chico César, lá n’outro bairro de nome santo, não tinha hora para acabar. Mas eu segui outras músicas, por outras esquinas. Entrei naquele bar onde tem um jukebox que reúne um pessoal meio esquisito, de jaqueta de preta. Por escadas ainda mais escuras, subi para a boate ao som de um tal “eu quero é ver o oco”. Raimundos não me deixa pensar em nada, nem lembrar, nem sentir saudades. Então, talvez fosse “a batida perfeita” praquela noite. Eu cheguei e me encostei num balcão como numa cena de filme. E não resisti de consultar o celular mais do que o necessário. Deveria tê-lo deixado em casa e de preferência desligado: ninguém me ligaria mesmo, e, assim, eu nem arriscaria ter essa certeza. Resolvi curtir o som, as pessoas e a minha ice. Tudo poderia continuar e terminar tranqüilo se aquela bandinha não resolvesse se aventurar com um Led Zeppelin. Eu devo até ter fechados olhos por alguns segundos e mexido a ponta do dedão do pé. O grupo seguiu com Red Hot Chilli Peppers e Foo Fighters. O detalhe é que tudo isso soava bem porcamente aos meus ouvidos. De início, até me dediquei a não perceber aquelas atravessadas, aquele inglês meia-boca e o repertório grosseiro. Mas, não deu! Talvez eu devesse ter topado o Chico César. Talvez, me deixado levar pelo sono do filme de sexta-feira à noite da rede Globo. Talvez... - Amor, fica para outra noite, esse guitarrista sem coração embrulhou meu estômago e me tirou qualquer remota vontade de me apaixonar. Voltei para casa. Fui dormir, novamente, na minha cama gelada, sem amor, e, pior, novamente com a certeza de que os showzinhos de rock não servem pra nada.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Abraço












Quando me abraçou
Você disse: Tá tudo bem, amor
E eu me despreocupei
Era pra ser assim, não era?
Eu respirei aliviada
e você disse: não foi nada
Desculpa a espera.
Eu te desculpei
Você me olhou nos olhos bem demorado
E me convidou pra dançar
Eu já te avisei que eu danço errado
Mas você disse não se importar
Era assim, não era?
Você não se importava se eu errasse
Sempre compensava o meu passo
Implorava que eu dançasse
Hoje já não sei
Acho que não é mais como antes
Sinto que dancei
A diferença é que agora
Você não está aqui pra compensar
Mais o meu passo
Eu nem queria mais dançar
Bastava apenas que repetisse
O que me disse
Naquele abraço.


Thaís Carvalho

domingo, 22 de agosto de 2010

"Tudo Passa"

"Tudo passa!" Quem na vida nunca ouviu isso? Talvez esta seja a expressão de consolação mais dita e exatamente por isso mais ouvida no mundo. Como todo clichê, este também carrega em si uma quase-verdade que perdura tempos, é fato que o tempo não pára e a história insiste em encadear um acontecimento após o outro, mas a questão é que não tenho certeza da obviedade de seu significado. Esse "conforto" serve para várias situações, por exemplo, corriqueiramente, principalmente quando se é moleque, nos machucamos, digo fisicamente mesmo, uma topada na quina da mesa, e eis que vem a mãe, segura sua mão e fala no auge da dor "vai passar meu filho", e você pensa tomara que passe mesmo, ótimo, tudo que você quer saber nesse momento é que passará. Mas pensemos em uma outra situação, se está sofrendo de amor, você acabou de perder aquela pessoa com a qual jurava que iria dormir o resto de seus dias, você não imagina sua vida sem ela, seus planos não foram interrompidos de fato, continua pensando como dois e não como um, não houve tempo para reformulação e nem mesmo sabe se quer mesmo reformular, afinal não parou para pensar nisso racionalmente, a dor não deixou espaço para outra coisa que não lamento, e então eis que vêm as palavras mal-ditas "Nessa vida tudo passa". Pootz, será que passa mesmo? Contudo, o problema não é bem esse, a pergunta fica melhor em outros termos, se quer realmente que passe? Eis a questão, em alguns casos não se quer que passe e, nesses casos, a reação ao ouvir esse "tudo passa" é aquele sorrisinho amarelo, do tipo "sai daqui", ou "me deixa", e continuar de certo modo pensando em todos os planos, em todas as lembranças nostálgicas, em todos os sorrisos verdadeiros que você anseia, talvez em vão, rever, re-sentir, reviver. Tudo que se quer é que o tempo pare, ou melhor, volte, menos que 'passe', porque isso dá a estranha sensação de vazio, do tempo que está passando e seu amor do outro lado do mundo vivendo algo no qual já não está mais incluso, mas deveria. O "tudo passa" aí não preenche nem conforta, ao contrário, esvazia, e como um tapa na cara te mostra o que você está perdendo. Enfim, tudo passa? A resposta é óbvia, sim, mas felizmente para alguns e infelizmente para outros.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Legumes




Naquela época, eu achava que ficaríamos juntos para sempre. Que Carolina sempre estaria lá, para me apoiar. E eu sempre a amaria. Mas a vida nem sempre acaba sendo como nós imaginamos, e depois de tanto tempo é engraçado pensar como as coisas chegaram a este ponto. A verdade é que eu nem lembro mais como acabou. Que dia que nós decidimos que já não era mais possível ficarmos juntos? Quais foram as suas ações que me fizeram parar de tentar? Quais foram minhas palavras que lhe fizeram ir embora? E as brigas, que por tanto tempo remoí pra me convencer que nós devíamos viver nossas vidas separadas, já me fogem da memória. Mas eu sempre tive uma péssima memória. Era sempre você que lembrava onde tinha colocado a chave ou qual era o dia de pagar a conta de luz. Engraçado, dessas coisas eu ainda consigo lembrar. É como a cor de seus olhos. Simplesmente, eu não consigo esquecer. Por mais que me esforce, e acredite, nos primeiros meses que passamos separados, eu teria pagado um médico como aquele do filme do Jim Carrey, aquele com a menina de cabelo azul que tem o nome de uma música (ou seria um personagem do Dom Quixote?) para apagar a cor daqueles olhos castanhos com pequenas manchas esverdeadas da minha cabeça. Mas com o tempo as lembranças que eu mais me apegava – você quebrando o prato de porcelana na parede; os deboches na hora do jantar; a forma que você sempre conseguia me tirar do sério enquanto assistíamos um filme – foram se apagando, fugindo pelas pontas do dedo, saindo durante o banho, me escapando entre os bytes do computador. E cada vez mais seu sorriso, a maneira como apertava a ponta dos dedos quando estava em dúvida com algo ou como gostava de enrolar a ponta dos cabelos enquanto lia um livro iam ficando grudados, presos, e eu simplesmente não podia mais fingir. Talvez seja por isso que tenha começado a me esconder. Fugir daqueles lugares que sabia que você estaria. Inventar desculpas para os amigos em comum. Pular as músicas que lembravam você da playlista no meu computador. Esconder as fotos em caixas em baixo de outras caixas. Era o medo de descobrir que em algum lugar ainda estava o sentimento que me fizera me apaixonar por você. Medo de te encontrar, e me ver novamente preso aquele relacionamento que havia tomado 15 anos da minha vida, 9 com você e o restante para te superar. Qual foi minha surpresa ao te encontrar no supermercado, e descobrir, em meio a seção de legumes, que na verdade não havia como voltarmos ao passado, nem que eu quisesse. Seu cabelo estava mais grisalho, e consegui identificar algumas rugas que não estavam ali da ultima vez que te vi, dois anos atrás em uma exposição de arte, lembra? Acho que naquele momento fiquei decepcionado. Era mais fácil imaginar que ainda restava, no meio de tantas boas recordações, um pouco daquele amor que nos uniu, e não apenas algumas cordialidades. Depois de tudo aquilo, de tantos sentimentos, de dois abortos, de três separações e dois reatamentos, não deveria haver espaço para cordialidade. Não deveríamos conversar sobre Francinne e seus filhos, ou sobre como os dias tem ficado cada vez mais quentes e os programas de TV estão cada vez mais violentos. Deveríamos falar sobre aqueles segredos que trocamos em baixo dos lençóis naquela semana de folga que tiramos no interior depois de Luiza saiu do hospital. Mas apesar de tudo, acho que foi melhor assim. Estamos velhos, de qualquer forma. Não aguentaríamos uma paixão como a nossa de novo. Iríamos ficar sufocado com um amor daquele. Era melhor vê-los transforma-se nesse sorriso cúmplice que você me deu antes de ir para o caixa. Fez tudo valer a pena.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Homem no Espelho

Eu sei, texto longo. Basta dar uma chance, tá?


Eu sei, é o que todos dizem: histórias de pessoas e espelhos já foram contadas antes, anos e anos antes de mim. Mas esse maldito espelho de última categoria que tenho no meu quarto não conversa comigo, não me leva a outras dimensões e tampouco afirma o óbvio: que existe alguém mais belo que eu. Ele só me mostra diariamente minha degradação física e meus colapsos mentais.
Eu tinha uma esposa. Quer dizer, ela não era bem minha esposa, nunca fomos formalmente casados. Mas eu a conheci aos dezenove, montamos um apartamento aos meus 21 e vivemos juntos por 13 anos, quando eu tive meu primeiro colapso mental e a deixei. Aproximadamente dois anos depois ela morreu, suicídio, a covardia mais corajosa que já vi alguém cometer. Eu já estava doente antes disso e continuo doente agora, agora que se passaram cinco anos da morte dela, e muito embora eu tenha piorado consideravelmente desde que ela se foi, meu corpo sempre se esquece de morrer. Coisa muito agradável de se fazer, por sinal. Desde que ela morreu eu me abracei à minha mortalha e tenho esperado pela Indesejada, que anda me ignorando solenemente.
Nina nasceu pra mim numa noite subterrânea na faculdade. À época eu já parecia doente, tinha um quê de sorumbático que irritava muita gente. Sempre fui uma pessoa grave e silenciosa, tão tímido quanto um ser humano podia ser, e isso parecia meio arrogante às pessoas. Ou seja, eu praticamente não tinha amigos. Cursava Filosofia, era chato e carregava comigo a maior solidão do mundo. Andava pra cima e pra baixo com meu maço de cigarros completamente amassado, um livro velho que de tão lido e relido eu já tinha decorado e o porta-uísque sempre abastecido, que passou do meu avô imediatamente pra mim por ser meu pai um abstêmio convicto e feroz. O livro era Cem Anos de Solidão, em espanhol, uma raridade que encontrei a um preço irrisório num sebo vizinho à minha casa, abandonado como eu. Não tinha lá muito respeito por ele, fazia todo tipo de anotação nas suas páginas e, por nunca deixá-lo na estante, estava todo deteriorado. Mas eu tinha um apego sobre-humano àquele exemplar, como se eu não pudesse andar sem ele. Falava pouco às aulas e, às vezes, sequer atentava para a explicação do professor, absorvido na produção do meu romance, a minha grande obra que nunca consegui concluir na vida, uma das muitas coisas às quais me dediquei e falhei miseravalmente. Ora, nem morrer eu consigo.


Nina, era de Nina que eu falava. Era uma aula de Ética III, uma das matérias mais insuportavelmente enfadonhas de todos os tempos. Metade da sala dormia e a outra metade se concentrava em qualquer coisa que não fosse aquele senhor já idoso lendo o seu plano de aula. Saí da sala sem ser notado – não que fosse uma tarefa assim difícil – e acendi um cigarro no corredor. Sorvi a fumaça como se finalmente voltasse a respirar, tomei um gole do uísque e me sentei no chão pra reler meus apontamentos. Já disse que era uma noite subterrânea, não disse? Sim, a sala era no subsolo da faculdade, e aqueles corredores silenciosos e sombrios estavam sempre à espera de uma anunciação. E ela veio.


“O coração, se pudesse pensar, pararia”


Bernardo Soares. Meu coração parou, assim, mas sem pensar. Alguém ali ou além recitava Bernardo Soares. Me ergui num salto mais ágil do que me sabia capaz e quase caí, olhando ao redor e procurando a voz, ou melhor, a dona dela.
__ Gosta de Pessoa?
Ela estava à minha frente, e parecia que sempre estivera ali, eu é que nunca havia enxergado.
__ Gosto muito de Pessoa. Mas o Bernardo é meu favorito.
__ É, eu reparei – resmunguei sem inteligência.
Era branca de uma brancura absurda, palpável, quase líquida. Meu instinto foi tocá-la, mas não pude, eu já não fazia mais sentido. Mal sabia se ela existia. Contrastando com sua brancura líquida, cabelos lisos de um negrume só, uma escuridão impenetrável.
__ Como é seu nome?
__ Breno.
__ Oi, eu sou a Nina.
Ela sorriu, e eu sorri de volta só porque o sorriso dela me encheu de uma felicidade imbecil. Ela usava um vestido de um amarelo berrante que ofuscava, e quando se aproximou pra me dar um abraço – que só recebi, sem retribuir – causou um choque visual ao se encontrar com a minha blusa preta.
__ Desculpa, mas de onde você saiu?
__ Festinha nas Cênicas. Fui ao banheiro e na volta te vi fumando. Então vim pedir um cigarro.
__ Você faz Cênicas?
__ Não, Desenho Industrial. Você pode me dar um cigarro? O que você estuda?
__ Filosofia.
__ Interessante. Por que não está na festa?
__ Não sou de festas.
Ela esquadrinhou o chão à procura do isqueiro e encontrou meu livro.
__ Um intelectual, é? Sabe, eles também frequentavam festas. Os intelectuais. Bebiam absinto e usavam drogas, essas coisas.
Dei de ombros. Ela riu, superior. Sacudiu o livro com pouquíssimo zelo, quis matá-la. Mas não pude.
__ Gosta de García Márquez, pelo visto.
__ É meu preferido. Esse é o livro da minha vida.
__ Sei. Você carrega consigo a maior solidão do mundo. Eu até gosto dele, sabe? Mas prefiro poesia.
__ Você é passional.
Sorriu novamente, com gosto.
__ É? E de onde você tirou isso?
__ De lugar nenhum. É só uma teoria.
Estava nervoso, incomodado, intimidado e crescentemente envergonhado. Ela tinha um ar insolente que me desnorteava, eu não sabia o que fazer das minhas mãos. Por fim tomei o livro e o isqueiro dela e dei as costas.
__ Onde você vai, Bruno?
__ É Breno. Meu nome é Breno. Vou voltar pra aula.
Ela me puxou pelo braço, sempre sorrindo.
__ Esquece a aula. Vem, vamos nos espalhar por aí.


Passei três dias seguidos na casa dela, vivendo de sexo e brisa, ou seja, um amor desesperado e latente. Eu me apaixonei pela sua loucura. A casa era o exemplo da desordem, o som era alto dia e noite, pessoas iam e vinham a qualquer hora e ela se alimentava de maconha. E mesmo bebendo feito uma lontra selvagem e fumando maconha como quem respira ela quase nunca dormia. Tinha o maior número de amigos que pude imaginar e pintava o tempo todo, andando pela casa em trajes sumários como se estivesse sozinha. Por vezes ela me deixava à deriva e se perdia nas coisas dela que eram só dela e continuariam sendo pelos próximos quinze anos.
Dentro do que conseguimos aceitar como sensato construímos nossa vidinha. Ou melhor, ela construiu sua vida com o resto do mundo, eu construí um castelo inacessível e nos tranquei na torre mais alta. Minha vida era ela. Meu sangue era o dela, meu respirar era o dela. Trabalhava por trabalhar, estudava por estudar, eu vivi Nina em desespero.


Dois anos depois de sua morte eu tive meu segundo colapso mental e larguei o emprego, prestes a me aposentar integralmente por invalidez. Meu pai ficou felicíssimo, claro. Pediu minha interdição e me trancou num hospital em São Paulo para tratamento. Terapia, quimioterapia, eu só queria morrer, mas não podia. Nina morta em mim doía, toda a dor do mundo, toda a solidão do mundo. Após um ano tive o terceiro colapso, me dei alta daquele hospital infernal e me mudei para o Rio de Janeiro. Fumava dois maços de cigarro por dia pra ver se apressava a hora de ir embora e bebia ininterruptamente. Escrevia, virei escritor, fui publicado e lido aqui e ali, foi no terceiro mês de Rio que o espelho apareceu. Só comprei pra me livrar do vendedor, larguei aquela monstruosidade barroca no meu quarto e não lhe dei atenção por uns quatro dias, até me ver refletido nele.
Tive o quarto colapso mental, então. Parei de fumar, reduzi drasticamente a bebida àquele cálice de vinho famigerado dos cardiologistas e tentei fazer uns amigos. Cheguei a viver um pseudo-amor com uma moça branca e bela que hoje me odeia violentamente. Adiei a morte enquanto me foi possível, mas por um motivo qualquer que ainda agora ignoro completamente, pois não havia vontade, não havia apego nenhum à vida. Continuei a amar Nina de um jeito tão doentio e agalopado que me parecia errado não estar com ela.


Hoje, hoje tive meu quinto e último colapso mental, eu acho. Cheguei em casa mais embriagado que uma marmota mutante e vi Nina branca, incrivelmente branca, no espelho. Sem pensar uma vez sequer eu o destruí, juntando seus destroços sobre a cama, e me deitei ao seu lado, todas as pílulas nas mãos ensanguentadas.


“O coração, se pudesse pensar, pararia”. Acho que pára dessa vez.


*

Breno é personagem antigo, nasceu em 2004. Um querido. A história dele tá toda no meu outro blog, o Cognome - Verdade. E esse texto faz com que eu olhe no espelho e veja alguém que faz literatura. Depois passa ;-)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Dicionário da Mulher – Verbete: A penumbra

Muito antes do século XVIII, conhecido como “o das luzes”, já havia um consenso entre os sábios: o breu pré-cópula é indispensável. Sem essa de questionar a astúcia do subalterno que criou o sacro-eufemismo do “vamos dormir juntos”. Não se adormece no claro perturbador de uma lâmpada incandescente. Opte pelo caminho ecoprático, palavra tão em moda ultimamente, e apague a luz. Desencarne da figura do pivete que molha a cama por medo do escuro.

Nem que seja na primeira vez, camarada. Nunca, sem exceção, negue para a dama o direito à luz fraca na avant-première conjugal. Por que, hombre de pouca fé, achas que na história dos escurinhos de cinema, nunca existiu uma exibição de película sem ao menos uma mão boba na platéia? É lógico! Sim, porque uma mulher gosta da penumbra, câmera e ação!

E no exercício heróico da humildade, algumas fêmeas ainda inventam argumentos para justificar. Dizem que estão envergonhadas com as imperceptíveis celulites e estrias que porventura podem ter. É balela, amigo. Elas apenas tentam te mostrar que o corpo da amada não é um prato que se come com os olhos. Devemos saborear tateando cada parte da sua anatomia, de preferência, benzida com beijos páfrentes.

Abro aqui até a intimidade deste escritor, onde a partir deste momento passará a ser visto com outros olhos quando passar na rua por quem freqüenta este blog. Tenho uma camisa vermelha, da cerveja Duff, exclusiva para este ritual. Ao jogá-la sobre a luminária vizinha da minha cama, torna o ambiente rubro. Esta penumbra ruiva serve de testemunha para coisas que dariam sentido à fama de casas da iluminação vermelha.

Arrume um abajur não afrescalhado e faça o ambiente. Mujer gosta do clima. Isso é romântico. Faça esse agrado pra bichinha e aproveite, rapaz. Com paciência, ela até te libera da fase das trevas, sem medo de ser feliz.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nenhum, nem outro*

Certa vez, eu disse:
Ele é de verso.
Eu sou de prosa.

Ele é das estrelas.
Eu sou da lua.

Ele é do sal.
Eu sou do açúcar.

E hoje, observo, assim, discreta:

O que é mesmo verso e prosa?

É que as manhãs têm ficado cada vez mais estreladas,
E a lua inventando fases que eu nem queria ter...

E que doce é esse que eu, uma formiguinha segura, nunca experimentei?

*das palavras perdidas que a gente encontra perambulando nas gavetas do esquecimento, assim, meio sem por quê - e que nunca foram entregues.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pensamentos que me dizem...*

O amor vulgarizado, a palavra perdida e o sentimento desconhecido.

Amar não é beijar na boca, passear de mão dadas, apresentar aos pais ou ter noites maravilhosas com alguém. De todas essas coisas, todas podem ser obtidas sem amor.

Acesso bastante internet, sites de relacionamentos, blogs, enfim, toda besteirol. Vejo meninas e rapazes trocando de namorado(a) toda semana (o que não acho mal, ou errado, de modo algum). Só acho interessante toda semana amar e querer alguém eternamente. Declarações e declarações, muitas vezes uma mais clichê que a outra. Esquecem-se de viver o sentimento nessa verdadeira ânsia de desejar ter alguém. Parece que as pessoas forçam-se ao amor, que assim não alcançam, e acredito nunca alcançaram. É um meu amor pra cá, meu amor pra lá.

Mas o que vivem juntos? O que valorizam? O que desejam?

Namorados de fotografia - expõem beijos e abraços, poses e mais poses, festas e felicidade infinita. As meninas que se pintam, os namorados de carros novos, os amigos bonitos, bem apessoados. A balada do fim de semana. Por que é tão necessário mostrar-se demasiadamente feliz? Por que não buscam ser felizes ao invés de tentar transparecer isto?

A impressão é de que, as meninas, muitas vezes, querem mostrar-se invejáveis, com seus corpos esbeltos, maquiagem bonita, roupa da moda. Não percebem que a personalidade que têm, que julgam inabalável e super diferente, nada mais é do que a mídia formata, realmente para que pensem assim. Todas iguais.

Os meninos, cada vez mais robustos, malhados e beberrões., parecem cada vez mais irresponsáveis. "Aproveitam" tudo! Na verdade, provam tudo. Sem saber que provar não é aproveitar - pelo menos não como a manada pensa.

Também acho interessante divertir-se com as memas festas, as mesmas cervejas, as mesmas músicas. O porre, o mico, a besteira cometida. É sempre a mesma conversa quando se fala sobre o último fim de semana. Talvez tenha sido uma menina mais bonita, uma mais feia, talvez tenha sido numa chácara ou boate, talvez tenha batido o carro, vomitado, ou não. Mas os atos e as buscas são as mesmas, as consequências nem sempre.

Vivemos mesmo de aparência, alimentada por amores cibernéticos, de amizades para fotografias, do desejo de ser invejável, desejável., provocativo.

Prefere-se mostrar-se vivo ao entender e viver a vida.

Mas pensar nisso é besteira, melhor sentar e pedir uma redonda.

*Texto de Priscila Costa, excelente escritora que mora em Porto Velho e escreve aqui.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se*

Um poema antigo, guardado no baú das recordações.

Se eu te amar
Seu peito será meu abrigo
Suas mãos serão meu apoio
Teus olhos serão meu espelho
Tua vida será minha
E minha alma será tua

Se você me amar
Te darei meus sonhos
Te darei meu carinho
Te darei minhas ilusões
Minha vida será sua
E sua alma será minha

Se nós nos amarmos
Seremos um só
Andando de mãos dadas
Olhando nos olhos
Tornando reais os sonhos
Dando e recebendo carinho
Compartilhando as ilusões
Vivendo a mesma vida
Morando na mesma alma.

* Da nossa antiga colaboradora e romântica, Álefe Souza.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Haicais*


Ei dona abelhinha
o perfume que te trouxe
é duma flor minha.
Ataualpa - 22/04/2010

E agora, no entanto,
ninguém lembra da pequena
calcinha no canto.
Ataualpa - 27/04/2010

Gemas gêmeas no ar
joalheiro algum me dirá
quão vale teu olhar.
Ataualpa - 23/06/2010

Em resposta:

Soltas palavras no ar
é assim, ainda que não te diga
que fazes brilhar meu olhar.
Nathalia - 23/06/2010


A luz que entra, cai
no seu rosto, feito gotas
num curto haicai.
Ataualpa - 29/06/2010

Em resposta:

No cochilo da moça
sob olhar adormecido
tua face repousa.
Nathalia - 27/07/2010


*Por Ataualpa Pereira e Nathalia Melati.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A volta

Texto pessoal e sincerista

Dia desses tava assistindo a um filme, um documentário feito na Ilha de Cuba, retratando a vida de dez pessoas. Seu dia-dia, seus sonhos, seus medos. Numa das últimas cenas, uma moça diz: meu maior sonho é viajar pra poder voltar.

Isso de "poder voltar" demorou a fazer sentido na minha cabeça. Porque voltar costuma ser a parte menos esperada de viajar.

E então meu namorado precisou viajar. Dez dias longe do lugar ao qual ele pertence, ou seja, meu peito. Tudo bem, a ladainha da distância vocês já conhecem, já postei meu lamento nesta confraria anteriormente. Mas o que me chamou a atenção, dessa vez, foi justamente a volta.

É que eu entendi o que ela quis dizer com "viajar para poder voltar". Entendi do meu jeito, do jeito que me interessa, obviamente. Entendi que muito embora a ausência seja terrível e tenha doído todos os dias, quando ele voltou foi...glorioso.

Ele voltou com um livro de tiras do Snoopy pra mim, com uma dedicatória tão certeira que, na hora, me tirou o ar. Ele voltou com a barba por fazer. Ele voltou com tanto amor no abraço que me deu vontade de não sair dali nunca mais. Ele voltou com o olhar faminto.

Entendi o quanto voltar é magnífico. Pelo menos pra mim foi. Matar a saudade dos cheiros, redecorar os gestos, recuperar os sabores...e ficar com uma canção de retorno na cabeça por dias, e dias, e dias...ter minha casa de volta.

"Você voltou, meu amor, alegria que me deu..."

domingo, 25 de julho de 2010

Último Beijo

Morteiro, cruel, veneno lento
Ficou o fel
Lábios sedentos
Um dia mel
Quem terá o antídoto?

Covardias à parte
Despedida é a arte de deixar peito aberto
A gritar por razão
Quem será o bandido?

O tempo gasto nas horas,
A vida sem direção
Até encontrar num sorriso
Aquele que virá como antídoto
Que nem mocinho, outrora ladrão
A roubar um coração aflito.

sábado, 24 de julho de 2010

Autoajuda

Circulam por aí pelo menos 238 mil manuais de orientação comportamental relacionados ao amor. O sucesso da autoajuda, que nada mas é do que a ajuda de quem escreve, é prova de que o povo anda meio desorientado na atitude de amar.

Também, pudera! Não é nada fácil conciliar orientações populares como “você planta o que você colhe” com outras mais modernas, tipo: “ame primeiro a si próprio” ou ainda “o segredo é cuidar do jardim que as borboletas se achegarão”.

Muita coisa mudou desde a época dos nossos avós, mas um desejo continua intacto em cada ser vivo financeiramente independente (ou não): encontrar a tampa da panela, a batida perfeita, o par hollywoodiano, o amor da sua vida.

Esse ideal romântico, que costuma excluir as imperfeições, está presente no íntimo de cada pessoa emocionalmente ativa, inclusive daqueles que negam veementemente a monogamia e a capacidade humana de cuidar do próximo.

Mesmo após inúmeras desilusões, o desejo pelo par perfeito costuma ganhar uma sobrevida unida à esperança de encontrar, materializado em outrem, a paz, o carinho e o respeito de que se acham merecedores.

Dentre os 238 mil manuais podemos pinçar um interessante, que diz mais ou menos assim: “não espere a ação do próximo para fazer a sua parte”. Resumindo: se quer mesmo uma boa tampa, pode começar sendo uma panela perfeita.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Haicais*

Não deixe escapar
quem faz cócegas em tua alma
no jeito de olhar
Ataualpa - 22/04/2010

Quando o tempo estica
até quase rebentar,
só a saudade explica
Ataualpa - 25/05/210

Amor arriscado
terá para sempre o gosto
dum beijo roubado
Ataualpa - 27/04/2010

É na pele quente que
se lê nas curvas
leve sombra do toque.
Nathalia

Em resposta:

Os toques ecoam
pele adentro a badalar
no peito, ressoam.
Ataualpa

*Por Ataualpa Pereira e Nathalia Melati - um casal romântico e, por isso mesmo, muito bem vindo a essa confraria.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Amor, estranho amor

Avassalador
Chega sem avisar
Toma de assalto, atropela
Vela de incendiar
Arrebatador
Vem de qualquer lugar
Chega, nem pede licença
Avança sem ponderar

(Lenine)


O amor é injusto! É sim! Quando ele vem, vem de uma vez, nem sempre avisa ou dá sinal. Quando menos se espera, surge como quem estava à espreita em uma esquina escura, talvez por isso digam por aí que o coração tem esquinas, algumas escuras. Esse amor ora ou outra, assalta o coração das pessoas deixando imensa sensação de vazio e impotência, isso mesmo, aquela sensaçãozinha, de “nada”.


O danado tem características boêmias, pois surge, de repente, sem escrúpulos, de encontros fugazes, em mesas de bar, de bebedeiras despretensiosas e de amistosas partidas de sinucas. O amor é bandido, rouba a estima de mulheres gostosas, transforma brigões em diplomatas dando sumiço em suas fúrias, faz com que os rudes e grosseiros machistas abram mão de suas heranças culturais entre outras coisas que somem sem que percebam e que o amor responde a processo sendo o principal suspeito.


O amor tem lá suas excentricidades, é estranho ver carros de mensagem soltando fogos, emitindo mensagens e produzindo constrangimentos, mas os casais continuam fazendo isso e a culpa é de quem? Do amor. Bilhões de pessoas riem, acham um mico, criticam, fazem chacota, mas estranhamente as declarações inusitadas, namoros virtuais, casamentos à distância e filmes como “A walk to remember” continuam a fazer sucesso e quem não quer amor? Eu hein, estranho.


O amor deixa as pessoas confusas, ansiosas, produz “borboletas no estômago”, provoca taquicardia, tira o fôlego, dá ausência de razão e em alguns casos causa fraqueza nas pernas e dizem que não tem contra indicações. Além disso, mata e permite que sua vítima continue a viver.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Dicionário da mulher – Verbete: Pé na bunda

ou "A dor útil na Era dos alphadogs desleixados"

E agora me dirijo aos românticos peões, raça perseguida pelas “amazonas bem querer”. Temos culpa no cartório dos relacionamentos afetivos. Assumamos: o amor rejeitado é nosso calcanhar calejado véi de Aquiles. Oferecemos asilo político em nossos corações para as autoras dos melhores pontapés que levamos. Não se sinta mal, é assim mesmo. No creo que seja por culpa da mazela contemporânea da baixa auto-estima.

A angústia é compartilhada por quem desfere o golpe mortal do “fuera, hasta nunca más”. Sem querer vitimizar a vilã, mas há aquele chute que elas dão com o coração amargurado, sem nada daquela história de ser superiores. O sujeito pode ser jogado para escanteio no primeiro flerte ou mesmo depois de anos de relação, mas a razão é a mesma: ela quer que você reaja, hombre!

No primeiro caso, recomenda-se a mudança de abordagem. Não se perca falando do tempo se pode se concentrar nos lindos olhos dela. Pra que perguntar se ela vai sempre ali se uma boa pegada no corpo dela é bem mais eficaz? Seja mais cowboy, nesse velho-oeste da conquista.

Se você já a teve, mas a rejeição veio, te aconselho: o que a dama nada mais almeja é que usted retorne a ser o valente príncipe que outrora se dedicava a torcer pela promoção dela no trabalho, que se interessava em saber qual comédia romântica ela mais gostava ou quais sentimentos só a pobrezita sente quando está nos dias da nefasta TPM. Confesse, seu leso. Andaste achando que jogo já estava ganho e, inesperadamente, pegaste uma tremenda bola nas costas, uma virada triunfal.

Canalha, não fique cabisbaixo. Após a criação desta Confraria, passei a ser mais consultado pelas amigas - sim, amizade com mujeres é coisa de macho sabido - sobre as diversas facetas dos relacionamentos. Virei um conselheiro amoroso. E num momento destes de ouvidor de casos românticos, recebi de uma amiga a pedra filosofal dos enroscos: precisamos de um belo "lava" para tomar tento.

Ela te derrubou do castelo da indiferença exatamente para isso. Acorda, diacho! O que a perseguida quer é um amante mais arretado e que a procure com o melhor papo que tiver pra tê-la de nuevo.

E daí tiramos até um agrado: por vezes a rejeição que ela nos oferta é tão lírica, tão bonita de ver que, cá entre nós, é até afrodisíaca. Nada em exagero, é claro. Não seja capacho, por que aí já era. Mantenha-se o alphadog desta matilha. Se é a primeira frescura que ela faz contigo, te acalma. É só um dengosinho do bom, compañero.

domingo, 11 de julho de 2010

UNIDOS*

Meu pulsar. Meu sentido. Meu acalanto.
Teu agir. Teu amar. Teu calor.
O meu e o teu juntos.
Meu braço na tua cintura, meu envolver no teu.

Tua cabeça no meu ombro e minha respiração nos teus cabelos.
Meu olhar perdido no teu olhar.
Unidos. Onde fica o meu e o teu?



*Por Daniel Amaral (Romântico assumido e sempre bem vindo à esta confraria)

sábado, 10 de julho de 2010

Diálogos de um sacoleiro da fronteira entre o amor e libertinagem I

Ela me olha, mas tem medo. Sei que ter cara de sacana e é tão perigoso na proporção que atraente.

- Mas você vai lembrar de mim amanhã?
- Nem a pau.
-Ah, você não devia fala assim...
- Tu prefere a mentira?
- ...
- Vamos?
- Tá. No teu carro?
- De quem mais seria?
- ...
- Te amo mais do que ninguém. Hoje.

Às 5 horas da manhã, demos um beijo caloroso. Em seguida, ela ouviu com atenção as orientações de onde o ônibus passa pouco antes de receber os cinco reais. Melhor e último gozo da vida. De lembrança pra mim, deixou um escapulário.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Epitáfio










Amou
Intensamente
Cada amor, cada paixão
Como o último momento
A derradeira estação
Amou
Desenfreadamente
Sem freio, sem direção
Cada livro, cada presente
Todo poema e canção
Amou
Total e lealmente
O que mais tinha admiração
Deus, amigos e parentes
Num só puro coração
Amou
Assim e desesperadamente
Os teus olhos de emoção
Que a deixaram contente
Mesmo dizendo-lhe "não"
Amou, enfim
A vida docemente
Por ver em ti uma razão
A mais, para seguir em frente
Para viver, feliz, completa
Então.


Thaís Carvalho

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Meu benzinho

Poucas coisas caracterizam mais um relacionamento do que os apelidos trocados entre as partes que se amam. Claro que isso é coisa íntima. Sozinhos no escuro do quarto, vivendo as delícias do amor conjugal, nada mais natural que soltar um “bebê, amorzinho, docinho de coco, ursinho” e por aí vai. Se é brega ou não, o coração é quem sabe. Eu não julgo.

Mas se há um momento em que os apelidos podem gerar uma cisão e virar uma agrura do amor conjugal, é quando naquele instante de besteira que Deus dá uma das partes chama a outra pelo apelido em público. Se é a moça chamando seu namorado de benzinho na frente das amigas, surgem risinhos de canto de boca e prováveis AAAAWWWNN. Mas e quando é o rapaz que, sem querer, chama sua outra parte no mundo de jujubinha na frente d’Os Caras, a raça mais aterrorizante a habitar a Terra?

Claro que o incauto vai virar alvo de piadas, como se ser macho-alfa dominante e ser carinhoso fossem mutuamente excludentes. O que Os Caras não entendem e, enquanto forem Os Caras nunca entenderão, é que manifestação pública de afeto nunca será ridículo. Assim como escrever cartas, dedicar poemas ou, para os que gostam, dar e receber flores (não é o meu caso). E demonstração pública de afeto não é prerrogativa, direito e obrigação feminina, não senhor. Manifesta amor quem sente. Claro que não é nada agradável ver um casal que se ama se amando o tempo todo, 24 horas por dia. Claro que há os momentos de intimidade, que devem ser preservados não por serem bregas, mas por serem íntimos. Afinal, quem aqui nunca agiu diferente, nunca disse um apelidinho, nunca usou um tom de voz mais ameno pra sussurrar ao ouvido de quem ama antes de adormecer? Faz parte da magia de ser do outro e ter o outro.

O problema do macho-alfa dominante que tem uma namorada é a referência de uma outra vida que Os Caras trazem pra ele: "eu xingo,eu cuspo, eu coço o saco, eu bebo cerveja, eu pego gatinhas enquanto você tá aí chamando sua namorada de pitelzinho". É pesado. Mas se há amor, há resistência. E a resistência é doce.

Apelido tá dentro do pacote “ser namorado de alguém”. Assim como os momentos de estar junto a sós, sem Os Caras por perto. Assim como uma ligação depois de um dia duro pra saber como estão as coisas. Assim como todas as pequenas magias que o amor conjugal traz.

E quanto Aos Caras, deixe que descubram o amor, ou voltem a amar. A namorada vai chamar de Suricatinho na frente dos outros e ele vai achar lindo. O dobro ou nada.

*Mas, afinal, quem são Os Caras, essa raça tão temida? Ora...Os Caras são os amigos solteiros, claro. Quantas moçoilas já ouviram um "amor, não fala assim na frente d'Os Caras"...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Tratado Geral do Ciumete – Parte IV: o telefonema embriagado

“Pelo amor de Deus, tira o telefone da mão deste sujeito”, berra a voz rouca da consciência do bêbado recém-pénabundado. Este grilo-falante sabe bem o poderio bélico de mierdas que o hombre alcoolizado pode desferir durante o choro para a ex-mulher, mas que, no entanto, surge na mente do lascado como atual único amor possível para esta vida.

O indignado resolveu ouvir os conselhos dos amigos, aqueles que disseram “se você ficar em casa é pior”, “mulher é que nem biscoito, vai uma vem oito”, entre outras máximas da auto-ajuda de cabaré. Saiu para a caça. O resgate daquele macho alpha de antes, porém agora domesticado por aquela que a pouco o abandonara.

Para ajudar nessa hora, todo favor é de bom grado. O sujeito desprezado resolve que é hora de recuperar o fluído corporal perdido em formato de lágrimas. E se assim for, que seja restituído com líquidos nobres. Ele chama para se composição da turma os velhos esquecidos Johnnie Walker – velho parceiro de andanças, José Cuervo – chicano invocado, mas chegado, e Vô Luiz – este ancião canalha.

Tudo pronto: que comecem os jogos entre varões & princesas, noturnamente repetidos todos os dias. Ele está de volta! Está nos vaivens mais uma vez! E quer se perder na covinha de algum sorriso convidativo... Recebe as atualizações em relação às gírias e parte pra vida mundana com confiança de quem já foi bom no esporte.

Eis que leva a rasteira do destino. Um golpe nas partes baixas da auto-estima. Ela está ali! Bebendo despreocupações e sorrindo “falta de remorsos” para quem quiser apreciar. E a malvada não está só, tem um brucutu a tiracolo. É o sopro de uma turbina de avião no castelo feito com cartas de baralho que esse abestado montou para se enganar. Ainda a ama, não resta dúvida.

Nada vai animar o nosso herói. A partida foi perdida num xeque-mate pastor. Desgraçada! Entre os instantes em que ele apaga numa amnésia alcoólica e dorme de vez, o judiado rapaz vai procurar o telefone. Quer ouvir da voz dela que já não o quer. Não o julguem, ele não faz ideia de que qualquer uma das respostas possíveis para esta questão o machucará como nunca.

Apesar de ter apagado o número dela da memória do celular, da memória do coração aquela combinação numérica ainda se mantém bastante viva. Caros confrades, é nessa hora que se faz o teste final do anjo-da-guarda do cristão: é torcer que o iPhone – presente do último Dia dos Namorados juntos – tenha caído de bateria até a ressaca do infeliz passar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Saudade

Dos temas mais saudosistas relacionados ao amor, arrisco a dizer que o mais intrigante e ilegal é a saudade. Dependências mil, essa deveria ser considerada a primeira calamidade pública, é o vício em crack de uma sociedade carente.

Até agora não ouvimos falar em clínicas de reabilitação ou terapias em grupo, nada de campanhas preventivas no combate a essa dependência, só se vê apologia: das músicas sertanejas a arte de Fernando Pessoa. Definitivamente fomos deixados de lado por sermos portadores de doença sem cura.

Não existe contraveneno e nem pesquisa em Harvard, o que nos resta é a total ausência de esperança e um fato: a saudade sempre vence. Ela vence o mais forte orgulho, derrete corações de pedra como se fosse algodão, é droga forte e um caminho sem volta.

Porém, pouquíssimos ingredientes são tão fundamentais para o crescimento do bolo amoroso, quanto o fermento saudade. A boa dica para quem se dispõe a enfrentar os desafios da vida a dois é: domine o vício, use doses moderadas em dias variados, isso pode ajudar na regulação do sistema bioamoroso (como eu disse, não existem pesquisas).

Ora vilã, ora mocinha, a saudade tem sido os radicais livres do nosso amor, pode ser boa mesmo possuindo o poder da destruição em massa. Nosso consolo é o de nunca termos presenciado um óbito por motivo saudade.

domingo, 4 de julho de 2010

Eu faria tudo novamente*

O que seria impossível? Sem exageros, penso em nós assim, invencíveis, fulgentes, sonhadores de algo que sabemos que sempre será mais forte do que nós dois, mas que mesmo assim queremos, imploramos aos nossos corações, cansados de sentir e dançar com a saudade dos nossos momentos, doce, breves e tentador que compartilhamos.

Eu seria um egoísta em te querer sempre em meus braços? Seria eu, quem te acordaria todas as manhãs com fogo da paixão nos olhos para saciar seus desejos? E te abraçaria durante a noite para te provar que sempre pode contar comigo?

Olhe para você, porque deixar sempre uma barreira entre nossos sonhos e desejos? Proponho baixarmos a guarda – pois não sabemos aonde essa estrada vai nos levar. Mas juntos, temos a certeza como nossos corpos vão dizer o que realmente nos fazem falta quando enfim olharmos nos olhos um do outro.

Por mil anos eu faria tudo novamente, caminharia em cada sonho, sempre ao seu lado, sempre te dando a segurança, e deixando fluir os desejos que ofuscamos com desculpas para não nos envolvermos ainda mais nessa loucura chamada “Você e Eu”.

*Rodrigo Torres - o mais novo colaborador desta confraria.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dicionário da Mulher – Verbete: O andar


Este pretenso glossário sacana’cadêmico aborda para os visitantes desta Confraria outro ponto marcante no que se refere às mujeres: o andar da donzela. Sim, sei que não é tema dos mais novos. Muito pelo contrário, o assunto já foi, é e sempre será pauta exaustivamente destacada em mesas-redonda de assuntos mulherísticos. Existem sujeitos que aprenderam a arte do assobio apenas para louvar a arte do passo-a-passo feminino, com um melodicamente perfeito “fiu-fiu”.

Com um caminhar bem executado, a cabrocha pode hipnotizar inúmeros pedreiros, gerar engarrafamentos e acidentes automobilísticos, danificar pescoços despreparados e provocar beliscões em maridos durante o passeio com suas digníssimas. Estamos falando de uma arma de destruição em massa de corações mundanos. De um semeador de sorrisos honestos & sacanas.

O andar é tão poderoso que serve até como afrodisíaco. Caros leitores acanhados, peço que não caçoem dos machos que se deliciam em servir de tapete persa para a amada durante os imbróglios sexuais. Tara é tara e cada um tem a sua. E esta nem é das mais estranhas, a de se convir.

Uma das belezas de exaltar o andar é que ele nunca é igual, tal qual uma impressão digital. A linda pode andar devagar, rápida, ou nem devagar e nem rápida. Pode ter passos firmes ou tímidos. Passadas largas ou encabuladas. Com requebrado nas velocidades “mínimo”, “médio” ou “britadeira”. Tem aquelas que caminham com os pés simetricamente alinhados, outras andam com o relógio apontando “dez minutos pras duas horas”.

Só sei que gosto de observar. Gosto de adivinhar tudo através do andar. Se ela é ciumenta ou se lê de livros de auto-ajuda. Se ela se entrega aos amores, ou se leva a profissão acima de qualquer outra coisa. Se ela chora em filmes da Meg Ryan ou se gosta de ouvir Beirut. Se ela tem potencial para uma paixonite arrebatadora ou se é o tão esperado amor desta encarnação.

Desculpem leitoras, mas não é uma superstição. É um dos critérios que nós homens utilizamos. Uso este juízo todo dia. Fico olhando e olhando até o dia em que chego para pretendida com a legítima dúvida: “Como será que fica se andarmos de mãos dadas?”

terça-feira, 29 de junho de 2010

A beleza que só eu vejo


Você é um lírio do campo
Não precisa de vestes
Adereços, maquiagens
Ou qualquer esforço
Porque foi feita bela

Contemplar-te
É agradecer
Por tão profunda beleza
Formosura que se estende
Além dos que os olhos
Podem ver

De todas as ervas do campo
A sua dança é a única
Que balança o coração
De um simples qualquer
A passar

Tua simplicidade
Encanta e reluz
Desnorteia e produz
Sentimentos fidedignos

Você é um lírio do campo
E todos os seres vivos
A sua volta
São meros expectadores
Encantados com profunda beleza

A água e a terra
Alimentam-se da tua graça
Expandindo alegria
Florescendo
Tudo a sua volta

O sol fica grato
De poder iluminar-te
E chora sempre
Que tem que partir
Corando o horizonte

O vento sopra
Carinhosamente
Esperando mais uma vez
A mais bela dança
Da mais bela flor

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Homenagem de cumpleaños a el muchacho de la Confraria Helder Junior

O Helder fica de muito bom humor quando está de pileque; tem opinião inconstantemente formada sobre tudo; é o cafajeste-pseudo-romântico-assumido da Confraria; que há dois anos me promete enviar a monografia para correção, que adora um abraço, que não curte emprego público, que não perde a oportunidade de dar uma cantada, que é São Paulino, que detesta meus namoradinhos. O Helder também não toca Raul e ainda tem aquele problema...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Escolha













Um poema antigo com um assunto atual...

Ter no peito uma dor que é a cura
Ou uma calma que parece com tormenta
Possuir o sentimento que o poeta mais procura
Ou a paz do desamor, daquele que não tenta.
Basear o dia-a-dia na esperança de um encontro
Que talvez nem aconteça, mas com o qual sempre se sonha
Ou simplesmente viver, sem nenhum confronto
Não ter dor de cabeça, nem ciúme, nem vergonha.

Estar atado a uma pessoa que nem sempre se envolve
Ou desfrutar a liberdade de um peito sem amor
Querer uma emoção que a tudo absolve
Ou preferir o desapego, seja a que preço for
Ficar contente com um simples cruzar de olhares
Ou viver cada dia à espera de aventura
Acreditar que existam realmente almas pares
Ou crer que é em vão toda essa procura.

Sofrer, amar, sentir, querer, atar
Estar alegre por ser mero sonhador
Ou não querer o abrigo de um olhar
Ou não querer o martírio de um amor
Qual será a escolha mais correta
Ter no peito tanto amor cheio de brio
Ou um coração vazio de poeta?
Ou um coração de poeta vazio?


Thaís Carvalho

sábado, 19 de junho de 2010

Nota de pesar pela morte do Amor

Expressamos todo o nosso pesar pela morte do sentimento que nos unia em pensamento até então: o amor. Esse inestimável senhor dos corações nos fez companhia por longos invernos amazônicos, promoveu festas inesquecíveis com apenas sorrisos e boa vontade, fez do tímido um tagarela, do playboy um alterna style, conseguiu suprimir todas as dúvidas do universo: do criacionismo a Darwin.

Esse senhor foi capaz de brigar com o mais forte orgulho humano, transformou vidas medíocres, na mais pura representação utópica de felicidade, fez de Hollywood seu parque de diversões e teve verdadeiros guerreiros na luta pela segurança do seu reino.

Mas a morte é implacável! Cruel que só ela... Com sua foice carregada de ganância e estupidez, montou diabolicamente sua estratégia contra seu principal inimigo, foi morte covarde, um tiro pelas costas, hoje ela tripudia sobre os mestres que um dia disseram: o amor é eterno.

Com a sua morte ficaremos a mercê de superficialidades, dependentes de todos os tipos de drogas e seus traficantes, passaremos a viver em um mundo sombrio, sem graça e muito puto da vida. Nosso pesar é imenso, não só por esse senhor, mas principalmente por tudo o que a vida representa.