segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Reencontro*


Confesso que temi, em certo grau, esse reencontro. Não mais do que ansiei, é verdade. Medo da mudança. Das coisas que poderiam ter deixado de existir. Medo da boca não ser mais tão macia, como na minha lembrança. Do encaixe não ser realmente tão perfeito. Da fantasia ter superado a realidade e criado algo que nunca existiu.

Pois bem, medo infundado. Tudo continua como antes. As mãos, com aquela textura que nunca vi igual em outra mão. A boca, que me leva à loucura onde quer que toque. Que beije. E o cheiro.. o cheiro, mais do que tudo, tem me embriagado desde que voltou. Ele sobe pelo meu nariz e envolve, me chamando, me prendendo. Me dizendo: vem ser minha. Quando tudo que eu consigo pensar é, "eu já sou". O que com qualquer outro se torna banal, contigo é quase sagrado. Minutos preciosos, insubstituíveis. Até o gozo se torna secundário, se é pra você que eu posso sorrir quando tudo acaba.

Tudo continua o mesmo. O sorriso maroto. A risada engraçada. O abraço apertado. E principalmente, a inatingibilidade do teu 'eu'. Tudo lá, exatamente como eu deixei um ano e meio atrás. Nada mudou, até mesmo o fato de você me querer apenas por algumas horas e nada mais.

* O excelente romance ( 2009) é de Jéssica Ramos, a blogueira do: Inconstante.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Palavras não ditas









Pelas palavras que ainda surgirão

Promessas de amor ou rompantes de razão

Já não se sabe mais o que pronunciar

Cada palavra pensada

É outra deixada no ar

Pelas palavras que ainda não balbuciei

As que esqueci, as que escondi, as que 'inda hei

De um dia quem sabe revelar...

A todas elas... por todas elas...

Espero o tempo correto, exato

Pra falar... ou então...

Calar se for preciso

Num olhar, numa lágrima

Ou, melhor ainda... num sorriso.


Thais Carvalho

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Breve Despedida

Amado, amigo, amante. Amado amigo amante.

Já amanheceu aqui, nesta terra distante que é meu quarto. Nesse quarto vazio de ti. Já amanheceu e eu não durmo, por esperar esse amanhecer frio que me traz remotas lembranças de um tempo só teu.

Há tanta força aqui, não vê? Há carinho e cuidado, há o sopro eterno do amor que lhe dedico assim, à distância, essa distância breve e avassaladora que impus para não te perder em definitivo. Há o perdão pelas palavras duras que disseste, sei o que te assola, conheço teus caminhos. Como haveria de não perdoar? Há dores imensas, ora, aceito a condição humana. Mas há um bem-querer de sempre, a ti e a mim. Há sempre fé.

Pequenas magias, eu sempre disse, lembro-me com clareza. Sinto teu sorriso antigo como se fosse de ontem, por que te escondes? Sai desse canto obscuro, vem caminhar comigo em silêncio. Vem ver quanta vida tem lá fora e aqui dentro de mim. Não te prives de mim, é o que te peço em súplica rascante. Mas não me devaste o peito assim, sem reserva. Não te insurjas contra mim com o peito aberto à morte e a face aberta ao tapa. Não me venhas como animal sangrando de feridas velhas. Tampouco me julgues por buscar verdade na vastidão do meu coração. Sei a medida exata dele, aqui não há sobras.

Amor meu, deixemos de nos lanhar por alguns pequenos instantes, para que a Divina Providência me mostre que não lutei por guerras vencidas, de tempos imemoriáveis. Para que eu saiba que meu prêmio de consolação não há de ser o desapego. Não, não estou a abandonar-te, nem a mim mesma, estou deixando em suspenso aquilo que me é mais caro, o tempo nosso, paro o tempo no tempo em que ainda temos um ao outro, antes que a chuva termine por levar de nós o que é só nosso, antes que deixemos de ser só um...inelutavelmente.

Amado amigo amante...vou me deitar à sombra. Aceite essa breve despedida. Fecho as cortinas agora, mas deixo para ti uma fresta da minha alma. Deixo sobre o balcão a melhor parte de mim, com o aviso de sempre: manuseie com cuidado, existe vida aqui dentro.

Escrito em setembro de 2007

quinta-feira, 13 de maio de 2010

conto

Ele a pegou em seus braços, deu-lhe um longo e profundo beijo, daqueles onde se sente a despedida como uma troca doce de sentimentos confusos e amedrontados pelo desconhecido. As pernas tremeram, mas o corpo forte daquele homem lhe dava base para se sustentar, ela sabia que aquele momento poderia ser o ultimo junto ao corpo do seu amado.


Ele a olhou nos olhos e disse “eu era como um pássaro, estava sempre a voar livre sem nenhum vínculo com a terra, mas depois que te conheci, as minhas asas passaram a ter somente uma direção, que é voar sempre para você, assim como meu coração”.


As lágrimas corriam em seu rosto, como ladrões no camuflar da noite esperando o momento certo para atacar. Ela sabia que a única forma dele a deixar, seria lutando em uma guerra, sabia que cedo ou tarde, aquela guerra poderia alcançá-la, logo, ele jamais permitiria isso.


Aqueles passos em direção a porta eram escoltados pelas batidas fortes do coração dela, era desesperador ver a única pessoa de sua vida partir, era como de repente acordar sem metade do corpo.


Quando ele abriu a porta, ela não agüentou. Correu como uma criança perdida que acaba de encontrar seus pais em meio a uma multidão. E o abraçou, entranhando suas unhas no grosso casaco, apertando suas pernas nas dele, juntando cabeça com cabeça numa perfeita união de corpos, que só acontece no abraço.


Numa ultima tentativa desesperada ela disse “você já perdeu essa guerra, pois quando você sair por esta porta, eu já estarei morta. Se você pretende morrer por mim, que seja ao meu lado me protegendo e assim, se o inimigo o acertar, estarei pronta para ir junto com você”.


Ele deixou a arma cair, e um vento forte e impetuoso entrou escancarando a porta rente aos dois, ambos olharam para aquela cena. Aqueles longos e lisos cabelos loiros aterrissaram sobre os olhos vermelhos de dor, cobrindo uma parte do medo que ali existia.


Ele olhou durante algum tempo para o que tinha além daquela porta, ainda sentindo o corpo da sua amada no seu, virou o rosto de encontro ao dela, tirou gentilmente aquelas mechas loiras revelando lindos olhos castanhos, a beijou como nunca havia beijado antes, e em seguida, fechou a porta e tudo que havia fora dali não era nada comparado ao que ficara dentro daquela casa.


Trecho tirado de um conto que escrevi em 2007

terça-feira, 11 de maio de 2010

Anedotas de um momentâneo desventurado outrora amado II – Reduza a velocidade do querer bem

¡Atención, compañeros & compañeras! É chegado o momento de empunharmos o martelo da indignação, quebrarmos o vidrinho do “deixa pra lá” e acionar o alarme de emergência das afeições. Os amores estão cada vez mais voados. Nada contra em apressar o que é bom, mas o estrago reside no enrosco passar mais lotado que os ônibus do Manoel Julião a partir das seis da noite. A denúncia é a seguinte: o amor está cada vez mais fast e menos food.

Os relacionamentos vanguardas seguem o esquema da pirâmide invertida, com lead e tudo mais. Vem tudo logo no começo. Cariños, besos, sexo dos deuses, telefonemas não atendidos, tédio, brigas e término, tudo no primeiro parágrafo dessa matéria. Cabou-se o amor literário. Não se fazem mais histórias amorosas complexas. Tudo que tem pra acontecer, acontece numa lapada só.

Sem saber como, todos os dias temos várias quebras de recordes em velocidade entre o primeiro olhar coisado e a primeira DR. Fica claro que estamos lidando com o dopping da objetividade. A queima da largada do afago. Que pecado...

Minha linda e meu camarada, vos digo: chega dessa pressa. Curtam com mais demora a fase do frio na barriga por não saber o que se passa na cabeça do pretenso cônjuge. Vivemos um dá ou desce do coração tão desnecessário quanto estúpido... Vá devagar, devagarinho como diz o sambista.

Até entendo o porquê desse arreto todo em busca do amor da vida inteira. É bom e queremos logo. Mas cuidado, pois tal qual um carro a 160km/h nas curvas da estrada de Santos, quando se puxa o freio de mão da decepção, a capotagem sentimental é inevitável.

domingo, 9 de maio de 2010

O Calendário

Ganhei um belíssimo calendário, fruto de uma viagem que uma amiga fizera a África. Seu presente decora a pálida parede amarela do meu quarto e o formato requer que todo mês eu vire sua página verticalmente, e mude a foto ilustrativa.

O fato é que essa mudança está sendo cada vez mais rápida. Em instantes o filhote de leopardo deu lugar ao gigante elefante, e não me lembro de em nenhum momento ter consultado o fim de semana de lua cheia, ou que dia era 14.

O exercício de escrever sobre coisas tão complexas (e que de antemão me considero ignorante) como relacionamentos, paixão, amor e a busca da felicidade, tem me feito desenvolver uma qualidade essencial: a atenção.

O estado de alerta está acionado! Vejo os detalhes das mãos dadas, a resposta ríspida do casal em crise, as premonições dos especialistas em relação alheia, a beleza do romantismo na praça, os dias que passam voando, e observo ainda, com ar de desaprovação, a senhora Rotina com sua fantasia de morte.

Mas o alerta tem andado junto com a paciência, com a sabedoria adquirida de que tudo, de uma forma ou de outra, acaba se ajeitando, de saber que as soluções fáceis não existem e que cada minuto tem seu valor.

Ao perceber que tudo é feito de pequenos grandes detalhes, faço a opção de digitalizar cada pensamento, memorizar intenções e tentar de alguma forma transmitir emoções. Não posso prever quanto tempo durará esse estado de alerta, ou até quando cultivarei a sábia paciência, mas ao compartilhar idéias, aprendendo a utilizar os mais variados métodos e linguagens, tenho a impressão de que presencio, na verdade, um estado de espírito.

Nesse instante volto ao calendário, e folheio as figuras dos meses anteriores, por sinal, todas muito belas e diferentes. Descubro assim, que por mais que a velocidade do tempo me assuste, nada impede que eu recapitule os meses anteriores, admire, e logo após volte ao presente.

sábado, 8 de maio de 2010

Monólogo

Antes de você sair deixa só eu te dizer umas coisinhas, bobagenzinhas à toa, mas que preciso dizer antes que você feche a porta, para que depois você não precise voltar ou para que eu não precise te procurar [não que isso vá acontecer, é claro]. É só que, apesar de tudo, eu amei você incondicionalmente. Não, não precisa me olhar assim, eu sei que nos expulsamos da vida um do outro e não há mais retorno. Mas eu te amei sem medidas. E vou sentir falta de você sapateando com o meu juízo, fazendo do meu coração o seu brinquedo favorito. É verdade, sim. Tudo bem se você não acreditar, eu pesei tudo na balança e assumo a parcela mais salgada de culpa. Não, não é demagogia, me deixe ao menos terminar, eu quero poder acertar ao menos agora. Assumo o erro agora na sua frente e na frente de quem mais quiser ouvir. Mas isso jamais mudará o fato de que teu cheiro fez casa em mim, e tampouco pretendo me livrar dele como você está a se livrar de mim assim, com tamanha facilidade e desapego. Deixa eu te dizer que nunca mais vou dormir sozinha, porque você vai continuar a dormir comigo por noites e noites a fio. Não, não é mais uma historinha minha, não choro para angariar tua piedade, não precisamos disso, no fim das contas. Só preciso te fazer ciente de que não terminou pra mim, esse amor devia ter durado anos e eu ainda acredito nisso, muito embora tenha a certeza de que você jamais vai me tocar de novo. Deixa só eu te pedir para me cumprimentar se a gente se esbarrar por aí, um olhar, um aceno de cabeça, um esboço de sorriso. Não precisa me julgar pelo que fiz, já recebi condenação. Mas também não precisa fingir que nunca me amou, assim desse jeito que você tenta fazer agora, afinal eu conheço todos os teus caminhos. Ah, como pude esquecer? Deixa eu te avisar que essa porta nunca estará trancada, e as janelas permanecerão abertas de par em par, e essa persiana verde vai espiar as ruas todos os dias, de manhã bem cedinho, esperando você voltar. E você sabe, isso eu não preciso dizer, você sabe que pode voltar a qualquer hora, mesmo que não seja para sempre naquela eternidade de momentos que costumávamos forjar. Você ainda tem meu telefone, não tem? A gente pode só conversar. Por favor, não dê as costas pra mim, espera só mais um pouco. Não esqueça de avisar pra próxima garota que você gosta de capuccino forte, que dorme de meias brancas e limpas quando chove ou faz frio, pede pra ela tirar a poeira da sua casa todos os dias, cuida dessa sua alergia. E avisa, antes de tudo, que você não quer ser pai, não vai decepcionar a menina quando ela já puder odiá-lo. Anda sempre com um casaco na mochila, ninguém sabe quando vai chover. Incrível como continuo a tomar conta de ti, não acha? Não esqueça o aniversário dela, ou o aniversário de namoro, faça com que ela se sinta a mulher mais amada do mundo todos os dias. Do jeito que você fazia comigo. Do que você está rindo? Você fazia isso, não se lembra? Costumava deixar bilhetes pela casa, ou uma orquídea na minha mesa de trabalho sem motivo aparente, só porque me amava muito. Ainda tenho uns bilhetes guardados, olha que coisa. Tenho todos guardados, na verdade. Do primeiro ao último, uns cinco anos de história que vão para um baú. O que foi que eu fiz da gente, por Deus do céu? Como pude me forçar a me lanhar sem ti? Como pude te forçar a me deixar assim, feito nau à deriva? Não, não te preocupes, não vou chorar mais. É certo que vai doer, de uma dor diária e sem tamanho, mas a gente sobrevive, não se morre mais dessas coisas. E talvez eu não me acostume ao silêncio angustiante que produz o som de uma casa vazia de ti, mas posso colocar nossa música sempre que for preciso. Lembra dela, né? Você cantou pra mim depois daquele show, o bar vazio, não consigo tirar o retrato daquela noite da minha cabeça. Também acho que você não vai esquecer, mas parece presunçoso dizer isso, por ora devo silenciar meus pensamentos e deixar você ir. Desculpa, não dá, parece que vem tudo contra mim, em ondas, e nada conspira. Por Deus, não consigo me calar. Deixa eu te dizer que eu ainda te amo, muito mesmo, talvez agora mais do que sempre, e não é por estar te perdendo, é por saber que é irremediável. Deixa eu te pedir perdão por tudo e por isso, será que você consegue me olhar sem me odiar? Será que você pode amenizar esse peso, só um pouquinho assim, pra ver se eu consigo respirar? Isso, senta aqui do meu lado assim, não me deixa morrer agora, não sem antes saber que você me perdoa. Me perdoa então? Ah, que bom, isso muda um pouco a perspectiva. Acho que você já pode ir agora, agora que já falei tudo e você ouviu direitinho. Ou pode ficar, se quiser, claro, ia me fazer muito feliz. Você não quer ir agora? Não? Então fica aqui, fica assim, fica mais, fica pra sempre se não for incômodo. Quer me dizer alguma coisa, falei feito doida, não te dei espaço pra nada. Quer tentar mais uma vez? Só uma mísera vez, assim? Juro que te deixo ir quando quiser. Posso ficar perto de ti assim, só pra sentir teu calor? Tá frio, faz tanto frio hoje, deita aqui, assim, do teu lado da cama. Deixa eu ficar do teu lado pra sempre, deixa? Tudo bem, agora estou eufórica, deixa eu ir até ali apagar a luz

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Meu amor eterno

Quem lê este fórum social mundial do romantismo, sabe o quanto uso descaradamente este espaço para gabar las mujeres. Sim, destino toda espécime de chamego às minhas nereidas. Apesar de nem sempre bem compreendida, peço a cá permissão para arremedar o mestre Armando Nogueira, considero esta relação harmoniosa. Mas cabe aqui um entretanto.

Certa vez fui diagnosticado por uma dessas amigas/mulheres/amantes das quais tive a sorte de sentir a fragrância no cangote e compartilhar besos na quina da orelha: meus textos abordam com assiduidade a infidelidade, um desvio de caráter do qual fui réu confesso em outras primaveras. Tudo bem, assumo: ainda sou um adepto de carteira e tudo da fuleiragem.

Por isso, peço licença às mulheres, mas hoje vou pular as vossas cercas e vou dedicar esse texto à única que nunca traí: a escrita. Reconheço que, nessa de molecote inexperiente e afobado, já tentei traí-la com a TV ou com o rádio. É a corda que se pega em virtude da profissão de jornalista. A faculdade por vezes emburrica um cabra.

Mas, a fim de me redimir da tentativa fracassada de adultério, revelarei um podre meu: brochei tanto nas relações televisas quanto nas radiofônicas. Falhei mesmo. Minha voz não é adequada, sou assimétrico com olheiras profundas e por aí vai. Não sirvo para elas. Mas mesmo assim, como quem ama do vera, a escrita me recebe de volta sem empunhar nem o categórico rolo de amassar pão e diz sobre mim: “Pobre abestado, tenta flertes fracassados e no final volta pra mim.” Nessa relação o dominado sou eu.

Todos os dias, a escrita prova que sou dela, apesar de no meu íntimo saber que nem sempre ela é só minha. E nem pode. Tantos outros em sua companhia chegam ao gozo literário. Mas não vejo um que seja com ela o tipo canalha. Isso me conforta, sabe? Nem mesmo o cafajeste dos cafas, outro mestre, Nelson Rodrigues ousou zombar dela como fazia de noivas, moças de família e demais engraçadinhas.

A escrita é quem aluga a gente, meu povo. Experimente escrever algo errado e mostrar para algum metido a sabichão. O esculacho vem na hora. É a chacota gramatical. Ela é cruel, pois se com ela gorar, ri alto na tua cara. Mas ela pode. Ela deve.

Peço licença, mas aproveito o texto para mandar um recado a essa amante eterna: Escrita, eu te amo. Sonho em viver de ti. Pra ti. Fique tranquila, não serei mais besta e tentar te trair, minha cara. Escrita, quando você chegar em casa, antes de deitar sem culpa nenhuma na consciência, dê uma checada na secretária eletrônica. Te liguei e deixei um recado com a voz sussurrante: “Amor, hoje, assim que eu regressar da batalha, quero te pegar pelas letras e te fazer mulher.”

terça-feira, 4 de maio de 2010

Reconciliação*

Partido, quebrado, lascado em cacos.
Retalhos detalhados de uma história.
Que conto, reconto e faço meu recanto.
Ah, recanto!
Onde me recolho aos amores.
Tantos ao dia, poucos em anos, enfim, algum?
Agora reparo o que de mim se partiu, sem “mas”.
Junto cada lasca e caco.
Costuro os retalhos e faço outra colcha.
De novo.

*Daniel Amaral (romântico de carteirinha)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A música é alimento invisível.

É incrível como uma música exerce uma intimidade profunda no nosso ser, essa junção de sons vai entrando e se instalam como espiões determinados a atacar na hora certa.

Mas esse ataque não é ruim, não pra mim.

Estava no trabalho quando uma colega começou a cantarolar uma canção que me fez parar tudo que estava fazendo, dar aquela longa e profunda olhada para o horizonte e finalmente fechar os olhos para degustar o momento em que a música me remeteu.

Lá estava eu viajando longe quando fui interrompido por uma frase “eita Isnard, ta apaixonado hein!!”. Abri os olhos, olhei para o lado, e numa defesa rápida e involuntária disse “oxe, cai fora, num posso nem curtir a música?”.

A verdade era que realmente aquela canção tinha ido bem mais profunda do que a minha resposta. A minha resposta era algo superficial, preparada, involuntária. Mas o tocar daquela canção, em mim, era profundo, nada superficial. A música tem essas coisas de fazer a nossa mente suavizar e trazer coisas extremamente intrínsecas.

A música é uma das pouquíssimas coisas em nosso mundo que transcende o material e racional, ela toca diretamente a nossa alma.

Mesmo em meio a alguns problemas e aflições que tem consumido meu pensar, nesse pequeno intervalo de tempo, aquela canção levou-me a momento bem guardadinho em minhas lembranças; piegas, mas lindo, lindo!

Era uma dança onde o visual e a sonoridade situavam juntos uma lembrança perfeita, era como um cheiro que nos leva ao exato momento do ocorrido. Era música para os olhos, balé para o coração. Uma coreografia perfeita.

Agora estava preparado para enfrentar o dia, pois, uma simples canção, cantarolada por uma pessoa com voz de funil, em um lugar de trabalho, tinha despertado sentimentos maravilhosos no âmago do meu ser.


domingo, 2 de maio de 2010

Post-it

A chuva vem fustigando a janela há alguns dias, e tem aquele silêncio morno que invade as persianas. E tem também aquele cobertor bem grosso. Tem o lençol que eu troquei ontem, aquele outro eu já deixei na lavanderia. Tem uma rotina, tem um dia-dia, tem um ser ou não ser que não é de fato. Tem um acordar diário bem cedo, levantar preguiçosamente junto com o sol. Tem um adormecer muito tarde, dormir cansada junto com a lua, que varou a noite no azul. Tem um trabalhar que cansa, e que é bom. Tem um ter você de novo. Tem a nossa música e a nossa cor, na janela, na persiana e no dia inteiro. No teu olho e no meu brinco. Tem tudo aqui, amor.

Cê precisa de outra coisa que não seja só isso?

escrito em novembro de 2007.

sábado, 1 de maio de 2010

eu me rendo

Que todas as minhas forças estejam sempre reunidas para o que é de amor. Que eu seja capaz de me iludir e me decepcionar, para que assim, o mundo acabe e eu me perca por completo. Para que eu ‘desame’, e fique sem chão e teto. E, depois disso, passe a amar novamente, como nunca. Que eu seja capaz de morrer de amor e viver unicamente por ele. Para que eu sinta, em mãos, pele e cabelo, o que realmente vale a pena nessa vida. E que eu continue a amar, hoje e sempre. Que eu me apaixone a cada dia, pelo que é eterno, pelo que é improvável, momentâneo, de pedra ou poesia, simplesmente, porque eu posso. E a amargura de lábios alheios sejam apenas convites para música, e amores partidos, contos de fadas. De mãos dadas com o amor, eu bailo em campos minados, nado por entre tubarões brancos e escalo montanhas de olhos fechados. Que Deus tenha piedade dos que temem entrar nessa dança, dos que se recusam, ou dos que, meramente, não ousam se deixam levar. Isso, porque sou uma romântica - seja das primeiras, décimas ou últimas - e serei até o fim.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ela/Ele - Sandy




Independente de curtir ou não esse estilo musical, vale a pena ler a letra dessa música. Eu a conheci, ouvindo agora há pouco no site da rádio UOL. E gostei da melodia também.



Ela via o mundo
Ele via o mundo

Viam sob a mesma luz
Isso é tudo
E era tudo
Que havia
Entre os dois em comum

Se conheceram
No inverno de 2002
No vento um prelúdio
Do que viria depois

O frio desculpa se fez
Pra ele estender seu casaco
Nos ombros dela

O inverno então se desfez
Quando ela em troca
Lhe deu com o olhar um abraço

Ele era um aspirante a poeta
Ela era inspiração
E pra ele qualquer coisa nela
Despertava uma canção
Ela que sempre buscava
Em tudo um porque
Com ele bastava
Estar, sentir e viver

O tempo voava pros dois
E nem todo o tempo do mundo
Seria o bastante

Os dias
Vividos a dois
Provavam que a eternidade
É só um instante

Ela já quis ser de tudo
E até sonhou
Em ser piloto de avião
Finalmente alcançou o céu
No instante em que ele lhe pediu a mão

Três letras
Ela respondeu
E a mais linda música
Se transformou sua voz

Enfim não haveria mais
Qualquer cabimento de vida
Vivido a sós.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Foto Mensagem


Quando olho para essa foto eu penso:

A liberdade do seu olhar, limpa o coração
Sua fragilidade imobiliza as durezas
Sua confiança é verdadeira
É dependente sempre

Ensina a amar
Necessitando do nosso amor
Não existe hora nem momento
Sorrir e nos faz sorrir

Requer cuidados
Exige atenção
Anseia diversas vezes
Por carinho e afago

Não se importam com a estética
Não enxergam nossas falhas
Exigem sempre
O nosso ser verdadeiro

São livres na consciência
Dependentes na existência
Verdadeiros no agir

São felizes com coisas simples
Não ligam para as crises



Existem lições valiosas quando se observa uma criança, podemos
aprender muito sobre relacionamentos quando olhamos para as
atitudes sinceras e de dependência de um pequenino.

As palavras que não consegui te dizer...

post-it-note


Quando eu disser: Te amo... Pode ter certeza que ele não virá seguido somente por olhos lânguidos e uma cor encarnada em meu rosto.
O meu “Te amo” será acompanhado também de um coração e um corpo que pulsam e te desejam intensamente... Um deseja tua alma e o outro te quer fisicamente.
Minha boca não servirá somente para pronunciar essa declaração. Ela irá querer insistentemente a tua.
Eu não consigo ter somente o meu primeiro e último pensamento voltado a ti... pois todos eles vão ao teu encontro... todos.
Obviamente que até toparia ouvir músicas de mulherzinha com você... Sabe, nem ligo. Mas ao seu lado, seria muito mais prazeroso ouvir Guns, Kansas, Janis Joplin, Led Zeppelin, Queem, Black Sabbath...
Dormir de conchinha não me incomodaria tanto e muito menos me causaria um calor irritante. Não... desde que eu estivesse com você em minha cama.
Jamais deixaria bilhetes com frases floreadas e um “AMO VOCÊ” no final... Meu post it conteria apenas um: “U’re so fucking special” com pingos do café em que eu beberia enquanto rabiscaria essas palavras.
Eu acordo com 70% do meu bom humor, você completaria os 30% para minha total felicidade. Eu não precisaria mais sacanear ninguém para me sentir completa ou satisfeita durante o dia.
O meu aniversário já teria mais graça se você aparecesse... e eu não precisaria ficar resmungando para meio twitter que detesto essa data tão fodida de minha vida. Sério. Você tornaria tudo mais simples e melhor.
Talvez minha TPM não exerceria tanto poder em minha vida se estivéssemos juntos...talvez. De certeza, os sintomas poderiam até diminuir...mas só um pouquinho.
O amor tem dessas coisas, né? Em outros tempos...esperar é uma tarefa impossível. Mas olha, eu estou aqui, com a paciência que nunca tive, te esperando. Acho que você pode considerar essa declaração patética... mas é o que sinto.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Fotolegenda: Pôr-do-Sol*

O dia turbulento passou
Mas deixou seu pedaço de beleza
As dificuldades permanecem
Mas ao contemplar-te
Tenho a luz para um caminho seguro
.
* Imagem cedida pela fotógrafa Bruna Mello

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Românticos - Vander Lee

domingo, 25 de abril de 2010

Cumplicidade



Não eram do tipo de casal que chamasse a atenção. Nem tinham tal pretensão. Viviam “na deles”. Tinham um sorriso no rosto, não de euforia, mas de tranqüilidade. Não se via demonstrações efusivas de afeto, apenas um caminhar de mãos dadas, um afago nos cabelos, um modesto selinho. Os amigos até apostavam no término do namoro. Não há paixão – diziam eles – não há rompantes, não brigam, logo concluíam: não há amor. Os namorados chegaram a saber desses rumores a respeito do seu relacionamento. Ele achou engraçado os outros estarem discutindo sua vida amorosa. Ela não se agradou muito da idéia. Será que falta de brigas significava falta de amor? Não que ela duvidasse do amor que sentiam, pelo menos não até aquele momento.

Tudo isso eles conversaram. E, enquanto os outros estavam certos de que era o fim, eles chegavam à conclusão que era um grande baboseira essa história de brigas ser termômetro para o amor. Não é que indiferença seja sinônimo de romantismo. Isso não. Só que eles nunca eram indiferentes um ao outro. Pelo contrário, era aquele sorriso tranqüilo que carregavam a prova maior da cumplicidade entre eles. O tempo que gastavam juntos, conversando horas, ou simplesmente calados, olhando o dia passar... o entrelaçar dos dedos no dar as mãos...

E para os que diziam que não havia paixão... é porque nunca prestaram atenção no jeito como eles se olhavam! Porque eles realmente se olhavam! E, o que é melhor: se enxergavam.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Palavras nascem do que se encontra cheio o coração

Expressões são reflexos do que somos realmente por dentro

Quer ver a verdadeira beleza de alguém?

Olhe suas atitudes.


Porque é justamente nesse momento, que a pessoa não é uma posição social, não é um cargo, não é uma nomenclatura, não é a beleza que carrega, não é a bela roupa que veste ou carro que usa, ela é simplesmente aquilo que seu coração é repleto. Ela é a expressão do que sempre foi por dentro.


Por isso, a convivência é a melhor maneira de se conhecer alguém, porque justamente no viver, no permanecer perto, que a pessoa deixa cair à máscara da hipocrisia. É na caminhada que se conhece o caminho percorrido, as ruas que vão para o inferno, são asfaltadas de boas intenções, mas as veredas que seguem aos nossos corações são tomadas por atitudes de amor.


Com amor, não há hipocrisia!


Pare de se enganar com pessoas superficiais, coisas superficiais, pois se é disso que você gosta, então é disso que você está repleto. Quer achar a pessoa certa para todas as horas? Então seja primeiramente essa pessoa. Não se pode exigir de alguém, o que você não pode oferecer para a mesma.


Tirando tudo que você é socialmente; formação, status, cargo, emprego, bens. Quem você é? Quais seus sonhos? Não falo de um bom salário, mas, qual seu sonho como ser vivo, que ama, que chora, que sente dor, qual ideal de vida você tem?


Meus sonhos não são muitos para o que é exigido no mundo que temos hoje, almejo cuidar dos meus pais na sua velhice, casar com uma garota com os mesmos princípios que tenho e ter filhos. Só de pensar que posso cuidar e ensinar um pequenino ser, me enche de alegria. Quem já é pai ou mãe sabe melhor do que estou falando.


Palavras nascem do que se encontra cheio o coração, cedo ou tarde a verdade aparece, uma pequena dica queridas leitoras, quer saber se seu namorado vai ser um bom esposo? Da uma olhadinha como ele trata a mãe dele.


Quer conhecer a verdadeira beleza de alguém? Conheça suas responsabilidades como um agente familiar, lá ele não esconde quem é. Tenho amigos que fingem não se importar, mas estão sempre ao lado da pessoa amada, mesmo sabendo que essa pessoa agiu errada, ou simplesmente não se cuida. Assim como existem outros, que carregam um sorriso calmo e uma aparência respeitável, mas nunca abriu o bolso para comprar um remédio para um parente ou mesmo os pais.


Expressões são reflexos do que somos realmente por dentro.


Passei muito tempo da minha vida me enganando com coisas e pessoas supérfluas, hoje, meus investimentos estão nas pessoas que eu amo, porque sem elas, eu seria apenas o cara legal na mesa do barzinho, nas rodas de conversa, no dia a dia de trabalho e posteriormente aquele cara que deita a cabeça no travesseiro e chora por ser um completo vazio.


Reflexão tirada do livro: Lucas 12

Escutava: Fake Plastic Trees - Radiohead (música e escrita, eternas amantes)

Alimento: Nescau com leite.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tempo errado

Aconteceu hoje de novo, sabe? Aconteceu de novo. Eu fico tão mal quando acontece, tão mal, mas isso sempre se repete. Todo dia alguém me vê e pergunta por você. E eu não me chateio por perguntarem, as pessoas não têm culpa de não saber. O que me enerva é que perguntam por você e eu respondo que não sei e daí eles encaixotam a discrição e o bom-senso e sempre perguntam com um ar fingidamente chocado se a gente terminou e eu respondo com o silêncio, talvez um aceno breve de cabeça, mas sempre em silêncio. E então eles começam a discursar sobre como éramos um casal bonito e feliz e, poxa, que pena que não estamos mais juntos, mas desejam que eu fique bem, essas coisas passam e logo eu vou encontrar outra pessoa - às vezes soa como "vá em frente, amigo, não morra, você consegue viver sem ela", como se eu estivesse morrendo de uma doença galopante por você ter me deixado. Outra coisa que me chateia é que quando eles perguntam por você imediatamente me pergunto por você também, porque assim como eles eu não faço a mais pálida idéia de por onde você anda. Ah, não, não me chateia não saber de você, me dá raiva por querer saber. Porque antes eu ainda tinha aquela coisa boba e dolorida de guardar os momentos bons, sabe? Antes ainda tinha aquela coisa de lembrar do dia ensolarado no parque ou qualquer coisa que eu tivesse como feliz na nossa história. E depois veio o tempo da amargura, o tempo de lembrar de todas as infelicidades e mágoas e dores pra ver se eu te esquecia. Depois veio o tempo mais feliz, pelo menos pra mim, que era lembrar de ti apenas como um ponto de referência, sabe como? Quando eu te inseria em uma lembrança minha era mais pra me situar no tempo e no espaço, algo como "choveu naquela noite", dizer "eu estava com ela" era o mesmo que dizer "foi um dia de calor absurdo". E agora eu acumulo todas as lembranças, boas e ruins, consigo me lembrar de cada gosto, de cada gesto, e agora sim eu pareço estar morrendo de uma doença galopante, porque antes não tinha isso de me perguntarem por você todos os dias. Engraçado, sabe do que me lembrei agora? Me lembrei que isso também me chateava no início de tudo, quando ainda estávamos "nos conhecendo e ficando ocasionalmente", passamos bem uns seis meses nessa, e as pessoas sempre me perguntavam por você e o que me dava raiva era porque de fato eu não sabia, você tinha a sua vida que não fazia parte da minha e era tão sua que eu não conseguia sequer imaginar o que você fazia quando estava longe de mim, porque estávamos apenas "nos conhecendo e ficando ocasionalmente" e eu não podia ligar só pra saber que diabos você andava fazendo. E muito embora eu soubesse que você tinha suas ocupações e não podia girar na minha órbita 24 horas por dia, meu coração apaixonado se enchia de delírios conspiratórios e sua ausência doía todas as noites, porque eu me sabia sozinho todas as noites mas não te sabia sozinha fumando um cigarro e pensando em mim antes de dormir. E aí se eu encontrava alguém a primeira pergunta era sempre por você, e eu recalcado respondia "como é que eu vou saber?", ao que ouvia sempre uma piadinha na volta, algo como "é, se você não sabe, quem vai saber?". E foi assim até assumirmos o namoro, e incrivelmente as pessoas pararam de perguntar por você, justo na época que eu queria que perguntassem, porque aí eu saberia responder. Estão no tempo errado, todos eles. Dá vontade de tatuar na testa a frase "NAO SEI DELA", pior é quando vão ao meu/que era nosso apartamento, "ah, ela não mora mais aqui", "por isso está essa zona" e por aí vai, e cada pergunta me traz uma lembrança nova, ainda mais corrosiva que a anterior, só fazendo aumentar a angústia e o tamanho da ausência. Quer saber? Da próxima vez que me perguntarem por ti, vou dizer que você morreu. De uma doença galopante qualquer. "Morreu, não é uma pena?".

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Comunismo virtual

As facilidades que a internet nos proporciona são inquestionáveis, vai desde a economia no telefone ao não enfrentamento de fila pra pagamento de contas. Entretanto, como tudo na vida, há que se estipular limite. Comprar flores on-line?


E quem paga a conversa com o floricultor? E quem paga o encontro casual com a tia distante que dispara: “está apaixonado, hein?” Quem entrega o bilhete escrito à mão?
Pobre dos moços que encomendam flores on-line. Demonstram descaradamente, via IP, o desconhecimento de um significado. Não sabem que esse gesto, por mais que pareça ingênuo, pode revolucionar uma vida.


Muitas flores já foram escudos para as vassouradas da mulher irada, já funcionaram como a cigana para reatar o relacionamento impossível, elas já foram capazes de transmitir o mais incompreensível sentimento. Acha mesmo que é mera coincidência no casamento, a cena da noiva carregando um buquê de Flores? Não é, acredite.


Sejamos os neo-comunistas do mundo virtual, digamos não às resoluções fáceis das compras de flores on-line. Que esses “web vendedores” mudem para o ramo dos chaveirinhos e camisas de time ou até DVD, deixemos claro para eles que há um processo nessa venda que não está ao alcance de um clique.


Portanto, pobre rapaz que encomenda flores on-line, não subestime o poder das flores, não tripudie sobre esse aviso que a vida sempre deu e você não notou, sob pena de, no máximo, conseguir um sentimento bem criptografado.

sábado, 17 de abril de 2010

Chuva

dezembro/05
E na chuva que cai
Devagar
Como as lágrimas
Que já derrubei
Há poemas de amor
De um rei
Um senhor
Cada gota
Uma rima
De um homem enganado
Há loucura de amor
No sereno que cai
No telhado
Há desejos e sons
De sonhos tão bons
Para serem realidade
Há verdade na chuva
Que cai
De saudade.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dicionário da mulher – Verbete: Banho

Generosos leitores que fazem este contador de causos de araque se sentir um pouco mais inchado de alegria ao ler seus comentários, peço-vos que preparem o indicador e o telefone para a qualquer instante acionar a ambulância do SAMU! Em razão de um pedido cariñoso da querida Álefe, endossado pela amiga Fabiana, regresso para falar de um momento fueda-celestial: o banho de uma mujer.

Quando vejo aqueles minúsculos e poderosos riachos formados nas curvas de uma silhueta feminina, a descarga de adrenalina é tamanha que se faz suficiente para evitar qualquer entupimento das artérias do corazón. É a ponte de safena da luxúria. O corpo da mulher tem formas arqueadas arrebatadoras, onde até mesmo a água, astuta que só ela, quando se choca o faz com leveza.

Eis que o sabonete, líquido ou sólido (dependendo do grau de quentura da senhora), faz questão de participar da ópera. É um processo delicado. Ela passa o xampu. Faceira, não se tem por satisfeita e aplica o creme condicionador. Em seguida vem o hidratante, o desodorante, a maquiagem, o não sei o que mais de coisas...

Em tempos high tech, precisamos reconhecer que uma mujer se esbaldando dentro de uma banheira com espuma é a realidade aumentada nascida antes de Cristo. Ali, naquela colossal tigela, não tem pra ninguém. É o seu território natural. De acordo com o velho Póti, ancião canalha, não se tem conhecimento do sujeito que resistiu ao poderia bélico sedutor da junção donzela & banheira de espumas.

É normal acusarmos os publicitários de nos ludibriar com enfeites com intenção da venda. No caso do banho feminino, o delito é por plágio, sem tirar nem pôr. Os homens que já presenciaram um fenômeno destes sabem, não é exagero o que se passam nas telinhas e anúncios de revistas.

Comparsas, uma mulher no banho é uma provocadora inveterada de taquicardias. E para completar o espetáculo, elas cantam. Não pensem que é em vão, coincidência ou acaso que as sereias, descritas nas histórias marítimas, seduziam os carentes marinheiros através do seu canto. É matemática simples, cabeçudo: mulher mais água é igual ao nuestro delírio. É cúmulo da soberba, além de encantar elas são musicais. Diante disso, declaro: só nos resta levantar a bandeira branca da rendição.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Gostar


Estou vivendo em uma ilha deserta e a solidão deste local tem despertado alguns sentimentos. Aqui as horas parecem dias, os dias correm como semanas e as semanas nivelam-se há anos. Quando cheguei aqui, fui percebendo aos poucos algumas coisas, uma delas é a grande espera pelo fim de semana.


Falo fim de semana, porque, ao longo dos meses, todo sábado tenho a oportunidade, mesmo que durante alguns poucos minutos, de desfrutar a passagem daquela linda embarcação. Mesmo isolado nessa ilha, sabendo que as chances são poucas de ser avistado, me regozijo ali de longe, contemplando a sua passagem rente ao horizonte, para enfim, seguir sua rota habitual.


É incrível como alguns minutos são únicos, nesses momentos cada milésimo de segundo é importante, porém degustar a estuação de saber que estão passando, e que logo vão acabar é decepcionante. Mas até isso acontecer, provo a sensação de vê-la, ali, única, pequena porque está longe, mas grande no melhorar do meu dia.


Foi-se ela, agora mais uma semana, onde as horas parecem dias, os dias correm como semanas e as semanas nivelam-se há anos.


Vejo-me construído uma pequena canoa, estudando o temperamento do mar, para quem sabe enfrentar os meus próprios medos e ir ao encontro, numa próxima chance, de alcançar aquela bela e encantadora embarcação.


Quem sabe um dia, depois de lutar contra as adversidades, contra a corrente que me joga sempre na direção contrária, ter a oportunidade de ser salvo, de ser visto, de ser especial para alguém em meio a tanta coisa.


Gostar solitário é como tentar falar com as mãos presas, no início você até consegue, mas depois vai batendo uma aflição e você acaba percebendo que gesto e fala, caminham juntos.

Manicomial*

Não esperava dormir sozinho hoje à noite, na minha última noite... Não esperava chegar ao fim do meu dia estraçalhado, derrotado... Não esperava jamais que você me machucasse, jamais! Não contava que as minhas forças agora são suas e só suas. Eu perdi o controle sobre o todo, perdi completamente as rédeas desta história que eu espero que tenha um final feliz, juro que espero!

Estou nu em pêlos, com a alma despida e a cara preparada para levar os tapas, para sucumbir as sua taras, mas você não... Será que algum dia você esteve? Será que toda essa incerteza é só mais uma viagem dessa minha histeria descontrolada? Talvez, apenas talvez, eu possa estar inebriado pela sua companhia. Talvez, mas apenas talvez, eu já tenha entregado mais do que eu esperava e talvez, quase que certeza, você já levou meu coração com o melhor de mim e eu estava dormindo... Nem percebi...

Eu estava dormindo, você estava acordado, eu estava sonhando, você esteve acordado. Eu não era mais eu, você... Ah, você... Era apenas a sombra do que eu pensei que fosse. Você era mais um dos personagens voltando para a minha vida... para me surpreender e me capturar. Ah, como eu senti sua falta, sabia? Eu não sabia!

Não queria, não podia, eu não sentia mais nada, não sabia que ainda sabia sentir e me desvirtuar daqueles caminhos tão certos... Agora tão tortuosos, que me fazem sentir tão embaraçado e cheio de sentimentos incoerentes, sentindo o oposto daquilo que eu temia e afastava pra longe... Eu não, não queria!

Prostitui-me diversas vezes prostrado no absurdo, por tão pouco não me reconhecia... Eu acordava molhado de suor e gozo pelo corpo e vestes e chegava em casa na velocidade de uma bala... Escovava os dentes, tomava banho, pingava colírio e fingia ser uma pessoa melhor. Eu pendia para o pior, você sempre soube. Você não fez nada!

Eu lhe pedi várias vezes, deixei pistas no seu armário, nas suas calças e em toda a sua demência. Você sempre adormecia, sempre me amarrava para me comer com unhas e dentes na manhã seguinte. Eu já não gritava, não expressava, não ansiava mais por nada... Ora, eu havia me acostumado a ser o seu brinquedinho vulgar... Mesmo sem saber se estava correspondendo as suas expectativas, eu gostava de pensar que sim, que sim pelo menos uma vez. Pensar positivamente como se isso fosse afastar todos os problemas e me levar para um lugar comum.

Eu repeti, eu escandalizei, eu lhe implorei que não fosse. Implorei para que ficasse comigo, para que fôssemos nós e não apenas você ou eles... Vendi-me por um pouco de adrenalina e sentei para ver, paguei por ser assim. Por não ter um preço fixo e por procurar sempre quem podia pagar mais... Por quem podia ser mais útil para ocupar os meus espaços vazios e assim, quem sabe, dormir um sono tranqüilo ao invés de ficar acordado.

Você sabe que está com o poder nas mãos... Faz eu me sentir mais desesperado. Faz com que eu roa as unhas e o sangue sem pestanejar... Invade meus sonhos, escarra no meu sexo para depois me tomar como seu... Novamente seu, você sabe, apenas seu. Você gosta! Eu gosto, quem não gosta? Quem não sente? Eu sinto, eu embarco, eu escarneço mas olhando sempre para os lados com um fio de medo. Eu não sei mais o que faço, só sei que você me hipnotiza e as suas mãos encaixam no molde exato das minhas. Nessa hora eu esqueço todo o emaranhado, toda a parte difícil e volto abanando meu rabo para você. Você sabe e você gosta! Quem não gosta? Quem não sente?

* Texto do jornalista e cantor André Lima.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Em vão

Não há palavras.
Já as procurei
em cada canto do quarto.
Não há nenhuma
que possa definir o que sinto.
E isso não é novidade.
Elas nunca existiram,
só agora eu percebi.
Sempre foram apenas
ilusões auditivas...
Sonhei ouvi-las de ti.
Mas era sonho
E quando acordei
Procurei, fui atrás...
Não estavam aqui
Não estavas mais
Aqui.
Thais Carvalho

quarta-feira, 7 de abril de 2010

the last romantic guy, charlie brown



mya




Meu pé de meia

A solidão é sombra de lampião
Danada como batida de baião
Quando anoiteia formiga no coração
Cantiga de grilo é a solidão

Tu és canjerê do meu coração
Capilê das horas incertas
Caça de carne sem tempero
Arenga com meus sentimentos

Zunido de cigarra
Na friagem logo ataca
Carapanã pé de orelha
Deixa solidão eu achar
Meu pé de meia

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Maldição dos Vieiras

Quem conheceu o seu Vieira, não apenas conheceu um grande romântico, mas aquele da pior laia. Dos irrecuperáveis, incuráveis e indomáveis. Teve diversas amantes, namoradas, esposas e flertes. Com seus olhos verdes, não tinha mulher daquela época que resistisse. Era comum ouvi-las proferirem “Nunca trai meu marido, mas se fosse, teria que ser com o Vieira”. Ele, como qualquer Don Juan, adorava todas aquelas atenções. Casou diversas vezes, tendo filhos em cada união. As mulheres, que não se dava bem no inicio, acabavam virando grandes amigas, talvez por sofrerem do mesmo mal: amar quem não se contentava com um amor só.

Mas quem seria seu Vieira? Oras, Rufino Vieira era meu avô, senhoras e senhores. Sou filha do primeiro filho do terceiro casamento deste incurável e inescrupuloso galanteador. É o mesmo que em seu enterro, foi homenageado pelos filhos com a canção “Suave é a Noite” e que após a missa de sétimo dia, foram todos tomar uma no boteco e brindar pela vida do velho. Afinal, boêmio de primeira, ele mesmo dizia que em seu enterro não queria lágrimas, e sim cachaça. Não foi muito difícil para familiar conceder o seu desejo.

Meu pai tem o nome de seu avô materno, e por isso, não carrega em sua certidão de nascimento o famoso sobrenome. Mas nem por isso escapou de algo que está inserido em toda a família Vieira, algo que para algumas pessoas é considerado um fardo, para outros é apenas um complexo, muitos poderiam chamar também de maldição. Tudo depende da forma que você enxergar o amor.

Do que estou falando? Bom, da mesma forma que meu avô não conseguiu estabilizar-se em um único casamento, ou amar eternamente uma única pessoa, nossa família também não. Entre os mais velhos, é comum se casar duas, três ou até quatro vezes. Eu mesma sou fruto do segundo casamento do meu pai.

Recentemente, meu tio casou-se com a mulher com quem já vivia há anos, e o juiz de paz, não conhecendo a história de amores diversos de minha família começou a fazer um discurso falando mal sobre pessoas que se casavam mais de uma vez, falando que o casamento anterior do meu tio havia falhado por não ter sido abençoado por Deus. Só não sabia ele que a antiga esposa do meu tio era grande amiga da atual, e que só não havia aparecido ao casamento porque sua neta estava doente. Também não sabia o Juiz que no salão estavam várias mulheres e ex-mulheres juntas, assim como maridos e ex-maridos de diversos casamentos.

Meus primos já começaram a se casar e ainda não sucumbiram a maldição. Nossos conjugues estão temerosos. Será que nós, a segunda geração de seus Vieira, nos livramos graças a mistura de sangue com outras famílias? Sinceramente, para nós, os Vieiras, essa é uma maldição que não fazemos muita questão de nos livrar.